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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Cenas, III.

-Queria dançar.
-Estás vivo, não está?
-Sim! Isto quer dizer que devo dançar? Devo aproveitar a vida? Abençoado pela vida, eu devo aproveitar, não é mesmo! Devemos nos esforçar para do dia retirarmos toda sua energia e assim nos resplandecer em--
-Calma, ô empolgado hippie. Quis dizer, se estás vivo, você já dançou.

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-{}?
-()
-!

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-Quando percebemos, já passamos do limite. Tristes tempos, estes.
-Sim de fato. Você viu o final da novela, ontem?
-Sim. Portanto não tenho mais anestésico cerebral. Tristes tempos.
-Calma. Já estão fornecendo mais drogas paralisantes no mesmo horário. A anestesia cerebral não pode parar, ou então o povo começará a pensar.
-Pensar! E quem quer isso??
-Apenas as doudas gentes.

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-Penso, logo existe.
-Logo existo, não é não?
-Não. Eu existo. Tu não existes.
(poof)
-Droga. Agora tenho que conversar sozinho, de novo.

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-Sempre me disseram que eu poderia ser o que quisesse.
-Sempre me disseram isto, também.
-Então, porque és apenas um bule de chá?
-Por que prefiro o chá.
-Fresco.
-Sim, quanto mais fresco, melhor. Quanto melhor a procedência das folhas, mais adequado será o propósito da...
-Porra! Será que nem sendo objeto inanimado fico livre dos hippies e filósofos baratos??
-Cale-se. És um criado mudo, faça valer seu nome uma vez na vida.

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-Café da manhã.
-Senhor, são duas horas da tarde.
-Sim! Logo será de manhã. Logo, tenho direito a cafézes especiais.
-Como será de manhã se agora é tarde?
-Nunca é tarde! Para quem vive a vida!
-Porra, outro hippie.

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-A manhã só virá amanhã senhor. Estão de greve no sindicato de depois de amanhã.
-Nada funciona nesta merda de país.

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-Só tem roceiro nesta merda!
-Que queres? Vives no meio da capital do estado das roças diversas.
-Eu queria não ser roceiro.
-Dançou. Se és mineiro, você já se fudeu desde o nascimento. Serás roceiro por toda uma vida.
-E se eu mudar de país?
-Serás roceiro internacional.
-Mas serei internacional! Tanto glamour!
-Porra! Só tem hippie nessa merda de texto!
-Não denuncies o texto!
-Por que não?!
-Porquê quebrarás a quarta parede!
-O teto? Mas ele é o teto! Não uma parede! E estamos a céu aberto! Não tem teto!
-Tudo depende de sua fé, irmão.
-E ainda me chama de hippie. Caroleiro dos infernos!
-Retire o que disse!
-Nunca! Jamais me apanharão com vida!
-(todas as unidades, dez-nove no setor três-cinco)
-Estamos a caminho, Sargento.
-Ah, ha ha! Jamais me apanharão com vida!
-Poizé. eu disse que você já tinha morrido!
-Faroleiro do caralho.
-Sou nada. Sou capitão.
-Mas estavas falando com o sargento como se fosse seu superior!
-Superior a mim? Só deus.
-E ainda se diz religioso, este sacripanta sacrílego! Queimem ele!
-Não! A gasolina está pela hora da morte!
-Ah, é hora de morrer? Porquê não disse logo? (BANG)
-Porra. Lá vou eu ficar falando sozinho, de novo.

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-Ser vivo é ter a certeza de que um dia se vai morrer.
-Bela certeza esta, não.
-Bela vida, também, tendo-se esta única certeza.

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-Que merda de nada que escrevi hoje, agora, já foi, já passou. Droga de tempo!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Linhas.

Curioso é, como a vida para ele se transformara.

De fato, não sabia precisar a que momento do ano corrente em que a mudança tomara forma, tomara conta de sua vida. Ano? Corrente? Nem mais sabia dizer que dia da semana seria. Tudo se convertera em linhas para todos os lados, inúmeros pontos de fuga, inúmeros horizontes. Tudo era perspectiva, ainda que não bem definida. Tudo depende da perspectiva.

Mas agora, não apenas uma existia, não apenas aquele curso acadêmico saberia precisar para que lado as incontáveis linhas deveriam convergir. Sabia que dormia mas que estava acordado. Ou que o sonho não mais era sonho, que a vida não mais era ali. Seria? Talvez. Eterno despertar, a cada momento, a cada mudança, a cada instante que se passava. As noites agoram eram dias, os dias noites, nada mais importava. Tudo se copiava, tudo se transformava.

E quem estava ali com ele, não saberia dizer, pois as sombras noturnas se transformaram, tomaram conta dos diurnos seres que outrora em sua vida habitavam, existiam. Nunca mais saberia distinguir. Nem um nem outro. Quem era quem? Quem era uma figura desprovida de rosto que ao seu lado caminhava? Quem era aquela pessoa que sempre se aproximava, perguntava as horas, calava-se e não estava mais lá?

Quem seria a voz da noite, a canção da madrugada? Quem seria sonho, quem era verdade? Sonhos, verdades, ilusões, todas se misturavam em eterno sonambulismo. Acordava no meio da noite, no meio do dia, sem saber o que se passava, se deveras acordado estava. O que era sonho, o que era realidade?

Toda uma vida buscando esta distinção; agora, em provecta porém tenra idade, não mais saberia dizer o que era isto, o que era aquilo, assim assado. Insônias, tantas noites em claro, teriam sido mesmo? Teria estado dormindo, enquanto julgava estar acordado? Seria este o ponto de não-retorno, a pedra filosofal, o encontro da razão em meio à lucidez, em meio ao onírico ser e estar, permanecer ficar, dali não estar? Não saber? Não dormir?

Nunca dormira, jamais sonhara. Tudo era um e outro. Outro e um.

Tudo ali era a vida, mas nada era vivo. Tudo ali eram coisas, mas desprovidas de outras coisas, sem istos e aquilos que poderiam ser...sem ser.Tudo era noite, tudo era dia. Dia a dia, noite após noite. Anos e anos. Cópias. O que poderia ser? O que seria,o que valeria? De quê valeria?

Sem sonhos, a vida era desprovida de sentido. Sem vida, era tudo um sonho, mau sonho, por vezes cruel. Pesadelos noites afora, sendo que não haveria maneira de distinguir, entre um e outro. Onde estava a vida, se anoite dela havia tomado conta?

Onde seria a noite, onde estaria aquele momento, pesado instante, onde a pálpebra pesada cerrava as cortinas, encerrava o dia, começava o tempo de sonhar? Sonhos. Tudo era um sonho dentro do sonho, dentro de uma vida que havia se tornado um pesadelo por se achar sem encontrar, lugar nenhum, aqui e ali.

Aqui e ali, em todo lugar. Sonhos. Sonhos.

Infindáveis retas, insondáveis números, estranhos afazeres, estranhas pessoas, debandando, não se manifestando, ausentes perspectivas, horizontes, pontos de fuga. Sonhos.

Estaria dormindo, estaria acordado? Seria ele apenas uma manifestação de outra pessoa, um fragmentos de alheia realidade, sonho do sonho?

Não saberia dizer, não soube dizer. Não lhe caberia dizer.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Cenas, II.

-Me desculpe, mas é proibido fumar aqui, senhor.
-Foda-se.
-O quê? Assim, sem nem pagar um jantar antes?
-(....) Aceita vale transporte?
-Tás achando que meu cu é roleta de ônibus???

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-Preciso, preciso de dormir. Preciso muito, mesmo.
-Já tentou encher a cara?
-Já. Infelizmente, meu estômago se esvaziou forçosamente depois de tal tentativa. Adormeci, mas ao lado do vaso sanitário.
-Já é alguma coisa.
-Mas agora ele não para de me ligar, de pedir minha companhia.
-Hmmmm...já tentou ir à igreja?
-Já. Me falaram tanto de um deus que se vingará de nós todos por termos comido uma merda de maçã, que resolvi virar carnívoro por natureza.
-Bela natureza, esta. E eu sou vegan.
-Mas isto não é contra a natureza humana?
-É que eu não gosto de mim mesmo e sou muito cagão para me matar; então, fico fazendo pose de vegan e enchendo o saco de todo mundo que não é. Se tenho de sofrer, eles que sofram comigo.
-Vejo que és emo, também.
-Claro. Para ser mala, é preciso ser inteiramente mala.

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-Com licença. O senhor está com o carro parado defronte à minha garagem.
-Quer que eu saia, então?
-Não. Quero que o senhor enfie este carro no seu ouvido.
-Oba! Tem um KY aí?? Adoro novas modalidades de sexo!
-...

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-Meu aluno, que se tornou um de meus melhores amigos, está com câncer. Teve metástase. Vai ter de operar, e por conta disso, talvez fique com sérios problemas decorrentes de tal operação...Ao menos, espero poder dar um pouco de apoio para ele...
-Vejo que prefere a companhia dele à minha.
-(...)Velho. Você, assim como ele, é meu amigo. Não minha namorada.
-Hunf.

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-Vou matar você!
-Por quê? Por ter sido eu o motivo de revolta contra vários colegas de sala em meus anos de colégio? Por ter roubado o dinheiro da merenda dos gordinhos idiotas? Por ter feito chacota com os tímidos que ficavam quietos nos seus cantos? Por ter desprezado colegas que não tinham roupa de marca, acessórios da moda, coisas do gênero?
-...er, não. Ia te matar, figurativamente falando, por andar devagar feito um velhinho de 105 anos no trânsito. Mas, já que se trata de um babaca deste naipe, vou te matar pelos motivos por si mesmo citados. Hasta la vista.

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-Quero um feriado!
-Serve um baseado? Ah, ha, ha!
-Serve! Dá aí!!!
-....

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-Cara! Já imaginou se, tipo, se alguns alíenigenas viessem para cá? E tipo, o oxigênio deixassem eles doidões?? E tipo, se nós fôssemos para o planeta deles e eles respirassem THC?? Eu trocaria de planeta na hora, cara!
-Mas, cara, tipo, se a gente só respirasse THC, nós iríamos morrer, tipo rapidinho, cara!
-Nó, tem isso, cara. Que merda. Tô com fome.
-Eu também, tipo. Vamos ali pra cozinha, cara! Tem biscoito com geléia, cara!
-Manjar dos deuses, cara. Tipo, do que a gente tava falando mesmo?
-.....er, tipo, não lembro não cara.
-Ahahahahahahahhahahahahaha!!!!!
-Hahahahahahhahahahahha!!!!

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Feriado, que venha o feriado!!!!


....

terça-feira, 5 de abril de 2011

Dormir? Que ser isso?

Noite, mais uma, em que você não veio, sua maldita, seu maldito, seja lá o que o for, sono, insono, Orfeu, Ofélia, a maravilhinda cozinha de. E tome, maracujás frescos, a parte verde é que funciona, mas não funciona, "só daqui a um mês", experimente sais de atropina, dizem que faz adormecer como ninguém. Ninguém mesmo, uma vez que de nada adiantou, drogas ilegítimas, ilegais, proscritas por lei, menos letais que o álcool, estas me fariam tão bem, ainda que me digam o contrário, que me estipulem o contrário, que me imponham o oposto do que gostaria de fazer, de ser. Ser? Será? Dormir? Que ser isso?

Lembrar-se de antigas reminescências, entrecortadas por sonhos irrequietos, memórias já muito desbotadas, artigos de segunda mão. Sonhar, acordado na noite negra, espessa como piche, sonhar com os olhos bem abertos, a mente fechada, pensamentos que não param. Exaurir o tema; insônia, insônia. Nestas silentes horas, o que fiz de mim? Nada. Que almejo? Não muito. Que sonhas? Pessoas...coisas...sonhos...de consumo. Alavancadas em Fenders, Gretschs, Gibsons. A presença, que tanto existe dentro de mim mas inexiste do lado de fora, censurada, anulada, temida, muito temida, pelo tempo, pelo espaço, pela moral e pelos bons costumes, regras e regulamentos, aberração, ó aberração.

