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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Dia.

Mais uma manhã. O Adevogado abriu os olhos e espreguiçou, usando uma nota de cem dólares novinha para limpar as remelas do canto de seus olhos. Mais um dia, mais processos, mais falcatruas e enganações. O Adevogado se sentia tão bem. Gostava do que fazia, tinha imenso prazer em achar buracos na malha fina da lei, sacanear as pessoas, se dar bem, ganhar muito dinheiro impondo a justiça, como era chamado a moeda de seu trabalho. "Ah," pensou ele, "hoje é dia de realizar audiências no fórum, sacanear aqueles pobres imbecis que acham que podem se dar bem apenas sendo corretos aos olhos da lei; mal sabem eles que já tenho toda minha estratégia elaborada, vou me dar é muito bem." Foi ao banheiro, fez suas abluções triviais, fez aquela barba impecável com sua navalha de diamante importada, banhou o rosto com a colônia pós-barba feita sobe encomenda, usando lágrimas reais de adversários jurídicos, apanhou seu terno mais esnobe, sua gravata mais nobre da mais pura seda italiana(apesar das letras miúdas acusarem secretamente a procedência sinológica da mesma), admirou sua figura impecável no espelho e se dirigiu para a garagem, não sem antes apanhar um desjejum preparado no dia anterior.

Entrou em sua BMW X-4-A-12-f-56-ZZ-45-e-o-caralho-a-quatro e acionouo possante motor de quinze mil cavalos, quinze centímetros por litro de combustível, e sentiu o ronco possante do motor, acordadno de supetão todo o resto do prédio. Tomou de assalto as ruas, e se dirigiu para seu escritório, enquanto mordiscava o sanduíche a cada sinal vermelho que encontrava no caminho. Se sentia bem, imensamente bem, era o dono do mundo, dono da verdade, agente da justiça! Sentia o fluxo sanguíneo trazer boas ondas, bons pensamentos à sua cabeça, podia fazer de tudo, podia comprar tudo e todos, era o dono do mundo.

Chegou no escritório, teve um ligeiro contratempo ao abrir a pasta e verificar que havia um certo rumor vindo de dentro de um envelope de um cliente. Não se importou, enquanto abria caminho por entre os papéis, em busca da chave da sala. Existiam certos insetos dentro da pasta, meio arroxeados, que faziam rumores estranhos, como se fossem viloinos ambulantes, esvoaçantes a realizar algum movimento sinfônico de Vivaldi, coisa assim. Ah! Ali estava chave, atrás de uma fola de plátano roxa que inexplicavelmente se encontrava por meio dos papéis. Adevogado estranhou, mas não pestanejou demais. O tempo corria, e ele tinha muito o que fazer.

Adentrou a sala, fechando a porta por trás de si. Foi saudado por uma imensa miscelânea de estranhas bolhas verdes que pairavam no ar da sala. "Como o dia está difícil hoje," lamentou em voz alta o pobre Devogado. Afastou rudemente de seus ouvidos as freiras esvoaçãntes que cantavam uma ária em dó maior sustenido bemol da Silva, e se dirigiu para a cozinha. A secretária lá estava, fazendo café, e saudou veementemente o Adevogado em húngaro. Ele respondeu com um breve aceno de cabeça. O dia, que começara tão bem, estava se tornando cada vez mais incômodo. Apanhou sua caneca, que se tornara misteriosamente gelatinosa e um tanto quanto translúcida, e encheu de café. Estranhou o tom magenta do café, mas não perguntou nada À Secretária, uma vez que não entendia bem o húngaro. Tomou um gole generoso da infusão, mas sentiu gosto de provolone à provençal, se é que tal variedade de queijo sequer existia. Suspirou profundamente.

Emn sua sala, as coisas não melhoraram. Suas poltronas teimavam em conversar em sumérico, e de forma desagradavelmente estridente. O telefone batia boca com aquele brinquedinho ridículo em que bolinhas de aço batiam umas contra as outras em movimentos pendulares. Adevogado começou a se impacientar. Precisava organizar a papelada, categorizar tudo aquilo, pôr tudo em ordem. Gritou com o telefone e o brinquedinho, que se calaram mas não deixaram de continuar a discussão por telepatia. Tentou abrir uma gaveta, mas ela se recusava a obedecer. Disse que não abriria nada antes de, no mínimo ele lhe pagar um jantar e um cineminha. Ele se exasperou: todos os dados estavam naquela gaveta, era preciso abrir a gaveta, ora bolas, como é que poderia trabalhar sem os dados. Mas a gaveta estava irredutível. Ele perdeu a paciência. Chamou a Secretária pelo interfone, mas não conseguiu entender nada do que ela leh disse. Maldito dia! Nada dava certo.

