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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Linhas.

Curioso é, como a vida para ele se transformara.

De fato, não sabia precisar a que momento do ano corrente em que a mudança tomara forma, tomara conta de sua vida. Ano? Corrente? Nem mais sabia dizer que dia da semana seria. Tudo se convertera em linhas para todos os lados, inúmeros pontos de fuga, inúmeros horizontes. Tudo era perspectiva, ainda que não bem definida. Tudo depende da perspectiva.

Mas agora, não apenas uma existia, não apenas aquele curso acadêmico saberia precisar para que lado as incontáveis linhas deveriam convergir. Sabia que dormia mas que estava acordado. Ou que o sonho não mais era sonho, que a vida não mais era ali. Seria? Talvez. Eterno despertar, a cada momento, a cada mudança, a cada instante que se passava. As noites agoram eram dias, os dias noites, nada mais importava. Tudo se copiava, tudo se transformava.

E quem estava ali com ele, não saberia dizer, pois as sombras noturnas se transformaram, tomaram conta dos diurnos seres que outrora em sua vida habitavam, existiam. Nunca mais saberia distinguir. Nem um nem outro. Quem era quem? Quem era uma figura desprovida de rosto que ao seu lado caminhava? Quem era aquela pessoa que sempre se aproximava, perguntava as horas, calava-se e não estava mais lá?

Quem seria a voz da noite, a canção da madrugada? Quem seria sonho, quem era verdade? Sonhos, verdades, ilusões, todas se misturavam em eterno sonambulismo. Acordava no meio da noite, no meio do dia, sem saber o que se passava, se deveras acordado estava. O que era sonho, o que era realidade?

Toda uma vida buscando esta distinção; agora, em provecta porém tenra idade, não mais saberia dizer o que era isto, o que era aquilo, assim assado. Insônias, tantas noites em claro, teriam sido mesmo? Teria estado dormindo, enquanto julgava estar acordado? Seria este o ponto de não-retorno, a pedra filosofal, o encontro da razão em meio à lucidez, em meio ao onírico ser e estar, permanecer ficar, dali não estar? Não saber? Não dormir?

Nunca dormira, jamais sonhara. Tudo era um e outro. Outro e um.

Tudo ali era a vida, mas nada era vivo. Tudo ali eram coisas, mas desprovidas de outras coisas, sem istos e aquilos que poderiam ser...sem ser.Tudo era noite, tudo era dia. Dia a dia, noite após noite. Anos e anos. Cópias. O que poderia ser? O que seria,o que valeria? De quê valeria?

Sem sonhos, a vida era desprovida de sentido. Sem vida, era tudo um sonho, mau sonho, por vezes cruel. Pesadelos noites afora, sendo que não haveria maneira de distinguir, entre um e outro. Onde estava a vida, se anoite dela havia tomado conta?

Onde seria a noite, onde estaria aquele momento, pesado instante, onde a pálpebra pesada cerrava as cortinas, encerrava o dia, começava o tempo de sonhar? Sonhos. Tudo era um sonho dentro do sonho, dentro de uma vida que havia se tornado um pesadelo por se achar sem encontrar, lugar nenhum, aqui e ali.

Aqui e ali, em todo lugar. Sonhos. Sonhos.

Infindáveis retas, insondáveis números, estranhos afazeres, estranhas pessoas, debandando, não se manifestando, ausentes perspectivas, horizontes, pontos de fuga. Sonhos.

Estaria dormindo, estaria acordado? Seria ele apenas uma manifestação de outra pessoa, um fragmentos de alheia realidade, sonho do sonho?

Não saberia dizer, não soube dizer. Não lhe caberia dizer.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Noite.

Acordou dentro da xícara de café. Diante dele, mui tranquila, fumegante. Gole após gole, devolveu-lhe a vida que lhe fora tirada pela noite. Pelas noites. Noites e dias, tantas horas, tantas coisas. Nas ruas, poucas pessoas haviam a esta hora. Felizmente, café havia, em alguns noturnos estabelecimentos, que aos poucos despertavam, atendentes bocejantes e olhares remelentos. Noites mal dormidas, madrugadas despertas, há que se ganhar o pão nosso de cada dia. Cada dia. Cada vez mais, tudo era dia, dia após dia, noite após noite, as luzes significavam-lhe cada vez menos diferencial entre noturnos da madrugada e matutinas putas, cambaleantes pelas calçadas anônimas.

Lembrou-se de antigos romances, antigas narrativas, descrevendo tipos como ele, insones, perambulantes, calados. Tipos solitários, anônimos filósofos da noite e de toda sua extensão, das pessoas e todo seu negro lado, sua escondida existência. Ninguém saberia que o vizinho era uma vizinha nas horas vagas. Ninguém saberia que o estudante de medicina gostava de frequentar a zona baixa do mais baixo escalão das profissionais do sexo, a estudar venéreas contaminações, estranhas penetrações, bizarros afazeres de uma mente repleta de insanidade. Tanta gente morta, tanta gente moribunda. Não que merecessem compaixão: não, ele as detestava. Mas fascinava-se de vê-las se acabarem por seus excessos noturnos.

Ninguém estava vendo. Ninguém além dele.

Gritos abafados na madrugada, ele havia escutado. Não se aproximava, não se importava. Não queria se importar, não mais. Quem eram eles, elas? Ninguém, assim como ele era para eles, elas. Ninguém.

Ninguém.

Café, doce café. Amargo em natureza, adocicado por mera presença açucarada. O dia começava, para todos. Não para ele. Para ele, os dias nunca começavam, nunca terminavam. Meses a fio, noites adentro. Diziam-lhe muitas coisas, deveria se exercitar à noite. Não, pela manhã. Não, ao meio-dia. Não deveria se estressar. Deveria tomar banhos quentes. Frios. Ler livros difíceis de ler. Coisas amenas à cabeceira da cama.

À cabeceira da cama...existia o mundo. Nada leve, nada ameno, ao meio-dia, à madrugada, ao nascer do sol. Cinza sendo azul, negro como a alma dos homens. Credo, diziam, e se afastavam. Todos se afastavam. Todos se afastaram. Todos fizeram pouco caso, não é possível que exista alguém tão mal-humorado; egoísta! deveria pensar em quem está mal de verdade. Câncer. AIDS. Exames vestibulares, estupros. Não.

Dele não se lembravam. Só para menearem a cabeça. Não se lembraria deles também. Não mais.

No fundo da xícara, negro pó encharcado, prejudicando o aroma do café. Não seria necessário sorver aquele último gole. Só precisava de pagar ao bocejo operador da máquina registradora. Olhos vermelhos. Noite mal dormida, cá está um irmão, ainda que seja longe disto.

Muito longe disto.

Moedas, nota surrada. Obrigado, até amanhã. Sim. Para você também.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Deserto.

-Eu te odeio.

Nada. nenhuma resposta. Àquela hora, na calada da madrugada, esperava escutar réplicas; um par de pessoas mais normais já estariam se degladiando, se esfregando no chão, no asfalto, punhos cerrados, secos barulhos, oriundos de socos, muitos socos.

Mas nada. Silêncio.

Também, o que poderia esperar? Asfalto? A última estrada se acabara no nada, meio do nada, nada em direção a nada, lugar nenhum. Bem vindo seja. População: ninguém.

Ou alguém. Alguéns, se é que tal coisa existe. Se é que o que somos existe para fora além do que somos para dentro. Isto existe? Existimos para os outros, queur dizer, o que somos de nós para nós?

-Idiota.

Nada. Nenhuma resposta. O que é o silêncio para quem faz dele sua divindade? Seu deus? Existe algo além da humanidade não presente ali? nada, ninguém.

Não pode se olhar nos seus olhos sem ver o que acontece. Não poderia se ver sem se odiar.

Na surdina da noite, apanhou o carro, dirigiu muito tempo. Deserto. Nada além de areia e ninguém, por todos os lados. Deserto. Sim, como diria um certo alguém, grandes são, e tudo na vida é deserto.

Em sua vida.

Ninguém além do reflexo. Do que era. Do que é.

Ninguém.

Porquê...porquê não conseguia fazer como o que escrevera, escritor falido, de si para si, meses atrás. Por que não mais era aquilo? Havia alguma certeza? Havia alguém ali? Algo que prestasse? Para quê? Para servir de mau exemplo, de referência, paradigma do fracasso e da auto-piedade. Piedade?

