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terça-feira, 29 de março de 2011

Morta noite.

Inútil. Continuar ali seria.

Os segundos, que tanto costumavam passar rapidamente em apertadas horas do dia, em momentos em que prazos venciam e tudo parecia estourar, agora eram contados em produtos de centenas de milhares. Sentou-se à beirada da cama, esfregou os olhos. Que horas seriam?

Meneeou a cabeça. Faria alguma diferença? Não muita.

Naquela cidadezinha, a vida era tão devagar quanto os minutos na calada insone da madrugada. Desde que aceitara o oneroso, pesadíssimo peso de herdar uma grande casa somada de grande quantia, bem sabia deste fato inegável. Quanto menor a cidade, maior é o tempo. Maiores são as fofocas. Oh, como são maiores as fofocas.

Pensara que faria bem em se mudar para o solitário sobrado herdado, e lá estava ele. Tal herança chegara em oportuníssima hora, momento em que mais uma vez cogitara encurtar abruptamente seu prazo de validade terrestre, uma vez que mais uma vez falhara em trilhar com sucesso nova oportunidade ofertada por alguns amigos, os poucos que nele ainda depositavam alguma confiança. Sentira-se tão imbecilizado e tão envergonhado, chegou mesmo a comprar, com seus últimos trocados, duas caixas de potentes barbitúricos e uma garrafa de potente porém vagabunda beberagem alcóolica. Organizara seus afazeres, queimara seus segredos que não esperava encontrarem após sua extinção, e esperara a coragem chegar.

Não chegou. A tempo, entretanto. Logo, logo, veio a notícia do falecimento de distante parente, dono de toda aquela imensa casa vazia, daquele imenso numerário, parente este que visitara muito tempo atrás, e com ele confraternizara, compartilhavam de muitas opiniões atravessadas, alienadas pela maioria dos homens, idéias sobre vida e morte, sociedade e saciedade, modernismos incongruentes e fascismos ditados pela moda, pela igreja, pelo estado.

Passara ele na sua frente, o parente. Descarregara uma velha espingarda calibre doze nas fuças, semanas atrás. Deixara quase tudo para seu torto sobrinho, com a condição que a casa habitasse. Nem chegou a pestanejar muito. Acertou as dívidas que ainda existiam, enviou toda sua tralha para a solitária casa e para lá se mudou. Adiara momentaneamente a excursão para alhures locais, além desta terra, deste planeta, destas pessoas tão insolentes e de toda esta merda. Por hora. Agora que não necessariamente devia nada a ninguém, quem sabe? Talvez encontrasse alguma motivação real.

Ouviu as fofocas das tias velhas, lamúrias pelas vidas reumáticas e ausência de dinheiros, aceitou visitas incômodas de estranhos desconhecidos que afirmavam ser credores de seu tio, tolerou duas semanas, até comprar um par de imensos canzarrões que agora reinavam no terreno circundante à casa. Estragou de propósito a campainha e gozou de merecido silêncio. As pessoas, sempre lhe perseguiam. Não desta vez. Elas que se danassem. O espaço que separava a porta da frente do portão de sua propriedade era suficientemente grande para isolar acusticamente seus ouvidos dos clamores dos reclamantes.

Após ter feito tal revisão interna dos acontecimentos passados nos últimos tempos, olhou para o imenso e antiquado relógio à cabeceira da cama. Cinco minutos haviam se passado. Suspirou fundo e se levantou. A casa era grande, andaria de quarto para quarto, de cômodo para cômodo, até o sono chegar ou o dia raiar. Estava farto de insônias; se acostumara com quase tudo na vida, mas não com a ausência daquele escape perfeitamente legalizado da realidade, da vida, que apesar dos novos números e da nova casa, continuava insossa e ausente de vida propriamente dita.

Caminhou no escuro, esbarrando em móveis. Nem se incomodou em acender luzes. Onde quer que o sono batesse, ele encostaria e dormiria. Passo a passo, rondava como um fantasma pelos silentes cômodos. Silêncio, silêncio. Negrume quase completo nas vistas, e por vezes o detector de móveis no escuro - suas canelas - se chocavam com objetos não identificados, que eram devidamente chutados e xingados.

Idiota, acenda a luz. Não queria. Não sabia por quê, mas não queria. Lá fora, tudo era silêncio, a não ser pelos insetos da noite, pelas corujas que por vezes piavam, e pelos qui-qui-quis dos morcegos que por ali passavam, engolindo insetos. O latido ocasional de seus cachorros. Fora isto, nada. Bem diferente da biboca tosca que residira naquela cidade grande, agora tão distante. Como eram barulhentas as noites ali. Talvez fosse isso, seus ouvidos ainda sentiam falta de ouvir todos aqueles urbanos rumores.

Entrou num banheiro, tateou até encontrar a pia, lavou o rosto, sorveu um tanto do líquido, bochechou. Frigidíssima água aquela, e um tanto ferruginosa também. Gosto de sangue, óxido de ferro, hemoglobina. Ha! Como seria hilário acender a luz e---

Clic.

Luzes que lhe cegaram momentaneamente as vistas. Porra! Só faltava esta. Sistemas elétricos malucos naquela casa, que acendiam do nada. Esfregou os olhos agredidos pela luz repentina, e quando os abriu, olhou para o espelho.

Água na face...água...vermelha?

Cambaleou para trás, olhou para a pia, onde a água ainda corria. Água? Ou...

Sangue?

Os esbugalhados olhos se voltaram para o espelho. Viu novamente sua cara aterrorizada, e por detrás de sua cabeça, alguns passos atrás...uma coisa, um vulto, algo que não sabia o que era. Sentiu a pressão sanguínea subir até o limite do suportável, parou de respirar. Não vislumbrou a vida toda passar, pois estava muito assustado para pensar.

Não viu nem sentiu mais nada além de estranho sussuro em seus ouvidos. E a escuridão se fez novamente reinante.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Não se deve...

...e continuemos, prossigamos. É necessário manter as forças, não desanimar, não desistir, ainda que muitas vezes o corpo, a mente, nos traia e insista em permanecer no caminho errado.

...veja os bons exemplos, não siga os impulsos negativos. Tentar até morrer, até conseguir sair da merda, da bagunça que os caminhos errados nos levaram. Siga.

...mente, fique sã, fique calma. Esfrie, não esquenta. Sim, são muitas possibilidades, tantas que às vezes nos perdemos. Mas tente focar, aprenda a focar. Por Mitra, por uma vida melhor.

...não se deve, desanimar. Não se deve fazer de pequenas pedras montanhas intransponíveis. Aprenda a se manter calmo, não se desvie, não deixe ficar.

...que as forças não me falhem. Que saia deste lugar, desta cabeça...todas as coisas que desejo aniquilar.