Naquele momento, o ventilador de teto resolveu que estava preso demais àquele ambiente, e que precisava de novidades, se deprendeu do teto e voou serenamente pela janela. Assim não dava! Era preciso tomar providências. Abriu a pequena geladeira miniatura e serviu-se de dose nervosa de uísque, mas o gosto estava intragável! Era como se tivessem substituído o tradicional aroma de suco alcóolico de papel mofado que todos os uísques carregam e tivessem substítuido por mera coca-cola. Ora! Assim não dava. Arremessou o copo contra a parede, estilhaçando-o em milhões de pedacinhos, que gritaram em uníssono lamento de mau agouro. A parede tambem gemeu. O telefone e as poltronas se escandalizaram! Adevogado acabara de cometer brutal assassínio, e precisava ser levado às autoridades competentes da justiça!

O telefone discou para a polícia, e as poltronas começaram a cercar ameaçadoramente aquele assassino. Adevogado se exasperou e avançou contra a primeira poltrona que quis dominá-lo, chutando-a bem no saco, se é que tal acessório existia em poltronas. Com efeito, a mobilia atingida em cheio tombou ao chão, e Adevogado aproveitou a brecha para obter a pistola semi-automática que trazia devidamente escondida em sua pasta. A Secretária adentrou o recinto, atraída pelo burburinho de toda aquela confusão, e Adevogad vislumbrou ali sua salvação: correu na direção dela, e a apanhou pelo pescoço, empunhando a arma em riste. Agora tinha uma refém, tudo se resolveria. "Calem-se todos vocês, ou ela leva chumbo na cabeça!"

A Secretária estava em pânico crescente, mas mesmo assim, desenvolveu instantaneamente um caso raríssimo da Síndrome de Estocolmo, e se apaixonou perdidamente pelo seu captor. Beijou apaixonadamente a boca surpreendida de Adevogado e já ia arrancando suas roupas. Ele arregalou os olhos e repeliu a mulher com força. Ela começou a chorar, se lamentando em romeno por que ele não mais a amava? Se tudo que conheciam, todas as experiências que haviam tido juntos nada mais significavam?

Adevogado estava aturdido, e ouviu o rumor sorrateiro dos agentes da polícia que entraram às pressas no recinto, empunhando salames de borgonha e pizzas calabresas. Secretária afirmou, em tcheco, que preferia um strudel e um autêntico goulash. Adevogado não quis saber de conversa, se arremessando de supetão contra à janela aberta, "Jamais me apanharão vivo!!"

Como os Adevogados não voam - mesmo um tão intoxicado por tantas drogas em seu sanduíche implementadas na noite anterior pelo funcionário da loja de produtos Naturais e Curiosamente Caros, que havia por bem lhe agraciado de tal maneira, depois de ter sido rudemente maltratado por tal agente da lei, da moral e dos bons costumes - ele simplesmente caiu em queda livre em direção ao solo, se esborrachando de maneira grotesca por cima do asfalto, que lamentou o ocorrido com o poste de luz. E assim acaba a história excitante de Adevogado, este fedaputa.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Boas Salenas Cronópios.

Em referência ao texto anterior, e como recomendação de leitura, imensamente recomendável por minha parte, mesmo que pulhas como Max não lerão por não saberem apreciar um bom e velho nonsense, cá está um link deveras interessante.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Conversa interna.

