Mostrando postagens com marcador Insônias.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Insônias.. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de maio de 2011

Terça.

Às vezes parece eterno.

Tantas manhãs. Tantas noites, dias. Sem dormir, sem alento em quase parte nenhuma. Odia, parece ter começado anos atrás, agora. Muito, muito tempo. Sempre, pra sempre. Mesmo que a luz se alternasse, as cinzas eram as mesmas. As pessoas, as mesmas. A mesma, aflição.

O que estava diferente naquela manhã? Alguma espécie de fogo, alguma sorte de gelo, alguma sensação térmica, algoi estava diferente? A manhã, de inverno incipiente, recém começava, de novo, mais uma vez. A mesma hora do lusco-fusco, as mesmas luzes dentro dos painéis luminosos. Bom dia, Mantenha a cidade limpa. 10 de Maio. 7:12.

Embarcar feito mais uma cabeça de gado no coletivo, minutos depois, a mesma coisa. Sentado, olhando para fora, vendo mas não enxergando, a noite, o dia, a rua, as pessoas, os carros. Tudo, uma coisa só, que não fazia nenhum sentido. E o ruído, de alguma espécie de canção naqueles ouvidos. Não se lembraria dela, momentos depois.

Quando a primeira nota soou, ali mais nada estava. No primeiro movimento da moderna sinfonia, as coisas, que já não existiam lá fora, passaram a não ter mais nenhum sentido.

Tudo que existia naquele momento eram as ondas sonoras cuidadosamente colocadas em seu canal auditivo. O mundo, a temperatura, as pessoas, os gritos e infêmias. Nada. Só havia a crescente progressão de sons em camadas se unificando diante de canais vestibulares, tímpanos e três ossinhos quase microscópicos.

Nada mais havia além da música.
Nada sentia além dos arrepios que esta ainda lhe causava.

Estava vivo, ainda. Ainda conseguia sentir a beleza embutida em todos aqueles sons que se uniam. E a voz,

And when the dawn begins to creep
Sunlight finds you in a heap
And how you wish that you could sleep
Forget the lies that you've been told
You think you're settin' free your soul
But you're really gettin' old

E sim, estava vivo. Estava ficando mais velho, cada vez mais velho, antigo como o hábito de não enxergar, não conseguir ver nada além do que sua mente insistia em achar, em todos lugares, em todo vagar, uma vida inteira.

You've dreamt of divin' in the sea
Your outstretched arms in front of me
And how you wished that you could breathe

Respirar. Deixe-me respirar. Deixe-me tentar....achar...o que tento achar...

In the grip of ecstasy
When the shadows follow me
And the night won't set me free

A noite...ela dura mais de trinta anos...

You wish someone could love you less
Longing for that one caress
I see you sink under Duress

E afundo....sem saber porquê me afundei...sem saber por quê isto acontece...sem saber por quê não encontro nada do que vim aqui procurar...

E quando tudo acabou, as formas voltaram a ter sentido, o mundo fez-se mundo novamente. E eu lá. Deixando acontecer. Deixando. O que mais posso fazer?

And when you wanna kill it dead
You let it throttle you instead.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Loucuras.

Você sabe que está indo bem quando, logo pela manhã de terça se surpreende pensando em quais locais dos edifícios ao seu redor serviriam de bons pontos para se encostar, com um cigarrinho na boca e um rifle de precisão nas mãos. Após esta árdua escolha, selecionar entre anôni trnaseuntes quais serviriam de melhor alvo. Não importa em verdade, nada dos pré requisitos que lhes serviriam para angariar este ou aquele emprego no submundo moderno. Não. Em se tratando de alvos, poderíamos separar tais matérias primas para a loucura por diâmetro de cabeças, ou simplesmente por suas caras. Gostei desta pessoa, mas não daquela outra. Bang. Pronto. Pensando-se bem, gostei tanto daquela pessoa; melhor não continuar deixando-a ser torturada pela vida, não é mesmo? Bang.

Nestas horas em que o ônibus se arrasta lentamente pela cidade, me pergunto estas coisas. Qual seria a primeira providência a se tomar quando finalmente a sanidade me abandonar de vez. Adquirir rifles de precisão seria uma ótima, mas me pergunto onde seria possível arrumar tal aparato sem ter de se aborrecer com autoridades, ó inúteis figuras, que permitem o uso de alcóol mas proscrevem o uso de aspirinas. Por quê, mas porquê. Permitem tanta coisa, proíbem tudo. Tudo que é divertido. Tudo engorda ,é imoral, amoral, apático. Irrequieto.

Me pergunto se ao invés de rifles, granadas de mão não seriam mais facilmente adquiridas. A grande vantagem seria a de nem sequer precisar de mirar direito; bastaria arrancar o pino e arremessar a bomba em direção à rua lotada. Todos devem se ver livres, todos desejam se ver livres. E daqui, o que se leva, o que podemos levar? Nem mesmo as dívidas. Nem mesmo as terrenas preocupações, umas tão nobres e sérias, como o resultado do Big Bróder, ou o desfecho do reencontro de Manuela Gerturudes com Fernando Augusto Cury. Se as pessoas fossem assim tão boas, eu me preocuparia com meu extermínio primeiro. Para se livrarem de mim primeiramente. Mas sou tão bom, tão humano, tão filantropo - que prefiro livrá-las de mais dor.

Por isso falo, do alto de tantos prédios, de tantas anônimas faces, tantas faces. Se livrem de mim. Se livrem. Se livrem. De vocês, de eu tu ele nós vós eles. Façam bem, uns aos outros. Se permitam, viver. Se permitam, fazer tudo. O que vocês fariam se tivessem a plena liberdade de escolher? O que fariam? O que faria se não existisse medo, se não existisse amanhã? Poderíamos mesmo fazer tudo que bem entendêssemos?