...siga o bom exemplo. Seja você quem for, não se deve desanimar. E que todas as forças em contrário, se não puderem ser definitivamente caladas...podem sim, ser ignoradas.

...prossiga, siga. Faça o que deve ser feito. Conceda a si mesmo o que deve ser concedido. Continue. Não desanime.

Que assim seja, pois. A-meim.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Assim.

Assim foi.

Foi indo, na direção oposta a que todos se dirigiam. Diziam, diziam muita coisa, mas não escutava. Já havia ouvido antes, não mais. Não naquele momento. Diziam que não vali a pena ser Y enquanto o X era reinante, e quando se dirigia ao lado Y, dissidentes diziam o contrário, que era melhor ser assim e assado, ao invés de assado e assim. Assim.

Assim, foi indo, sem nem mais saber para onde, tudo era possível se assim fosse, aparentemente. Sendo sem ser, sem se preocupar em ser. Era o que fazia mais sentido em tudo aquilo, em todo aquele mar de dizeres, palavras e conselhos. Todos sabiam o que era melhor para ele; ninguém sabia o que era melhor para si. Assim.

Sem rumo, assim como todos que eeram como ele, que um dia já foram e não mais eram. Que tentaram ser mas não conseguiram ser, não por terem falhado, não por terem fracassado: simplesmente não o eram. Nunca fora como eles, nunca fora de tal forma igual, mesmo que o fosse, na superfície fútil que todos avistavam, que todos analisavam.

De nada sabiam: o que acontecia, o que era de fato, exisitia lá dentro, lá no interior. Em seu inteiro ser, sendo sem ser, mas sendo sendo, aparentemente. Sendo sem ser, sem ser. Assim.

Quem sabe de tudo, não sabe nada.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Fim.

No final do túnel, havia a luz.

Negro túnel, coberto por estranhas ranhuras em suas paredes metálicas. Olhava e olhava, minutos e minutos se passaram, mas lá do fundo, nenhuma luz saía. E ao redor, naquelas paredes que pareciam cada vez mais se fechar, nada acontecia. O tempo não parecia estar correndo.

E apesar disso, algo dentro de si sabia que deveria estar ali por mais de hora. Mas tal era o estado prostrado que se encontrava, não saberia dizer com precisão quanto tempo ainda restava, quanto tempo passara. Tempo, tempo. Do fundo do túnel a luz emanaria, libertando-o para sempre de tudo, de todos. De todos? De si.

Lá fora, inexistência por todos os lados. Névoa branca cobrindo as montanhas, rasas montanhas, pequenas elevações do solo. A neblina escondia tudo, todos. Quanto tempo ainda passaria até a luz aparecer? Não saberia dizer. Enevoada era sua vista, tomada por tantos compostos, manufaturados por máquinas, embalados por máquinas, engolidos por um ser humano. Não tão humano, não tão ser assim.

Aparentemente.

O foco se dirigiu para pequeno parafuso no corpo metálico. Mais para o lado, madeira, e outro parafuso. Smith? Wesson? Estranhos dizeires, escritos. Impressos na máquina de projetar chumbo, pequenas porções de morte. Não pensava direito, não conseguia pensar direito. Lá no final estava a luz, o fogo, aguardando o estalido da mola, o impacto da espoleta. Clic. Bang.

Onde estava a luz naquele dia, naquele negrume raiado? Pesado, em sua mão, estava aquele artefato. Não matarás. Não mataria, apenas...liberaria. Liberdade. Para ser nada. Para abraçar o que sempre fora, nada, noves fora, nada, nada.

Tudo passava, tudo passa, diziam. Não. Nada passava. Nada passou. Nem mesmo o tempo, agora também deformado pela ação de tantos fármacos. Dê o melhor de si. Faça por onde. Vozes, estranhas vozes, já não saberia dizer se era efeito de um ou de outro, de sua cabeça ou do coquetel de coisas, garrafa de coisa, quebrada, cacos por todo o chão, naquele canto.

Músculos oftálmicos cansados desviaram o olho para o chão, para o canto onde os cacos jaziam. Que sujeira. Iriram achar uma bagunça miserável, lhe xingariam, amaldiçoariam seu cheiro, imprestável, apodrecendo. Tempo, tempo. Tic tac, tic tac. Tudo pesava, mesmo a morte em sua mão. A luz, deveria achá-la. Se não podes vencê-los, junte-se a eles. Mesmo? Não.

Não, não. Jamais.

Pesado era o cabo, pesado o gatilho. Onde mesmo conseguira aquilo? Roubara, de seu irmão que havia roubado de outro familiar, esquecido pelo tempo, enegrecido pelos óxidos de ferro. Lá no fundo estava a luz, lá no fundo estava. Clic. Bang. Retesar antigos e carcomidos mecanismos, em amolecida mão, era uma tarefa demasiado dura. Mas era necessário. Não sabia se iria aguentar muito tempo, mas tinha que tentar, tinha que encontrar.

Contração, lembrou-se de processos musculares, fibras, actina e miosina, sarcoplasma. Ecos, ecos numa imensidão vazia mas tão cheia de nada que tudo ali era apenas um eco, ainda mais agora. Força, bombas de sódio! De potássio! Potássio. Do Kazakistão? Daquele país onde um bigodudo cujo nome nem mais conseguia fixar em sua mente, havia...feito coisas, mas era tudo um filme. Uma mentira em série.

Força.

Clic.

Dizem muita coisa, dizem estar a luz lá no fundo. Dizem que sua vida passa diante dos olhos, mas o que via era apenas o túnel metálico, as raias que conduziam ao plúmbeo projétil, incisivo instrumento de aniquilação de idiotas que não sabem viver, aparentemente. A mola soltara, o cão se movimentava, martelo final com o qual fixaria o último prego naquele paletó de madeira que não existia, além de seu corpo, além das tábuas do chão, dos cacos mais adiante, da efusão química que naquele corpo circulava, naquelas veias. Um ou outro, a luz ou a corrente de tóxicos, lhe levaria dali.

Clic.

É muito rápido. Não dá para se pensar em nada. Não se consegue rememorar nenhuma lembrança, não existe nenhuma epifania num átimo de tempo feito aquele. O cão se aproximava, em milionésimo de segundo, mais e mais, para a fonte de luz e de escuridão. Clic.

O que mais queria? O que mais encontraria, naquele momento final? A redenção, a danação eterna, o condenamento por suas ações, por sua fuga? Não poderia saber, em menos de um segundo. Clic, era tudo que poderia ter ouvido, tudo que ouviu antes. Da luz. Do fogo.

Muito iriam dizer, muito iriam xingar, mas nada iriam saber, sobre tudo que naquele eterno eco, naquele vazio absolutamente cheio que ecoavam vozes e fatos, memórias e recomendações, assim e assado, isto e aquilo, nada, nada. Nada iriam saber. Muito poderiam dizer, mas nada iriam descobrir, porque será.