-Chove lá fora. Céu abaixo.
-Bem sei disso.
-E não vais ficar zangado com isso?
-Não. Há mais com o que me preocupar.
-Ah, esse lance de ser promovido sem esperar, não é mesmo?
-Isso e mais outras coisas. A chuva é a menor de minhas preocupações no momento.
-Cronópio cronópio?
-Cronópio cronópio.
-Eu sabia que gostarias de ler tal obra novamente.
-Eu sei. Gostaria também que a vida fosse apenas um tijolo de cristal, tal qual é no livro.
-No fundo, sempre é.
-Não. Lá no fundo, está a morte. Mas não tenho medo. Sempre chegamos antes, e já não nos importa.
-Assim é a vida.
-Ou a morte, né.
-É.
-E agora, o vais fazer?
-Assumir o cargo, evidentemente.
-E vais dar conta?
-Tenho que dar. Agora sou só eu tomando conta dali.
-Pesado.
-Deveras. Pavio longo.
-Pavio longo. Há que se desenvolver tal faculdade.
-Sem férias?
-Sem férias. Me sinto tão adulto.
-E é uma merda né.
-Bastante. Não foi essa a vida que quis.
-Ah, ninguém recebe aquela que pediu.
-Bem sei.
-E abandonarás o resto?
-Em verdade, já havia abandonado, seis anos atrás. Somente me dei conta disto agora.
-Eu sabia, mas não te disse.
-Eu sei. És um filho da puta.
-Você que é um tonto. Estava na sua cara.
-Na nossa cara, mané. É tanto meu quanto seu.
-Eu sei, mas não me importo. Não existo, a não ser aí dentro.
-Mesmo assim, faz parte de mim.
-Eu sei, maldito. Sou uma voz na sua cabeça, e você, na minha.
-Filho da puta.
-Ha, ha. Não darás conta.
-Vá lá pro fundo com o resto da gentalha, mané.
-Claro, por hora. Nos veremos de novo, em breve.
-Bem sei disso.
-Ainda bem que sabes. O que não sabes...
-...é , eu sei o que é. Foda-se. Suma daqui.
-Até daqui a pouco, seu inútil.
-Até.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mr. Coffee Hyde.

Dia como outro qualquer. Há que se acordar cedo, para ir dormir cedo, fazer valer o que faz a pena, o que faz o dia valer a pena. Pensamentos infundidos, difundidos por uma arcaica fita ká-sete a rodar em um igualmente anacrônico sistema de som à cabeceira daquele Senhor. Ânimo para a luta diária. Blah e blah.

A noite, ainda teimava em continuar em suas vistas, em sua mente, em seus pensamentos. O mundo não existe, não antes da primeira xícara de café, bem sabia ele. Diziam que seus tremores, seu estado agitado de nervos, todo seu frenesi era decorrente do consumo excessivo de vinte ou cinquenta chávenas de tal infusão. Ou seriam canecas? No momento, tudo que conseguia pensar era na primeira dose, o aroma, a fumaça, o negro e espesso aspecto do café que ele mesmo preparava pelas manhãs, tão forte que era servido em fatias.

Mas...ao abrir a porta da despensa, se lembrou do ocorrido na noite anterior, em que chuvas intensas impediram-lhe de chegar ao supermercado e renovar o estoque de grãos torrados e moídos, usados para a preparação de tal elixir.

Sentiu um tremor percorrendo seu corpo. Calafrios. Sabia o que significava isso. Ter de esperar chegar ao serviço público, ou antes púbico, para se afogar no mixo café lá servido, isso era inconcebível. Revirou furiosamente a despensa em busca de alguma réstia de pó. Achou apenas farelos passados em uma enferrujada lata esquecida por detrás de tantos condimentos; Mitra, para que tantas especiarias em seu caminho?? O pó quase não tinha mais cheiro, mas seu estado de nervos era tão crítico que não pôde resistir. Improvisou um canudinho com um envelope de papel que embalava um tempero qualquer, e aspirou diretamente da lata para suas fossas nasais, o conteúdo da lata.

Imediatamente sentiu uma aflição ainda maior a percorrer seus sentidos, ao perceber que tal experimento era ineficaz para atender seus anseios: o envelope embalara pimenta do reino em pó, e o café em si não foi absorvido por sua mucosa do jeito que sua confusa cabeça esperava que acontecesse. Sentiu uma angústia icomensurável tomar conta de seus sentidos, assim como uma crise de espirros e sensação de queimação intensa como jamais experimentara na vida. Tombou para trás, atônito em seu sufoco. Caiu por cima de laranjas, toranjas e cajus secos que mofavam em fruteiras anônimas ali. Não bastasse isso, um violento espirro sacudiu as estruturas de outra prateleira da despensa, e latas e mais latas de atuns, leites condensados e em pó caíram-lhe por cima do corpo já deveras aturdido e contundido daquele Senhor.