Eu só queria saber o que vem em seguida, se tudo acaba mesmo ou se teremos de rever nossa infame vida, em telas, telinhas, telões, diante de outros mortos, fazer o exame, fazer a avaliação. O boletim de ocorrência de uma vida vivida, fracassada, desorientada. Tudo flui, tudo é tempo, todas nossas ações têm consequências. Têm mesmo? Seria eu alguém que não se importaria em mostrar para os outros como sempre estive errado? Como sempre fui aquilo que me disseram que não era?

Quem seria você, se todos pudessem ver o que fazes quando és tu, somente tu, somente você mesmo, aquela pessoa que não se esconde diante das outras pessoas? Que não usa máscara? Quem é você? Saberia dizer aos outros? Seria mesmo o que pensam de você?

Não somos nada, e somos tudo. Todos os motivos, todas as razões.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Linhas.

Curioso é, como a vida para ele se transformara.

De fato, não sabia precisar a que momento do ano corrente em que a mudança tomara forma, tomara conta de sua vida. Ano? Corrente? Nem mais sabia dizer que dia da semana seria. Tudo se convertera em linhas para todos os lados, inúmeros pontos de fuga, inúmeros horizontes. Tudo era perspectiva, ainda que não bem definida. Tudo depende da perspectiva.

Mas agora, não apenas uma existia, não apenas aquele curso acadêmico saberia precisar para que lado as incontáveis linhas deveriam convergir. Sabia que dormia mas que estava acordado. Ou que o sonho não mais era sonho, que a vida não mais era ali. Seria? Talvez. Eterno despertar, a cada momento, a cada mudança, a cada instante que se passava. As noites agoram eram dias, os dias noites, nada mais importava. Tudo se copiava, tudo se transformava.

E quem estava ali com ele, não saberia dizer, pois as sombras noturnas se transformaram, tomaram conta dos diurnos seres que outrora em sua vida habitavam, existiam. Nunca mais saberia distinguir. Nem um nem outro. Quem era quem? Quem era uma figura desprovida de rosto que ao seu lado caminhava? Quem era aquela pessoa que sempre se aproximava, perguntava as horas, calava-se e não estava mais lá?

Quem seria a voz da noite, a canção da madrugada? Quem seria sonho, quem era verdade? Sonhos, verdades, ilusões, todas se misturavam em eterno sonambulismo. Acordava no meio da noite, no meio do dia, sem saber o que se passava, se deveras acordado estava. O que era sonho, o que era realidade?

Toda uma vida buscando esta distinção; agora, em provecta porém tenra idade, não mais saberia dizer o que era isto, o que era aquilo, assim assado. Insônias, tantas noites em claro, teriam sido mesmo? Teria estado dormindo, enquanto julgava estar acordado? Seria este o ponto de não-retorno, a pedra filosofal, o encontro da razão em meio à lucidez, em meio ao onírico ser e estar, permanecer ficar, dali não estar? Não saber? Não dormir?

Nunca dormira, jamais sonhara. Tudo era um e outro. Outro e um.

Tudo ali era a vida, mas nada era vivo. Tudo ali eram coisas, mas desprovidas de outras coisas, sem istos e aquilos que poderiam ser...sem ser.Tudo era noite, tudo era dia. Dia a dia, noite após noite. Anos e anos. Cópias. O que poderia ser? O que seria,o que valeria? De quê valeria?

Sem sonhos, a vida era desprovida de sentido. Sem vida, era tudo um sonho, mau sonho, por vezes cruel. Pesadelos noites afora, sendo que não haveria maneira de distinguir, entre um e outro. Onde estava a vida, se anoite dela havia tomado conta?

Onde seria a noite, onde estaria aquele momento, pesado instante, onde a pálpebra pesada cerrava as cortinas, encerrava o dia, começava o tempo de sonhar? Sonhos. Tudo era um sonho dentro do sonho, dentro de uma vida que havia se tornado um pesadelo por se achar sem encontrar, lugar nenhum, aqui e ali.

Aqui e ali, em todo lugar. Sonhos. Sonhos.

Infindáveis retas, insondáveis números, estranhos afazeres, estranhas pessoas, debandando, não se manifestando, ausentes perspectivas, horizontes, pontos de fuga. Sonhos.

Estaria dormindo, estaria acordado? Seria ele apenas uma manifestação de outra pessoa, um fragmentos de alheia realidade, sonho do sonho?

Não saberia dizer, não soube dizer. Não lhe caberia dizer.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Noite.

Acordou dentro da xícara de café. Diante dele, mui tranquila, fumegante. Gole após gole, devolveu-lhe a vida que lhe fora tirada pela noite. Pelas noites. Noites e dias, tantas horas, tantas coisas. Nas ruas, poucas pessoas haviam a esta hora. Felizmente, café havia, em alguns noturnos estabelecimentos, que aos poucos despertavam, atendentes bocejantes e olhares remelentos. Noites mal dormidas, madrugadas despertas, há que se ganhar o pão nosso de cada dia. Cada dia. Cada vez mais, tudo era dia, dia após dia, noite após noite, as luzes significavam-lhe cada vez menos diferencial entre noturnos da madrugada e matutinas putas, cambaleantes pelas calçadas anônimas.

Lembrou-se de antigos romances, antigas narrativas, descrevendo tipos como ele, insones, perambulantes, calados. Tipos solitários, anônimos filósofos da noite e de toda sua extensão, das pessoas e todo seu negro lado, sua escondida existência. Ninguém saberia que o vizinho era uma vizinha nas horas vagas. Ninguém saberia que o estudante de medicina gostava de frequentar a zona baixa do mais baixo escalão das profissionais do sexo, a estudar venéreas contaminações, estranhas penetrações, bizarros afazeres de uma mente repleta de insanidade. Tanta gente morta, tanta gente moribunda. Não que merecessem compaixão: não, ele as detestava. Mas fascinava-se de vê-las se acabarem por seus excessos noturnos.

Ninguém estava vendo. Ninguém além dele.

Gritos abafados na madrugada, ele havia escutado. Não se aproximava, não se importava. Não queria se importar, não mais. Quem eram eles, elas? Ninguém, assim como ele era para eles, elas. Ninguém.

Ninguém.