Antigamente, havia em mim algo, hoje quase nada. Feliz, felicidade, o que é isso? O que significa tudo isso? Cores tristes, cores frias, misturadas com cores primárias, corpos em profusão, etéreos desejos, cada vez mais presentes, cada vez mais onipresentes, o dia inteiro, a vida inteira, anos e anos e anos. Queria ter, nesta hora, alívio nicotínico, mas estes abandonastes há tempo. Abandonastes? Quem? Com quem falas, ó voz? Vozes, tantas. Esquizofrenias ambulantes, noites sem dormir, vida sem viver. Viva, viva! Comemore, tens saúde, tens teto. Tens ninguém além de você e mais nada. Nada. Ocupando tudo, ocupando-se de todos, deixando-me aqui, sem querer, sem poder, sem fazer.

Bloqueios, bloqueiam, eu mesmo, os outros, todos, tudo. Sem coragem, sem saber como nem por quê. Sem ter nem saber, saber sem saber, não saber que sabe, não saber que sabem. Sabem, o quê sabem. Sabem que não sou eu? Sabem que não sou assim? Sabem que existem milhares de eus, aqui e ali, e naquele outro lado, por ali, por aqui, esquerda e direita. Nada, nada, nada, sabem, mas devem saber ou apostar contra, apostar desta maneira, sem maldade, com toda a maldade, honestamente. Honesto, franco. Foda-se, fodam-se, perdão. Não quero isto, não quero aquilo, o que quero? Dormir? Que ser isto?

Contar, aceitar, saber, saibam todos. Me apedrejem. Apedrejam-nos, apedrejam a todos que não são, como vocês, como eu mesmo, eu mesmo me apedrejo, eu mesmo sei que não devo, mas existo, me incomodo, sonhos, sonhos. Alavancadas bruscas, derrapadas num pedal de wah-wah solto no chão, bateria de 9 volts, cabos e amplificadores, canções que me fazem rir, me fazem chorar, são o que sou, mas não são o que queria ser. Matemática e quejandos. Filhos e pais. Dinheiro e ausência de. Pais, parentes, não, não, não aceitam, não querem, não sabem, não aceitarão. Dormem todos enquanto insone fico, permaneço, não sei, não sei. Até quando, até onde existe a sanidade? Até onde, quando, porquê?

Dormir? É para os fracos, ah ha ha, engraçadinhas são as vozes, os pensamentos, ainda mais retumbantes na hora morta e silenciosa em que mesmo as plantas se calam, todos os gatos são pardos, e fico eu aqui a comer cardo. Tudo tarda, a esta hora, mesmo que seja cedo, ainda é cedo, somos jovens, somos alegres, em demasia. Alegre? Que deturpação de palavra, tradução mal-feita, malevolamente colocada, calcada em falsa alegria. Não, não. Sonhe, mais um pouco, com aquilo que és mas não foi, com o que podes ser mas não és, de tudo e de nada, louco e pouco, temos todos. Dormir?

Nada se passou, o tempo morreu, mas a vboz maior, eletrônica veio a despertar aquele que não mais dorme. Atropina não funciona, maracujás não prestam, tarjas pretas transformam um ser mau-humorado por natureza em monstro ainda mais insuportável que a aberrante coisa que é por si mesmo, por ser sem nem saber para quê.

Levante-se, ganhe o dia, mesmo que ele te ganhe, como costuma acontecer.

Levante-se.

Dormir?

quinta-feira, 31 de março de 2011

Leis.

(Voz de narrador de série enlatada estadunidense[americana é o caralho, seus pulhas estadunidenses]):


Previously on Noiado no Sótão:


Mas...por que...números, números...salários...binários...cobras e lagartos...falta disto...

Despertador. Logo agora! Logo no momento que comecei a entrar na terra dos sonhos!

Suspirar, resignar. Levantar. Quatro noites, é um novo recorde. Continue, continue.

(...)

Desci a escada e tropecei na lógica. Cambaleei, mas não pude agarrar-me ao corrimão da razão; logo, tomei aquele susto e levantei-me de supetão, novamente na cama. Mais um sonho! Mais uma hora perdida, mais uma noite sem dormir. Ora bolas.

Apanhei a capa, a espada, o bacamarte, os explosivos, a pia da cozinha, a nove milímetros e os remédios para fazer dormir, que achei mas não tinha. E avancei noite adentro, na calada das ruas, iluminadas por todas aquelas fantasmagóricas luzes amarelas dos postes, quantos postes, quantos insetos rondando. Algo de produtivo havia de ser feito naquelas insones e impropérias horas.

Inquisitivamente, indaguei sobre meu alvo. Algo precisava ser feito, de fato. Tarde era a hora que resolvi agir contra semelhante monstro, aquele que havia enunciado a lei do universo, a lei que governava não somente a minha, mas as vidas de todos os homens. Cruel preceito, de fato.

Tudo dava errado, entretanto. A fortaleza onde o tirano residia não era bem guardada, mas tudo que eu fazia para tentar ali adentrar-me sem sem detectado falhava, gatos vadios miando na rua, ratos por todas as partes, mulheres doidas a gritar, "flores para los muertos!" noite adentro, madrugada afora. No final, liguei o foda-se. Chutei a porta, mas ela não cedeu; como era que nos filmes aquilo sempre dava certo? De isopor, deviam ser as portas de Hollywood.

Logo apareceu na porta um senhor: era o próprio, meu alvo, aquele ser que devia ser eliminado. Engatilhei o revólver que trouxera na algibeira e apertei o cano contra sua têmpora esquerda. "Para dentro, cachorro. Acabarei com seu império nesta noite." Ele sorriu sarcasticamente, "Não, não acabarás." Mas aquiesceu, calmamente se dirigindo para dentro de sua modesta casa, sentando-se numa cadeira calmamente. "Sente-se," me disse.

"Prefiro ficar de pé." - "Ah, ficar de pé é bom mas pode causar varizes e até mesmo trombose." Lembrando-me repentinamente com quem estava lidando, me sentei. Ele sorriu. "Mas se a cadeira não for ergonômicamente correta, você pode ter sérios problemas na coluna." - "Maldito," repliquei. "você e sua maldita lei acabaram com minha vida! Com a vida de todos!"

Ele era puro sorriso. "Não, não acabei. Minha lei sempre existiu, desde que o mundo é mundo, desde que o universo começou, sabe-se lá como. O que fizeram foi simplesmente me atribuir a responsabilidade por algo que não é de minha alçada, nem da sua, nem de ninguém. Claro, algo tinha que dar errado e me fuder mais ainda a vida. É a lei."

Eu estava ficando impaciente. Tanto sono, tantas noites sem dormir, as noites, as palavras por ele proferidas, tudo, apenas uma cópia de uma cópia de uma cópia, xerox infinito e borrado do mundo real, se é que ele deveras existia àquela hora. "Não quero saber. Enunciastes tal lei, deves morrer. Morrerás, agora!" Apontei a espingarda para a cabeça de Edward, que nem sequer piscou.

"Não, não morrerei."

Clic. Merda! A arma falhou. Desembainhei o facão. "Não queria que chegasse a isso, mas se tiver de ser, será." Ele riu. "Não, não será." Raivosamente, brandi a machete com o intuito de decapitar meu oponente. A lâmina bateu no pescoço dele, mas fora ogrito de dor causado pelo impacto, nada mais aconteceu. "Merda, está cega!" Ele esfregou a mão na parte injuriada de seu pescoço, dizendo "Claro. Perdes seu tempo tentando me matar. Já disse, vai dar errado."

"SEU FILHO DA PUTA! Como é capaz que dê tudo errado??" - "Dando. Esta é a beleza da lei, da 'minha' lei, conforme dizem por aí. Se tentares jogar ácido em mim, garanto que de alguma fora o ácido que compraste, tão baratinho na loja de artefactos malignos de segunda mão, estará com a validade vencida e só tornara louras minhas já desbotadas madeixas. Vai. Dar. Errado."

Desanimado, e diante de tal irrefutável argumento, me dirigi cabisbaixo à porta. Entretanto, ao chegar na soleira, o rosto dele se transtornou e ele emitiu estranho grunhido, oriundo de alguma indefinida porémlancinante dor interna. "Argh. É o paradoxo da lei: se ela puder dar errado, dará."

Tombou morto ao chão. Fiquei alguns instantes ali, fitando seu inerte corpo. Eu havia vencido! Havia mesmo? É necessário experimentar. Mirei minha arma contra minha própria cabeça. Ela não estava funcionando, então nada daria errado, não é mesmo?

B-a-n-g.

Merda. Morri. Deu tudo errado.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Burizilla!

Então, lá estava o Noiado a transitar, novamente, no coletivo azul-desgraça que por aqui existe, em esta imunda e irrequieta cidade esquecida de tudo e por todos, em especial por este mesmo ser que ali existia, sem quere deveras ali estar. Entravam mais e mais sombras no ônibus, cada qual com seu fator antipático atrelado. Uma trajava óculos dignos de zangões que por aí voam. Outra falava pelos cotovelos, suplantando mesmo o aparato cancelador sonoro que Noiado usava em seus ouvidos.

Desnecessário dizer, isto aumentou em vários pontos o desafeto que tal misantropo ser já sentia por todos ao redor. E o universo somente afirmava, "os incomodados que se retirem, que se mudem," e muito dele se ria.

Ou ao menos era assim que tal entortada mente pensava.

Bem. Fazer o que. Apesar de toda sua desavença com o universo, bem sabia ele que era inútil reclamar, e dali se retirar era impossível, uma vez que o coletivo era pilotado por agente psicopata do trânsito, chegando a 120 km/h em uma descida. Não queria saber de suícidios, ao menos ainda não era chegado o derradeiro momento em que sua paciência e fé na vida se esvairia de vez, e tal ação extrema já não soaria tão absurda. Ainda não.

Entretanto, mais e mais sombras, barulhentos vultos continuavam a entrar no transporte, não tinham forma, apenas volume, tanto no sentido de ocuparem espaço e eventualmente bloquearem o caminho, mas também tinham alta amplitude sonora. E o aparato pregado aos ouvidos do Noiado era ineficaz para abafar toda aquela ruidosa existência.

De repente, uma das sombras, passando por ele, esbarrou no fio que transportava seu calmante musical do aparato musical aos problemáticos ouvidos do Noiado, arrancando o fone da cavidade auricular deste, e de quebra arrancando as "tripas" do fone para fora.

"Nó véi. Mal aí."

Não souberam dizer ao certo o que sucedeu nas doze horas depois deste incidente. As autoridades ficaram perplexas diante de tanta destruição. Tudo que sabiam dizer é que às sete e vinte e sete da manhã daquela sexta feira, dezoito de Março de 2011, uma hecatombe se abateu por toda a cidade. Um ônibus foi totalmente destruído, amassado, esmigalhado atá a última molécula, nos primeiros minutos do desenrolar da tragédia. Depois, uma estranha criatura, que urrava pelas ruas, tomou dimensões dantescas e saiu pela cidade, promovendo destruição gratuita em tudo que encontrava pelo caminho.

Estranho foi o fato que o primeiro alvo da aberração foi a "faculdade" FUMAC, digo, FUBEQUE, digo FUMEC, que foi completamente assolada, patricinhas e boys e emos e tudo mais. Depois, a criatura se dirigiu ao campus da UFMG, onde arrancou do solo o prédio das "belas artes" e arremessou-o ao espaço sideral, com todos os artistas flácidos e plácidos que lá existiam, e todas aquelas "obras" de arte de gosto discutível foram destruídas. Oh! Desgraça para todos os imbecilóides intelectualóides que das "artes conceituais" tanto gostavam.