Saiu dali esbaforido, e pôs-se a vestir imediatamente. Sabia que em seu emprego encontraria aquele ralo café, mas que bebido aos litros, aplacava-lhe a necessidade diária de tal molécula. De repente, a fita K7 que ainda continuava a dizer blandícias toscas em forma de arranjados, planejados encorajamentos vazios, parou de mataquear inutilmente, para se embolar toda no artefacto. Ele deu um safanão no aparelho, que tombou ao chão, mudando da função "TAPE" para "RADIO". E então o Senhor escutou:

"A guerra da Conchinchina estourou em todos os lados, a leste a oeste. E creio que a nor-noroeste também. Os primeiros países a tombarem diante da bomba verde de metano produzido por vacas holandesas foram Colômbia, Estados Fudidos da América do Norte, Laos e Goa, apesar deste não mais existir enquanto país desde láááá longe no passado. Mesmo assim, embargos financeiros foram instituídos mundo afora, e a crise de 1929 fez seu retorno com força desde a zero hora de hoje, que se tornou ontem desde a meia noite. A produção de café brasileira está seriamente comprometida, pois bombas de efeito moral foram arremessadas contra cafezais, que se encontravam infestados de chineses da con, ou conchinchineses, ou algo que o valha. Tais bombas tiveram efeito muito negativo sob a moral dos cafeeiros, que tombaram mortos devido à súbita realização que a moral neste apís de merda anda mais por baixa que minhocas em fértil solo. A polícia não quis comentar o caso, preferindo ir tomar uma cervejinha no bar mais próximo. O subcomandante do exército apenas disse que "Por mim eu só tomava suco de cevada até morrer. Fodam-se os cafézes." O IML divulgou também que o número de mortos em tal empreitada beira a casa dos bilhões, com desvio-padrão de +/- seis bilhões."

O grito que sucedeu no bairro em que Senhor residia pôde ser ouvido por todos os estados setentrionais do sul do Brasil. Não era possível, não conseguia crer em tal declaração radiodifundida. Como assim, o inferno havia decidido migrar para a superfície terrestre? Antes estava tão direitinho, estabelecido em Hades da abobóda celeste. Sentiu que seu coração não iria aguentar. Sentia os primeiros efeitos da abstinência prolongada, de cerca de duas horas desde a última golada da infusão sagrada. Frias e espessas gotas de suor a descer por suas costas. O frenesi tomava-lhe conta dos sentidos rapidamente. Sede de sangue!

Isto é, de café.

Rasgou suas roupas todas, pôs fogo na lata de lixo do banheiro, quebrou o vaso sanitário com os dentes, e passou fio dental cuidadosamente. Há que se preservar a dentina. Armou-se de um machado e uma serra elétrica, estranhos itens que um servidor público, isto é, púbico, pode adquirir com módicos descontos às lojas do Paulo, perto do Mercado Central, e invadiu de supetão o corredor do prédio, onde bufou de ódio perante o hediondo papel de parede, que dançava com todas aquelas horrenda margaridas pessimamente desenhadas em sua estampa. Arrancou grandes porções daquela injúria visual, e pôs-se a dar golpes violentos de machado à porta do Vizinho. Café! Ele sabia que deveriam ter café ali! Tinha certeza!

"Já vai," disse sonolenta a sogra do Vizinho. Assim que a velha retirou a corrente de segurança e abriu sonolentamente a porta, foi surpreendida com uma lâmina cortante em suas fuças, e caiu irremediavelmente morta ao chão. O Vizinho, que assistiu lentamente a cena, balbuciou, "Ah bem, depois eu dou o resto da véia pros cães." Senhor, que já invadira bifando o recinto, exigia, "CAFÉÉÉÉÉ´´´´´!!!" Vizinho só disse, esboçando um gesto de impaciência, "Calma, caro Senhor. Sente-se, abanque-se. Irei buscar um bule fresco para ti. Não é preciso que me grites com tantos acentos soltos no ar. É preciso não desperdiçar os sinais de pontuação em estes tempos de crise latente."