Café, doce café. Amargo em natureza, adocicado por mera presença açucarada. O dia começava, para todos. Não para ele. Para ele, os dias nunca começavam, nunca terminavam. Meses a fio, noites adentro. Diziam-lhe muitas coisas, deveria se exercitar à noite. Não, pela manhã. Não, ao meio-dia. Não deveria se estressar. Deveria tomar banhos quentes. Frios. Ler livros difíceis de ler. Coisas amenas à cabeceira da cama.

À cabeceira da cama...existia o mundo. Nada leve, nada ameno, ao meio-dia, à madrugada, ao nascer do sol. Cinza sendo azul, negro como a alma dos homens. Credo, diziam, e se afastavam. Todos se afastavam. Todos se afastaram. Todos fizeram pouco caso, não é possível que exista alguém tão mal-humorado; egoísta! deveria pensar em quem está mal de verdade. Câncer. AIDS. Exames vestibulares, estupros. Não.

Dele não se lembravam. Só para menearem a cabeça. Não se lembraria deles também. Não mais.

No fundo da xícara, negro pó encharcado, prejudicando o aroma do café. Não seria necessário sorver aquele último gole. Só precisava de pagar ao bocejo operador da máquina registradora. Olhos vermelhos. Noite mal dormida, cá está um irmão, ainda que seja longe disto.

Muito longe disto.

Moedas, nota surrada. Obrigado, até amanhã. Sim. Para você também.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Das resoluções falhas.

Não demorou muito. Umas quarenta e tantas horas, mais, menos, desvio padrão da puta que o pariu. Pra merda com toda a matemática e os números, detesto números. Mas divago, pra variar. O que sucedeu foi que minha resolução de não sentir nada, como já era previsto, acertado, definido, não rendeu em nada. Melhor dizendo: a vã tentativa de nada sentir se converteu em extrema angústia, coisa que em mim tem um efeito maravilhindo, como diriam alguns colegas. Angústia, tristeza, estas coisas, em mim, geram paralisia. Ataques de pânico. Agorofobia, qualquer coisa do gênero. Se existir algum imbecil aí que denomine tais coisas como mera frescura, não irei desmenti-los, pois eu mesmo me canso de tal paralisia, me xingo e me agrido diante de toda esta merda, mas irei mandá-los terem à merda, alegremente. Se não querem ajudar, podem ir para a casa de vossas mães, seja lá onde elas morem, em meras casas de baixo meretrício ou em palacetes no Botafogo.

Tanto faz, tanto fez. A verdade é que, mais uma vez me identifico com o protagonista de um de meus preferidos livros, aquele que leio e releio pelo menos uma vez por ano - falo de "Sargento Getúlio", de João Ubaldo Ribeiro. E cito a frase que me define: "acho que careço de ter raiva."

Raiva. Enquanto o medo, a angústia, a tristeza, me paralisam, me fazem andar como uma lesma nas ruas infestadas de meras sombras de frangos, eternos obstáculos em meu caminho, a raiva me põe fogo nas vistas, me faz andar em velocidade lúdrica, me faz um "people dodger" mais eficiente. Me põe a tremer, de tanta adrenalina initerrupta em minhas veias. E me faz escrever aqui, resmungar, que seja, foda-se, com uma velocidade surpreendente. E bem sei que é por vezes deveras hilário observar pessoas como eu, eternos mau-humorados. É bom vê-los se fudendo, tendo crises nervosas, nos faz rir. Bem sei disso, sei que sou facilmente risível em todos meus devaneios raivosos do dia-a-dia. E, ainda que por dentro eu sinta vontade de matar todos que de mim riam, bem sei que ao menos para isto presto, para servir de mau exemplo, servir de comédia para outrem. "Ainda bem que não sou assim."

Me faz sentir, de certa forma, útil para algo, já que não presto para mais nada, já que me encontro em um estado latente de eterna panela de pressão, das mais fortes já inventadas, que não explode de maneira alguma. Deveriam me estudar para aperfeiçoarem tais utensílios. Imagino que nenhuma autoclave no planeta tenha mais resistência à pressão interna que eu. Me faz sentir orgulhoso, de forma doentia.

Ah, a insanidade. Ela se manifesta, por vezes, de maneira muito mais engraçada em uns que outros, não é mesmo. Sou muito mais ser louco desta forma que sair por aí matando crianças. Sim, bem sei que tenho meus devaneios assassinos, mas para isto me basta a imaginação. E bem sei que mais uma vez, o velho deitado é verdadeiro - cão que ladra não morde. Apenas fica puto pra caralho, com tudo e todos, com alguns amigos que exigem que eu saia de meu reduto apenas para nutrir mais ódio pelas sombras-obstáculo do mundo afora, apenas para que possam me analisar, dizer que eu não deveria ser assim.

Eu SOU assim. É diferente. E realmente, prefiro sentir toda esta raiva e continuar lúcido que sentir tristeza paralisante, humilhante, que me faz querer chorar em público, que me faz sentir ataques de pânico aflorarem sem motivo algum, no meio do centro da cidade, enquanto espero o leva-frangos para ir ter ao meu único local onde me sinto melhor.

Lado outro, bem sei que é difícil tolerar um ser tão repelente, e muito me espanto quando me repreendem severamente de não atender a locais púb(l)icos. Me surpreendo. Mas reconheço o motivo.

Eu não sou uma pessoa sã. Sou doente, sou mesmo. Mas este não é o tratamento de que careço.

Se algum dia serei uma pessoa normal? Não creio. Aliás, não creio mais em melhoras. E mais uma vez, me referindo a refêrencias como costumo fazer, ainda que me critiquem por isso fazer, cito aqui uma frase genial de música que considero genial,

"I don't try anymore,
'cause only booze improves with age."

Obrigado, senhores do Urge Overkill. E morram, por terem acabado, pulhas safados.

Como é bom reclamar. E que atire a primeira pedra quem não o faz. Atire a pedra, eu atirarei um tiro de bazuca. Mentiroso do inferno!