Clic.

Já era muito tarde agora, bang.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Retorno.

O Adicto anda pelas ruas, anda pelos lugares, vê pessoas e gentes por todas as partes, mas não Pessoas, muito menos Gentes. Ele sabe que deveria encontrar, sabe que deveria achar, mas não sabe onde. Procura e procura, mas tudo lhe faz perguntar, questionar. Sente o retorno se aproximar, o retorno, a proximidade dele, e se assusta. Com o tanto que deseja, precisa retornar.

Para onde? O Adicto é adicto, é viciado. Não precisa de uma razão, um motivo, se assim apenas o fosse. Mas não é. Ele sabe de sua razão, sabe de seus motivos. Tenta e tenta se manter distante, mas sabe que não dá mais conta. Infiel, dirão uns, maluco, dirão outros, e todos o apedrejarão. Todos, menos seus companheiros de vício, que ele sabe bem onde encontrar, assim que o retorno acontecer. E deve acontecer, vai acontecer, bem sabe ele.

O tempo passou, anos passaram, longe. Mas em verdade, ele sabe que não saiu do lugar, não encontrou algo que só o retorno pode oferecer, naquele lugar, naquele mundo que só ele sabe acontecer, ali, somente ali, onde ele sabe que deve se encontrar. O Adicto sabe que talvez, porventura, não devesse agir como tal, mas está cansado. Cansado de tanto tentar, nunca conseguir. Tanto olhar mas nunca encontrar. Adiantará retornar? Conseguirá, de fato, retornar? E se depois ali não mais se encontrar, conseguirá ele voltar?

Não sabe. Não pode saber. Repire fundo, senhor Adicto. A coisa irá engrossar, o tempo irá passar, a vida prosseguirá, por todos os lados, por todos os lugares. Mesmo para ti, que retornarás. Que está retornando, mesmo sem saber se deve, se pode. Mas Adictos sabem: eles se afastaram, mas nunca dali saíram. Eles sabem, e o Adicto não é diferente. Ele sabe. E teme. Mas todos se cansam. Todos aqueles, que tentam encontrar mas não acham, sabem. Sabem que o tempo passa e as coisas deveriam acontecer, mas não acontecem. Não àqueles que são como ele. Adictos.

Prossiga, vá em frente. Caso tudo dê errado, o mundo real cá estará, ele sempre esteve. E o tempo passa, bem sabemos todos. Assim ou assado, acontecerá. Os relógios não param, ainda mais com tanta fonte de energia sustentável, tantos servidores, tantos reatores. Tantas células independentes, tanto progresso. Para o Adicto, nada disso presta, nada significa. Chega.

O retorno, irá acontecer. Está próximo. Em seu sangue, a sensação é de fissura. Tremores. O coração dispara quando vê a coisa diante de si. O mundo, o Mundo. Todo o Mundo, toda sua inutilidade e toda sua glória; todas suas cores, sons, criaturas. Tudo que ali está, encerrado dentro daquela caixa, daquele local. O Adicto suspira e pensa mais uma vez no outro mundo que está prestes a abandonar. Valerá a pena?

Só existe uma maneira de saber. Somente uma.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Planejamento.

Vá para a casa de seu amigo, seu irmão. Vá e se reencontre. Em meio à trivialidade e saudosismo, se reafirme no que és. Feriado, feriado, tão poucos, tão queridos, por todos nós meros mortais que não nascemos em dourados berços de diamantes e ouro branco, ainda que mesmo assim seriam prateados, por assim dizer. Relembre tempos passados, ressurja das cinzas que antecederam tal data. Encontre.

Sinta a umidade do ar, beirando a casa dos milhares, uma vez que centena nenhuma poderia ser mais descritiva, sinta o frio local, que tão bem conheces, desde tempos primordiais. Chegastes preparado? Deveras, deveras, bem conheces tal clima, tal local. Névoa, "neve" a perder de vista, mesmo que avista não valha para muito no presente momento, em presentes circunstâncias.

Amigos, amigos, bem vindos sejam, bem aventurados sejam, que nos fazem rir, sorrir, no meio de tanta chatice humana, desumana, profissional, pessoal, passional, seja lá o que mais. Beba, beba, sorria, fume, se divirta. É uma ocasião especial, deveras. Sinta o etanol rodar, rodopiar sua cabeça, ameaçar expurgar além das mazelas triviais, banais, boçais, de tua cabeça, o conteúdo de peixes e cogumelos comestíveis de seu estômago. Resista! Visites a cama, porém não o banheiro.

Não sem antes desastrada e etílica mão quebrar em pedaços alheia propriedade. A vergonha, a vergonha. Acontece com os melhores e piores bebuns. Enfim.

Reencontre velhos amigos, cada qual de seu jeito, cada qual com seu jeito, sinta raiva daquele que é mais contundente mesmo sem ser um cretino, sinta a inexistência crescer dentro de você diante de tal comentário, tão normal a seu amigho quanto o ar que respiramos. Sinta a raiva aflorar, mas aquiesças em silêncio. Bem sabes o tão retardado e reclamativo andas em seus escritos, em seu ser.

Entretanto, tenha a errada viagem de crescer tal certeza em tua cabeça enquanto recusas novas socializações. No interior lúgubre de teu barco sem mar, seu quarto especialmente arranjado, sintas a inexistência tomar conta de teus pensamentos antes de dormir. Tenha raiva mais uma vez de teu amigo, mas saibas que foi culpa sua, sempre é culpa sua.

Não estragues o feriado. Passe por cima, acorde no dia seguinte, tudo em seu lugar, todas as paredes e muros com suas pedras e tijolos de silêncio e resignação.

Apareçam, outros companheiros! Aquele que foi seu companheiro em outro mundo nada real, e aquele que todos insistem em caçoar, de seus repentes e dizeres não muito pensados. Converse com este e aquele, sinta novamente a inexistência aflorar, a necessidade quase insana deste mundo abandonar, e retomares irreal vida, irreal ocupação no mundo das máquinas, da fantasia cibernética que já foi oitenta e cinco por cento de sua vida. Sinta o apelo de tal chamado, irresistível e perigoso, pelo ponto de vista de certa porção dita racional de tua mente e aos olhos de psicólogos, antropólogos, psicanalistas e quejandos.

Vá dormir, novamente. Mais cedo, mais faminto por sentidos, antes de perder os mesmo, naquele embalar mole da cama, da sonolência, de teu barco sem mar. Dia seguinte, reencontre o dono da casa, tudo em seu devido lugar, mas o vazio tomando conta de tudo. Sinta novamente a tentação de seguir adiante o plano de tudo abandonar, e ceda levemente, tome o primeiro passo. Pouco falta agora, para tudo recomeçar. Tudo terminar. Veja maus filmes, coma boas comidas, veja discussões alheias, se pergunte se existe união realmente valiosa, questione pele enésima vez a possibilidade das pessoas ficarem juntas. Vá dormir, novamente.