Senhor sentou-se nervosamente à uma cadeira, pelo Vizinho ofertada. "Gostaria de uma torradinha de pão de centeio para acompanhar?" - "Sim, se não for muito incômodo," disse Senhor, tentando recompor sua compostura há muito perdida. Enquanto o Vizinho saiu para providenciar, o poodle da casa veio latir nervosamente, insistentemente perante os pés de Senhor, que apenas tomou tal canídeo nas mãos, abriu a janela e arremessou-o na direção su-sudoeste, tomando o cuidado de antes checar a direção do vento em sua biruta de bolso. Onde estaria guardado tal instrumento, já que não havia bolsos em seus farrapos que trajava, esta era a questão. Talvez os chineses saberiam o que fazer com tal demoníaco ser.

Seu trem de pensamento foi interrompido pelo Vizinho, que anunciava a chegada do café. Novamente, sentiu o frenesi tomar conta de seu ser, e tomou apressadamente a garrafa térmica das calmas mãos de Vizinho, que não protestou. Senhor pôs toda a garrafa na boca, e mastigou nervosamente tudo aquilo, já sentindo o deleite de poder se apoderar metabolicamente da afamada molécula. Mas, os cacos de vidro espelhado e fragmentos de plástico não foram distrações suficientemente eficientes para que Senhor pudesse constatar que o que a extinta garrafa continha não era café.

Cuspiu violentamente os restos mortais do recipiente, muito sangue e cacos de vidro, e bufou: "ISTO NÃO É CAFÉÉÉÉÉ´´´´´!!!!" Ao que vizinho, sentindo a imensa corrente de vento decorrente dos plenos pulmões a gritar a plenos pulmões de seu vizinho, apenas constatou, "Não me grites! Não gastes acentos indevidamente, caralho! Sim, é café, mas descafeinado. Meu médico me disse que preciso regulara pressão. Joguei fora no incinerador do prédio todos os sacos de café normal que aqui em casa restavam. E a torrada, vai querer com ou sem--"

Não pôde terminar a frase, uma vez que a moto-serra de Senhor havia fendido-lhe o crânio diante de tal infâmia. Urrou de franco ódio, atraindo para o prédio todas as tropas inimigas do Arzebajão que tomavam de assalto as ruas daquela Cidade. Ouviu seu urro ao vivo no aparelho televisor, que anonimamente assistia a tudo, e informava, "As tropas Albanesas agora parecem se dirigir para este prádio na rua Humboldt, onde um monstro por mim avistado, acaba de matar friamente seu Vizinho. O poodle que se foda. Eu detesto requeijão."

Em seus embrutecidos sentidos, Senhor sabia que seu tempo estava se esgotando. Entretanto, alguma réstia de sentidos, lhe bastaram para saber o que tinha que fazer. O incinerador do prédio!! Aquele biltre do Vizinho tinha arremessado sabe-se lá quantos sacos de café ali!

Sentia o rufar de tambores, e o cintilar dos metais dos tanques das tropas da Armênia se aproximarem rapidamente. Não havia tempo para elevadores ou escadas; era agora ou nunca.

Abriu a portinhola que conduzia ao incinerador e se jogou no apertado tubo metálico que conduziria à sua mais completa - e última - glória. Sentiu a velocidade aumentar ao passo que sua energia cinética era aumentada pela energia potencial gravitacional, ou alguma baboseira física ou tísica que ainda lhe retumbava os sentidos. Sentiu o aumento da temperatura decorrente da aproximação daquele inferno interior do prédio. Sentiu suas carnes em chamas, por estarem assim dispostas, expostas dentro de um incinerador. Urrou de dor, mas ainda assim, avistou no meio das chamas, o seu útlimo objeto de desejo: uma lata de café.

Engatinhou dolorasamente em tal direção, enquanto sentia que o fogo lambia-lhe o que ainda lhe restava de tecidos conectivos vivos e funcionais de seu corpo.

Lá fora, os tanques e veículos anfíbios da Inglaterra se posicionavam para desferir o golpe fatal contra aquele hediondo assassino...de papéis de parede ingleses rudemente vandalizados no corredor. Prepararam a catapulta, com carga de uma autêntica bomba de nêutrons. E ovos podres.

Senhor sentia que a vida abandonava cada vez mais rapidamente aquele maltratado corpo, mas sabia que era preciso adquirir a lata. Sentir pela derradeira vez, o aroma de tais grãos. Sua epiderme já havia derretido e se desprendido de 95% de seu corpo, e agora os músculos se tornavam carne cozida, ou melhor, churrascada. Estendeu a mão em derradeiro esforço, apanhou a lata.