-Filho da puta, eu te odeio.

Nem mesmo um eco. Não ali, não sem paredes ao redor. Nada, além do chão e das estrelas, tão distantes, tão mortas, luz morta a viajar, anos luz a fio. Registro incorreto de algo que fora e não mais era.

Assim como ele.

Quando, quando teria fim, tudo aquilo? Era isso que queria? Era isso que era? Pesadelo inacabado, inacabável. Eterno enquanto durasse. Enquanto vivesse.

-Por quê você não morre??

Todas as perguntas sem respostas...apesar de bem saber ele todas. Todas.

Não tinha mais nada a ser feito. Nada havia além do nada. Nada.

Areia e estrelas. Tudo e nada, assim como ele.

Assim como ele.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Leis.

(Voz de narrador de série enlatada estadunidense[americana é o caralho, seus pulhas estadunidenses]):


Previously on Noiado no Sótão:


Mas...por que...números, números...salários...binários...cobras e lagartos...falta disto...

Despertador. Logo agora! Logo no momento que comecei a entrar na terra dos sonhos!

Suspirar, resignar. Levantar. Quatro noites, é um novo recorde. Continue, continue.

(...)

Desci a escada e tropecei na lógica. Cambaleei, mas não pude agarrar-me ao corrimão da razão; logo, tomei aquele susto e levantei-me de supetão, novamente na cama. Mais um sonho! Mais uma hora perdida, mais uma noite sem dormir. Ora bolas.

Apanhei a capa, a espada, o bacamarte, os explosivos, a pia da cozinha, a nove milímetros e os remédios para fazer dormir, que achei mas não tinha. E avancei noite adentro, na calada das ruas, iluminadas por todas aquelas fantasmagóricas luzes amarelas dos postes, quantos postes, quantos insetos rondando. Algo de produtivo havia de ser feito naquelas insones e impropérias horas.

Inquisitivamente, indaguei sobre meu alvo. Algo precisava ser feito, de fato. Tarde era a hora que resolvi agir contra semelhante monstro, aquele que havia enunciado a lei do universo, a lei que governava não somente a minha, mas as vidas de todos os homens. Cruel preceito, de fato.

Tudo dava errado, entretanto. A fortaleza onde o tirano residia não era bem guardada, mas tudo que eu fazia para tentar ali adentrar-me sem sem detectado falhava, gatos vadios miando na rua, ratos por todas as partes, mulheres doidas a gritar, "flores para los muertos!" noite adentro, madrugada afora. No final, liguei o foda-se. Chutei a porta, mas ela não cedeu; como era que nos filmes aquilo sempre dava certo? De isopor, deviam ser as portas de Hollywood.

Logo apareceu na porta um senhor: era o próprio, meu alvo, aquele ser que devia ser eliminado. Engatilhei o revólver que trouxera na algibeira e apertei o cano contra sua têmpora esquerda. "Para dentro, cachorro. Acabarei com seu império nesta noite." Ele sorriu sarcasticamente, "Não, não acabarás." Mas aquiesceu, calmamente se dirigindo para dentro de sua modesta casa, sentando-se numa cadeira calmamente. "Sente-se," me disse.

"Prefiro ficar de pé." - "Ah, ficar de pé é bom mas pode causar varizes e até mesmo trombose." Lembrando-me repentinamente com quem estava lidando, me sentei. Ele sorriu. "Mas se a cadeira não for ergonômicamente correta, você pode ter sérios problemas na coluna." - "Maldito," repliquei. "você e sua maldita lei acabaram com minha vida! Com a vida de todos!"

Ele era puro sorriso. "Não, não acabei. Minha lei sempre existiu, desde que o mundo é mundo, desde que o universo começou, sabe-se lá como. O que fizeram foi simplesmente me atribuir a responsabilidade por algo que não é de minha alçada, nem da sua, nem de ninguém. Claro, algo tinha que dar errado e me fuder mais ainda a vida. É a lei."

Eu estava ficando impaciente. Tanto sono, tantas noites sem dormir, as noites, as palavras por ele proferidas, tudo, apenas uma cópia de uma cópia de uma cópia, xerox infinito e borrado do mundo real, se é que ele deveras existia àquela hora. "Não quero saber. Enunciastes tal lei, deves morrer. Morrerás, agora!" Apontei a espingarda para a cabeça de Edward, que nem sequer piscou.

"Não, não morrerei."

Clic. Merda! A arma falhou. Desembainhei o facão. "Não queria que chegasse a isso, mas se tiver de ser, será." Ele riu. "Não, não será." Raivosamente, brandi a machete com o intuito de decapitar meu oponente. A lâmina bateu no pescoço dele, mas fora ogrito de dor causado pelo impacto, nada mais aconteceu. "Merda, está cega!" Ele esfregou a mão na parte injuriada de seu pescoço, dizendo "Claro. Perdes seu tempo tentando me matar. Já disse, vai dar errado."

"SEU FILHO DA PUTA! Como é capaz que dê tudo errado??" - "Dando. Esta é a beleza da lei, da 'minha' lei, conforme dizem por aí. Se tentares jogar ácido em mim, garanto que de alguma fora o ácido que compraste, tão baratinho na loja de artefactos malignos de segunda mão, estará com a validade vencida e só tornara louras minhas já desbotadas madeixas. Vai. Dar. Errado."

Desanimado, e diante de tal irrefutável argumento, me dirigi cabisbaixo à porta. Entretanto, ao chegar na soleira, o rosto dele se transtornou e ele emitiu estranho grunhido, oriundo de alguma indefinida porémlancinante dor interna. "Argh. É o paradoxo da lei: se ela puder dar errado, dará."

Tombou morto ao chão. Fiquei alguns instantes ali, fitando seu inerte corpo. Eu havia vencido! Havia mesmo? É necessário experimentar. Mirei minha arma contra minha própria cabeça. Ela não estava funcionando, então nada daria errado, não é mesmo?

B-a-n-g.

Merda. Morri. Deu tudo errado.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Noite, morta.

Acordei sobressaltado, num repente repentino, com o perdão da cretina expressão. O sonho ainda não bem se desvanecera em minha mente, mas já não conseguia me lembrar de quase nada do que se passara. Algo relacionado a uma casa...uma pia, um estranho reflexo no espelho...nada que fizesse muito sentido, nem que tivesse algum significado especial, alguma sorte de mensagem do subconsciente inconsciente para a consciência consciente. Nada.

Quanto tempo havia se passado desde que tentara dormir pela enésima vez naquela noite? Busquei o despertador disfarçado de celular debaixo do travesseiro e olhei: vinte minutos desde a última checagem? Estava certo? Sim, estava. Não adiantava. O sono não viria, por mais uma noite.

Fiquei deitado ali, olhos bem abertos, fixos no ponto central do vórtice do cortinado. Escoar lento dos segundos, tempo que não voltaria mais. Para onde iam, todos os segundos? Talvez, atrás dos primeiros? Ah ha ha, que engraçadinho é o estado de semiconsciência. Deveras. Criatividade para se falar bobagem, isto minha mente tinha...tem, de montão. Agora, saber resolver as coisas que me deixam acordado...

O mundo tem peso, e é por vezes pesado demais para aqueles que tentam carregá-lo nas costas...para aqueles que tanto se mutilam mentalmente, todos os dias, sem nem saber por quê o fazem mais. De que adiantava? De que adianta?

Quantas perguntas cabem numa noite de vígilia?

Lá fora, o nada e o tudo se encontravam, em estados latentes de minha análise aprofundada porém inútil sobre els, tudo e nada, nada e tudo. Tudo ou nada? Verdade? Tabelas da verdade...computações...iterações...binários números, estranhos afazeres, estranhas lógicas que em minha mente não encontravam calço, não firmavam estruturas. CALE-SE, CALE-SE! ó maldita corrente de pensamentos.

Quantas telhas haviam naquele telhado? Quem sabe, se eu as contasse, o sono não viria? Uma, duas...aquela ali tem manchas de mofo...fungos...ous seriam líquens? Líquens? Ancient lichen? Poções, alquimia...profissões, outras vidas, não reais. surreais...será que eu ficaria mais feliz se tivesse alguém ali comigo, compartilhando toda aquelas inacabadas reflexões insones?