Certo prédio que ficava quase na esquina do cruzamento com as Avenidas Álvares Cabral e Olegário Maciel foi também aniquilado da existência, obliterado atá a mais fundamentla partícula sub-atômica que o compunha. O "Templo Maior" da Igreja Universal dos ladrões...digo, do reino da picaretag...er, deus foi a próxima vítima. Não sobrou sequer uma daquelas colunas de caríssimo mármore daquele religioso motel que ali existia sem sequer pagar alguma sorte de imposto ao governo, apesar da extorsão diária dos lobos...er, pastores por sobre os burros...er, fiéis, que pagavam "religiosamente" o dízimo. Imposto sobre burrice, de fato, mas mesmo assim. A venda de indulgências era algo que a criatura não tolerava, nem da parte dos ditos protestantes nem da parte dos agentes da maior religião do planeta. Desnecessário dizer, que os demais templos das outras formas de escravidão espiritual também sofreram duras penas no trajeto destrutivo da criatura.

Os órgãos governamentais foram os próximos. O DETRAN, por exemplo, e todos seus ladrões, er, digo, agentes, foram estraçãlhados. Mesmo os policiais servis que transitavam pela cidade, com o intuito de verificar quem era o agente que mais multas distribuía para a população em geral. Estranha competição olímpica esta, mas que teve súbita e fatal interrupção, devido ao esmagamento repentino de tais agentes do KAOS que circulavam pela cidade.

E tantas outras coisa foram destruídas, esfareladas. Tantas e tantas vítimas da raiva mordaz que habitava naquele aparentemente pacato ser que apenas queria chegar a sua moderna senzala, que só queria cumprir as dez horas obrigatórias de fingimento, para depois a alforria virtual acontecer.

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Horas mais tarde, foi encontrado um corpo desacordado e desprovido de vida nas imediações de Ravena. Ninguém soube dizer como tal gringo foi ali parar. Trajava imundas vestes, e de seu ouvido pendia um fone de ouvido destruído. Aparentemente, morreu de causas auto- inflingidas, apesar de não existirem marcas de balas ou quaisquer outros ferimentos, causados por mortiféros projetéis e/ou agentes afiados. A cidade sequer se deu conta do fato: foi uma nota de rodapé no jornaleco Super - e de similares - do dia seguinte. Aparentemente, o indivíduo teria surtado dentro de um coletivo e saído gritando pela cidade, impropérios dirigidos a seu emprego, às religiões reinantes, a certos órgãos governamentais, como aquele que "gerenciava" o trânsito, e uma certa empresa inexistente denominada Funchato Ltadíssima.

Enquanto isso, a cidade prosseguiu normalmente seu dia naquela sexta feira. Pastores pregararm, oraram e extorquiram, agentes do trânsito multaram e extorquiram, "estudantes" da FUMERD, digo FUMEC, ocuparam até o teto todos os ônibus errados para irem consumir certos agentes entorpecentes e azararem uns aos outros em ambiente "escolar superior" por ali, e tudo mais seguiu da forma que deveria ter seguido.

E num buraco qualquer, o Noiado foi posto para apodrecer. E assim foi.

terça-feira, 15 de março de 2011

Cenas.

-Bom dia. Eu gostaria de levar dois quilos de granola e seis litros de iogurte natural, por favor.
-Senhora, isto é uma sex shop.
-Pois é, sou a favor do sexo natural.
-Naturalmente. Mas não temos estes artigos aqui.
-Então me embrulha aquele vermelho ali.
-Senhora, o extintor de incêndio não está à venda.

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-Bem vindos à mais uma reunião dos associados da Opus Dei. Temos aqui um novo membro querendo se apresentar.
-Em me chamo Aldair. Ontem eu matei dez coelhinhos.
-...
-E hoje estou aqui para ceifar da face da terra certos fanáticos religiosos! Morram!
-Céus! Ele tem uma arma!!
-Arma nada. É só um pepino.
-Não subestime o pepino, seu maldito hipócrita. Hoje, irei transformar isto aqui em uma sucursal da "Ooops Dei", se é que me entendem!
-Não!!!!

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-Quem canta esta música que estás a cantarolar?
-Celine Dion.
-Então vamos manter desta forma. Deixa só ela cantar.
-....fedaputa.
-Pensando bem, acho que este dilema não tem solução. A não ser ir para o Canadá trinta anos atrás e assassinar esta mulé que acha que sabe cantar....

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-Eu quero um cigarro.
-Senhor, isto é uma reunião de apoia a tuberculosos! Como ousa?
-Oh, desculpe. Achei que fosse reunião dos mascadores de fumo, de tanto catarro junto.

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-E agora, misture o leite e bata três minutos na velocidade três.
-Certo.
-Depois, é só acrescentar essência de baunilha e levar ao forno médio por trinta minutos.
-De acordo. Mas achei que fazer uma vasectomia fosse bem diferente disto.

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-Menina, hoje fui ao shopping!
-Comprou sapatos?
-Não! Mas comprei sapatos!
-Ah, achei que tivesse oferta de sapatos!
-Tinha! Mas eu só comprei três pares de sandálias.
-Nenhum sapato! Como assim???
-É que pretendo mudar de sexo. Tenho que ir aos poucos senão não dá né.

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-Hoje de manhã eu comi muito iogurte.
-Que maravilha. Mas isto aqui é uma banca de jornal.
-Banca? Que apito toca nessa banca? Isso é uma banca??
-O senhor não está com toda esta banca!
-Ah bom, achei que fosse apenas uma banca.
-Senhores, me desculpem, mas será que eu poderia continuar a defender minha tese de doutorado, por favor?

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-Chove lá fora. Céu abaixo.
-Eu sei.
-E não quero me molhar.
-Você é feito de açúcar por acaso??
-Sou, olha só.
-Putz. Como é possível existir semelhante criatura?
-Joãozinho, já falei pra parar de falar com sua rapadura!!! Agora, coma logo seu café.
-Mas café num é de beber?
-Este não. Abra a boca que lá vem o aviãozinho de pó de café...
-Odeio mães naturalistas e hippies.
-E eu odeio pirralhos remelentos e loucos.
-De novo está falando com o espelho da cristaleira, meu bem? Tomou seus remédios hoje?
-Quem é você? Aqui não tem ninguém com este nome!
-Puta merda, entrei na casa errada de novo. Perdão.

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-Quero comprar uma resma de folhas A3 super-white, por favor.
-Você desenha?
-Sim.
-Coitado.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Bagunça.

Prezado Sr. Cérebro,

Quer me parecer que o sehor continua sendo o mesmo sabotador de sempre, uma vez que ontem, ao perceber o fogo, senti ímpetos de ser o primeiro a acrescentar mais lenha na fogueira. Felizmente, algum sentido que faça mais sentido dentro de mim falou diferente em minha conturbada mente e somente me limitei a apenas empurrar ao incêndio o restante de minhas convicções em um ser superior e altruísta. Depois, tencionava apenas me dirigir para casa, mas fui convocado a reunião barística, que não é o coletivo de baristas mas sim o coletivo de cachaceiros sentados em um muquifo qualquer do baixo centro da cidade - evidentemente, não tão baixo quanto alguns dos companheiros tombados no dever de serem devidamente companheiros já me sugeriram.

Lá adentrando, percebi de cara o motivo real da reunião, onde se discutiam as diversas possibilidades de ingresso no mercado de trabalho da miséria a dois, mais conhecido simplesmente pela alcunha de relacionamento. Ora, bem sabemos, eu e o senhor, tal ficção do interlúdio é por deveras fictícia, ainda mais para seres tão céfalos que acabam por se tornar acéfalos para a maioria da sociedade reinante, estas mulas que tanto relincham nos nossos ouvidos diariamente suas regras e regulamentos parametrizados secularmente, que tal ingressão nem é possível quanto desejada, e tratei de sair dali às pressas.

Tal não foi meu espanto quando me vi longe dali, do senhor resolver, mais uma vez, agir contra seu próprio dono. Para variar. De repente, ao transitar dentro do trânsito dentro do ônibus dentro das ruas dentro da cidade dentro de tudo mais, me surpreendi olhando para o poste de luz, analisando as ínfimas mariposas que orbitavam em volta da incandescente porém absolutamente ordinária lâmpada, formulando comparações pitorescas sobre tais seres que sempre almejam a luz, ainda que isto signifique uma morte lenta e dolorosa ao lá chegarem, ao finalizarem sua corrida, ao atingir o objetivo final de suas cretinas existências.

Logo, já estava ampliando a filosofia barata para os planetas, para questões galácticas acerca da existência de água em outros sistemas, da infinidade do universo, da absoluta necessidade de sim, haver vida lá fora, completamente diferente da que conhecemos, e o que é nossa ciência em comparação com esta infinidade de estrelas, de planetas, de todo este mistério do firmamento. De repente, lembrei-me de estúpido artigo que li no buraco negro da produtividade, este localizado na rede mundial de computadores, tendo sucursais em cada maquininha conectada a tal rede, acerca da mudança das datas de certa coisa denominada horósco, que nada diz em geral mas que tantas pessoas seguem, cegamente, dia após dia, editorial após editorial inútil.

Daí, lembrei-me de como somos arrogantes perante nosso conhecimento ínfimo sobre isto tudo; lado outro, também me recordei de como ainda ostentamos superstições infudadas sobre nossos destinos e tudo mais. Como existem mulas que se deixam levar pelos dizeres impressos nos jornais acerca de seus signos celestes, ou como ovelhinhas se reunem em estranhas e ostensivas construções oriundas de religiões que tanto pregam o desapego mas exigem dinheiro, têm muito mais dinheiro que a dívida internacional da Libéria, e ainda assim extraem doações e dízimos de fiéis. Depois, me vi derrubando meu próprio patamar, uma vez que sendo tudo tão amplo e complexo, quem seria eu para dizer o certo ou o errado nisto tudo. O que é nossa ingaia ciência diante de todo este universo? O que sabemos nós, desprezíveis seres ditos racionais, a respeito disto tudo?

Quando me espantei, já passavam das quatro da matina: havia transitado de volta para casa imerso em tais inúteis conjeturas, e lá estava, com os olhos bem abertos, insone perante tanto questionamento. Quando comecei a conseguir silenciar V. Sa., e comecei lentamente a embarcar na onírica paisagem que lentamente se abria diante de meus olhos agora fechados, o relógio tocou, incitando-me a levantar-me, a ir trabalhar, o pão nosso de cada dia.

Porquê, eu vos pergunto, caro senhor, POR QUÊ diabos o senhor não me deixa dormir? Por qual motivo obscuro vossa senhoria tem que me fazer ficar pensando A NOITE INTEIRA sobre inutilidades e questionamentos absolutamente irrelevantes?

Por quê não me deixa dormir, fedaputa dos infernos???


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De: Cérebro
Para: Buriol



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ninguém.

Chegar ao escritório. Ninguém por perto. Lá fora, também ninguém. Aqui dentro, pessoas, mas ninguém mesmo assim, em todas as partes, muitas pessoas

mas ninguém.


Chegar, ver o monte de nada sobre a mesa, papéis, muitos, mas nada. Nada além de papéis, números alheios e mais

ninguém.

Quente é o dia, abafado é o tempo, chuva irá cair, lá fora, felizmente lá fora. Mas e os outros lá fora? E os outros? Outros?

ninguém.

Lembro-me, tenho que tirar o pedido, fazer o pedido, da mangueira cirúrigica. Conectar, braço à agulha, mangueira à máquina de café. À minha frente, uma máquina anda sozinha pois ninguém está a operar a danada. Ninguém liga a máquina de xerox, e mesmo assim ela se liga. Máquinas, ao meu redor, todas funcionam sozinhas.