Acorde e vá trabalhar, sentindo o distante apelo da virtualização de teus problemas. Se pergunte se existes deveras, sendo humano sem deveras assim se sentir.

Onde está seu lugar? Aqui, neste mundo, dito real, ou ali, onde nada é de fato verdadeiro?

Sinta, em plena terça-feira, o ocaso de uma segunda que não teve lugar.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Esquizo.

Abrir caminho por dentro deste tijolo de cristal pode ser das tarefas mais inglórias do universo. Mas é preciso continuar. É preciso viver, ainda que não saibamos por quê, para quê. Viver e viver, ainda que sua existência tenha se tornado algo feito água destilada, sem gosto, sem cheiro e que de quebra ainda sequestra eletrólitos vitais nos rins ao passar.

E ironicamente, é assim que muitos nos tratam quando passamos por tais momentos na vida, como se fôssemos algo incômodo, inoportuno. Concedo; ninguém é obrigado a tolerar alguém como nós, os diversos seres que habitam dentro de uma pessoa apenas, se todos eles se tornam demasiado lamurientos, por assim dizer. Mas nós, as vozes que habitam este vale imenso e vazio de uma cabeça humana, só ansiamos por alguma espécie de direção, alguma sorte de salvação, bem no olho do furacão.

Quem irá se aventurar no interior deste vazio, onde somente as vozes existem, caixa de pandora onde tudo que é ruim ainda se encontra encerrado e a esperança lá fora ficou, versão invertida do conto, ponto por ponto.

Dizem ser necessário trocar, mudar. Troque de sonhos! Troque de cabeça, não seria mais fácil dizer? Troque de vida. Re-comece. Faça, faça!

No eco de toda essa confusão, o ribombar de todas as vozes fazem-nos entontecer, forte sabor de álcool na boca, nos rins, no fígado. E álcool causa perda de memória, ou pior ainda, perda de memória. Logo, é necessário afogar-se em tal etílica substância. Dizem que devemos afogar as mágoas na sopa de etanol, mas bem sabemos, as vozes não morrem. Nem mesmo nadam, somente flutuam, existem dentro deste eco do eco do eco. De algo que já foi e não mais é.

Peça ajuda, mas como? Uma vez que não querem, não devem dar ajuda a um "mindingo", um "pilingrim", ele deve aprender a se ajudar. Fica mal. Queima o filme ajudar a pôr de pé aquele que irá cair novamente. Façamos de conta que lá não estão, ignoremos seus telefonemas, seus apelos; um dia ele cessarão, um dia eles morrerão.

Aí poderemos todos nos unir e dançar um rumba por cima da terra que os comeu.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Poesia.


De dia, o sol brilha.
De noite, a lua brilha
E eu corto sua cabeça com uma foice.

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Sei lá. Nem tô de mau humor nem nada, só "pildido".

Aí deu na telha postar este velho poema nonsense, de autoria de Antônio, o Gengiva, circa 1996.

O rabisco é meu mesmo, de 2005 eu acho.

Este poema é tão poético. Tão singelo.

Por vezes, queria cortar meus problemas com uma foice...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Phoenix.


Não fica no Arizona.

Mora aqui mesmo, em mim.

E significa renascer das cinzas, de fato.

Ou apenas uma possibilidade de reerguer-me.

Ou ainda o despertar de antigos sonhos, antigas vontades.

Mais uma vez, estendem-se possibilidades.

Que seja desta vez.

Ameim.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pu-purri.

Tanta coisa pra fazer, não é verdade? Tantos lugares que ainda não conhecemos, coisas a serem vistas, comidas a serem experimentadas, temperos a serem degustados. Viajar, viajar, experimentar, dizem ser, dizem saber. Ir e vir, estar sempre em estado de eterna partida, por assim dizer.

Cheiros bons das manhãs, as padarias e seus pães fresquinhos, o bom café. Cheiro da chuva na terra seca, som das gotas em telhas de barro cozido, ali organizado em seu teto, além mundo escondido num canto da cidade, num canto da bagunça urbana, onde cantam curiangos, onde malacos vão incomodar, por vil necessidade de tanto invejar.

Palavras por outrem escritas, mesmo do além mar, onde a europa jaz, donde Pessoa escreveu, donde tantos outonos estão a passar, enquanto aqui nós temos nossa mais gélida primavera dos últimos dez anos de todos os tempos; lá esta a Loba ao sul que não me deixa mentir, eis que lá é ainda mais tenebroso, mais rigoroso, o frio que não acalenta, à espera de quê, à espera da vida? Como faz, como faz?

E mesmo ao norte, em remota porção por nós do centro-sul do centro-oeste sudeste tão desconhecida, existe um Símbolo a falar, a escrever, a pensar e a ler, coisas bem mais contundendes que um mero Noiado qualquer jamais ousaria escrever, tamanha é sua não-vida, tamanha é sua incompreensão do mundo vasto mundo sem nenhum Raimundo que sirva de rima nem de solução. Tente, tente, quem sabes um dia acontece?

Pois ali não existe o horário de verão, cá não existe chuva em julho, em maio. Cá não temos florestas, temos cerrados, temos civilização? Temo, de fato? Teremos? E o que diria de nós o amigo europeu? Cá somos apenas um nada, um país de selvas e Samba? Não, quem pensa assim são estadounidenses, aqueles arrogantes seres que se afirmam "americanos", esquecendo de todas as outras américas.

Tentemos focar no bom lado da vida, o cheiro do café, o cheiro da padaria, e tantos outros aromas que alguns de nós não conhecem ainda. A companhia de nossos animais de estimação, tantas vezes mais humanos que muitos frangos por aí circulantes, a contemplação das caducifólias d'além-mar, tão exuberantes em cores.

E que todos nós encontremos uma maneira de salvar nossas vidas, nossas vidinhas, tão ordinárias, tão extraordinárias, dependendo do dia, do momento.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Escrita e dados perdidos.

Escreve, escreva, não me importo, escreva. Escrito na parede, no abismo da parede do quarto sem teto, sem forro, sem aquecimento, sem telhado, sem eu, sem você, escreva. Máquinas de escrever, estas não mais existem, mas funcionam como tal, estas máquinas modernas, conectadas aos tubos globais, internetais, que tanto unem as pessoas, mantendo-as distantes.

Existem, existem, seres como eu, como você, como nós, por aí, por ali, por este planeta? O que fazer para encontrá-los, além de aqui estar, digitar, fazer contabilidades, senos, co-senos, co-secantes, co-molhantes, parábolas, forças de Van der Waals, móleculas de trítio, sódio, deutério, deuterostômios, protostômis e quejandos.