Quem? Quem seria obrigado a tolerar semelhante criatura? Ah ha, ha, lá vem ele de novo, o troll do pensamento. Ah, cretino. Como seria não ter semelhante residente em minha cabeça? Será que eu seria menos esquisito, menos estranho, menos idiota?

E agora, depois destas flagelações, quanto tempo havia se passado? Relógio, onde estás.

Cinco minutos. Hu-há. Ah, tempo. Porquê, passas tão devagar nestes momentos tão chatos?

Fechar olhos, rolar de cá para lá. Sentir, por vezes, a queda rumo ao vazio tão esperado da inconsciência...mas logo em seguida retornar ao silente e insone quarto. Quarto de hora, meia hora, hora e meia.

Mas...por que...números, números...salários...binários...cobras e lagartos...falta disto...

Despertador. Logo agora! Logo no momento que comecei a entrar na terra dos sonhos!

Suspirar, resignar. Levantar. Quatro noites, é um novo recorde. Continue, continue.

terça-feira, 29 de março de 2011

Morta noite.

Inútil. Continuar ali seria.

Os segundos, que tanto costumavam passar rapidamente em apertadas horas do dia, em momentos em que prazos venciam e tudo parecia estourar, agora eram contados em produtos de centenas de milhares. Sentou-se à beirada da cama, esfregou os olhos. Que horas seriam?

Meneeou a cabeça. Faria alguma diferença? Não muita.

Naquela cidadezinha, a vida era tão devagar quanto os minutos na calada insone da madrugada. Desde que aceitara o oneroso, pesadíssimo peso de herdar uma grande casa somada de grande quantia, bem sabia deste fato inegável. Quanto menor a cidade, maior é o tempo. Maiores são as fofocas. Oh, como são maiores as fofocas.

Pensara que faria bem em se mudar para o solitário sobrado herdado, e lá estava ele. Tal herança chegara em oportuníssima hora, momento em que mais uma vez cogitara encurtar abruptamente seu prazo de validade terrestre, uma vez que mais uma vez falhara em trilhar com sucesso nova oportunidade ofertada por alguns amigos, os poucos que nele ainda depositavam alguma confiança. Sentira-se tão imbecilizado e tão envergonhado, chegou mesmo a comprar, com seus últimos trocados, duas caixas de potentes barbitúricos e uma garrafa de potente porém vagabunda beberagem alcóolica. Organizara seus afazeres, queimara seus segredos que não esperava encontrarem após sua extinção, e esperara a coragem chegar.

Não chegou. A tempo, entretanto. Logo, logo, veio a notícia do falecimento de distante parente, dono de toda aquela imensa casa vazia, daquele imenso numerário, parente este que visitara muito tempo atrás, e com ele confraternizara, compartilhavam de muitas opiniões atravessadas, alienadas pela maioria dos homens, idéias sobre vida e morte, sociedade e saciedade, modernismos incongruentes e fascismos ditados pela moda, pela igreja, pelo estado.

Passara ele na sua frente, o parente. Descarregara uma velha espingarda calibre doze nas fuças, semanas atrás. Deixara quase tudo para seu torto sobrinho, com a condição que a casa habitasse. Nem chegou a pestanejar muito. Acertou as dívidas que ainda existiam, enviou toda sua tralha para a solitária casa e para lá se mudou. Adiara momentaneamente a excursão para alhures locais, além desta terra, deste planeta, destas pessoas tão insolentes e de toda esta merda. Por hora. Agora que não necessariamente devia nada a ninguém, quem sabe? Talvez encontrasse alguma motivação real.

Ouviu as fofocas das tias velhas, lamúrias pelas vidas reumáticas e ausência de dinheiros, aceitou visitas incômodas de estranhos desconhecidos que afirmavam ser credores de seu tio, tolerou duas semanas, até comprar um par de imensos canzarrões que agora reinavam no terreno circundante à casa. Estragou de propósito a campainha e gozou de merecido silêncio. As pessoas, sempre lhe perseguiam. Não desta vez. Elas que se danassem. O espaço que separava a porta da frente do portão de sua propriedade era suficientemente grande para isolar acusticamente seus ouvidos dos clamores dos reclamantes.

Após ter feito tal revisão interna dos acontecimentos passados nos últimos tempos, olhou para o imenso e antiquado relógio à cabeceira da cama. Cinco minutos haviam se passado. Suspirou fundo e se levantou. A casa era grande, andaria de quarto para quarto, de cômodo para cômodo, até o sono chegar ou o dia raiar. Estava farto de insônias; se acostumara com quase tudo na vida, mas não com a ausência daquele escape perfeitamente legalizado da realidade, da vida, que apesar dos novos números e da nova casa, continuava insossa e ausente de vida propriamente dita.

Caminhou no escuro, esbarrando em móveis. Nem se incomodou em acender luzes. Onde quer que o sono batesse, ele encostaria e dormiria. Passo a passo, rondava como um fantasma pelos silentes cômodos. Silêncio, silêncio. Negrume quase completo nas vistas, e por vezes o detector de móveis no escuro - suas canelas - se chocavam com objetos não identificados, que eram devidamente chutados e xingados.

Idiota, acenda a luz. Não queria. Não sabia por quê, mas não queria. Lá fora, tudo era silêncio, a não ser pelos insetos da noite, pelas corujas que por vezes piavam, e pelos qui-qui-quis dos morcegos que por ali passavam, engolindo insetos. O latido ocasional de seus cachorros. Fora isto, nada. Bem diferente da biboca tosca que residira naquela cidade grande, agora tão distante. Como eram barulhentas as noites ali. Talvez fosse isso, seus ouvidos ainda sentiam falta de ouvir todos aqueles urbanos rumores.

Entrou num banheiro, tateou até encontrar a pia, lavou o rosto, sorveu um tanto do líquido, bochechou. Frigidíssima água aquela, e um tanto ferruginosa também. Gosto de sangue, óxido de ferro, hemoglobina. Ha! Como seria hilário acender a luz e---

Clic.

Luzes que lhe cegaram momentaneamente as vistas. Porra! Só faltava esta. Sistemas elétricos malucos naquela casa, que acendiam do nada. Esfregou os olhos agredidos pela luz repentina, e quando os abriu, olhou para o espelho.

Água na face...água...vermelha?

Cambaleou para trás, olhou para a pia, onde a água ainda corria. Água? Ou...

Sangue?

Os esbugalhados olhos se voltaram para o espelho. Viu novamente sua cara aterrorizada, e por detrás de sua cabeça, alguns passos atrás...uma coisa, um vulto, algo que não sabia o que era. Sentiu a pressão sanguínea subir até o limite do suportável, parou de respirar. Não vislumbrou a vida toda passar, pois estava muito assustado para pensar.

Não viu nem sentiu mais nada além de estranho sussuro em seus ouvidos. E a escuridão se fez novamente reinante.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Todo mundo morre.

Começou na noite anterior.

Mais uma vez, barulhos externos de infímos vertebrados de estimação o mantiveram acordado por boa parte da noite. Até o momento que se fartou e resolveu agir, ainda que de forma impensada. Sorrateiramente, foi até o armário de remédios e fez uma seleção de artificiais agentes de "fazer dormir" - como a casa era composta de muitos membros problemáticos em suas mentes, não foi muito difícil fazer a seleção, tarjas pretas ali abundavam. Oito gotas disto, três comprimidos daquilo, glug, glug, glug, repita, agora lavando tudo com a mais pura aguinha russa ou simplesmente vodka, ainda que de russa não tivesse nada, miserável Orloff falsificada.

Mas...por acasos do tempo e da índole das pessoas que na casa existiam, alguns dos ditos rmédios estavam com mais tempo de existência que muitos aborrescentes escutantes de Justin Bieber ou de Rebecca Black por aí. O que não causou o efeito esperado no Noiado. O sono não veio, de forma alguma. O gato chiou novamente lá embaixo, e desta vez houve perseguição, xingamentos e borrifos d'água desferidos contra o felino. E os impropérios pelo Noiado desferidos contra o infame felino foram de tal magnitude acústica, que o Alemão de Araque, seu arqui-inimigo da vizinhança, também berrou estranhos xingamentos em sua "língua nativa".