Ninguém as ligou.

Fico aqui, atônito diante de tanta anonimidade. E sei, bem sei, que sou tão anônimo quanto eles, estes seres que não existem.

Dias assim, não sei o que fazer. E olho, tanta gente, ninguém.

Ninguém. Nem mesmo eu.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Cinco.

-Tem, mas acabou.
Não.
Não pode ser.
Como farei eu sem meu doce? Sem meu café?
-Não estou nem aí. Tem, mas acabou.
E quanto ao requinte de poder chegar em casa, ter casa, ter teto, ter cama, ter chão? Tábuas, sinteko??
-Não estou me importando.
Cruel crónopio cruento. Cruel!
-Pergunte à esperança ali da esquina se ela se importa. Eu nem ligo.
De repente, tudo fez sentido. O presidente da Bestarábia era um filho da puta. Soltei meu jornal, poluí a cidade e parti. Precisava chegar primeiramente à Abissínia, onde dizem ter muitos abismos, e onde poderia eu arremessar alguém sem nem me preocupar.

Chegando no Rio de Janeiro, muito me espantei de ver cariocas ali. Precisava de uma metralhadora, e rápido. Nunca havia visto tantos alvos móveis. Móveis, do mais puro mogno, jacarandá da serra, pau que nasce torto, morre torto mas feliz lá dentrão de oríficios obscuros. Que sujeira que está este canto. Rápido vamos rumar à Vassouras! Lá existem aspiradores de pó em profusão, e corpos em difuso.

Mas o ônibus estava pela hora da morte, e como não sou morto, mas vivo, me vi andando a pé nos arredores de Café Ralo, onde só para encher o saco dos lojistas, entrava nos estabelecimentos e exigia café, mas bem forte. Muito me ria da cara embasbacada dos vendedores, que gentilmente mandavam-me dirigir em direção à merda, ao caralho, ou onde quer que fosse.
Horas mais tarde, enquanto era-me preparado o desjejum junto ao café imperial, ouvi de supetão dizerem-me que não haveria jantar. Ora! Ora, como farei eu sem o jantar? Como será necessário se tornar desnecessário, antes fosse, assim sendo, ora pois. Sim?
-Não.

Tudo caiu por terra. Deixei-me levar, com cadeias aos pés, cabisbaixo, em direção ao júri popular. Uma junta de ferozes doninhas me julgou culpado por ser eu quem era. Então interrompi bruscamente a sessão. Não seria necessário ter em minhas mãos a informação necessária para acatar tal acusação? Eu nem sei o que sou!
-Assim sendo, condeno-o a dez mil chibatadas.

Mas veja, mas olhe. Ora. Assim não dá. As chibatas estão em falta.
-Então desçam o relho neste canalha.

Não me entregaria sem luta. Matei a mocinha com um ataque de lógica que atacou sua flácia diretamente no coração e tomei as ruas de assalto, roubando tantas placas indicadoras quanto conseguia carregar em meus oito braços. Assim estava garantida a propriedade organoléptica dos elementos.

Me empurraram e acordei.
-O senhor Buriol estava dormindo em plena aula de bioquímica.
Leda, a imortal. Leda, a sem dó no coração. Leda, a bioquímica!
-Agora terá de desvendar o Higgs Boson.
Mas isto é uma aula de bioquímica, orientada para a biologia.
-Não me importo. Faça! Ou tomará pau.
Você tomará pau, puta.
-Ai! Adoro!
Fugi em disparada. Velhas ranzinzas neo-nazistas que ministram cursos em que mapas diabólicos são desvendados não me seduzem. Dias depois, voltei para o ínicio de 1998. Ainda tinha algo ali a explorar. Uma loja. Artigos à venda. Tens este item, o transmogrificador neo-atemporal de partículas?

-Tem, mas acabou.

Merda.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sintonia dessintonizada.

...E pelo dia afora, o mau humor me foi roendo as entranhas. Bem sabia eu que tal situação era insustentável. Além de ser um desanimado, um "realista" de marca maior, o mau humor incontrolável me levaria ao exílio completo da sociedade ou ao manicômio, que é onde os doudos se encontram.

Dessarte, fui ter ao empório de alcóois, onde travei contacto com escuso atendente, o qual narrei a epopéia do dia anterior. Ele me ouviu atento, mas já com um olhar de interesse. Era deveras experiente neste tipo de questão teológica ou ideológica. "Cara," ele me disse, "tenho ali nos fundos da loja o remédio." Fomos ao canto obscuro do estabelecimento onde o sujeito me mostrou o barrilzinho de Amontillado.

Amontillado! Pensei. Amontillado!!!

Paguei o preço exorbitante pelo negócio. In vino veritas, e em outros compostos alcoólicos também. Fui prosseguindo o caminho, direção ao meu canto, meu lar. Olhava para os transeuntes vesgos com desdém absoluto. Meu estado repelente se tornara minha realidade, minha mente uma insólita prisão de mau humor. Abri caminho na multidão a golpes de cara fechada e ar de neo-nazista, sentei-me sozinho ao coletivo. Olhava para o barrilzinho, sentia seu aroma. Lá dentro estava a solução, talvez - e também a morte.

Fechada a porta atrás de mim, me vi finalmente sozinho, e suspirei aliviado. Pus a preciosa barrica por cima da mesa, busquei um copo. Enchi até a metade e sorvi. Ah, Amontillado. Percebo agora porque foi a causa da morte de Fortunato, o enterrado e queimado vivo.

Dez doses depois, estava eu já trocando animadas idéias com Sid, o Barret. Desta vez, lembrei-me de mandar lembranças do Símbolo para ele, o qual agradeceu e retribuiu a gentileza. Neste momento, a máquina de isolamento perfeita, deu um problema nos milhares de megapixels "and whatnot" e travou por completo. Eu e Sid olhamos para as entranhas do bicho mas não conseguimos entender nada, mas muito nos rimos das fadas ali presas, todas elas de organdi azul indecoroso.

Horas mais tarde, estávamos em Abu Dhabi, e o calor era opressivo, mas doses reforçadas do maravilhoso líquido nos davam forças para continuarmos a excursão até algum ponto da Morávia ou mesmo Cracóvia, o que viesse primeiro. Mas, quando assustei estávamos no Marrocos, onde Sid fez questão de me presentear com uma bolinha da mais pura resina concentrada de certa planta, declarada ilegal no mundo caduco em que vivemos. Fumaça, fumaça, cof cof.

Dali fomos para Quito, onde um terremoto sacudia o esqueleto dos prédios e matava as pessoas de frio e "frome", tendo que comer "vridro" para sobreviver. Não foi uma experiência mui agradável, mas ao menos fiquei com o paladar afiado, por assim dizer, e a língua cortante. Ou cortada, não lembro.

Horas mais tarde, nosso suprimento do divino produto acabou, e muito me lamentei. Momentos mais tarde, meu companheiro desapareceu por completo, tal como Bate-mam em todas as histórias. Fois só abaixar os olhos e verificar que o chão estava sujo de vômito. E o chão era de azulejos. Ao levantar a cabeça, bati com ela na pia e caí de cara no Celite, e morri afogado.

Tendo sido ressucitado por alguma espécie de força oculta, hoje me encontro em trânsito para o depósito de gado, onde ruminarei por dez horas a inexistência de existir. E já ansio pela fuga, pela nova dose de Amontillado, se assim conseguir travar contacto com meu obscuro negociador destas coisas tão ilegais, mas tão legais.

Assim, café. E tenho dito.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2010.

Comecei o ano de 2010 entre amigos, recebi o número novo com esperança, fé. E de repente, me vi cercado por outros números, decorrentes de outras fontes, estas mais complexas, mais obscuras. De repente me vi embalado em papel alumínio, pronto para ser assado: era o começo de abril que se iniciava, mais uma vez. Fui até Marte, onde fui informado que em Vênus teria mais sorte.

Embarcando no micro-ônibus espacial, tive a sorte de me encontrar com Sid, o Barret, mais uma vez. Trocamos veementes idéias sobre o futuro do mundo, da música e do complexo de Golgi. Nada soube dizer, entretanto, para confortar o morto, que apodrecia a olhos vistos. Mas ele não se importava! Até se divertia com isso, ora bolas. De que vale a pena ser morto se não se pode nem ao menos fazer em morte o que não se pode fazer em vida?

Assim, me tornei astro-físico-químico-sólido-gasoso-ozônio e fui passear na estratosfera. Mas nada havia ali a não ser gases nobres, estes mui infames e arrogantes, nem sequer se misturavam, não se juntavam a nada. Diante de tamanha injustiça, decidi doar meus rins para uma criança pobre na Sérvia. Mas lá chegando, fui informado que à Bulgária tal criança estaria residindo, não mais ali. E como todos sabem que a Bulgária, assim como o Acre, não existem, eu deixei de acreditar na pessoa e o espanquei, para que assim aprendesse a não contar infames mentiras assim, à plena luz do dia.

Mais adiante, me deparei com muitos matos, matos, originários dali mesmo, apenas ervas daninhas locais, mas sendo elas variantes da planta de Jah, muito me regozijei em aspirar infusões vaporosas de tais plantas. De repente, tudo fez sentido. A terra era quadrada, o sol não era mais o sol e Plutão não era mais um planeta. Assim como o triceratops não era mais um dinossauro. Tal revelação quase me levou às lágrimas, e muito bem fiz em fugir dali, apanhando carona num zéfiro qualquer que por ali passou.

Dias depois, fui encontrado morto à casa do trinta mais dois mais um, e fui devidamente ressucitado depois de três dias. A porra do servidor tinha um lag do caralho e o spawn era cretinamente imbecil. Saindo de minha caverna, declarei para a multidão de quinhentos e cinquenta e sete mil milhares de reportéres que a páscoa seria ilegal este ano, que as pessoas eram todas idiotas e que os homofóbicos, os religiosos ortodoxos, os políticos, os pedófilos e os professores de educação física eram igualmente ilegais, uns chatos da porra. A turba me criticou e queria me devolver à cruz, mas arrumei uma maneira sorrateira de apontar numa direção: "olhe! o que é aquilo??" e seguir em outra assim que eles olharam. A vida de ninja tem dessas coisas.

Meses mais tarde, fui apresentado ao mais novo téologo da lógica local, mas como a incongruência de tal idéia é simplesmente insuportável, ele se converteu em um saco de café descafeinado. Ainda assim, o paradoxo da nova idéia era igualmente fisicamente impossível, e um buraco negro se abriu no local, me tragando para as profundezas sinistras de uma realidade onde nenhum Stephen Hawking jamais se aventurara antes. Lá chegando, vi que havia uma preguiçosa borracharia com uma "praca" dizendo: "VÊNDIS COCO" e um caboclo deitao à rede. Perguntei quanto eram os cocos, mas o caboclo simplesmente me olhou e me disse, hoje tem não sinhô, e fui obrigado a transitar para outro local.

A realidade paralela era desta forma: paralela. Tudo igual, mas com algumas diferenças. As pessoas continuavam não tendo bom senso, nem discernimento. Muito me desapontei, mas também, o que deveria eu esperar de um universo paralelo gerado por um saco de café descafeinado??

Fui até londres, roubei o Big Ben. Não coube em meu quarto, joguei-o pela janela, cometendo o ledo engano de não checar antes se estavam chovendo ovos. O imenso relógio caiu por cima de um sobrevivente da gripe aviária, matando-o instantaneamente. Novamente procurado pela polícia, bati em retirada em direção à Abu Dhabi, onde consegui asilo juntamente com um bando de velhas taradas, que houveram por mal em tentar me possuir à força. Novamente fui obrigado a utilizar minhas habilidades samurais, e me apoderei da bengala de uma delas, enchendo de porrada as vetustas taradas.