Tomem um triple goat de quebra:



Adoro este rabisco. Acho estranho que ainda existam imbecis que olhem para meu Bode e achem que ele é "dragão", "capetinha", etc. Mas como costumo dizer, "Inteligência tem limite. Burrice não."

Sim, está inacabado, para variar. No final, não consegui resolver os cascos do dito e me afastei do papel, antes que rasgasse tudo de ódio pela incompetência vitalícia. Mas, como diria alguns estudantes das artes flácidas por aí:



Tá vendo. A "faculdade" de "Belas" artes me ensinou algo. A ser picareta. Como 95% dos artistas d'hoje em dia.

Ah, como é bom reclamar!

Bem, podem usar este post como exemplo do que não deve ser dito caso se queira ter um bom dia. E aproveitem o final de semana...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Não dá.

Não.
consigo
dormir
não consigo
escrever
não con
sigo
pensar
em uma
forma
de
sair daqui
de
não
surtar
tremem
mãos
treme
mente
bate
na gente
na cara
da gente
olhos
rasos d'água
roxos
pelo impactto
punhos
meus
de ninguém
mais
não
consigo
não
consigo
não consigo

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Não.

Ontem. Foi difícil voltar para casa. Muitas emoções em conflito. Coisas internas. Coisas que me tiram a calma, me tiram o sono. Coisas que me impelem a escrever textos do gênero que escrevi na data de ontem. Negativas. Suicidas.

Viver, nada mais é que uma consecução de dias, uma consecução de achar algum sentido. Não enxergo mais sentido, mas nem por isso posso me ausentar de meus deveres enquanto "pai" de família, enquanto irmão, enquanto filho. Dizem que quem se mata é covarde, mas dizem também que aquele homem que se mata com um tiro sai deste mundo batendo a porta.

Ultimamente, era assim que estava me sentindo. Com vontade de bater a porta na cara deste mundo, destas pessoas, destes valores e convenções.

Ontem, tive mais uma noite que não houve. Na manhã do dia de hoje, decidi. Não sentir. Mais nada. Embora tenha funcionado adotar uma postura a la Rorschach(vide Watchmen) na manhã de hoje, bem sei que talvez isto não funcione muito tempo. Pois bem sei eu o que se passa dentro deste cadáver adiado que não procria e por aí perambula.

Muita coisa. Mas acho melhor fazer como um amigo meu, de meus maiores amigos de todosos tempos, afirmou. Ele me disse uma vez que pediu aos céus, a Mitra, seja lá quem for, que parasse de sentir. Isto, em pleno momento do mais franco desespero.

Afirma ter funcionado. Pois bem. Pedi o mesmo, pela manhã. E até o momento, tem funcionado. Coisas que me fariam gritar, me fariam ter ódio absoluto, não tiveram efeito quase nenhum em minha morta pessoa, nesta manhã do dia treze de Abril deste ano.

Que assim continue.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Deserto.

-Eu te odeio.

Nada. nenhuma resposta. Àquela hora, na calada da madrugada, esperava escutar réplicas; um par de pessoas mais normais já estariam se degladiando, se esfregando no chão, no asfalto, punhos cerrados, secos barulhos, oriundos de socos, muitos socos.

Mas nada. Silêncio.

Também, o que poderia esperar? Asfalto? A última estrada se acabara no nada, meio do nada, nada em direção a nada, lugar nenhum. Bem vindo seja. População: ninguém.

Ou alguém. Alguéns, se é que tal coisa existe. Se é que o que somos existe para fora além do que somos para dentro. Isto existe? Existimos para os outros, queur dizer, o que somos de nós para nós?

-Idiota.

Nada. Nenhuma resposta. O que é o silêncio para quem faz dele sua divindade? Seu deus? Existe algo além da humanidade não presente ali? nada, ninguém.

Não pode se olhar nos seus olhos sem ver o que acontece. Não poderia se ver sem se odiar.

Na surdina da noite, apanhou o carro, dirigiu muito tempo. Deserto. Nada além de areia e ninguém, por todos os lados. Deserto. Sim, como diria um certo alguém, grandes são, e tudo na vida é deserto.

Em sua vida.

Ninguém além do reflexo. Do que era. Do que é.

Ninguém.

Porquê...porquê não conseguia fazer como o que escrevera, escritor falido, de si para si, meses atrás. Por que não mais era aquilo? Havia alguma certeza? Havia alguém ali? Algo que prestasse? Para quê? Para servir de mau exemplo, de referência, paradigma do fracasso e da auto-piedade. Piedade?

-Filho da puta, eu te odeio.

Nem mesmo um eco. Não ali, não sem paredes ao redor. Nada, além do chão e das estrelas, tão distantes, tão mortas, luz morta a viajar, anos luz a fio. Registro incorreto de algo que fora e não mais era.

Assim como ele.

Quando, quando teria fim, tudo aquilo? Era isso que queria? Era isso que era? Pesadelo inacabado, inacabável. Eterno enquanto durasse. Enquanto vivesse.

-Por quê você não morre??

Todas as perguntas sem respostas...apesar de bem saber ele todas. Todas.

Não tinha mais nada a ser feito. Nada havia além do nada. Nada.

Areia e estrelas. Tudo e nada, assim como ele.

Assim como ele.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O psicopata ausente.

Curioso. Chego aqui neste antro de rotina pós-escravocrata-moderna, e me deparo com um bando de frangos, todos com olhos vidrados na pequena tela de quatorze ou menos polegadas de arcaico aparelho televisivo, todos mui atentos às palavras e imagens ali proferidas e difundidas, uma ou outra, tanto faz. Todos, todas, indignados, aterrorizados com as imagens, depoimentos, sobre a mais nova coqueluche dos telejornais do nosso paíseco de merda. Falo do massacre realizado em escola pública a la Columbine; nossa versão tupiniquim do massacre é agora difundida por todos os lados.