Quantas palavras difíceis acumuladas de tempos remotos, nerd da pré-escola, pré-faculdade, pré-faz de conta ou simplesmente FAE de conta, como bem o verifiquei com estes olhos que a terra há de fagocitar.

Pois, os lisossomos combinaram-se ao retículo endoplasmático rugoso e seus tantos ribossomos, a fim de sintetizarem proteínas vitais ao funcionamento da célula eucarionte, para depois serem tolhidas ao direito da vida, fixadas em uma placa para o ensino medianamente estúpido de alguma aula de citologia e histologia geral, coradas com tantos corantes, anilinas deveras tóxicas, mas muito apreciadas pelas cores que fingíamos ver aos nossos microscópios. E quem falou que usaríamos os ultra-modernos artefactos de visualização tridimensional por varredura de elétrons ou o outro lá que esqueci o nome?

Frustrações logo estabelecidas às portas do curso superiormente inferior de biologia.

E vejam, são bactérias? O quê Não seriam sujeiras na lente desta megalupa envelhecida pelo tempo, imersa em óleo microscopal, e que tanto arranhamos, para o desespero de Maria Rita? E os esqueletos, estes tão limpos, tão normais, para depois darem lugar às aulas de cadáveres em si, mal-estar generalizado, o antigo e eterno Hulk que tem mais tempo de morte que tínhamos de vida, que dorme para sempre, todo aberto, em uma piscina de formol.

E porquê "O Max não vai ler"? Porque ele não lê, e é um pulha dos infernos do caralho.

Mais adiante, plantas e plantinhas, pepalantos e ecologia, picaretagem, picaretagem. Não é preciso saber fazer, é preciso ter o caô, esta arte tão necessária para qualquer universitário ser em formação formado por qualquer destas vis instituições. Pessoas, que pareciam ser tão legais e não bem foram, divertidas viagens, divertidos momentos, vômitos em panelas de chás de hippies, pois sim, torne-se para sempre o Buriol, terminação alcoólica tal e qual. Bem adequado.

Tente trabalhar como tal, frequente o laboratório de bíoquimica. FAIL. Vá para a microbiologia. 'Nother FAIL. Zoologia? Me pareceu ser o canal, ser o ideal, mas trabalhe ali, em meio às naftalinas peças, "avis raras" propriamente ditas, catalogue pássaros e acompanhe beija-flores na calada das frigidíssimas madrugadas, conte seus pios, tenha seu parceiro de pesquisa arrebatado, abandonando-me em meio a tal pesquisa, apenas para depois ser abandonado também pelos animais em si. Um ano e meio jogado no ralo, trabalhando de graça, de gratis, aturando um miserável orientador que só desorientava, filho da puta dos infernos, queime lá com toda sua incopetência e arrogância. FAIL.

O que fazer, como fazer. Sem chão, abandonar o curso, abandonar o diploma, depois de três anos? Não: existe a licenciatura, que não me deixa mentir, as aulas infames que me deixaram assustado, a formação de profissionais da educação que nada educavam, por assim dizer, ó FAculdade de Educação, FAE, FAE de conta que ali algo se aprende. Eu queria apenas pegar meu "diproma", abandonar o barco, elaborei trabalhos sarcásticos e com nenhum teor sério que foram idolatrados pelos professores, como assim?! FAIL, fail. Apresente sua "monografia" em dupla em um piquenique hippie, seja elogiado efusivamente, tenha um ataque de pânico em outra aula, retorne para casa escoltado por enfermeiros, em uma ambulância Federal. O que fizeste de sua vida enquanto biólogo?

Falhei, somente isto. E com a nota que passaria em um ves...prostibular para medicina, ou merdicina. Ao menos ali eu poderia ter acesso a fármacos relativament proscritos para não-doutores, me divertiria horrores em um universo papoular, doces opiáceos; com tanta morfina nas veias, e me acabaria no nada, ecá não estaria, enchendo a paciência de outrem.

Mas não aconteceu. Então, o que fazer?

Escrever e escrever, redigir e sorrir. Sorrir.

E voltar ao trabalho de contabilidade.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Redrum.

Imagens; conforme o velho deitado, valem mais que mil palavras(algumas ERAM pra ser animadas, mas esta josta não mostra assim.):






quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Onde está o norte?

Vocês conhecem, por acaso, uma pessoa a quem têm admiração, que julgam ser isso e aquilo, que tem inúmeras facetas e potenciais, blah blah blah, que tem tudo pra dar certo...mas que não acontece, não faz, não acredita?

Conhecem alguém que tinha sonhos, bem diferente dos da maioria, de todos os outros humanóides, mas que deixou com que eles morressem? E com isso, aparentemente, deixaram que suas vidas, outrora tão ricas de vida e de vontades, se tornassem um deserto de si mesmos?

A vida lhes é vazia, inóspita, desprovida de sentido, e por algum motivo se tornam surdos às vozes de seus amigos e pessoas amadas, que tanto desejariam que deixassem de serem assim. Muitos desses amigos tentam e tentam, e depois desistem. Para se valer de uma expressão inglesa, se cansam de "beat a dead horse." E não estão desprovidos de razão. Têm suas vidas para se preocupar. Se alguém que conhecem não sabe resolver sua própria vida, que se virem. Têm seus próprios problemas, não podem se responsabilizar também por uma vida alheia.

E para ser sinceros, toda a lamuriação destas pessoas desnorteadas é-lhes extremamente cansativa. Melhor sair de perto. Outros, dizem estar respeitando a necessidade de tal desnorteado de quererem resolver as coisas sozinho...outros, mais enérgicos e bem resolvidos, bem diferentes de tais desnorteados, preferem simplesmente mandá-los à merda. Cada um por si. O problema não é meu. Não conseguem entender também como tais seres não conseguem resolver tais agruras. "É preguiça, é falta de vontade, é porque querem ficar assim, blah blah blah."

O marasmo cada vez mais toma conta da vida destes seres desorientados. Os sonhos, que lhe punham sentido às suas vidas, estão mortos. E sem eles, tudo mais deixa de fazer sentido. A vida em si, se torna oca. Vivem dia após dia, sem ter para onde ir. Consomem itens inúteis com a vã intenção de encontrarem alguma força que lhes devolva o ânimo. Procuram pessoas que lhes devolvam a razão de existir, mesmo sabendo que ninguém deve esperar tal coisa de outras pessoas. E de quebra, se desapontam imensamente quando as pessoas lhes falham, lhes "abandonam."