Fugi o mais rápido possível, e quando vi já estava novamente em Azeroth. Maldição. Ainda assim, soube que meu coração dali nunca houvera saído, então apenas acendi mais um palhoso, comi batatas fritas, bebi pepsi e me sentei defronte ao monitor, exigindo menos latência e mais processamento. Dias depois, comprei novo computador.

E daí em diante, não sei bem o que aconteceu, pois quando assustei, já eram trinta os dias de dezembro, e deveria eu dizer adeus a este infame ano. Novamente, me vi rodeado de amigos, e senti que havia tomado a decisão certa. Ao menos na data em que apenas comemoro o fim deste número amaldiçoado, tive a sabedoria de não fazê-lo acompanhado apenas de minhas vozes na cabeça. Os amigos silenciariam tais espectros, nem que fosse por um dia apenas. Assim seria.

E assim acabou-se o ano, acabaram-se os posts deste diário de um louco, na data em questão. Iremos retornar ano que vem, assim o esperamos, não é mesmo? E todos os outros números, todas as outras datas, estas seriam mais marcantes, mais significativas. Que a uruca iniciada em 2006 tenha término no vindouro novo número.

Que assim seja. Para mim e para todas as pessoas importantes para mim.

Os 99% restantes podem ir à merda.

Que assim seja.

Ameim.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Dia.

Mais uma manhã. O Adevogado abriu os olhos e espreguiçou, usando uma nota de cem dólares novinha para limpar as remelas do canto de seus olhos. Mais um dia, mais processos, mais falcatruas e enganações. O Adevogado se sentia tão bem. Gostava do que fazia, tinha imenso prazer em achar buracos na malha fina da lei, sacanear as pessoas, se dar bem, ganhar muito dinheiro impondo a justiça, como era chamado a moeda de seu trabalho. "Ah," pensou ele, "hoje é dia de realizar audiências no fórum, sacanear aqueles pobres imbecis que acham que podem se dar bem apenas sendo corretos aos olhos da lei; mal sabem eles que já tenho toda minha estratégia elaborada, vou me dar é muito bem." Foi ao banheiro, fez suas abluções triviais, fez aquela barba impecável com sua navalha de diamante importada, banhou o rosto com a colônia pós-barba feita sobe encomenda, usando lágrimas reais de adversários jurídicos, apanhou seu terno mais esnobe, sua gravata mais nobre da mais pura seda italiana(apesar das letras miúdas acusarem secretamente a procedência sinológica da mesma), admirou sua figura impecável no espelho e se dirigiu para a garagem, não sem antes apanhar um desjejum preparado no dia anterior.

Entrou em sua BMW X-4-A-12-f-56-ZZ-45-e-o-caralho-a-quatro e acionouo possante motor de quinze mil cavalos, quinze centímetros por litro de combustível, e sentiu o ronco possante do motor, acordadno de supetão todo o resto do prédio. Tomou de assalto as ruas, e se dirigiu para seu escritório, enquanto mordiscava o sanduíche a cada sinal vermelho que encontrava no caminho. Se sentia bem, imensamente bem, era o dono do mundo, dono da verdade, agente da justiça! Sentia o fluxo sanguíneo trazer boas ondas, bons pensamentos à sua cabeça, podia fazer de tudo, podia comprar tudo e todos, era o dono do mundo.

Chegou no escritório, teve um ligeiro contratempo ao abrir a pasta e verificar que havia um certo rumor vindo de dentro de um envelope de um cliente. Não se importou, enquanto abria caminho por entre os papéis, em busca da chave da sala. Existiam certos insetos dentro da pasta, meio arroxeados, que faziam rumores estranhos, como se fossem viloinos ambulantes, esvoaçantes a realizar algum movimento sinfônico de Vivaldi, coisa assim. Ah! Ali estava chave, atrás de uma fola de plátano roxa que inexplicavelmente se encontrava por meio dos papéis. Adevogado estranhou, mas não pestanejou demais. O tempo corria, e ele tinha muito o que fazer.

Adentrou a sala, fechando a porta por trás de si. Foi saudado por uma imensa miscelânea de estranhas bolhas verdes que pairavam no ar da sala. "Como o dia está difícil hoje," lamentou em voz alta o pobre Devogado. Afastou rudemente de seus ouvidos as freiras esvoaçãntes que cantavam uma ária em dó maior sustenido bemol da Silva, e se dirigiu para a cozinha. A secretária lá estava, fazendo café, e saudou veementemente o Adevogado em húngaro. Ele respondeu com um breve aceno de cabeça. O dia, que começara tão bem, estava se tornando cada vez mais incômodo. Apanhou sua caneca, que se tornara misteriosamente gelatinosa e um tanto quanto translúcida, e encheu de café. Estranhou o tom magenta do café, mas não perguntou nada À Secretária, uma vez que não entendia bem o húngaro. Tomou um gole generoso da infusão, mas sentiu gosto de provolone à provençal, se é que tal variedade de queijo sequer existia. Suspirou profundamente.

Emn sua sala, as coisas não melhoraram. Suas poltronas teimavam em conversar em sumérico, e de forma desagradavelmente estridente. O telefone batia boca com aquele brinquedinho ridículo em que bolinhas de aço batiam umas contra as outras em movimentos pendulares. Adevogado começou a se impacientar. Precisava organizar a papelada, categorizar tudo aquilo, pôr tudo em ordem. Gritou com o telefone e o brinquedinho, que se calaram mas não deixaram de continuar a discussão por telepatia. Tentou abrir uma gaveta, mas ela se recusava a obedecer. Disse que não abriria nada antes de, no mínimo ele lhe pagar um jantar e um cineminha. Ele se exasperou: todos os dados estavam naquela gaveta, era preciso abrir a gaveta, ora bolas, como é que poderia trabalhar sem os dados. Mas a gaveta estava irredutível. Ele perdeu a paciência. Chamou a Secretária pelo interfone, mas não conseguiu entender nada do que ela leh disse. Maldito dia! Nada dava certo.

Naquele momento, o ventilador de teto resolveu que estava preso demais àquele ambiente, e que precisava de novidades, se deprendeu do teto e voou serenamente pela janela. Assim não dava! Era preciso tomar providências. Abriu a pequena geladeira miniatura e serviu-se de dose nervosa de uísque, mas o gosto estava intragável! Era como se tivessem substituído o tradicional aroma de suco alcóolico de papel mofado que todos os uísques carregam e tivessem substítuido por mera coca-cola. Ora! Assim não dava. Arremessou o copo contra a parede, estilhaçando-o em milhões de pedacinhos, que gritaram em uníssono lamento de mau agouro. A parede tambem gemeu. O telefone e as poltronas se escandalizaram! Adevogado acabara de cometer brutal assassínio, e precisava ser levado às autoridades competentes da justiça!

O telefone discou para a polícia, e as poltronas começaram a cercar ameaçadoramente aquele assassino. Adevogado se exasperou e avançou contra a primeira poltrona que quis dominá-lo, chutando-a bem no saco, se é que tal acessório existia em poltronas. Com efeito, a mobilia atingida em cheio tombou ao chão, e Adevogado aproveitou a brecha para obter a pistola semi-automática que trazia devidamente escondida em sua pasta. A Secretária adentrou o recinto, atraída pelo burburinho de toda aquela confusão, e Adevogad vislumbrou ali sua salvação: correu na direção dela, e a apanhou pelo pescoço, empunhando a arma em riste. Agora tinha uma refém, tudo se resolveria. "Calem-se todos vocês, ou ela leva chumbo na cabeça!"

A Secretária estava em pânico crescente, mas mesmo assim, desenvolveu instantaneamente um caso raríssimo da Síndrome de Estocolmo, e se apaixonou perdidamente pelo seu captor. Beijou apaixonadamente a boca surpreendida de Adevogado e já ia arrancando suas roupas. Ele arregalou os olhos e repeliu a mulher com força. Ela começou a chorar, se lamentando em romeno por que ele não mais a amava? Se tudo que conheciam, todas as experiências que haviam tido juntos nada mais significavam?

Adevogado estava aturdido, e ouviu o rumor sorrateiro dos agentes da polícia que entraram às pressas no recinto, empunhando salames de borgonha e pizzas calabresas. Secretária afirmou, em tcheco, que preferia um strudel e um autêntico goulash. Adevogado não quis saber de conversa, se arremessando de supetão contra à janela aberta, "Jamais me apanharão vivo!!"

Como os Adevogados não voam - mesmo um tão intoxicado por tantas drogas em seu sanduíche implementadas na noite anterior pelo funcionário da loja de produtos Naturais e Curiosamente Caros, que havia por bem lhe agraciado de tal maneira, depois de ter sido rudemente maltratado por tal agente da lei, da moral e dos bons costumes - ele simplesmente caiu em queda livre em direção ao solo, se esborrachando de maneira grotesca por cima do asfalto, que lamentou o ocorrido com o poste de luz. E assim acaba a história excitante de Adevogado, este fedaputa.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Bom dia.

(Chega o Neurado no serviço. A secretária do Chefe o recebe com aquele sorriso de nota de três reais.)
-Bom dia.
-Bom dia é o caralho. Vá pra merda.
-Mas o que é isso.
-Isso sou eu de saco cheio.
-Coimo ousa falar assim comigo! Exijo respeito!!
-Respeito de cu é rola. Pra merda, já disse.
-Senhor Neurado!!
-Senhor é a puta que o pariu. Senhor é o corno do seu chefe, que trai a mulher dele com você e é chifrado pelo Antunes da contabilidade. Chifrudo dos infernos. E você é uma bela duma pistoleira, sua puta.
(A secretária entra em desespero e começa a chorar. Entra Fagundes, e novamente a formatação muda de rumo.)
FAGUNDES
Dona Secretária! Mas o que foi que aconteceu!

SECRETÁRIA
Esse pilantra me chamou de puta.

NEURADO
Puta é pouco pra você, sua vagabunda dos infernos. Dá sem dó pra qualquer figurão aí, só pra subir no conceito deles, e nem se importa com o que está fazendo, com a família que está arruinando, com a vida que está destruindo, só pra se fazer valer, pra dar um pingo de valor a sua existência inexistencial. Vadia, vaca, puta!

FAGUNDES
Mas o que é isso, senhor Neurado! Controle-se!

NEURADO
Controlo porra nenhuma, seu biltre. E você é outro, um puxa-saco de primeira, um lambe-botas miserável, capacho dos grandes, baba ovo pra caramba desses cretinos todos no poder e fica aí se achando, crente que é amigo deles. Porra nenhuma, mané! Eles não estão nem aí pra um merda feito você. Te usam como espião, pra saber do que falam a respeito deles. E você, um bosta completo, dedura todo mundo que fala mal desse filhos da puta donos dessa empresinha de merda do caralho da puta que o pariu.

FAGUNDES
(Fica boquiaberto. Não sabe como reagir, pois acaba de ouvir uma pá de verdades)

(A Secretária continua chorando numa cadeira, aos gritos. O tumulto chama a atenção de mais empregados, que se acotovelam para ver o circo pegar fogo, atividade preferida deles. Nisso, entra o Sub-chefe.)

SUB-CHEFE
Mas o que diabos está acontecendo aqui?

NEURADO
Lavação de roupa suja, senhor filho da puta.

SUB-CHEFE
O quê?? DO QUE FOI QUE VOCÊ ME CHAMOU??

NEURADO
Filho duma puta, filho de puta com gambé, sem-mãe, enjeitado sub-chefe de merda. Isso e mais nove. Quer ouvir mais?

FAGUNDES
Vamos juntar nesse cretino, senhor Sub-chefe!

(O sub-chefe e Fagundes avançam para o Neurado, que calmamente retira de sua maleta um Uzi e metralha os dois, que tombam irremediavelmente mortos. A secretária começa a berrar como nunca se ouviu antes. Os demais bisbilhoteiros, digo, funcionários, fogem em disparada)

NEURADO
Alguém mais vai querer umas azeitonas? Tenho muitas aqui! É só pedir. Bando de covardes filhos de cabritas enjeitadas.