Eu, em minha típica conformidade inconformista de toda segunda feira, quase três semanas sem dormir direito, com vários problemas particulares e familiares me infernizando os dias, olhei aquilo, aquele bando de idiotas boquiabertos diante da exploração da mídia por cima da dor alheia, da incongruência humana, da publicação do desastre, de tudo mais, me senti com ímpetos de re-encenar, na prática, tal atentado, ali na cozinha. Livrar o mundo de alguns frangos. E depois estourar minha insone cabeça.

Sim. Que mau humor, que coisa terrível de se dizer, seu cínico, seu maldoso, seu pecador! Quem é você para julgar os outros, tu que fazes o que não deve, que propaga o mau humor, que se esconde do mundo, etc etc e tal?

Grandes merdas ser adevogado, como diz o refrão do trote divulgado na internet anos atrás. Bem sei que jamais faria tal coisa. Mas tenho imaginação, muita imaginação, e tenho raiva, muita raiva, tenho vontades que jamais farei, tenho ganas que jamais darei asas. Como diz outro poular "deitado", que atire a primeira pedra o que jamais matou outrem em imaginação, em momentos que amis pura raiva fez com que os dentes rilhassem de ódio. Se algum hipócrita se apresentar, creio que poderei matá-lo sem maiores problemas. Uma junta de mil e quinhentos "assassinos hipotéticos" me isentará da culpa. Alegarei legítima defesa perante o conjunto vazio que é um ser humano que jamais sentiu raiva, jamais sentiu-se frustrado.

Como é bom ter esta faculdade, poder fazer churrasco de frango sem chegar mesmo a mover sequer um dedo, sem ter que se impor ao julgamento da nação e se submeter às sanções da lei. Dia outro, cá esteve um amigo que nem mais bem sei por que assim ainda o chamo, "amigo", a me fazer chacota, me humilhar perante os outros funcionários de seu império de merda. Enquanto dizia seus impropérios, matei-o mentalmente umas três vezes, cada qual de maneira mais criativa que outra, enfiando sua cara no vidro estilhaçado por seu corpo, segurando sua cabeça e enfiando-a no monitos ligado à minha frente, quebrando um teclado em suas fuças, e...

Céus, todos dirão. Céus, todos se horrorizarão. E irão me tachar de louco, de psicopata latente, de ameaça à sociedade. Quanto tempo mais levará para semelhante Noiado levar a cabo suas fantasias psicóticas, matar gente, fazer o caos na terra?

O tempo de uma vida, presumo. O tempo de minha vida. Não se apoquentem com pouca coisa. Já diz outro "velho deitado", cão que ladra não morde. E lá quero eu me acabar de tal forma? Quero eu ser caçado como um animal, quero eu tentar amenizar o inferno dos outros? Não consigo sequer amenizar minha própria existência inútil.

Não se preocupem. São apenas sintomas de excessiva insônia, de auto-censura e auto-cobrança em demasia. De uma vida toda que podia ter sido e que não foi. Apenas devaneios de um ser risível.

E continuemos, avançemos sabe-se lá para onde.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

uawy854w5689olkmn;iesru09


45093783097w0jdszhklthirt?

wej9057wui po; ojrhs09io música do dia:


-Paper Tiger-

Just like a paper tiger
Torn apart by idle hands
Through the helter skelter morning
Fix yourself while you still can
No more ashes to ashes
No more cinders from the sky
All the laws of creation
Tell a dead man how to die

O deserts down below us
And storms up above
Like a stray dog gone defective
Like a paper tiger in the sun

Looking through a broken diamond
To make the past what it should be
Through the ruins and the weather
Capsized boats in the sea

O deserts down below us
And storms up above
Like a stray dog gone defective
Like a paper tiger in the sun

I just hold on to nothing
To see how long nothing lasts

O deserts down below us
And storms up above
Like a stray dog gone defective
Like a paper tiger in the sun.

(Beck)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

404 #6578674856E+49....atchim!

G'argh. Mais uma noite que não foi noite, e agora regada a vírus gripais. Alguém tem receita médica de um xarope que faça dormir?? Os norte-americanos dos estados fudidos têm o NyQuil, que temos nós? Maracuginas e atropinas falham.

Ao menos reduziram em meia hora a servidão escravocata aqui...

Ah, muco, tanto muco. Alguém quer um pouco de ostras? Ah ha ha, "seu tosco!"

Perdão. É a idade, é o teatro. É a gripe. E o sono...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Dormir? Que ser isso?

Noite, mais uma, em que você não veio, sua maldita, seu maldito, seja lá o que o for, sono, insono, Orfeu, Ofélia, a maravilhinda cozinha de. E tome, maracujás frescos, a parte verde é que funciona, mas não funciona, "só daqui a um mês", experimente sais de atropina, dizem que faz adormecer como ninguém. Ninguém mesmo, uma vez que de nada adiantou, drogas ilegítimas, ilegais, proscritas por lei, menos letais que o álcool, estas me fariam tão bem, ainda que me digam o contrário, que me estipulem o contrário, que me imponham o oposto do que gostaria de fazer, de ser. Ser? Será? Dormir? Que ser isso?

Lembrar-se de antigas reminescências, entrecortadas por sonhos irrequietos, memórias já muito desbotadas, artigos de segunda mão. Sonhar, acordado na noite negra, espessa como piche, sonhar com os olhos bem abertos, a mente fechada, pensamentos que não param. Exaurir o tema; insônia, insônia. Nestas silentes horas, o que fiz de mim? Nada. Que almejo? Não muito. Que sonhas? Pessoas...coisas...sonhos...de consumo. Alavancadas em Fenders, Gretschs, Gibsons. A presença, que tanto existe dentro de mim mas inexiste do lado de fora, censurada, anulada, temida, muito temida, pelo tempo, pelo espaço, pela moral e pelos bons costumes, regras e regulamentos, aberração, ó aberração.