O Noiado, que já estava ainda mais noiado que de costume, diante de tanta caceteação da vida, apenas desejou a morte horrenda de tal vizinho; imaginou centenas de facas trespassando seu corpo. A esta altura, o gato já tinha desaparecido dos arredores, e ele voltou cabisbaixo para sua cama. Conseguiu pregar os olhos por um par de horas, para ser despertado por sirenes e choro, gritos desesperados oriundos da casa do Alemão. Levantou-se tontamente e olhou pela janela. Carregavam o corpo desprovido de vida de sua Nêmesis local para o necrotério. Estava cravado de facas.

O Noiado franziu a testa. Como era possível que tal coisa tivesse acontecido? Depois de alguns segundos, entretanto, ele soube. E resolveu fazer o teste. Apesar de ser cedo, muito cedo, se vestiu, comeu alguma coisa e caminhou para o mirante que ali perto exisitia, onde - mais uma vez - os malditos favelados(estes orgulhosos de serem apenas isto, nao sentido mais depreciativo da palavra, e não pessoas desfavorecidas residentes naquelas comunidades toscas) tocavam aquilo que denominavam "música" - o maldito fanque carioca, esta abominação da natureza.

Lá chegando, se horrorizou com o volume de tal sessão de estranhos barulhos que era emitida de carros caindo aos pedaços, mas providos de aparelhos de som que valiam bem mais que as carroças que os transportavam. Se esgueirou pelos matos e escolheu seu alvo, um imbecil que cada vez mais aumentava o som de sua "caranga." Pensou em como seria legal se ele simplesmente explodisse em uma inexplicável massa de sangue.

Pop.

Gritos por todos os lados. O cara havia, de fato, estourado, do jeitinho que Noiado pensara. Um maléfico sorriso estampou seu rosto, e ele deixou sua imaginação correr livre e solta, liberta, descontroladamente liberta, depois de tantos anos e anos de frustrações, de ter de tolerar todos as injúrias pelos babacas proferidas. Segundos depois, o mirante havia se transformado em um cenário de inexplicavel massacre. O som ainda imperava, mas os donos dos carros e todas suas consortes e confrades não mais respiravam. Calmamente, ele caminhou até o pátiuo e desligou todos os aparatos sonoros. Ah. Silêncio. Como era raro, como era precioso.

Pensamentos contrários à sua raiva, clamantes pelo retorno de sua humanidade, vieram à tona em sua mente. Eram pessoas. Tinham famílias. Como poderia fazer ele tal coisa??

Fazendo.

Sentia a sanidade e o complexo de "Rei dos Bonzinhos", rei dos covardes, por assim dizer, se esvair diante de tanto poder em sua mente. O poder corrompe, de fato. E ele era a prova viva disto. Sentia doentia alegria ao descer calmamente a rua que o separava do ponto de ônibus que normalmente apanhava para ir ter ao seu horrendo emprego. Ao se aproximar, viu de longe um revoltante espetáculo: pivetes se divertiam esfrangalhando o abrigo do coletivo. O malévolo sorriso novamente estampou seu rosto, bem na hora que tais "pessoas" o avistaram. Ameaçadoramente, dele se aproximaram. "Tá olhando o quê, branquelo?"

"Eu? Nada. Apenas um bando de filhos da puta quebrando um abrigo de ônibus."

"Que foi que tu disse?!"

"Hmmm. Quer dizer que, além de filho da puta, é surdo, hein. Veremos isto ocorrer de fato."

O pivete correu em sua direção, mas estacou alguns passos antes de chegar perto de Noiado. Seu rosto se desfigurou em dor, o sangue jorrou de seus ouvidos e ele tombou ao chão, gritando, urrando. Seus comparsas arregalaram os olhos, mas foi somente isto que poderam fazer. Um deles teve a cabeça arrancada por invisível força. Outro, foi trespassado por milhares de cacos de vidro, aqueles que jaziam no chão diante ao destruído abrigo. O que restava, tentou correr, mas foi arremessado para o alto, voou até sumir de vista, para depois de muito tempo cair no meio da praça que ali perto havia.

Noiado se sentou no que restava do abrigo e esperou o próximo ônibus. Evidentemente, passou um famoso "Garagem." Pop. Uma massa sanguinolenta estava agora ao volante, não muito habilidosa na tarefa de conduzir um ônibus que ia para garagem alguma. O autocarro capotou metros adiante. Garagem, pois sim. Agora sim, há um motivo para transportar tal carcaça para a garagem...ou melhor dizendo, para um ferro velho.

Como os gritos dos meliantes e o estrondo do acidente houvesse chamado a atenção de sonolentos moradores do bairro, ele decidiu se dirigir calmamente e a pé, para outro local onde houvesse maior abundância de transportes. Àquela hora da madrugada, era absolutamente normal que, algumas centenas de metros adiante, outro grupo de pretensiosos assaltantes mequetrefes tentassem lhe roubar algo.

Ao se afastar dos corpos, o Noiado pensou em como naquele dia os jornalecos vendidos a um quarto de Real iriam ter o que falar. Talvez tivessem de publicar uma edição dupla relatando todo aquele sangue que no chão por onde ele pisava havia. A caminhada era longa, mas foi deveras agradável para aquela deturpada mente, aquele agente do caos, estranho ser de louras barbas que havia se tornado um autêntico anjo da morte. Ou apenas um demônio desbotado. Seres humanos mau humorados lhe empurravam, "Acorda ô gringo inútil. Sai do caminho." Pop.

Pop, lá se foi o agente da BHTRANS, BHTRASH, que multava carros em uma rua deserta àquela hora da manhã. Pessoas gritando em seus ouvidos? Pop, pop, pop. Silêncio. Cansado de tanto andar, resolveu pegar um ônibus, tentando ignorar o olhar horrorizado que certos transeuntes lhe deitavam, devia ser todo aquele sangue que nele respingara. Olhe mais um bocado, por favor. Um débil grito, outro corpo estendido ao chão.

Segurou seu poder ao máximo quando embarcou no coletivo. Ignorou todos os olhares e se sentou ao fundo. A maioria daqueles "mortais," entretanto, agia conforme o figurino humano manda, conforme impera a lei da conservação de suas próprias vidas. Desviavam o olhar. Não é comigo. Vou ficar na minha. O Noiado nem sequer se importou. Estava acostumado. Quando transitava pelos coletivos, mesmo antes do malévolo poder nele existir, sentia tal coisa na pele. Jamais se sentavam a seu lado nos ônibus, ainda mais se estava em dias de extrema fúria e trajando camisetas sem mangas. Todos tinham receio ou asco daquele alemão nazista tatuado e mau encarado que ali estava. Todos o viam como um ser alienígena. Riu mentalmente de tal constatação.

Chegou em seu emprego, e foi direto para a sala de certo alguém, que havia meses antes, lhe puxado o tapete diante da possibilidade de que, porventura, o Noiado subisse de posição e viesse ameaçar os planos de tomar o poder naquela merda. Nem precisou entrar na sala. Uns vinte metros antes de chegar defronte à mesa da criatura, escutou o surdo barulho de entranhas estourando e sangue jorrando por todos os lados. Hmmm. Merda, pensou ele, queria ter visto.

Foi para sua sala. Sentiu apertar a vontade de ir ao banheiro, e lá entrou. Ao fechar e trancar a porta atrás de si, aconteceu algo que não esperava.

O espelho.

Ao contemplar casualmente sua imagem naquele artefato reflectivo, sentiu o chão lhe faltar. Espelhos não mentem. E a imagem ali existente dizia tudo. Ali estava o mais odioso dos seres, aquele que havia se libertado de todas suas amarras, deixado cair a máscara infame de "bonzinho", e que, tomado de assalto pelo nefasto poder que por algum motivo havia sido lhe ofertado, havia se tornado, de fato, o que sempre existira por debaixo de toda aquela falácia de bom moço. Um ser perverso, maldoso, o cão, por assim dizer. Tudo que nele havia de humano, ou melhor dizendo, que ele afirmava debilmente e mentirosamente ser seus "valores mais dignos", sua falsa natureza de "paladino da justiça, do moral e dos bons costumes", tudo isto...havia sido revelado como sendo a maior mentira que uma pessoa poderia contar.