Lá fora, os Chilenos já haviam aprontado a catapulta e arrumavam os úlimos ovos podres na cesta, ao lado da bomba H. Acertaram o relógio para o horário correto, e fizeram mira.

A dor era insuportável, mas Senhor tinha que vencê-la, tinha que cumprir seu destino. Com debéis e derretidos dedos, fez descomunal força para abrir a lata. Seus ressecados e quase cegos olhos, puderam emitir ainda algum brilho quando tal tampa cedeu; ele se precipitou a direcionar o vasilhame em direção a suas arruinadas narinas.

Os Porto-riquenhos já haviam preparado todos os detalhes e agora, mãos nervosas se dirigiram para a alavanca.

O aroma lhe falhava a chegar, mas a vida se exauria rapidamente naquele inferno. Pensara ter visto, lido na lata chamuscada, os dizeires, "café descafei..."

Mas era tarde demais. Em um átimo, o projétil de fusão atômica fora arremessado pelos Marroquinos e atingiu a estrutura do prédio, obliterando tudo e todos do mapa, e impedindo que o grito de protesto daquele amante incondicional de café, CAFÉ propriamente dito fosse escutado por algum ser vivo, naquelas redondezas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Escrita e dados perdidos.

Escreve, escreva, não me importo, escreva. Escrito na parede, no abismo da parede do quarto sem teto, sem forro, sem aquecimento, sem telhado, sem eu, sem você, escreva. Máquinas de escrever, estas não mais existem, mas funcionam como tal, estas máquinas modernas, conectadas aos tubos globais, internetais, que tanto unem as pessoas, mantendo-as distantes.

Existem, existem, seres como eu, como você, como nós, por aí, por ali, por este planeta? O que fazer para encontrá-los, além de aqui estar, digitar, fazer contabilidades, senos, co-senos, co-secantes, co-molhantes, parábolas, forças de Van der Waals, móleculas de trítio, sódio, deutério, deuterostômios, protostômis e quejandos.

Quantas palavras difíceis acumuladas de tempos remotos, nerd da pré-escola, pré-faculdade, pré-faz de conta ou simplesmente FAE de conta, como bem o verifiquei com estes olhos que a terra há de fagocitar.

Pois, os lisossomos combinaram-se ao retículo endoplasmático rugoso e seus tantos ribossomos, a fim de sintetizarem proteínas vitais ao funcionamento da célula eucarionte, para depois serem tolhidas ao direito da vida, fixadas em uma placa para o ensino medianamente estúpido de alguma aula de citologia e histologia geral, coradas com tantos corantes, anilinas deveras tóxicas, mas muito apreciadas pelas cores que fingíamos ver aos nossos microscópios. E quem falou que usaríamos os ultra-modernos artefactos de visualização tridimensional por varredura de elétrons ou o outro lá que esqueci o nome?

Frustrações logo estabelecidas às portas do curso superiormente inferior de biologia.

E vejam, são bactérias? O quê Não seriam sujeiras na lente desta megalupa envelhecida pelo tempo, imersa em óleo microscopal, e que tanto arranhamos, para o desespero de Maria Rita? E os esqueletos, estes tão limpos, tão normais, para depois darem lugar às aulas de cadáveres em si, mal-estar generalizado, o antigo e eterno Hulk que tem mais tempo de morte que tínhamos de vida, que dorme para sempre, todo aberto, em uma piscina de formol.

E porquê "O Max não vai ler"? Porque ele não lê, e é um pulha dos infernos do caralho.

Mais adiante, plantas e plantinhas, pepalantos e ecologia, picaretagem, picaretagem. Não é preciso saber fazer, é preciso ter o caô, esta arte tão necessária para qualquer universitário ser em formação formado por qualquer destas vis instituições. Pessoas, que pareciam ser tão legais e não bem foram, divertidas viagens, divertidos momentos, vômitos em panelas de chás de hippies, pois sim, torne-se para sempre o Buriol, terminação alcoólica tal e qual. Bem adequado.