Antigamente, havia em mim algo, hoje quase nada. Feliz, felicidade, o que é isso? O que significa tudo isso? Cores tristes, cores frias, misturadas com cores primárias, corpos em profusão, etéreos desejos, cada vez mais presentes, cada vez mais onipresentes, o dia inteiro, a vida inteira, anos e anos e anos. Queria ter, nesta hora, alívio nicotínico, mas estes abandonastes há tempo. Abandonastes? Quem? Com quem falas, ó voz? Vozes, tantas. Esquizofrenias ambulantes, noites sem dormir, vida sem viver. Viva, viva! Comemore, tens saúde, tens teto. Tens ninguém além de você e mais nada. Nada. Ocupando tudo, ocupando-se de todos, deixando-me aqui, sem querer, sem poder, sem fazer.

Bloqueios, bloqueiam, eu mesmo, os outros, todos, tudo. Sem coragem, sem saber como nem por quê. Sem ter nem saber, saber sem saber, não saber que sabe, não saber que sabem. Sabem, o quê sabem. Sabem que não sou eu? Sabem que não sou assim? Sabem que existem milhares de eus, aqui e ali, e naquele outro lado, por ali, por aqui, esquerda e direita. Nada, nada, nada, sabem, mas devem saber ou apostar contra, apostar desta maneira, sem maldade, com toda a maldade, honestamente. Honesto, franco. Foda-se, fodam-se, perdão. Não quero isto, não quero aquilo, o que quero? Dormir? Que ser isto?

Contar, aceitar, saber, saibam todos. Me apedrejem. Apedrejam-nos, apedrejam a todos que não são, como vocês, como eu mesmo, eu mesmo me apedrejo, eu mesmo sei que não devo, mas existo, me incomodo, sonhos, sonhos. Alavancadas bruscas, derrapadas num pedal de wah-wah solto no chão, bateria de 9 volts, cabos e amplificadores, canções que me fazem rir, me fazem chorar, são o que sou, mas não são o que queria ser. Matemática e quejandos. Filhos e pais. Dinheiro e ausência de. Pais, parentes, não, não, não aceitam, não querem, não sabem, não aceitarão. Dormem todos enquanto insone fico, permaneço, não sei, não sei. Até quando, até onde existe a sanidade? Até onde, quando, porquê?

Dormir? É para os fracos, ah ha ha, engraçadinhas são as vozes, os pensamentos, ainda mais retumbantes na hora morta e silenciosa em que mesmo as plantas se calam, todos os gatos são pardos, e fico eu aqui a comer cardo. Tudo tarda, a esta hora, mesmo que seja cedo, ainda é cedo, somos jovens, somos alegres, em demasia. Alegre? Que deturpação de palavra, tradução mal-feita, malevolamente colocada, calcada em falsa alegria. Não, não. Sonhe, mais um pouco, com aquilo que és mas não foi, com o que podes ser mas não és, de tudo e de nada, louco e pouco, temos todos. Dormir?

Nada se passou, o tempo morreu, mas a vboz maior, eletrônica veio a despertar aquele que não mais dorme. Atropina não funciona, maracujás não prestam, tarjas pretas transformam um ser mau-humorado por natureza em monstro ainda mais insuportável que a aberrante coisa que é por si mesmo, por ser sem nem saber para quê.

Levante-se, ganhe o dia, mesmo que ele te ganhe, como costuma acontecer.

Levante-se.

Dormir?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Primeiro.

-Hoje eu consegui dormir.

-Hoje eu achei uma White Falcon na rua!

-Hoje eu acordei calmo.

-Hoje eu consegui entender certa coisa que não conseguia entender nem aprender de jeito nenhum!

-Hoje eu não precisei fingir que estava tudo bem nos "bom dias" tradicionais.

-Hoje estou com imensa vontade de ir no casório láááá em Lagoa da Prata amanhã.

-Hoje eu consegui parar de me depreciar!

-Hoje eu me achei, por aí.

-Hoje...é primeiro de abril.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Leis.

(Voz de narrador de série enlatada estadunidense[americana é o caralho, seus pulhas estadunidenses]):


Previously on Noiado no Sótão:


Mas...por que...números, números...salários...binários...cobras e lagartos...falta disto...

Despertador. Logo agora! Logo no momento que comecei a entrar na terra dos sonhos!

Suspirar, resignar. Levantar. Quatro noites, é um novo recorde. Continue, continue.

(...)

Desci a escada e tropecei na lógica. Cambaleei, mas não pude agarrar-me ao corrimão da razão; logo, tomei aquele susto e levantei-me de supetão, novamente na cama. Mais um sonho! Mais uma hora perdida, mais uma noite sem dormir. Ora bolas.

Apanhei a capa, a espada, o bacamarte, os explosivos, a pia da cozinha, a nove milímetros e os remédios para fazer dormir, que achei mas não tinha. E avancei noite adentro, na calada das ruas, iluminadas por todas aquelas fantasmagóricas luzes amarelas dos postes, quantos postes, quantos insetos rondando. Algo de produtivo havia de ser feito naquelas insones e impropérias horas.

Inquisitivamente, indaguei sobre meu alvo. Algo precisava ser feito, de fato. Tarde era a hora que resolvi agir contra semelhante monstro, aquele que havia enunciado a lei do universo, a lei que governava não somente a minha, mas as vidas de todos os homens. Cruel preceito, de fato.

Tudo dava errado, entretanto. A fortaleza onde o tirano residia não era bem guardada, mas tudo que eu fazia para tentar ali adentrar-me sem sem detectado falhava, gatos vadios miando na rua, ratos por todas as partes, mulheres doidas a gritar, "flores para los muertos!" noite adentro, madrugada afora. No final, liguei o foda-se. Chutei a porta, mas ela não cedeu; como era que nos filmes aquilo sempre dava certo? De isopor, deviam ser as portas de Hollywood.

Logo apareceu na porta um senhor: era o próprio, meu alvo, aquele ser que devia ser eliminado. Engatilhei o revólver que trouxera na algibeira e apertei o cano contra sua têmpora esquerda. "Para dentro, cachorro. Acabarei com seu império nesta noite." Ele sorriu sarcasticamente, "Não, não acabarás." Mas aquiesceu, calmamente se dirigindo para dentro de sua modesta casa, sentando-se numa cadeira calmamente. "Sente-se," me disse.