Vivem às margens da morte auto-inflingida. Alguns deles levam a cabo tal projeto. Outros, mais covardes, se deixam embalar pelo marasmo, sedando-se para sempre em suas inexistências. De tempos em tempos, sentem o apelo de que a vida deve ser mais que somente existir, mas mesmo assim, não conseguem sair de sua letargia. E quando tentam, verificam que tanto tempo passou, tanto tempo foi perdido, e nada fizeram. Os sonhos continuam mortos. Regressam à inexistência, esperam os dias passar, esperam a morte chegar. E se tornam cada vez mais doidos, mais paranóicos, mais anti-sociais. Têm grandes delírios de grandeza, por vezes inadvertidamente se sentem "gênios incompreendidos", ó vã ilusão. Nada mais são que lixo humano, suas mentes maldosas lhe dizem. E aguentam. Aguentam, toleram, existem. Ocupam espaço. Consomem e são consumidos. Procuram alguma forma de escape, quer seja em formas legalizadas ou não, quimicamente ou televisionalmente, interneticamente.

E os outros, os poucos que deles ainda se lembram, sacodem a cabeça. Fazer o quê?

Conhecem alguém assim? Ou assim?

Eu conheço. E não sei mais o que fazer com ele.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Lembrete.

Memória, memória. Que me faz lembrar, que me transporta, de cá para lá, neste ano, para aquele mês, aquele dia, aquele lugar. O que será, oque és, não sei dizer, e tento entender, anos e anos, uma vida, uma existência, um lugar.

Instâncias escondidas, dentro de nós, dentro de uma massa que quase somente água é, um bolo que se encontra numa cachola, um órgão...será? Um estado, uma transposição, de elétrons, de substâncias, de mielinas, de pensamentos...coisas e coisas, armazenadas, guardadas, neste lugar.

Ou será que tudo se encontra noutro lugar, menos científico, menos chato, menos preciso, por todos conhecido mas por ninguém definido? A alma, esta coisa errante que tanto nos dizem ser e nunca sabemos o que é.

Tudo o que sabemos, tudo que dizemos saber, nunca saberemos ao certo. O que nos faz viver, o que nos faz sentir, senitr, deveras, estar vivo, estar aqui e ali. E para quê? Pergunta que não se cala, imprecisa, incorreta, necessária. Será?

O que nos faz sentido, o que nos faz ter vida, o que nos faz viver. Para que nos faz viver, o que estamos procurando, nunca encontrando, dia após dia, momentos eternos, indefinidos, inexistentes. Dor, amor, satisfação, calor, prazer. Viver.

E de lá para cá, indo e voltando, existindo, sentindo. Músicas e cheiros, palavras e sentidos, que somente nós entendemos, que somente nós sentimos.

Somente assim, e nem mesmo assim, entendemos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Aardvark Santos e Silva.

Hoje me sinto meio esgotado, sem muitas idéias...Sei lá.

A vida é como um monte de perguntas, às vezes. E isso cansa. Especialmente se você não consegue muito ligar o fôdas. Acontece com muitos noiados feito este mundo afora, imagino. Também suponho que cada um destes seres abstratos com índole semelhante à minha, se comportem de maneiras diferentes...

Dizem muita coisa, dizem para fazermos muita coisa, mas nunca nos lembramos de como a solução definitiva para uns soa como grave ofensa para outros...

Pessoas. Gente. Como são diversas. Como têm idéias diferentes, como reagem de maneiras diversificadas...

Eu penso e repenso, e não chego a nenhuma conclusão definitiva. E o que é definitivo nesta vida? Para morrer, basta estar vivo...blah blah blah, dizeres populares, mortadelas e chouriço, enchem o bucho, enchem a vida de baratas filosofias...

Santa incoerência de pinçamentos espalhados num cabeção(e num borogue), Batemam!

É, hoje vai ser um dia de sei lá.

Aproveitem o dia, aproveitem a boa música: escutem a dobradinha A Ballad In Urgency + Wiser Time, dos pretos corvos. Vale a pena e causa arrepios.

Enfim, que comece o dia e suas notas fiscais e computadores quebrados e cupons fiscais e abobrinhas e fofocas e gente infame, iname, etisséteras.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Extreme mau humor.

Ah, pessoas:



Gotta love 'em.


Adultice?




Fala que num é.




quarta-feira, 30 de junho de 2010

Quê?

" "

Não sei de onde ele tirou tal idéia. Nunca deixei transparecer tal coisa, mesmo em momentos que queria que isto ficasse evidente.

"?"

Claro que tinha que retrucar. A morte não costuma andar sozinha, ela sempre pede carona. E nem sempre pode-se recusar tal companhia. Tive que dizer, " ", para não dar a entender que não entendia nada do que estava se passando.

" "

...de repente, tudo fez sentido. Arregalei os olhos involuntariamente. Não queria que fosse assim.

Nunca quis.

Eu disse pausadamente, " "...

Ele me olhou com amargura. Sim, eu sabia que havia algo de errado. Mesmo as pessoas mais corretas escondem um lado incorreto. Não é a toa que ele havia me procurado em tal noite. A coisa era mais seria que imaginava. Eu disse, " ".

Ele concordou com a cabeça, acrescentando verbalmente, " ". Sim, eu sabia. Sempre soube que era assim, embora nunca tivesse achado que ele sabia que eu sabia....nem que me importava de verdade com tal fato. Eu sorri, " ".

De seu lado, o sorriso foi mais dificil, quase sofrido. " ", ele disse.

Entao era verdade. Ele havia se encontrado com ela. " ", balbuciou.

Nunca achei que ela fosse agir daquela forma. Meu coração se apertou, e eu disse com veemência, "!"

Não podia ficar calado. Era muito grave tudo aquilo.

Ele parecia não se importar mais com o efeito nem a causa. Disse apenas, " ".

Por alguns momentos, não pude responder.

Ele continuou, " "...dizendo logo em seguida, " ".

Sim. Era realmente sério.

" "

Eu tive que gargalhar. Era um bom sinal.

"!"

Ele riu de volta. Parecia que estava tudo certo, mesmo estando absurdamente errado. " ", ele prosseguiu.

Não conseguia parar de rir. " ", eu disse.

Ele sorria, mas...de certa forma, sentia que ocultava algo. Perguntei, "?"

...

Seu silêncio foi revelador. Sim. Eu percebi que algo não se encaixava, por assim dizer. Efim, ele suspirou, " ".

Maldita. Eu sabia que não se podia confiar nela. Quase gritei, "!"

Ele meneou a cabeça. Exasperado, eu disse, " ", acrescentando com fúria, " ".

Ele apenas permaneceu calado.

Tudo que pensava soava errado.

" "...Novamente, segurei minha língua para não fazer umacena em público, "!"
"!!"

Ele apanhou as chaves de seu carro, dizendo, " ". Tentei segurá-lo, mas o conhecia bem o suficiente para saber que nada adiantaria.

" ", ele disse. Eu estava muito puto. Só consegui dizer, " ".