Tente trabalhar como tal, frequente o laboratório de bíoquimica. FAIL. Vá para a microbiologia. 'Nother FAIL. Zoologia? Me pareceu ser o canal, ser o ideal, mas trabalhe ali, em meio às naftalinas peças, "avis raras" propriamente ditas, catalogue pássaros e acompanhe beija-flores na calada das frigidíssimas madrugadas, conte seus pios, tenha seu parceiro de pesquisa arrebatado, abandonando-me em meio a tal pesquisa, apenas para depois ser abandonado também pelos animais em si. Um ano e meio jogado no ralo, trabalhando de graça, de gratis, aturando um miserável orientador que só desorientava, filho da puta dos infernos, queime lá com toda sua incopetência e arrogância. FAIL.

O que fazer, como fazer. Sem chão, abandonar o curso, abandonar o diploma, depois de três anos? Não: existe a licenciatura, que não me deixa mentir, as aulas infames que me deixaram assustado, a formação de profissionais da educação que nada educavam, por assim dizer, ó FAculdade de Educação, FAE, FAE de conta que ali algo se aprende. Eu queria apenas pegar meu "diproma", abandonar o barco, elaborei trabalhos sarcásticos e com nenhum teor sério que foram idolatrados pelos professores, como assim?! FAIL, fail. Apresente sua "monografia" em dupla em um piquenique hippie, seja elogiado efusivamente, tenha um ataque de pânico em outra aula, retorne para casa escoltado por enfermeiros, em uma ambulância Federal. O que fizeste de sua vida enquanto biólogo?

Falhei, somente isto. E com a nota que passaria em um ves...prostibular para medicina, ou merdicina. Ao menos ali eu poderia ter acesso a fármacos relativament proscritos para não-doutores, me divertiria horrores em um universo papoular, doces opiáceos; com tanta morfina nas veias, e me acabaria no nada, ecá não estaria, enchendo a paciência de outrem.

Mas não aconteceu. Então, o que fazer?

Escrever e escrever, redigir e sorrir. Sorrir.

E voltar ao trabalho de contabilidade.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Horário de ve...bestão.

Ele estava a cordado, ainda no escuro. Aguardando o tilintar do despertador, que soaria uma hora antes do normal, uma vez que as regras e regulamentos dos homens lhe impuseram tal modificação. Coragem, coragem. Existe uma força em seu interior, existe algum poder dentro de si, para que aguentes tal injúria, que afinal de contas, nem tão grave assim é.

Levante-se, ignores a chuva. O sol virá. Mesmo que tua porção insossa e blasé lhe diga que não, tente ignorar. Nestas horas, encerrado ainda na escuridão solitária do sótão, ele suspira. Pensa estar se enganando. Existe dentro de si uma voz poderosa, que lhe impõe a necessidade mórbida de encarar a vida como se há muito ela lhe tivesse abandonado. Por mais que lhe digam o contrário, por mais que esteja saudável, por mais que exista dentro dele milhares de mundos ainda não concretizados, fragmentos de músicas não escritas, palavras não realizadas, linhas não-traçadas.

Tudo aquilo que poderia ser e não foi, para cansaço eterno seu e daqueles que com ele ainda se importam, apesar de há muito terem lhe abandonado...A outra vozinha, mais surda, mais fraca e rouca de tanto ainda tentar lhe diz num sussurro: "Ou será que é o contrário?" Ele não sabe, não quer saber, não agora neste momento, cinza manhã, chuvosa manhã. O que fazer, o que fazer. Como fazer. É a pergunta que lhe persegue, dia após dia. Para que continuar? Existe uma plástica metálica irrealidade em estar vivo de tal maneira, sendo ainda jovem no corpo, mas velho nas idéias, entrevado cerebral, tísico na mente.

Só depende de você.

Não queria escrever na data de hoje, mas cá está a fazer. Existe alguma força teimos dentro deste corpo. Algo que mesmo sendo vítima de seu pior inimigo, ele mesmo, o tenta manter vivo. Tenta manter alguma força, alguma pálida chama de tudo que existe sem existir dentro de si, queimando sem quase queimar deveras. Dizem de tudo. Agressões, blandícias, já tentaram de tudo. O que acontece com ele, nem mesmo ele sabe dizer, sabe explicar.

O que leva uma mente assim a escolher o caminho da morte estando viva? O que leva um portador de suposto feixe de talentos a jogá-los todos fora, em um abismo, um poço que somente dentro dele existe, e somente dentro de si poderá ser resgatado? Não haverá nenhuma sorte de "Phoenix" para auxiliá-lo?