"Prefiro ficar de pé." - "Ah, ficar de pé é bom mas pode causar varizes e até mesmo trombose." Lembrando-me repentinamente com quem estava lidando, me sentei. Ele sorriu. "Mas se a cadeira não for ergonômicamente correta, você pode ter sérios problemas na coluna." - "Maldito," repliquei. "você e sua maldita lei acabaram com minha vida! Com a vida de todos!"

Ele era puro sorriso. "Não, não acabei. Minha lei sempre existiu, desde que o mundo é mundo, desde que o universo começou, sabe-se lá como. O que fizeram foi simplesmente me atribuir a responsabilidade por algo que não é de minha alçada, nem da sua, nem de ninguém. Claro, algo tinha que dar errado e me fuder mais ainda a vida. É a lei."

Eu estava ficando impaciente. Tanto sono, tantas noites sem dormir, as noites, as palavras por ele proferidas, tudo, apenas uma cópia de uma cópia de uma cópia, xerox infinito e borrado do mundo real, se é que ele deveras existia àquela hora. "Não quero saber. Enunciastes tal lei, deves morrer. Morrerás, agora!" Apontei a espingarda para a cabeça de Edward, que nem sequer piscou.

"Não, não morrerei."

Clic. Merda! A arma falhou. Desembainhei o facão. "Não queria que chegasse a isso, mas se tiver de ser, será." Ele riu. "Não, não será." Raivosamente, brandi a machete com o intuito de decapitar meu oponente. A lâmina bateu no pescoço dele, mas fora ogrito de dor causado pelo impacto, nada mais aconteceu. "Merda, está cega!" Ele esfregou a mão na parte injuriada de seu pescoço, dizendo "Claro. Perdes seu tempo tentando me matar. Já disse, vai dar errado."

"SEU FILHO DA PUTA! Como é capaz que dê tudo errado??" - "Dando. Esta é a beleza da lei, da 'minha' lei, conforme dizem por aí. Se tentares jogar ácido em mim, garanto que de alguma fora o ácido que compraste, tão baratinho na loja de artefactos malignos de segunda mão, estará com a validade vencida e só tornara louras minhas já desbotadas madeixas. Vai. Dar. Errado."

Desanimado, e diante de tal irrefutável argumento, me dirigi cabisbaixo à porta. Entretanto, ao chegar na soleira, o rosto dele se transtornou e ele emitiu estranho grunhido, oriundo de alguma indefinida porémlancinante dor interna. "Argh. É o paradoxo da lei: se ela puder dar errado, dará."

Tombou morto ao chão. Fiquei alguns instantes ali, fitando seu inerte corpo. Eu havia vencido! Havia mesmo? É necessário experimentar. Mirei minha arma contra minha própria cabeça. Ela não estava funcionando, então nada daria errado, não é mesmo?

B-a-n-g.

Merda. Morri. Deu tudo errado.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Noite, morta.

Acordei sobressaltado, num repente repentino, com o perdão da cretina expressão. O sonho ainda não bem se desvanecera em minha mente, mas já não conseguia me lembrar de quase nada do que se passara. Algo relacionado a uma casa...uma pia, um estranho reflexo no espelho...nada que fizesse muito sentido, nem que tivesse algum significado especial, alguma sorte de mensagem do subconsciente inconsciente para a consciência consciente. Nada.

Quanto tempo havia se passado desde que tentara dormir pela enésima vez naquela noite? Busquei o despertador disfarçado de celular debaixo do travesseiro e olhei: vinte minutos desde a última checagem? Estava certo? Sim, estava. Não adiantava. O sono não viria, por mais uma noite.

Fiquei deitado ali, olhos bem abertos, fixos no ponto central do vórtice do cortinado. Escoar lento dos segundos, tempo que não voltaria mais. Para onde iam, todos os segundos? Talvez, atrás dos primeiros? Ah ha ha, que engraçadinho é o estado de semiconsciência. Deveras. Criatividade para se falar bobagem, isto minha mente tinha...tem, de montão. Agora, saber resolver as coisas que me deixam acordado...

O mundo tem peso, e é por vezes pesado demais para aqueles que tentam carregá-lo nas costas...para aqueles que tanto se mutilam mentalmente, todos os dias, sem nem saber por quê o fazem mais. De que adiantava? De que adianta?

Quantas perguntas cabem numa noite de vígilia?

Lá fora, o nada e o tudo se encontravam, em estados latentes de minha análise aprofundada porém inútil sobre els, tudo e nada, nada e tudo. Tudo ou nada? Verdade? Tabelas da verdade...computações...iterações...binários números, estranhos afazeres, estranhas lógicas que em minha mente não encontravam calço, não firmavam estruturas. CALE-SE, CALE-SE! ó maldita corrente de pensamentos.

Quantas telhas haviam naquele telhado? Quem sabe, se eu as contasse, o sono não viria? Uma, duas...aquela ali tem manchas de mofo...fungos...ous seriam líquens? Líquens? Ancient lichen? Poções, alquimia...profissões, outras vidas, não reais. surreais...será que eu ficaria mais feliz se tivesse alguém ali comigo, compartilhando toda aquelas inacabadas reflexões insones?

Quem? Quem seria obrigado a tolerar semelhante criatura? Ah ha, ha, lá vem ele de novo, o troll do pensamento. Ah, cretino. Como seria não ter semelhante residente em minha cabeça? Será que eu seria menos esquisito, menos estranho, menos idiota?

E agora, depois destas flagelações, quanto tempo havia se passado? Relógio, onde estás.

Cinco minutos. Hu-há. Ah, tempo. Porquê, passas tão devagar nestes momentos tão chatos?

Fechar olhos, rolar de cá para lá. Sentir, por vezes, a queda rumo ao vazio tão esperado da inconsciência...mas logo em seguida retornar ao silente e insone quarto. Quarto de hora, meia hora, hora e meia.

Mas...por que...números, números...salários...binários...cobras e lagartos...falta disto...

Despertador. Logo agora! Logo no momento que comecei a entrar na terra dos sonhos!