Era um monstro como todos os outros, mesmo pior que todos os outros, matara sem sequer se importar com as consequências. Impunimente, injustamente, tamanha era a desproporção de seus atos e dos "crimes" que suas vítimas eram culpadas. Se é que eram culpadas.

Olhou em seus próprios olhos refletidos e pensou.

Pop.

Foi a última morte por aquele monstro causada.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A-12.

Acordar. Olhar para cima.

Hoje, não me sinto com vontade de andar. Não me sinto com vontade de fazer nada.

Para quê? Por quê?

Não preciso fazer mais nada. Não sinto vontade de fazer nada. Não existem motivos. Não existem razões.

Minha vida, desde que saí daquele treco, foi privada de sentido. E se nem fome eu sinto, se nem precisar de comer eu sinto, existe algo de errado por aqui. Isto não é vida.

Sou somente eu e esta cidade em ruínas. E toda a porção de certa forma ainda inteligente, racional dentro de mim sabe que iusto não é certo. Que isto não é...real, eu diria. Mas a mesma porção me develve uma pergunta que não tenho resposta.

Então, que diabos é isso afinal de contas? O inferno? Purgatório? Algo assim? Uma espécie de pós-vida ditada por alguma religião ainda desconhecida...ou simplesmente o pós-vida seria de fato isto....este vazio, este nada?

Algo dentro de mim, que não sei definir o que é, me põe de pé, ainda que o restante de mim não queira nem sair daqui. Mas o que mais posso fazer?

Não sei, não me lembro direito se, na época em que ainda estava...vivo, propriamente vivo, não me lembro se eu costumava ser assim, se a vida cera feita de momentos como este. Cinza e cinzas, nada e silêncio quase absoluto. Ninguém em volta.

Minhas pernas se poem a andar, mesmo contra minha vontade de apenas permanecer ali e morrer. Tento me insuflar de vã esperança: quem sabe, hoje irei encontrar algo diferente. Hoje, irei ver alguém. Hoje encontrarei algum sentido para tudo isto.

Hoje, hoje hoje...

Tento desligar minha mente, mas é impossível. Nunca entendi pessoas afirmarem que conseguiam de fato ficar sem pensar em nada, meditar. Tá bom viu.

Ando e ando, tentando me concentrar apenas em contar os passos: mil e doze, e treze...

Quando dou por mim, estou de novo na tal praça. Não adianta. Por mais que ande, nunca consigo chegar a lugar algum. Existe algo errado com este lugar, como se ele fosse um loop eterno, um labirinto sem fim. Ou isto, ou meu senso de orientação é o pior possível.

De repente, tneho um surto de memória e me lembro de comentar isto com um amigo, "se eu caísse numa selva, eu ficaria rodando em círculos até morrer de fome."

Amigo...quem era ele? Que momento foi este? Não consigo me lembrar direito. Quando isto aconteceu?

Qual é mesmo meu nome?

Não me lembro.

Foi aí que percebi. Não tinha a menor idéia de quem eu era, de fato. Minha cabeça começou a latejar. Continuei tentando me lembrar de coisas, de fatos, de datas, mas nada me vinha à cabeça que fizesse sentido. Como foi que ingressei no tal programa criogênico? Qual eram os nomes das pessoas que comigo estivera, que me treinaram?

As imagens em minha cabeça eram cada vez mais imprecisas, embaçadas. Seria isto um efeito colateral do processo em si? Ou eu estaria de fato e finalmente, ficando louco de vez?

Em certo momento, precisei me apoiar na beirada de um extinto monumento da praça. Estava tonto, perplexo. Minha cabeça era tão confusa quanta a realidade ao meu redor. Esta cidade, esta praça. Qual eram seus nomes? Me lembrava de aqui ter estado antes, mas...não fazia sentido.

O silêncio reinava estrondoso ao meu redor. Não encontrarás resposta em lugar algum, era tudo que minha cabeça ainda tentava me dizer, pare de pensar, pare. Mas não conseguia. Nomes, todos eles se perdiam em minha cabeça. Meus pais...meus amigos...quem eram eles?

Fechei os olhos...forçadamente. O que acontecia? O que tinha acontecido? Onde eu estava, onde estavam todos? Amnésia, esta palavra me veio à cabeça. Amnésia.

Eu estava completamente sozinho naquele labirinto arruinado, estava completamnete sozinho em minha mente. Escuro, sombrio. Sozinho.

E cada vez mais louco.

De repente, algumas cores pularam na escuridão. Imagens, um tanto distorcidas, de gente. Um cachorro, Max. Max! Era este o nome do cachorro! Eu me lembrava do nome dele! O nome do cachorro!

Que cachorro?

Eu nunca tinha tido cães. Eu era alérgico a eles, não? Alérgico a cães...visitas ao hospital...injeções...picadas nos braços, teste anti-alérgico. Max. Max. Mad Max. Em homenagem ao...ao quê? Alergia. Soro. Passeata. Jornais. Jornais e mais jornais.

Letras garrafais estampando a quebra do sigilo dos membros da FAARF. Que diabos era aquilo? O cachorro...eu ganhei o cachorro....de natal....Me torturaram...agulhas por debaixo de minhas...unhas...que eram compridas....e quebradas...o cão, o cão. Max.

As cores se tornaram cada vez mais abjetas em minha cabeça. As imagens dançavam, e eu me sentia cada vez mais tonto. Abri os olhos.

As cores dançavam nos cinzas, se intercalavam com eles, com os prédios, que agora pareciam ser meio disformes. As folhas amarelas, se tornando violetas, se tornando verdes, subindo aos céus. Agora sim, tinha certeza de estar ficando louco de vez. Não havia tomado nenhuma droga, não havia visitado o quartinho secreto do álcool.

Alguém...alguém...me ajude. Era tudo que eu tentava pensar, mas em vão. Mesmo minha voz interna era sufocada pela confusão mental de imagens e sons desconexos em minha cabeça, em minhas vistas.

Acho que gritei antes de sair correndo. Para onde, não sabia, não queria saber.; Queria fugir daquilo tudo. Basta, basta, por Mitra. Me deixem em paz. Que espécie de inferno é este, eu gritava e gritava, e não via para onde ia.

Tropecei em alguma coisa e caí, ou acho que caí. Apaguei.

Ao menos, a confusão parou. Em seu lugar, apenas a dor de cabeça insuportável.

Rolei meu corpo e abri de novo os olhos, vendo o céu cinza.

Cinza, tudo cinza.

Alguém. Alguém.

Existe alguém ainda aí? Alguém?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

B-4.

Tomei a decisão. Espero que seja certa.

Nesta noite, estremeço ao contemplar todo meu plano. Creio que, de uma forma ou de outra, sairei no lucro. Ninguém poderá me aprisionar, caso dê tudo errado.

Mesmo assim, bem sei que tal coisa, tal plano...me drena as forças e me faz sentir muito medo. Mas não irei retroceder. Estou cada vez mais farta disto tudo...das coisas que fui obrigada a fazer, e das coisas que fiz por livre e spontânea vontade, mesmo indo contra todos meus príncipios, toda minha ética.

Em verdade, o procedimento que planejo realizar...para interceder na crueldade com a "paciente" que estamos trabalhando, é extremamente invasivo. Mas não vejo outra maneira de tentar salvar aquelas duas mentes que ali se encontram...

Se bem que, a esta altura, uma das mentes que habitam aquele cérebro já está provavelmnete morta. A mente original da paciente. Sinais indicam necroses avançadas em algumas partes do telencéfalo. E a coisa progride.

Entretanto, o chip biológico por nós implantado ali não mostra sinais de desgaste. O registro das ondas cerebrais ainda é forte, e típico de uma pessoa em pleno sono REM. A mente por nós transplantada tomou posse daquele cérebro. Mas o corpo dela reage fortemente contra tal invasão, mesmo sob a pena de se matar enquanto tenta, em vão combater tal agente invasor.

Os imunosupressores fortíssimos que administramos nela, facilmente matariam uma pessoa consciente. Mas, naquele estado de coma induzido que ela se encontra, não existe muita forma de reagir tão abruptamente. Creio que, na ausência de tais agentes, ela já teria sucumbido ao processo.