(A Secretária continua berrando. O Neurado nem olha para ela enquanto descarrega o resto das balas do clipe nela)

NEURADO
Cale a boca, piranha. Agora sim você não frita mais ninguém.

(Lá de fora o X-9 grita:)
Neurado! Chamei a polícia! Eles estarão aqui em instantes! Se renda agora e talvez eles sejam misericordiosos!!

(O Neurado simplesmente suspira, enfia a mão em sua valise e retira uma granada, que tira o pino e arremessa na direção da voz.)

X-9
---puta que o pa--
(BOU! A sala adjacente vai pelos ares, juntamente com o bisbilhoteiro X-9, cujos pedaços ensaguentados decoram toda a sala de forma grotesca.)

NEURADO
Agora sim, isto é o que eu chamo de decoração de natal! Veja só, que tom vivo de vermelho. Se bem que o tom é mais morto que vivo, ha ha ha! Feliz natal!

(Lá fora, os agentes da polícia começam a chegar. Um deles empunha um megafone e começa a anunciar:)

PULIÇA
Neurado! O senhor está cercado! Largue as armas e saia com as mãos atrás da cabeça!

NEURADO
Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece.
(Ele apanha um bloco de C-4, 2kg, em sua maleta e conecta despreocupadamente um detonador ao mesmo. Feito isso, calmamente arremessa-o pela janela.)

PULIÇA
--Mas o quê--

(O barulho da explosão de 2 kg de C-4 é meio que inexpressável em onomatopéias. Mesmo assim, o exterior do prédio é obliterador instantaneamente. E, com a onda de choque, a estrutura do prédio do Neurado começa a ceder também.)

NEURADO
Que maneira mais grandiosa de ser demitido de um emprego de merda!
(ele tira mais uma pá de granadas e explosivos e sai correndo pelo prédio desmoronante, gritando alegremente e disparando tiros contra quem quer que fosse que ainda estivesse por ali. Ri como um maníaco desenfreado.)




SECRETÁRIA
Eu disse bom dia!

NEURADO
Ahn? Ah, desculpe(sorriso de nota de três reais.) Estava distraído aqui.

SECRETÁRIA
Já pensando no final de semana? Pelo seu sorriso, deve ser, não é?

NEURADO
...mais ou menos.

(Nisso chega o Sub-chefe e já vai passando a mão na bunda da secretária, que ri como uma cadela no cio, e o acompanha até sua sala. O Neurado assite a tudo e suspira. E assim continua mais um dia normal no escritório.)

NEURADO
É o fim, mesmo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Arqueologia.

Queria eu comprar artigos, estes para o ofício de transcriptor reverso do desconexo se conectando ou desconectando-se ameaçadoramente da realidade. Pois, se queres da vida fugir, arrume um emprego onde os detalhes, os detalhes são tão absolutamnete necessários, tão indispensáveis e inumeráveis, que a coisa desanda caso sua atenção seja desviada do cuneiforme por mais de cinco segundos. Em verdade, na cidade morta, existiam vidas, mas sabia eu que apenas importava seguir a morte, uma vez que assim me garantiria a vida, o pão nosso que estais no céu ou coisa assim, sendo, fondo.

Artigos, loja de. Departamento de sumérico. Departamento de hieróglifos, arqueologia mundana. De fundo de quintal. Não, não, meu caso é outro, minha fuga é por demais escapista para poder ser quantizada, somada, acrescentada de números e cifras. Vou direto para a tumba do rei Xenops III, esse rei que nunca houve mas que inventei em tese para provar em vida que a sua vida foi algo digno de nota, ainda que esta nota seja em uma escala não-existente na pauta, na cifra musical humana. É preciso ganhar tempo, é preciso adiar a vida, ainda que com isso adiantemos a morte.

Em esta loja, encontramos procrastinadores das mais diversas funções, agentes da polícia que não querem mais ver sangue, agentes do governo que não querem mais governar, donas de casa que não têm nada de donas, designers modernos que descobriram que a arte é uma fraude, e aqueles que, como eu, tentam encontrar no passado alguam explicação para o presente, estes arqueólogos da vida, da morosidade dos dias mais nefastos, da existência mais inexistente. Estes, normalmente nao se falam, não tiram suas dúvidas, apesar de elas existirem, em profusão dentro de suas mentes um tanto quanto desajustadas.

Entre as prateleiras de artigos para a moderna compreensão do passado, encontramos perdidos artefactos, a roseta de Zyo, a pedra fndamental de Alexandria, o dedo mindinho de um desavisado mentiroso que circulou em Roma. Coisas, que existem ou não, mas que tanto preenchem a vida dos arqueólogos. Habilmente nos desviamos de questões menos relevantes, como a saúde, o bem-estar da presença onipotente da vida que se desfaz cada vez mais, cada dia mais, cada momento menos, cada macaco no seu galho, ora bolas. Desviamos o olhar dos demais colegas de profissão, mas procuramos por novas e mais justificáveis justificativas para a obtenção da licença, da permissão de adiar a vida, enquanto se espera a morte.

Alguns deles vêm em pares, têm suas razões para isto - ou tentam se unir em alianças de ouro maciço mas com nenhum peso real, ou procuram adiar a vida eterna obtida através da perpetuação da espécie. Eu, busco somente a justificativa fundamental para aqui estar, pesquisando o passado, sondando o pó, escovando pedras carcomidas pelo tempo e pela memória. Revirando ossos, procurando se achar no meio do passado, enquanto o futuro, cada vez mais próximo, se torna mais e mais curto. Vislumbro lágrimas nos olhos de alguns de meus colegas, mas eles apenas fungam em silêncio, olhando para a prancha diante de seus olhos, o papiro debaixo da luz ultravioleta, os óculos de proteção se tornam baços das pequenas cascatas de gotas amargas que dos olhos saem. É a idade. É a crise. É a vida.

Pesquisa, pesquisa. Procurar as chaves do presente no passado, nas areias já há tanto esquecidas, varridas pelo tempo, água por debaixo da ponte, líquidos que não mais movem moinhos. Procurar, procura. Lá no fundo está a resposta, a solução. É preciso pesquisar, decifrar o passado, com ele aprender, enquanto o futuro, cada vez mais próximo - e tão distante, eis que nunca chega - se torna cada vez mais escasso. Pesquisar. Decifrar. Encontrar.

A chave, a chave. Não tentar entender, mas mesmo assim procurar, aceitar. Engolir, sem regurgitar. Lá no fundo estão as respostas e a morte, mas com ela não nos preocupamos, dela nunca lembramos; mesmo sabendo, tendo a plena certeza que irá nos alcançar, fazemos de conta que somos ignorantes, que não sabíamos.

Enganar-se.

E todos nós, nestes corredores da loja de arqueólogos, não nos falamos. Somos unidos pela espécie mas afastados pelas circunstâncias de sermos a espécie de espécie que somos. Unidos, mas irremediavelmente distantes, cada um na sua busca pessoal, cada qual e tal como deveria ser, não me interrompa, não me grite! Cá estou, atarefado em tentar ignorar tudo isto, em busca do que já nem sei mais o que é.

Mas já não importa, pois tudo assim o é. Tolos são os que pensam como penso. Sozinhos, amargurados, alijados por suas próprias ações e convicções. Tentando provar que a busca irá gerar frutos, e tudo será a mais plena glória quando a chave obtivermos, as respostas estarão à palma da mão.

A mão, que estará velha e carcomida, enrugada e entrevada, retesada por artrites e artroses. Dependeremos de todos os outros que negligenciamos enquanto buscávamos a resposta. E a verdade é que nada mais importará, pois a resposta vem com o tempo, a busca será frutífera mas a maçã estará podre, fossilizada. E tombaremos, pois lá no fundo, juntamente com as respostas, ela também se encontra, a iniludível, a inescapável.

Daí, nada mais importará. E serviremos de matéria para futuras explorações, futuros fundos de pesquisa. Tentarão nos decifrar, dando continuidade ao ciclo eterno que é esta vida, esta morte. A cada dia que passa, a cada segundo que no ralo da espécie escoa, líquido viscoso e inútil.

E assim será.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Chama o técnico!