Maldita, maldita. Por que tais coisas acontecem, não sei dizer.

Ele saiu pela porta dos fundos. Eu me dirigi ao balcão e deixei ali os monetários competentes na função de quitar nossa escassa conta, pensando comigo mesmo, " ".

Lá fora, a noite já estava fechada. O vento uivou em meus ouvidos, e entrei no primeiro trólerbus
que passou.

Olhei para fora, só vi as luzes da ribalta. Então era assim que se encerrava o primeiro ato.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Importância.

Por quê? Para quê?

Que adianta?

De que vale ficar aí, sentindo alguma coisa, sentindo raiva, sentindo dor, sentindo algo que nem mesmo você sabe definir, por coisas que não valem a pena? Pra quê sentir raiva diante dos milhares de cacos daquilo que algum dia já foi um anúncio, um complemento do abrigo de ônibus agora destroçado por aqueles que supostamente mais dele se beneficiariam. Aqueles que tanto xingam, tanto batem no peito para dizer que são marginalizados. Naquele outro dia em que o país parou diante das telas de futebol, enquanto os parlamentares faziam a festa nas roubalheiras na nossa gloriosa Capital, você assistiu ao futuro da bandidagem, onde um "malaco" mais velho treinava um séquito de bandidos mirins. E muito se importou.

E para quê?

Hoje lhe dizem que há novamente embate em campo internacional, mas disto você nem se importa, e preferia que lhe deixassem a trabalhar aqui mesmo no escritório. Se dependesse de você, aqui ficarias o dia inteiro. E seus colegas lhe linchariam, lhe acusariam de ser o chato da festa, aquele que muito se importa com frivolidades como esta mas nem liga para a primazia nacional de produzir à toas que correm atrás de uma bola e ganham milhões para fazê-lo, enquanto você rala, conserta computadores, atura usuários ignorantes que lhe pedem para instalar orkut e nem tanto assim ganha por isso.

Não entendo como você pode se importar com estas coisas. Vai mudar alguma coisa se importar com estas coisas? Alguém irá escutar seus lamentos diários diante de tais frivolidades?

Bem sabes que é um megalomaníaco ao contrário, que em seu reduto se esconde por achar todos os outros imbecis por não se importar com tais coisas. Bem sabes. E diariamente removes de ti mais uma porção de sua dita humanidade. Maldiz a tudo e todos, e nada mais és que um chato, aquele que enquanto todos se divertem, se põe a falar do fim do mundo, do fim da moral, do final dos tempos, que nunca chegam. Cada vez menos lhe levam a sério, pois o que há para ser levado a sério num hipócrita como você, que tanto se gaba de ser o diferente, assumindo uma postura superior mas convenientemente isolada, à parte dos outros?

A cada dia que passa, perdes mais e mais com isso, e bem o sabes. Achas que entendes de tudo, mas a verdade é o oposto disto. Ser inútil e orgulhoso, é o que és. E sabes disto. E ainda finges que se importa com tudo isto, que sempre se importou com tudo isto, como uma maneira de negar a si mesmo o que está diante de você no espelho arrancado da parede, que mesmo lá não estando, refletes este face que nada entende, que tudo desdenha e que tanto fala borracha, dia após dia, mês após mês, até que todos percam a paciência.

Para quê se importar? Só tens a perder, ó caro Noiado.

Não se importe. Deixes de ser o que és. Integre-se, desista. Fazes parte de toda esta merda também, não queiras te enganar. Ou será que és tão orgulhoso que prefererirás somente morto desistir de seu estúpidos, inúteis e hipócritas ideais, se é que esta alcunha pode sequer ser empregada neste caso?

Morto e sozinho, este é o futuro que almejas?

Este é o futuro que aproximarás de você, caso não desista de toda esta inútil luta. Que se aproxima, cada vez mais; enquanto perdes amigos, ganhas fama de chato e perde sua sanidade, a morte se aproxima cada vez mais, a cada dia, a cada momento.

É isto que queres?

É isto que realmente tem alguma importância para você?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Partida.

Naquele dia, milhares de pessoas lotavam o estádio para assistir àquele jogo, supostamente tão importante para a vida de todos os presentes, todos os ausentes, todo o mundo que ali se encontrava, em franca celebração pela vida e pelo jogo, por valores tão importantes para todos, que ali se escondiam de suas vidas, de seus problemas. Por hora e meia, aproximadamente, nada mais importava, nada mais lhes importunava.

Era um digno embate de cores e sons, onde milhares de cornetas de plástico soavam uníssonas como miríade de insetos; todos dotados daquele monocórdio instrumento sopravam a plenos pulmões, fazendo parecer que todo o estádio em si fosse uma coisa viva, uma entidade com vontades e propósitos próprios. Todos ligados nos movimentos daqueles homens que corriam atrás de uma bola. Grandes propósitos eram ali instaurados, grandes motivações eram reveladas ao assistirem aquele degladiamento, onde a arte se misturava com a ginga, a malícia do gesto falso, tantos pulos e tantas carreiras a serem corridas, em busca das redes, do ponto, da decisão.

Mundial campeonato este, desdenhado por poucos, ignorado por ninguém; inegável é sua força, a força deste esporte, deste encontro entre a brincadeira de crianças e a carreira milionária de tantos adultos, seletos seres que da vida tiraram a sorte grande, por serem bons naquilo que faziam em campo. Muito para desgosto daqueles ínfimos homens que ali assistiam, coração na mão, esperança no peito, alguma forma de estranha catarse se processando enquanto de seus problemas se liberavam ao fazer daquelas pernas que tanto corriam suas, faziam daqueles corpos que se encontravam seus, faziam de tudo para tornarem-se, de certa forma, tão afortunados como aqueles raros seres que ali corriam, suavam, cabeceavam, chutavam...e ganhavam rios e rios de estranhos monetários enquanto o faziam.

A partida agora quase chegava ao fim, e o empate muito aborrecia a todos: seria necessário estender o tempo, será que a coisa iria aos pênaltis, será que a tensão já reinante ainda se tornaria mais intensa, mais insuportável, mais insustentável? O tempo passava, os segundos corriam, e aqueles atletas de poucos se tornavam motivo cada vez maior de todos, se tornando por vezes algum propósito mais avançado, mais resoluto que a resolução da própria vida de todos os presentes, todos os pagantes, todos que no mundo inteiro se pregavam diante de teletelas, ó Grande Irmão, e dali não se removiam, não se moviam enquanto a coisa não terminasse.