Não. Você só está assim porque quer. E pare de me incomodar, pois tenho que namorar, digo, enganar duas mulheres ao mesmo tempo. Tenho que me preocupar com o futebol. Tenho que cuidar de meus filhos. Tenho que alimentar o gato, o cachorro, andar com meus filhos postiços, programar computadores, desenhar o que nunca conseguirás desenhar, e me juntar à míriade de ETC. que existe além de seus pequeninos probleminhas, cretinos entraves mentais.

Não iria escrever, mas escreveu. Ainda não será hoje que desistirás desta quase diária tarefa...

Avante, Noiado. Mesmo que não saibas para quê. Mesmo que seu pior inimigo, aquele ser que mais lhe destrói, mais lhe faz mal seja você mesmo. Ainda não será hoje que levantarás fogo e chumbo contra tal massa cinzenta. Assim como o mundo que enxergas através dos olhos verdemarrons quase inexpressivo para você mesmo...e tão cheios da cor da esperança para outrem.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Adendummms.

Para quebrar a rotina, veja isto ou isto ou ainda isto e tente não rir. Ao menos uma vez.

Me mostraram essa merda no final de semana e eu passei mal de rir. E mesmo horas depois, só de pensar eu me desmanchava em risadas imbecis.

Acho que a internet está nos deixando mais burros ou mais idiotas mesmo. Posso afirmar que no meu caso, parece ser verdade...

Enfim, ao menos risadas fazem bem...

Interrompemos seu feriado...

...para lhe ofertar dez horas de ponto. Grátis. Sem frete, sem taxas. Ou quase.

Trabalhas. Num dia caduco de ocupações, em semi-feriado.

Enfim.

Ao menos o feriado não é na quinta: ter de vir trabalhar na sexta é pior, como disse outro dia um de meus companheiros aqui. Melhor não reclamar. Existe emprego, existe dinheiro. Sempre pode ser pior, conforme já disse um corolário da Lei Universal de Murphy. Que venha o dia de amanhã e seu foguetório ao meio-dia.

E hoje mesmo, verifiquei que não estou sozinho em estar sendo requisitado em meu emprego com a intenção de apenas esperar pelas dezoito batidas alforriadoras: muitas pessoas também têm patrões de má índole e maus fígados, pelos vistos. É a vida.

Eu participo de tal jornada, muitas vezes sem saber para onde, por quê. Neste ano que passamos, estou perplexo com a falta de sentidos em tal viagem, entretanto. Fazia muito tempo que não me sentia tão...sedado, eu diria. Acordando, esperando nada, como se eu mesmo tivesse já morrido e me integrado à legião de zumbis que parece existir na face da terra. Pessoas sem sonhos, sem expectativas, que vivem dia após dia, mas sem viver. Existindo, somente.

Ontem foi um dia assim, domingo morto de existência. Tentativas frustradas de produzir algo, somente geraram mais letargia.

Bem sei que não deveria somente viver de reclamações, mas. Sinceramente. Não sei o que fazer. Médicos, de nada me valeram. O que falta é alguma mudança, algum encontro de perspectiva, creio eu. Saber o que fazer com tudo isto que tanto me inflama.

E por falar em inflamações, hoje também sinto uma certa dor localizada no abdômen...Algo que me fez lembrar um tipo de agrura clínica que afeta muitas pessoas mundo afora, e que já perturbou mesmo uma parente mui próxima minha, quase causando-lhe a morte. É claro que não posso saber com certeza, uma vez que não sou médico, somente um pessimista-mor. Breve leitura dos sintomas e eticéteras nos dados gentilmente me ofertados pelas internétis também me levam a crer que é somente alguma dor análoga a tal condição, apenas para apimentar minha segunda nauseabunda.

(Aparentemente, se fosse mesmo tal coisa, não teria aguentado nem chegar aqui...)

Voltemos todos ao trabalho e esperemos o tempo passar então...dia após dia, momento após momento. E mais uma vez, escutemos na música letras que se encaixam feito luva para descrever a sensação do momento, a aflição de MMX:



Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way.

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death.

Every year is getting shorter never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say.

----Pink Floyd, Time.



E retornemos na quarta-feira, caso a estranha sensação seja somente um lembrete do corpo para mim mesmo que ele existe e que deveras sente o que não sinto muito mais...

Boa continuação de feriado a todos...