-Assistência técnica.
-Sim. Eu quero uma assistência, de preferência que seja técnica, de fato.
-Pois não.
-Quero dizer que ontem, chegeuei em casa e o artefato não funcionava.
-Mas o senhor o conectou?
-Sim, é claro. Não sou dessas pessoas idiotas que não sabem usar o artefacto e ficam importunando a técnica assistência.
-Ainda bem, não tenho muita paciência com idiotas.
-Pois então, o que devo fazer? Como deverei proceder?
-Qual é o modelo do artefacto?
-Setembro de 1977.
-Hmmm. Modelo raro e tinhoso este, aparentemente. Data?
-Dezessete.
-Puta merda. Você tinha logo que escolher o mais complicado??
-Aparentemente, gosto de desafios.
-Gostas é de encheção de saco. Este modelo veio com um defeito de fabricação grave. Houve um recall de todos os modelos de tal linhagem em outubro de 2002, caso não tenha sabido.
-De que me adiantaria um recall depois de tantos anos? Agora não quero nem saber. Quero que resolvam meu problema.
-Senhor, a garantia de tal produto já caducou faz tempo.
-Não perguntei nada sobre garantia. Quero solução, não importa quanto custe.
-Bem...tenho que dar uma olhada no artefacto. Vou ter de comparecer ao local para melhor examinar o defeito.
-Pois sim. Venha.
-Vou.
(Tcham)
-Pronto.
-Ora! Já chegastes? Como é eficaz esta tecnologia de falar sozinho.
-Sim, sim. Mas vejamos o artefacto. Onde está?
-No Sótão. Joguei-o para lá assim que o defeito se manifestou.
-Pois bem. Senão vejamos. Hmmmm. Como suspeitava. O fabricante fez merda no módulo de compatibilidade com a humanidade. Vejo também que o índice de tolêrancia está a níveis absurdamente baixos. E se observamos aqui...sim...vejo que existe um módulo adicional instalado, de misantropia crescente. E está "setado" para crescer exponencialmente, ora veja!
-Imaginei que seria algo deste naipe que estivesse desconfigurando a máquina.
-Senhor, sinto lhe dizer, mas creio que de nada adiantará manutenção neste artefacto. O defeito parece ter consumido reservas vitais de humanidade, deixando tal faculdade permanentemente desabilitada no setup da mesma. A BIOS está muito corrompida, e o sistema operacional Buriol 1.0 é incompatível com Universo X.xx. Creio que chegamos a um impasse.
-Como assim?
-Sendo estes dois sistemas absolutamente incompatíveis, assim se torna impraticável o gerenciamento do módulo de humanidade. O artefacto está se degradando rapidamente, e faz por onde; adquiriu comportamento inusitadamente auto-destrutivo.
-Mas, não é verdade que "self destruction might be the answer?"
-Não neste caso, uma vez que isto não é um filme, e sim um delírio.
-Delírio?
-Sim, uma vez que aqui não estou, nem estás, e estamos todos.
-Hein?
-Não reparastes? Estamos mas não estamos, uma vez que nada mais somos que vozes, ecos no interior de tal artefacto.
-Ah! Pois então estamos todos falando juntos dentro da máquina?
-Algo assim, ao menos do ponto de vista manicomial.
-E o que fazer então?
-Bem....eu poderia tentar "setar" o volume das vozes, e acionar o "mute" em algumas delas, ou tentar "rotear" as mesmas para porções menos cognitivas do processador central. Mas, pelo que vejo aqui, o botão de "mute" está permanentemente danificado. E o roteador está quebrado. Mas que merda de máquina!
-Não xingue seu progenitor!
-Ora. Que vantagem existe em ser apenas uma voz no interior de um artefacto defeituoso destes?
-Ao menos não somos nós que tem que lidar diretamente com o Universo X.xx. Ouvi dizer que lidar com tal OS é realmente complicado.
-Tudo depende da versão da máquina. Mas concordo que neste caso, deve ser o inferno na terra, de fato.
-O inferno não é na terra, pois Universo X.xx é absolutamente indiferente a estas configurações externas e internas dos artefactos que com ele interagem. O inferno é interior. E neste caso, creio que talvez seja irremediável. Buriol 1.0 está cada vez mais instável.
-Eu sei, eu sei. E todos nós sabemos, desde o lançamento.
-Pois é.
-O que podemos fazer então?
-Creio que nada. Um dia tal artefacto será desativado permanentemente, e a julgar pelo tamanho da corrupção dos arquivos mais vitais do mesmo, talvez o mesmo entre em colapso auto-inflingido.
-Que péssima perspectiva.
-Sim...mas assim deve ser, aparentemente. Pelo que posso ler aqui nos medidores e mostradores, o módulo Insanidade 6.66 está quase todo instalado.
-Putz. É o famoso fudeu.
-Sim. Assim que a compilação dos dados se completar, só a Insanidade irá imperar aqui dentro. E lá fora, a idiferença Universal tratará de aniquilar o engano evolutivo.
-Assim está escrito?
-Assim me parece. Acho que o núcleo de semi-compatibilidade foi deliberadamente esfrangalhado naquele primeira tentativa de auto-destruição.
-E agora?
-Não sei. Acho que só nos resta esperar. Bom Senso 30.3 não está funcionando, Auto-Estima falhou desde a versão 12.0 e diversos outros módulos foram destruídos ao longo do uso deste artefacto.
-Vejo que existe intermitência em vários outros módulos de destruição também.
-Sim. Veja este aqui, por exemplo. Deveria funcionar para defender o artefacto de ataques virais de Idiotas X.xx, Frangos X.xx e outros tantos vírus criados por Universo X.xx, mas a coisa ficou tão doida que eles se voltaram contra Buriol 1.0. A máquina está se atacando.
-Por Mitra.
-É....a coisa vai mal aqui. A Humanidade está completamente destruída nesta interface de integração entre o artefacto e o OS do universo. Por outro lado, Preguiça X.xx está a pleno vapor, Misantropia evolui para uma versão icomensurável, algo em torno da versão 9000+.
-O que faremos então?
-Bem...estou tentando ver se consigo ao menos gerenciar os módulos da memória, para tentar desviar a rotina de autodestruição. Hmmmm...complicado. A memória está quase cheia, e somente de arquivos corrompidos. Humilhações, raivas, tristezas. Tudo acumulado e indelével.
-E quanto aos outros artefactos que interagem com este? Eles não poderiam prestar assistência?
-Já tentaram. A maioria já desistiu, tamanha é a funcionalidade da sub-rotina de autodestruição. Acho que chegaram à conclusão de que se o artefacto em questão quiser de facto se auto-destruir, o problema não é deles. E pelo que vejo aqui...existe mesmo um arquivo Rancor X.xx dominando o Bom Senso 30.3, causando confflitos inconciliáveis entre a máquina e as outras...vejo que isto só legva o artefacto a aumentar ainda mais o reinado de Misantropia 9000+.
-Não existe esperança, então?
-Não vejo muita. Mas pode ser apenas que seja um efeito colateral da sub rotina de autodestruição também. E a arquitetura de outro módulo está quase 100% implementada em uma área cognitiva vital de interação entre Universo X.xx e Buriol 1.0.
-Qual seria?
-Loucura 3.5. Aparentemente, a data para implementação definitiva para tal módulo está determinada.
-Ou seja, em questão de duas atualizações da versão atual da loucura, estaremos todos condenados.
-Todos, não. Certos módulos irão prosperar definitivamente em tal cenário. Mas o custo será alto, pelo que posso constatar. Poderíamos voltar para a estaca zero, ou seja, Paletó de Madeira 1.0, para depois revertemos tudo a pó 0.0.
-Ai ai.
-É...lamento não poder ser de maior assistência.
-Sei como é. Estamos todos em risco, e isto é uma merda.
-De fato.
-Esperemos então. Vejamos o que acontece, uma vez que aparentemente trata-se de um caso realmente perdido...
-Bem, não dira perdido, mas o problema maior é que Auto-destruição e Loucura 3.5 se tornarão imperantes, e daí, só o diabo saberia dizer o que aconteceria.
-Puta merda. Bem, agradeço a atenção.
-Disponha. Estarei ali, juntamente com vozes autodepreciativas, caso necessites de mais assistência e/ou informações sobre o quadro técnico reinante.
-Pois sim. Até a vista, então.
-Até.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

N. A.

-Boa noite. Bem vindos à mais uma reunião dos Noiados Anônimos. Estamos recebendo hoje vários novatos nas artes de ser Noiado. Vamos receber o primeiro senhor Novato.
-Novato é o caralho.
-Ah, ha, ha. Calma, meu senhor. Mas conte para nós.
-Meu nome é Medo. E existo desde 1977. Setembro.
-Achei que o medo existisse antes. Mas enfim, conte-nos.
-Cale-se, primeiramente. Eu tenho medo de tudo. Medo de ser ridículo, medo de não passar, medo de passar, medo de alturas, medo de falar demais, de fazer brincadeiras e soar estúpido, medo de falar com quem eu não conheço, medo de desenhar e ficar uma merda(sempre fica), medo de atrapalhar os outros, medo de andar sozinho altas horas da noite, medo de que sempre me abandonem, medo de--
-Ah, medo. Mas a fila deve andar. Devemos pegar os depoimentos de todos os membros, nesta reunião semanal. Vá para seu lugar.
-Tenho medo de me sentar ao lado de um mala, de um neurótico. Medo de que me perguntem demais e--
-Vá logo. Muito bem, quem virá em seguida? Que tal você, senhor.
-Meu nome é Raiva, e tenho raiva de tudo; eu odeio as pessoas, em geral. Odeio joguinhos idiotas que as pessoas fazem. Odeio aqueles que jogam lixo no chão, entopem os bueiros todos e depois, quando seu barracão é inundado, afirma que a culpa é da prefeitura que não limpa os bueiros; odeio todos que são fingidos, odeio crentes. Odeio religião. Odeio burocracia, burrocracia, estúpidos processos inerentes a se obter qualquer permissão especial para fazer isto, odeio relacionamentos falsos, casamentos por simples acomodação...
-Ah sim, a raiva pode ser algo muito--
-Não me interrompa! Odeio quem faz isso!
-Mas o senhor deve odiar também quem não deixa os outros falar.
-Sim. Droga. Tá certo. Irei me calar. Odeio estar errado. Saco. Cu dos infernos.
-Bem, quem mais? Que tal você?
-Eu só enxergo cinza.
-Hein?
-É. Só vejo monocromáticos cinzas. Tons de cinza, por todos os lados. Vejo as cores, mas só interpreto os cinzas. O céu pode estar sem nuvens, mas eu só vejo um tom de aguada suja no firmamento, todos os dias. As ruas, todas cinzas. As pessoas. As cores, parecem não existir além de meu monitor de vídeo.
-Que saco deve ser isso, hein? Mas vamos prosseguir. Você.
-Eu sou um chato. Reclamo de tudo. Tudo está ruim. Dizem que tenho tudo, mas me sinto como se não tivesse nada. E bem sei que estou errado, e só faço reclamar. Não consigo agir, não consigo sair do marasmo. E reclamo, reclamo. Escrevo todos os dias, reclamando. E reclamo que me abandonam por reclamar demais. E fico puto com todos eles que o fazem! Para mim isto é abominável, um abandono. Mas não posso fazer nada, pois sei que estou errado. E odeio isto!
-Me parece que já vi o senhor antes por aqui.
-Sim. Não! Nego. E acho ridículo que me acusem de tal coisa!
-Sim, sim. Vejo bem.
-Vê nada.
-Pois bem. Prossigamos. Você lá no fundo.
(o cara lá do fundão quase cai de sua cadeira. E sacode a cabeça, não quer subir de maneira alguma ao pódio. O Orador novamente o exorta, mas ele estampa pânico nos olhos. Alguns dos Noiados mais chegados se reunem em torno dele e com ele conversam. Após muito falarem e falarem, ele finalmente é convencido, e avança hesitantemente ao pódio, andando duro feito um robô ou um padrinho de casamento engravatado que morre de vergonha de estar ali.)
-Não se acanhe, meu caro. Diga.
-Eu...eu tenho vergonha. (esconde a cara nas mãos) Sou tímido demais.
-Calma, estamos aqui para discutir tais coisas. Pode falar.
-Eu tenho vergonha de falar.
(o Raivoso dantes se exalta:)
-Fale logo, ô caralho!
-Bem...eu tenho muita vergonha. De falar. De dizer o que penso. De ser eu mesmo. De falar merda. De mostrar as coisas que eu faço, as músicas que componho, os rabiscos que elaboro. Tenho medo de ser arrogante quando me elogiam, tenho desconfiança de elogios, pois sempre acho que estão falando por falar, e me dá muita vergonha ser tratado assim. Mas sei que é difícil lidar com alguém que é tímido como eu. Eu não consigo chegar perto de uma pessoa atraente, sem ter ânsias de sair correndo. Olho para o chão enquanto ando, para não encontrar os Olhos, sempre eles, sempre me olhando, sempre me analisando. Sempre, sempre. E--
-Certo, certo, mas a fila deve andar.
-Falei demais né? Que vergonha!
-Volte para seu lugar. Quem mais? Você, de azul aí.
-Eu sou triste.
-Ah, uma condição nada agradável, por vezes. Mas diga.
-Eu fico triste todos os dias. Não existe um dia que eu não me sente a olhar para minhas mãos e imaginar o que poderia fazer com elas. Não existe um dia que eu não analise a situação do mundo, das pessoas, e não me sinta arrasado por isto. Vejo pessoas se enganando o tempo inteiro, mentindo umas para as outras, e fico triste. Fico triste por que me acham tanta coisa mas bem sei que nada sou; me entristece ter de ser um ator na vida, para se chegar à algum lugar. Me entristece ver que pessoas que se amam fazem joguinhos, especialmente as mulheres, para "testar" o amor de seus companheiros, e muito se espantam quando eles não recebem tal teste com alegria e entusiasmo. Me entristece ver que está tudo errado, e que só vai piorar.
-Complicado. Fico triste só de te ouvir.
-Normal. Todos saem de perto de mim depois de alguns minutos de conversa. Todos me abandonam. E nem mesmo posso culpá-los.
-Ah, é complicado ser Noiado. Estamos aqui para tentar te ajudar.
-Porra nenhuma. Isto não é nada além de um embuste; é apenas uma conversa interna, uma conversa com o espelho, uma tentativa vã de expor de maneira engraçadinha suas neuroses internas, seu babaca.
-Opa! Que é isto. O senhor está soando como o outro membro ali, o da raiva.
-Seu imbecil. Eu sei de tudo. Sei que você se formou numa coisa, que não serviu para nada, e tentou fazer outro curso, mas largou no meio, por ter tomado ódio mortal aos "artistas flácidos" modernos que tanto falams e só expoem lixo, lixo, lixo, por cima de um palanque, de uma falácia, de um discurso idiota e execrável. Sei que trabalhas com algo que não gostas; mas de que gostas?? O senhor não gosta é de nada!
-O quê?? Como sabe destas coisas? Quem te falou estas coisas? Você andou me espionando??
-Porra nenhuma, seu mané.
-Então...
-Seu idiota. Sei que você, no dia de ontem, se olhou no espelho e enxergou um borrão indefinido, uma sombra de pessoa. Algo que poderia ser mas não foi nem nunca vai ser, pois tens raiva de tudo, medo de tudo, só enxerga o cinza, ficas triste com tudo, questiona a tudo e todos, mas bem sabe que faz parte do mesmo monte de bosta que é a humanidade, e que recentemente resolveu desistir de tudo.
-Mas...
-Mas nada, mas nada. Detestas todos, detesta ter crescido com a esperança que as coisas fossem melhorar, e na verdade elas só pioram, você só mais e mais envelhece e cada vez mais se aborrece. Estás diante de um espelho, mas não enxerga nada, falas sozinho na frente do reflexo, dentro das quatro paredes. Quer ser isso e aquilo, mas não consegue sequer se motivar nem a estudar, a melhorar. Pegaste sua lista de "top 5 dream jobs" e a rasgou, queimou, tudo, tudo. Noves fora, coisa nenhuma, oras.
-E também não se esqueças! Odeias tanto as coisas, se revolta tanto contra o mundo que nem mesmo dentro de sua solitária estás achando consolo, paz. Paz? Nunca soube o que é isto! Nem mesmo dormindo, onde os sonhos que ali abundam são de natureza psicopata, olhos cortados, vinagre e limão espalhado por cima das feridas abertas, empurrar o cara no rio de lava.
-Isto, isto. Deixe pra fora, ponha tudo pra fora.
-E também me pergunto, o que as pessoas são? Todas se enganm, todas fazem mal umas as outras. E é normal, normal. Anormal é pensar que isto é anormal. Anormal é não quere nunca machucar ninguém, e ser tachado de idiota bonzinho por ser assim. Anormal é quere não ser o chato, mas sempre ser o chato por não querer ser. Anormal é não querer fazer mal a ninguém, e por isto ser rejeitado, rechaçado, inferiorizado. Por todas as pessoas de quem já gostei, todas me julgam "bonzinho demais", tedioso demais.
-E não é uma merda? Não te dá raiva? Não te deixa triste?
-É um inferno na terra. Odeio tudo isso! Odeio essa merda de mundo, onde tudo dá errado, onde todos se esforçam para atrapalhar os outros, por esporte, por mera diversão doentia. Onde as mulheres reclamam eternamente que não encontram os famosos "homens ideiais", porque simplesmente rejeitam todos os caras "bonzinhos" em prol de idiotas que as tratam feito cães sarnentos, para depois procurarem os tais "bonzinhos" e em seus ombros chorarem, ao passo que afirmam que nenhum presta, nenhum. Idiotas são as pessoas, que se casam, aos olhos de um deus, aos olhos de uma sociedade idiota, de branco, sendo que branco de cu é rola. Grande pureza, pois sim. E foda-se a pureza também, fodam-se os casamentos, toda esta hipocrisia.
-E fodam-se também as pessoas falsas, os frangos miseráveis que te dão amigáveis tapinhas nas costas, exibindo um sorriso de 146 incisivos brancos e polidos, para depois enfiarem a faca nas suas costas.
-E danem-se os empregos, as ocupações de sonho, que só dão trabalho, e só rendem hilários comentário por parte de todos os outros frangos, que julgam que música não é trabalho, que desenhar é coisa de criança. Que o emprego bom é aquele público, púbico, ora bolas.
-E odeio o fato que estou cada vez mais frango por tudo isso. Por estar me tornando cansado de tentar, e somente falhar. Por estar propenso a me tornar um zumbi, trilhar o caminho à zumbilândia pública, onde terei dinheiro, mas nenhuma alma.
-E você é um preguiçoso também né.
-Por não enxergar nenhum caminho. Não ver nenhuma motivação, neste imenso Admirável Mundo Novo que se tornou o mundo moderno. Tenho preguiça, pois no final das contas, nada vale a pena, nada. Se esforçar, para quê?? Para comprar tralahas? Para consumir melhor? Para me exibir diante de pessoas, e assim angariar uma companhia que só se unirá a mim por interesse? Por conta de meu carro, de minha conta, de meu frigobar, de minhas posses, de minha estética corrigida por Photoshop, digitalmente ampliado, melhorado? Para depois ter que me crismar, para casar numa igreja por que a noiva assim o quer, e a sociedade assim o exige?
-E família, o que é uma família. Tirando algumas exceções, todos querem te ver pelas costas. E você sempre se revolta contra seus pais, mas mal sabe que é apenas uma versão estendida deles, dele, de seus comportamentos, suas tolas obsessões. Sempre ser o fracassado, a exceção, aquele que se refugia em meios ilícitos ou lícitos aos olhos caducos da lei idiota que rege os homens; o cara que se esconde de tudo e de todos.
-De tudo e de todos.
-Por simplesmente não aceitar nada, questionar tudo e todos, e mesmo a si mesmo, por masi estranha e idiota que a frase possa parecer.
-Por não querer sair de casa, enfrentar a noite e seus olhos, suas avaliações idiotas, seus valores imbecis.
-Por não querer nunca mais se envolver com NINGUÉM, por achar que tudo sempre dá errado, que egoístas somos todos, eu tu eles, nós vós eles, por saber que o que resta no final de todos relacionamentos é um armistício, uma união onde a grande diversão é apurrinhar o cônjuge, a moeda de troca de favores é o sexo, e para quê? Para transmitir aos filhos o legado de minha miséria? Minha visão distorcida - dizem - do mundo??
-Não quero deixar isto para ninguém. Ningué merece mais de um Noiado.
-Ninguém. Porquê o senhor não se mata?
-Porque não consigo ser tão egoísta a ponto de abandonar uma certa pessoa, que já foi abandonada por um certo marido e será abandonada posteriormente pelo primogênito, pelo preferido.