Mesmo assim, o corpo é uma máquina fantástica, e inventa maneiras de contornar tais impedimentos...

Creio que ela irá morrer de fato em breve. Não mentalmente falando, uma vez que creio que tal morte já tenha ocorrido. Falo da morte do corpo em si.

Não aguento mais ser testemunha e agente invasora de tal barbaridade. Não me importo com tais falsas promessas de que estamos realizando uma audaz pesquisa, que irá muito ajudar a humanidade...bem sei que tal procedimento, se algum dia for aperfeiçoado, servirá de meio de controle sob a população. O controle toatal de todos os habitantes. Por meio de uma invasão, um estupro mental.

Não farei parte desta atrocidade. Felizmente, alguns dos cientistas que comigo trabalham, estão me ajudando. Eles também discordam com toda esta porcaria, esta bárbarie.

Apalpo a cicatriz no topo de minha agora careca cabeça e me reafirmo em minha decisão. Não foi fácil, não foi indolor. Mas eu mereço.

Sim, mereço. Por ter me deixado fazer parte de toda esta merda. Amanhã faremos o procedimento. Custe o que custar. E de uma forma ou de outra, ficarei livre de toda esta angústia.

Ou ao menos assim espero. Veremos.

Esta será minha última anotação neste caderno. E espero que encontrem tal coisa, após tudo ter acontecido. Espero que alguém ache este caderno, vasculhe todas as anotações e de certa forma, se sensibilize diante destas atrocidades.

Não faço muitos votos de esperança, entretanto. A esperança é algo que quase me abandonou neste dias tão sombrios.

Mas mesmo assim, ela ainda existe, nem que seja presa por um microscópico fiozinho. Veremos o que acontece.

Até nunca mais.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A-11.

Andar. Andar até cansar.

Todos os dias, todas as horas. Até cansar, até me deixar cair em uma pilha de entulho nestas ruas esquecidas por tudo e todos.

Menos por mim...que ainda tenta encontrar alguma espécie de saída, alguma coisa de diferente, algo que vá me...salvar, resgatar. Não sei de nada. Não mais.

A trilha das folhas está completamente esbranquecida já fazem dias agora. Dias? Meses? Não sei dizer, não mais. Parei de contar, parei de me preocupar. Parei de comer e de beber. Pareço mesmo não precisar de nada disso por aqui. Não sinto nad. Nada, além de um imenso vazio.

Engraçado como as coisas mudam. Quando o mundo era ainda o que fora, em minhas horas vagas, eu também escrevia bobagens, tentava contar histórias e dar minha opinião sobre coisas...tudo em um daqueles sites gratuitos da agora extinta internet. Alimentava alguma vã esperança que alguém pudesse se interessar pelo que escrevia, quem sabe, arrumar um emprego como escritor, ao invés daquela carreira militar odiosa e vazia.

Lembro-me vividamente o dia em que resolvi desistir de tal sonho vago. Um de meus melhores amigos, que dizia ler o que eu escrevia, um belo dia me vem e me fala que não lia nada, só ia pulando os parágrafos.

Aquilo bastou para ser o último prego em meu caixão de resignação perante a vida que me fora destinada. A vida de um peão inútil, uma peça descartável na grande equação.

Se uma pessoa, que dizia ser meu amigo, não estava nem aí para mim, o que mais eu poderia esperar das outras pessoas, que nem meus amigos eram?

Hoje em dia me pergunto se nas atuais circunstâncias, tal desapontamento me serviria de mola propulsora para que eu afinal de contas abraçasse meu destino de nada ser. Pois é isto que continuo sendo, um nada. Mesmo no meio deste monte de nada, pouco coisa de diferente pode ser constatada neste ser vivo, neste ser humano que nada mais é que alguém que espera sua vez de se tornar um nada, oficialmente.

Já deveria ter morrido, entretanto. Ando e ando, nestas ruas que nunca acabam. Parece que estão gozando de minha cara, pois isto não faz o menor sentido. Eu ando e ando e ando mas não chego alugar algum. As ruas não acabam e parecem se repetir diante de meus olhos.

Digo tudo isto em voz alta, apenas para ter o que ouvir. Para conseguir escutar um último sopro de humanidade no meio desta imensidão de lixos e vento, de nada sobre nada, onde um nada por ali caminha.

Algumas vezes eu grito, apenas para ver se alguém me escuta. Para ver se alguma voz misericordiosa me responda, "você não está sozinho".

Sim, estou. O vento vazio me assegura disto.

Jamais estive tão sozinho assim, e olha que já fui o mestre de me sentir desta maneira no meio da multidão de final de tarde que circulava por estas ruas, por esta cidade, uma verdadeira manada de gente e mais gente, se acotovelando, esbarrando em meus ombros e nem sequer pedidndo desculpas; eu me sentia como se não houvesse ninguém ali.

Penso e penso e falo alto, e ando e ando, não chego a lugar algum. Sigo as folhas, que há muito deixaram de ser amarelas. O que me preocupa é que me parece que tais folhas estejam desaparecendo, à medida que ando. Parecem estar mais escassas.

Estou exausto, estou esgotado. Não sinto nada além de vontade de dormir. Não como nada, não procuro nada, não irei beber nada. Mais um dia, mais uma noite.

Onde estou...e porque isto está acontecendo? Será este meu inferno pessoal? Será isto?

Vejo, a alguns metros de distância, outra daquelas coisas estranhas que tenho visto nesta minha eterna peregrinação a lugar algum. Uma porção de luzes estranhas, multicoloridas, que formam uma massa de cores e sons, que fica pairando ali por alguns instantes, para depois desaparecer e só tornar a surgir daqui a dois, três, sei lá quantos dias.

Eu havia ficado alarmado com tais aparições, mas hoje em dia nem ligo mais. Como tudo ao meu redor, não passam de um nada. Uma promessa de algo, mas mesmo assim, som,ente promessas. Falsas promessas. Nem me importo mais.

Fecho os olhos e espero. Sei que o sono virá em breve, e por momentos, me esquecerei de todo este vazio. Pena que eu não sonhe mais. Ao menos poderia me distrair um pouco de tudo isto...de toda esta cinzenta inexistência.

Durmamos, esperemos. O que mais posso fazer?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

B-3.

Não aguento mais.

Todas as noites, é a mesma coisa. Eu sou conduzida a meu quarto, triuinfante e cheia de idéias, e quando me vejo sozinha, o remorso começa a surgir.

Pensei que poderia contornar tal sentimento mergulhando de cabeça na pesquisa, mas...algo dentro de mim sabe, sempre soube, que tudo isto que fazemos aqui...é uma atrocidade. Um verdadeiro estupro mental naquelas pobres pessoas.

Dentro desta solidão silenciosa destes cubículos à prova de sons que são nossas celas, o remorso sempre aparece. Creio ser este o motivo de isolarem acusticamente nossos...aposentos. Depois de fazermos toda a vontade abominável de nossos "protetores", o silêncio das celas nos aguarda para uma noite absolutamente opressiva. As paredes parecem mesmo se fechar por cima de nós, criando uma estranha claustrofobia.

às vezes, é possível escutar gritos abafados, vindos de algum outro quarto ao meu redor. Creio que não sou a única que tem dilemas morais em relação à nossa pesquisa obscura.

Minha principal..."paciente" parece estar se comportando de maneira estranha por estes dias. O outro subconsciente nela transplantado parece estar causando alguma espécie de reação adversa em seu córtex cerebral. Verificamos alguns sinais de deterioração celular em áreas periféricas do cérebro.

Parece que a pessoa sabe que está sendo violentada mentalmente. Os chips orgânicos que contêm a personalidade transplantada não apresentaram nenhum sinal de deterioração, entretanto. Não que isto me surpreenda: um artefato daqueles é bem diferente de um cérebro que já foi vivo um dia.

Vivo...e livre. Creio ser este o pior tipo de pós-vida que uma pessoa possa ter.

Me parece que o subconsciente original da paciente, ainda tenta, por vezes, retomar o controle das funções neurais. Reclamar para si o domínio daquilo que sempre foi seu por direito...Podemos ver isto claramente fazendo uma leitura do eletroencefalograma dela, que mostra picos de atividade neural quando tais episódiso de revolta interna aparecem.