Em lance controverso, um dos atacantes do time tal se lançou contra outro, roubando-lhe o esférico objeto da atenção, da tensão mundial, e partiu para uma desembestada carreira em direção ao lado das redes adversárias: o tempo estava quase esgotado agora. Talvez fosse este o lance final, decisivo, que libertaria a todos daquela inumana apreensão, de toda aquela paranóia. O time tal se ergueu, fez valer seu esforço, correu a não mais poder, enqaunto os outros não lhes largavam, perseguindo-lhes de perto, muito perto. O atacante foi confrontado por certo adversário, e teve de abrir mão de sua glória pessoal para o bem de todo o time, de todo aquele meio mundo que nele agora focava ses olhos, suas lentes, suas câmeras.

Chutada para a esquerda, a bola desferiu no ar estranho assobio, fez uma inexplicável curva e sentiu o peso da gravidade, entortando-se para baixo, descrevendo uma parábola de vento que pocos viram, mas que era direcionada para o encontro com um outro menbro do time tal, que saltou em um átimo de segundo e tentou, com sua cabeça, retransmitir aquele objeto controverso para outro destinátario da mesma equipe.

E foi aí que aconteceu.



Como? Ninguém soube explicar. Nem o atacante nem a coisa pavorosa, sequestrante, alienígena, pouco se sabe, foram jamais encontrados. Ainda assim, o mundo assitiu estarrecido àquela estranha ascensão, aquele bizarro acontecimento, que fez com que tudo parasse, com que os fôlegos fossem inspirados mas não expirados, jamais expirados, naqueles vinte segundos que procederam após tal incidente. Velozmente, a dupla subiu e subiu, em direção à incandescente estrela que silenciosmante tudo assistia e nenhuma palavra dizia. Em pouco tempo, aquele estranho par se tornara apenas um ponto escuro no azul do céu, para depois desaparecer por completo.

O mundo parou naqueles instantes, e forma raros os seres que ficaram sem ar ao contemplar diante de seus atônitos olhos o que estava acontecendo. Todas as vuvuzelas quedaram-se silentes, todos os confetes e serpentinas pareciam ter adquirido peso extra, como se a gravidade, ausente para o infame par que aos desconhecido subia, agora lhes reclamasse a porção devida e previamente ignorada. Tudo caiu por terra, menos aquele estranho casal que subiu e sumiu.

Tudo parou, tudo se fez insano, e de repente todos se viram quase cegos de tanto para cima olharem, de tanto que suas retinas se machucaram ao contemplar aquele dantesco espetáculo. Nada mais era o que era, tudo fazia anônimo, tudo se parecia com nada.

E o mundo parou, todos os relógios perderam as forças, o dia ficou parado, o sol nunca mais se pôs...isto tudo em menos de vinte frações de minuto, em vinte inesquecíveis momentos, que tanto foram somatizados, impressos a ferro e a fogo na mente de todo o mundo que ali se encontrava, ao vivo ou não.

Tudo perdera o sentido, mas de forma difusa, diversa, diferente da forma que momentos antes todos se esqueciam das vidas, dos fatos e de tudo mais, diante daquela partida.

Partida, para onde, para onde.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Café da manhã.

Pois não, bom dia, vai querer beber o quê? Cafe com leite, café com café, leite e leite, leite e chocolate? Não, não há metafísica em chocolates, ao menos não para mim, que sou o da mansarda. Sim, dali. Tome café, ao invés de tomar um uísque logo pela manhã, ou coca cola logo que despertar, mas eis que café é artigo raro por estas bandas, eis que chafé nos é ofertado diariamente, e diariamente recusado, assim, pois, pois.

Bem sei que passamos à vida, passamos à toa, passamos adiante, sem ter que ver, sem ter que saber, tomando nosso café da manhã, café com cigarros, é o que há, mesmo não sendo, mesmo sendo aquele pobretão obrigado a com isto parar, por obrigação de si mesmo para si mesmo. Sim? Não, não me intereso por tais vis artes, tampouco não me importo se o referido árbitro fez isso ou aquilo; ali eu não estava, não sabes. Não? Ah, que pena, nunca imaginei que assim fosse.

Veja bem, mais uma xícara de bom café aqui me aparece, não deves recusar, não recuso, nem mesmo sabendo que assim me incitará outras ânsias, outros lugares. É possível fazê-lo? Sim, dependendo da hora e do lugar. Mas veja, mas olhe: não deveis fazer com os outros o que não queres que façam contigo, é assim que dizem, mas é assim que não fazem, e assim vamos tocando o bonde, não as cordas, eis que cortes existem e ainda doem, doem.

Dói também ter que da vida se desfazer, da vida de outrem depender, da felicidade alheia fazer a sua. Dói, ver que nada podemos fazer diante da morte que chega, que arrebata-nos a companhia, aquela presença de tão humana ser, mesmo não sendo. Dói demais ter de se despedir, de quem quer que seja, uma pequena cã que apareceu-nos em sonhos, uma pequena companhia que tanto nos faz falta, quando aqui não mais estás. E nestas horas, nada faz sentido, a humanidade perde sua humanidade, e a presença ali não mais está.

Mas assim não dá, homem! Fale de algo que não me amargue mais a boca além da bílis matinal de ter tanto eu enchido a lata, esvaziando-a em meu estômago devido ao embate da bola com os pés. Pos sim, morra caro senhor: deixe-nos, alivie-nos de vossa presença, assim o dizem, assim o querem. Lamento, lamento, sorvo aqui esta negra infusão de grãos e água, e procuro me conter diante das gentes, que nada temem, que nada merecem. Cinco dedos na cara, bater em retirada, café na mão, café nos olhos.

Ali arfar, ali se desfazer do resto, se livrar do corpo, continuar no mesmo lugar, sem nem ao menos ali estar, ali existir. Tudo é vão e passageiro: não. Dizem-me coisas, mas não me falam nada, por assim dizer. E eu, que não sou nada, tenho que aqui tentar ser algo, mesmo assim. Tentar fazer de minhas palavras algo que agrade, mesmo que ofenda, sem nem ter sido este meu objetivo. E agora, amargar a dúvida de ter perdido uma amizade, por conta de muito se achar, isto é o pior: mas dizem, mas falam, que...

Não me importo o que dizem, o que falam. Enfiem o futebol e as vuvuzelas no rabo, enfiem o patriotismo sazonal junto, vão todos para lá que aqui não quero ficar, mesmo que ainda assim tenha sido o plano inicial, tantas vezes falhado. A única coisa que lamento é por vezes fazer dos pés pelas cabeças, de cima a baixo, de baixo para cima. Nada muito resta de mim sem aqueles que porventura têm a insanidade de ainda me tolerarem. E disso não sei nada ao certo, como funciona, como faz, sem nem mesmo fazer a menor diferença....para eles ou para outros menos importantes.

Mas ainda existe café nesta xícara, e ainda existe algo artificialmente criado a ser criado em minha mente, na mente dos outros, que tanto não se importam, assim como nada sabem.

Bom dia, um café, um pão de queijo. Não tem? Ah, fica pra próxima.