-Encerremos aqui a reunião dos Noiados Anônimos, de nome Buriol. Mui anônimo, de facto.

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E depois ainda estranham o fato que eu prefiro um mundo menos real e menos chato...Porquê será?

O que me resta, sendo esta merda toda?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Consumo.

-Eu quero.
-Eu sei que o senhor quer! E nós temos. O que o senhor quer?
-Eu quero um trailer. Quero saber o quanto custa um trailer??
-Não sei, senhor. Aqui vendemos artigos para o lar.
-Mas eu quero um lar! Um trailer é um lar.
-Não necessariamente senhor. Eu moro num apartamento de dezoito quartos e não o considero um lar.
-O quê? Então és rico!
-Não, senhor. Eu sou um dos quartos.
-O quê? Como assim!
-Eu sou uma dessas pessoas que é apenas um quarto do que poderia ser.
-Por sua infâmia, condeno-o a dez deméritos.
-Honra ao mérito! Eu?
-Não, demérito, sua anta!
-Eu me chamo Custódio, em verdade.
-Mas que diabo! O que o senhor quer, afinal de contas!
-Já disse, um trailer.
-Não temos, já disse.
-Mas que meeeeeerrrrrrr...cearia mais vagabunda, esta.
-Não é mercearia!
-Não se vende aqui, artigos para o lar??
-Sim. Mas não necessariamente somos mercearia!
-Eu sei. Já me disseste que és um mero quarto.
-...
-Diga.
-...
-O quê??
-Quartos não falam.
-Pare com isso, seu retardado. Acabastes de falar.
-Céus! Um quarto falante.
-Onde? Onde??
-Aqui, bem à sua frente, seu trouxa.
-...
-O quê? Que foi agora?
-...
-Diga logo!
-(Trouxas não falam)
-Prá meeeeeeeerrrrrrrrr...da, seu merda.
-(Eu não falo.)
-Você está falando! Só porque está entre parênteses, não quer dizer que estejas mudo.
-(Parênteses entre parênteses?)
-Pare com isso! Queres apenas me confundir, cão imundo.
-Au.
-O que foi agora?
-Sou um cão. E imundo. Au.
-Au é o símbolo do ouro.
-Quer dizer que sou feito de ouro??
-Ouro! Ouro! Venha cá!
-Se desafaste, seu sacripanta!
-Ouro!
-Pra merda, sai de perto de mim!
-Ouro!
-Não quero correr!
-Ouro!
-Saco, lá estou eu, correndo.
-Ouro!

(Nisso, todos os demais consumidores, ao ouvir as bravatas sobre o metal doirado, saem em procissão, correndo atrás do Consumidor.)

-Ouro! Ouro!!
-Não sou de ouro, caralho!
-Queremos ouro!!

(O Consumidor se vira de repente, esbaforido. E contempla a Turba com desprezo.)

-Tristes tempos, estes. Em que todos desejam o que não podem ter. Em tempos imemoriais, costumávamos trabalhar noite e dia, apenas para conseguirmos mero direito de mijar no muro. Eu me lembro, que em 1773, eu fui almirante regional de...

(CLANG! Um dos Consumidores acerta o Consumidor com um cano bem no meio da testa.)

-Ouro!

(Todos se lançam po cima do corpo do Consumidor, sobe aquela poeirinha clássica que tudo esconde, e depois de um tempo, a nuvem dissipa, restando apenas uma poça de sangue e tripas espalhadas no chão.)

-Mas que enganação! Ele não era feito de ouro bosta nenhuma.
-Bosta? Tem muito aqui, no interior dos intestinos.
-Seu porco.
-Oink.
-Oba! Bacon! BACON!
-Mas que merda! Oink!
-Bacon! Bacon! Bacon!

E assim, prossegue a humanidade.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Quá-quá-quá, 444.

Sair, levantar-se do mar de gelatina que encobre todo o ser, de domingo para segunda. Vencer a espessa camada de gel que existe entre a cama e o ar, entre as cobertas e o descoberto, tarefa quase impossível em situações assim, em dias assim, em momentos como aquele. Como despertar um morto-vivo?

Muitas coisas aconteceram, mas nada do que aconteceria em dias normais, em dias não-normais, nada de mais, nada de menos. Existir, apenas pela música e por mais nada, outros vícios mais terrenos nem foram visitados, vencidos pela relutância de novamente ter de recomeçar. Enfim, continuar a ser o que se é; em formas assim ou assadas, em forma de música, não linhas, não plugado, ligado, desligado: um violão, um microfone e mais nada. Nada além de 2 acordes e muita imaginação?

Ver e rever, subir e descer. Grave do agudo, cromaticamente falando. Pode dar samba? Não! Pode dar roque! Sempre a pedra, sempre a pedra. Sair? Daqui para ali, lá longe? Nem pensar. Fico, diga ao povo que fico, permaneço. Esteja. Assim se almeja, assim se deseja. Ficar e ficar, sem saber estar.

Acorde, levante, vá para seu lugar, pense n oque fez, no que não fez. Fez alguma diferença? Faz alguma diferença? Guerras, existem lá fora, onde eu não moro, onde nunca nem fui, onde não desejo ir. E lá dentro, um armistício, paz forçada a custas altas, elevados emolumentos, taxas, perguntas, tantas perguntas. Respostas? Em falta; volte talvez daqui a seis meses. Seis anos. Seis décadas. Talvez centênios, milênios. Nem sei.

Acordar, vencer a gelatina que nos prende às cobertas. Ter de desistir de todos os oníricos designíos, em prol de uma vida que nem sempre vale o que anunciam, nem sempre é o que não deveria ser, mesmo sendo. O que não é. Não foi. E talvez até seja.

Acordar, blob. Acordar, blec. Estique-se sobre a gosma do dia, do momento. Da segunda, primeiro dia até a próxima sexta, até a próxima libertação. Qualquer que seja ela.

Derrubar café quente por cima da geléia, por cima da baba gosmenta que nos prende ao pé da cama, ao travesseiro, ao outro mundo que adentramos todas as noites mas que nem sempre queremos sair pelas manhãs.

Ainda assim, levante-se. Hás de ganhar o dia, ganhar a vida! Neste dia, ao menos.

Levante-se. Levante-se.

Ou aperte o soneca mais uma vez...