Não sabemos ao certo como a coisa está se manifestando visualmente na realidade virtual por nós instalada na mente dela. Só temos controle absoluto sobre os parâmetros do mundo irreal que algum dos bioengenheiros planejou para este experimento. Na mente do sujeito inserido em tal realidade, já se passaram sete meses que ele foi "despertado" de um equipamento criogênico para descobrir um mundo arrasado,, por nós criado.

Os reflexos de tal embate mental entre a mente original da hospedeira e a transplantada estão começando a ser somatizados no restante do corpo dela. Os rins tiveram alguma necrose nada usual nestes últimos dias. O aparelho gastrointestinal está se contorcendo de maneira inusitada também. Não me surpreendo com nada disto. O copro dela está reagindo contra um invasor.

Um invasor...por nós posto, por nós arquitetado. Uma autêntica monstruosidade.

Estou ficando viciada na mais nova bebida oferecida por nossos "protetores"...uma que possui doses ainda mais altas de efedrina, eu presumo. É a única maneira de me manter acordada. E como fico extremamente trêmula por conta desta coisa, sou obrigada a tomar um relaxante muscular muito poderoso por cima.

Eu sinto...e sei...que isto está acabando comigo. Mas não posso fazer nada. Não consigo mais dormir. Não tenho mais calma. Não tenho mais paz. Especialmente sabendo que outro dia, apanharam um de meus colegas fazendo um registro escrito do que está vivenciando aqui, da mesma forma que escrevo estas linhas neste antiquado caderno.

No dia seguinte, ele não apareceu. Disseram que ele teve uma emrgência médica. Apendicite.

Bem sei que apendicite é esta.

O efeito do relaxante está passando, mas a efedrina ainda domina meu sangue. Quase não consigo mais escrever nada direito. E sei que os pesadelos mentais virão, em breve. Dizem ser um dos efeitos colaterais do abuso desta droga, mas creio que no meu caso, seja diferente.

Bem sei que minha moral, enterrada pelo peso das pesquisas, pela excitação dos resultados deste odioso experimento, se vê livre das amarras quando entro neste quarto.

Ninguém precisa me torturar. Eu mesma me encarrego disto. Todas as noites.

Até quando?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

B-2.

Mais uma noite insone neste cubículo.

O quarto que nos "oferecem" por aqui é uma coisa ridiculamente pequena. Quase opressivo, sufocante. Gostaria de saber se nos outros blocos continentais do mundo que ainda se degladiam entre si, os cientistas estão sendo tratados desta mesma maneira.

Me falavam que era perigoso saber demais certas coisas. Alguns de meus amigos de infância eram suficientemente inteligentes para serem meus colegas nas ciências, mas abandonaram todos os estudos quando as coisas começaram a ficar complicadas.

Eu sempre tive ambições nesta área. Ignorei todos os avisos...e, sinceramente, esperava que por agora, as coisas já estariam melhores. Quando me vi no meio de meu primeiro doutorado, já era tarde. Já estavam de olho em mim. E, por vaidade ou simplesmente por ambição científica mesmo, nunca sequer cogitei a possibilidade de parar tudo e abandonar o país, como meus pais fizeram...

Confesso que acho que, se tivesse de abandonar meu trabalho e ter de fazer algo mais manual, acho que morreria de tédio.

Especialmente depois destes últimos dois meses.

Por mais incongruente que possa ser, meu trabalho aqui está sendo minha única motivação para não acabar com tudo, não sair daqui batendo a porta, ingerindo algum composto letal do laboratório de análises.

Meu antecessor nesta unidade de pesquisa relutou muito, discutiu as repercussões de se fazer pesquisa com seres humanos, mas acabou sendo vencido pela força dos agentes daqui e seus métodos de nos obrigarem a fazer as coisas...mas creio que ele também acabou sendo seduzido pela pesquisa em si, no final de sua vida.

Meu "paciente" principal é uma mulher de 30 anos, que está em estado suspenso há dez anos. Creio que era uma das dissidentes que fez parte das manifestações que culminaram em mais de dois mil mortos e milhares de feridos. E aparentemente, os sobreviventes desta confusão se tornaram cobaias do governo.

Esta mulher está sendo o foco principal de um program de manipulação de identidades, onde conseguimos alterar toda a realidade percebida pelo cérebro do paciente em seus sonhos. As pesquisas do falecido doutor deram muitos resultados, todos fascinantes do ponto de vista científico...mas muito questionáveis em todos outros aspectos.

Para se ter uma idéia, conseguimos inserir nos sonhos dela uma realidade completamente diferente. Ela está sonhando que é um homem. Um voluntário de um programa de criogenia desenvolvido pela inteligência governamental, que acorda em um mundo pós-apocalíptico. Não sei de onde o tal doutor tirou tal idéia, mas pelo que podemos ver nos resultados preliminares, tal realidade se tornou absoluta no cérebro dela.

Creio que se a despertássemos, ela não mais acreditaria na realidade em si. A julgar pelas leituras dos padrões neurais dela, acho que ela nem mesmo iria crer que é de fato uma mulher, e não um homem.

Os resultados são siceramente...emplogantes para um cientista, mas não consigo nunca me esquecer do que é que de fato estamos fazendo com ela. Ela era uma pessoa, hoje é apenas o recipiente natural para a preservação do cérebro em que conduzimos tais estudos.

E então me lembro em que me transformei...em que me fizeram transformar. Enquanto estou no laboratório, analisando os dados e inspecionando a realidade paralela que inserimos dentro da cabeça da pobre coitada, eu me empolgo, e me deixo levar pelo calor da pesquisa, pela "aventura" do conhecimento, como dizia o falecido doutor.

Depois, quando me vejo sozinha e trancada neste quarto, me dou conta do que estou fazendo. Aquilo era uma pessoa. Era uma mulher como eu. Não sei mais nada de sua vida, apenas sei que agora ela crê ser uma pessoa completamente diferente. E a "mente" que ali inserimos era de outra pessoa, que já sucumbiu aos experimentos.

O que estamos fazendo aqui? O que eu estou fazendo?

Nas primeiras semanas, eu quis muito encerrar tudo. Quis me matar, sinceramente. Mas estava sempre sendo vigiada. O tempo foi passando, fui me resignando a apenas obedecer, dizendo a mim mesma que não faria mais nada além de obedecer, sem de fato contribuir com meu pensamento, minhas idéias para a melhoria da pesquisa.

Mas o tempo foi passando, e eu fui ficando ligada à pesquisa, mesmo por que se tornou meu único objetivo na vida...e meu único "conforto" aqui, por assim dizer. E me deixei corromper. Comecei a contribuir ativamente para o progresso das pesquisas. Foi graças a uma idéia minha que o dito "transplante" de personalidade foi possível de ser feito.

Nós só teríamos de matar o cérebro do doador, só isso.

Eu matei uma pessoa. Indiretamente, mas matei. E acabei com a vida de outra, inserindo ali uma realidade por nós manipulada, alterada para atender nossa pesquisa. E fiquei empolgada no decorrer das pesquisas, animada com os resultados. Como se estivesse lidando com meros ratinhos, e não pessoas.

Em que me transformei?

Tento esquecer tal coisa, mas simplesmente não consigo. Tento justificar de todas as maneiras, mas...eu sei que não existem justificativas.

Minha cabeça já alteja, e meus olhos se marejam. Tenho que parar. Tenho que dormir. Mas não consigo. Todo os dez anos de sono initerrupto daquela mulher se tornaram minhas noites de insônia.

Em que me transformei? O que estou fazendo?

Devo parar, não sei nem que horas são, mas creio que em breve virão me buscar para que eu continue...a torturar aquela pobre mulher, e aquilo que um dia já foi a mente de um homem.

O que estou fazendo?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

B-1.

Me presentearam com este diário no meu último aniversário. Este ambiente de trabalho opressivo que vivemos aqui nestes porões de segurança máxima governamentais não permite muitas brincadeiras, mas esta eles deixaram passar. A política daqui é o máximo de seriedade possível, o tempo inteiro.

Para ser sincera, o clima reinante aqui é sempre de medo. Temos que fazernosso trabalho mas como se estivéssemos em um regime militar, com todos seus documentos censurados e a polítca de "não pergunte nada, apenas obedeça" é imperativa.