Suspirar, resignar. Levantar. Quatro noites, é um novo recorde. Continue, continue.

terça-feira, 29 de março de 2011

Morta noite.

Inútil. Continuar ali seria.

Os segundos, que tanto costumavam passar rapidamente em apertadas horas do dia, em momentos em que prazos venciam e tudo parecia estourar, agora eram contados em produtos de centenas de milhares. Sentou-se à beirada da cama, esfregou os olhos. Que horas seriam?

Meneeou a cabeça. Faria alguma diferença? Não muita.

Naquela cidadezinha, a vida era tão devagar quanto os minutos na calada insone da madrugada. Desde que aceitara o oneroso, pesadíssimo peso de herdar uma grande casa somada de grande quantia, bem sabia deste fato inegável. Quanto menor a cidade, maior é o tempo. Maiores são as fofocas. Oh, como são maiores as fofocas.

Pensara que faria bem em se mudar para o solitário sobrado herdado, e lá estava ele. Tal herança chegara em oportuníssima hora, momento em que mais uma vez cogitara encurtar abruptamente seu prazo de validade terrestre, uma vez que mais uma vez falhara em trilhar com sucesso nova oportunidade ofertada por alguns amigos, os poucos que nele ainda depositavam alguma confiança. Sentira-se tão imbecilizado e tão envergonhado, chegou mesmo a comprar, com seus últimos trocados, duas caixas de potentes barbitúricos e uma garrafa de potente porém vagabunda beberagem alcóolica. Organizara seus afazeres, queimara seus segredos que não esperava encontrarem após sua extinção, e esperara a coragem chegar.

Não chegou. A tempo, entretanto. Logo, logo, veio a notícia do falecimento de distante parente, dono de toda aquela imensa casa vazia, daquele imenso numerário, parente este que visitara muito tempo atrás, e com ele confraternizara, compartilhavam de muitas opiniões atravessadas, alienadas pela maioria dos homens, idéias sobre vida e morte, sociedade e saciedade, modernismos incongruentes e fascismos ditados pela moda, pela igreja, pelo estado.

Passara ele na sua frente, o parente. Descarregara uma velha espingarda calibre doze nas fuças, semanas atrás. Deixara quase tudo para seu torto sobrinho, com a condição que a casa habitasse. Nem chegou a pestanejar muito. Acertou as dívidas que ainda existiam, enviou toda sua tralha para a solitária casa e para lá se mudou. Adiara momentaneamente a excursão para alhures locais, além desta terra, deste planeta, destas pessoas tão insolentes e de toda esta merda. Por hora. Agora que não necessariamente devia nada a ninguém, quem sabe? Talvez encontrasse alguma motivação real.

Ouviu as fofocas das tias velhas, lamúrias pelas vidas reumáticas e ausência de dinheiros, aceitou visitas incômodas de estranhos desconhecidos que afirmavam ser credores de seu tio, tolerou duas semanas, até comprar um par de imensos canzarrões que agora reinavam no terreno circundante à casa. Estragou de propósito a campainha e gozou de merecido silêncio. As pessoas, sempre lhe perseguiam. Não desta vez. Elas que se danassem. O espaço que separava a porta da frente do portão de sua propriedade era suficientemente grande para isolar acusticamente seus ouvidos dos clamores dos reclamantes.

Após ter feito tal revisão interna dos acontecimentos passados nos últimos tempos, olhou para o imenso e antiquado relógio à cabeceira da cama. Cinco minutos haviam se passado. Suspirou fundo e se levantou. A casa era grande, andaria de quarto para quarto, de cômodo para cômodo, até o sono chegar ou o dia raiar. Estava farto de insônias; se acostumara com quase tudo na vida, mas não com a ausência daquele escape perfeitamente legalizado da realidade, da vida, que apesar dos novos números e da nova casa, continuava insossa e ausente de vida propriamente dita.

Caminhou no escuro, esbarrando em móveis. Nem se incomodou em acender luzes. Onde quer que o sono batesse, ele encostaria e dormiria. Passo a passo, rondava como um fantasma pelos silentes cômodos. Silêncio, silêncio. Negrume quase completo nas vistas, e por vezes o detector de móveis no escuro - suas canelas - se chocavam com objetos não identificados, que eram devidamente chutados e xingados.

Idiota, acenda a luz. Não queria. Não sabia por quê, mas não queria. Lá fora, tudo era silêncio, a não ser pelos insetos da noite, pelas corujas que por vezes piavam, e pelos qui-qui-quis dos morcegos que por ali passavam, engolindo insetos. O latido ocasional de seus cachorros. Fora isto, nada. Bem diferente da biboca tosca que residira naquela cidade grande, agora tão distante. Como eram barulhentas as noites ali. Talvez fosse isso, seus ouvidos ainda sentiam falta de ouvir todos aqueles urbanos rumores.

Entrou num banheiro, tateou até encontrar a pia, lavou o rosto, sorveu um tanto do líquido, bochechou. Frigidíssima água aquela, e um tanto ferruginosa também. Gosto de sangue, óxido de ferro, hemoglobina. Ha! Como seria hilário acender a luz e---

Clic.

Luzes que lhe cegaram momentaneamente as vistas. Porra! Só faltava esta. Sistemas elétricos malucos naquela casa, que acendiam do nada. Esfregou os olhos agredidos pela luz repentina, e quando os abriu, olhou para o espelho.

Água na face...água...vermelha?

Cambaleou para trás, olhou para a pia, onde a água ainda corria. Água? Ou...

Sangue?

Os esbugalhados olhos se voltaram para o espelho. Viu novamente sua cara aterrorizada, e por detrás de sua cabeça, alguns passos atrás...uma coisa, um vulto, algo que não sabia o que era. Sentiu a pressão sanguínea subir até o limite do suportável, parou de respirar. Não vislumbrou a vida toda passar, pois estava muito assustado para pensar.

Não viu nem sentiu mais nada além de estranho sussuro em seus ouvidos. E a escuridão se fez novamente reinante.