O colega que me deu este antiquado caderno, me conhece bem. Sabe que eu não aprecio ter de trabalhar aqui. E sabe que não posso agir de outra forma. Eu detesto todo este governo que nos obriga a fazer estas...coisas nestes laboratórios secretos aqui. Têm todo seu discurso que é para o bem da humanidade, pesquisas avançadas de psicologia e parapsicologia e tudo mais, mas todos nós sabemos que o que eles querem mesmo é exercer ainda mais sua dominação sobre seu povo.

É uma maneira estranha de começar um diário, mas creio que não posso muito detalhar minhas anotações, nem devo. Levei um bom tempo procurando um esconderijo ideal para este caderno antes mesmo de começar a escrever...a desabafar. Não posso deixar que nenhum dos guardas jamais me veja anotando estas coisas aqui.

E pensar que nós todos já fomos renomados cientistas, que poderíamos ser realmente denominados benfeitores da humanidade e tudo mais. O governo, depois que se tornou o que é, foi seletamente capturando os melhores cientistas e os obrigou a se recolherem nestes galpões, onde somos obrigados a fazer tudo que eles querem.

De uma forma ou de outra. Se não fizermos, eles nos injetam com aquela coisa horrenda que nos transforma em zumbis obedientes. Eles mesmo evitam ao máximo de usar o soro, uma vez que o rendimento da pessoa afetada por tal droga cai bastante, e mesmo dias depois que o efeito principal passa, os efeitos colaterais aparecem. Náuseas, tonteiras, queda de pressão.

Há rumores de que um cientista resistiu tanto ao soro que sofreu uma overdose, pois os gorilas da segurança foram administrando mais e mais doses no pobre coitado, enquanto ele resistia. Dizem que todos seus órgãos internos tiveram uma hemorragia maciça. Ele morreu em duas horas.

Dizem muita coisa, também. Já nem sabemos o que é verdade e o que são apenas histórias para nos aterrorizar. Mas nenhum de nós quer pagar para ver. Todos sabemos o que é sentir dor. E alguns de nós têm parentes sob "proteção " deste maldito governo. Bem sabemos que espécie de proteção é esta.

Eu, graças aos céus, não tenho ninguém para que eles ameaçem. Toda minha família está longe deste continente. Saíram daqui quando os rumores de revolução começaram a surgir. Eu, que sou uma estúpida, fiquei. Tinha de terminar de escrever minha tese, mais um artigo, outros tantos afazers científicos. Meu pai me avisou, meus irmãos suplicaram para que eu os acompanhasse.

Não o fiz, por pura vaidade...ou seja lá o que me subiu à cabeça. E, em questão de semanas após a posse do atual Ditador, começamos a sentir as mudanças. Os departamentos de pesquisa neurais, onde somente existiam pessoas trajando alvos jalecos e outras roupas do quotidiano laboratorial, começaram a se manchar de preto. Homens de terno com ferrados semblantes e nenhum maneirismo ameno nos encaravam, nos estudavam, dia após dia.

Em um mês, as fronteiras foram fechadas. Ninguém entrava ou saía, a não ser se devidamente autorizado pelas autoridades. Depois de uns seis meses, os homens do governo começaram a nos "recrutar" para estas pesquisas hediondas destes galpões.

E eu, vi toda minha teimosia, minha vaidade, gerarem os frutos da amrgura, do dissabor de ter de obedecer a estes protocolos odiosos. Toda esta pesquisa invasiva e agressiva. Não existe mais nenhuma ética. Cobaias? Seres humanos.

Passei semanas tendo vontade de simplesmente me matar, acabar com tudo. Não contribuir com esta monstrosidade que se desenrola diante de meus olhos. Mas sou muito...covarde. Não consigo ter coragem para simplesmente acabar com tudo. Não consigo.

Ouço o guarda fazendo a ronda do lado de fora de meu quarto...ou melhor dizendo, minha cela. Acho melhor parar por aqui hoje. Continuarei depois.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

A-10.

Está tudo pronto.

Nem sei se irei precisar disto tudo...de toda esta tralha que acumulei neste tempo em que estive aqui nos destroços desta cidade. Mesmo assim, levarei tudo que achar que possa ser útil. Não sei aonde o caminho irá me levar.

Saio na rua com minha improvisada mochila e olho ao meu redor, as árvores desfolhadas, as ruas atapetadas de amarelo. Meu rio, o rio Porão, saindo de baixo deste prédio que me serviu de abrigo nos dias e dias que aqui estive.

Será que estive mesmo? Pensei a respeito de todo aquele treinamento...todo aquele blahblahblah preparatório naquele galpão, aquela palestra sobre pontes neurais, e todo aquele estranho jargão médico que tanto me confundiu e me serviu de canção de ninar naquela remota tarde. Dormi a palestra inteira.

Me lembro de ter ouvido algo sobre sonhos induzidos mesmo, alguma técnica nova de manutenção cerebral...ao que me pareceu, os tecidos se deteriorariam se não fossem adequadamente estimulados durante o processo da criogenia. Algo assim.

Mas não acredito que nada disso possa ser um sonho, nem um pesadelo.

Apesar de que nada faz muito sentido por aqui, não consigo acreditar nisto, não sei por quê. Não entenderia o motivo de alguém causar uma pessoa a sonhar semelhante coisa...semelhante deserto.

Por isto, resolvi abandonar este meu "posto avançado" e tentar achar...algo, alguém, não sei.

A inócua e deserta cidade parece tentar me englobar com toda sua ruína. Não.

Aqui não ficarei. Dou mais uma olhada no cenário que por tanto tempo se transformou em meu lar, e avanço passo a passo por cima do tapete amarelo de todas aquelas folhas mortas. Não olho para trás, e tento não pensar em todo o risco que estou correndo, ao abandonar esta fonte de água e comida que se tornou meu oásis particular nesta escangalhada cidade.

Ando por muito tempo, até que começam a surgir pontos brancos no meio da amarelidão reinante no chão. A rua em que caminho parece nunca ter fim...e me é completamente estranha. Tudo ao meu redor me é completamente estranho. É como se toda esta merda estivesse viva, mudando a cada instante. Não sei que diabos é isso.

Ando e ando, até minhas pernas cansarem, e a noite começar a cair. Aí sou obrigado a parar. Faço um improvisado abrigo debaixo de uma marquise, acendo um foguinho e me instalo diante dele, pensando.

Nem sei bem em que pensar. Por quê isto? Por quê continuo aqui? Por quê não tive coragem de acabar com toda esta merda, todo este ofensivo silêncio, este agressivo e hediondo silêncio que tanto grita em meus ouvidos a cada voz que não escuto, a cada fala que não falo. Tudo é vazio. Tudo é silêncio.

Não saberia dizer se foi realmente covardia de minha parte não ter dado o derradeiro passo, ou se realmente existe alguma esperança a ser perseguida neste local arruinado. Não sei.

Acho que nunca saberei ao certo...ou melhor dizendo, acho que nunca saberia ao certo se não tentasse seguir o caminho que se esbranquece. Olho ao redor, olho para a rua metros adiante. Lá estão elas, as folhas brancas, em meio às amarelas.

O que significa isto? É a única coisa que tenho em mente, é meu objetivo. Tornei isto em meu objetivo. Seguirei, até onde conseguir. Tentarei achar alguma razão em meio a este caos de nada sobre nada.

Devo dormir. Amanhã continuarei.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A-9.

Tão alto.

Tudo parece tão pequeno, ínfimo. Deve ser a forma que nos enxergam lá de cima. Eles, que tudo decidem, eles que tudo resolvem. Eles, que existem mas não existem, por assim dizer.

Dias e dias, andei e procurei por este local. Este ponto mais elevado de todos.

Não sei mais o que fazer. Não tenho nada mais o que fazer.

Não aguento mais.

Acordo sempre do mesmo jeito, no mesmo lugar, não importa o que eu faça. Todos os dias, as ruas se fecham por cima de mim com seu silêncio agressivo. Sua multidão de ninguéns gritando todo aquele horrendo silêncio por cima de mim.

Ninguém. Ninguém.

Passaram-se meses, anos, não sei. Desde que aqui estou, nada muda, tudo é estranho. Continuo sonâmbulo, andando e escrevendo garranchos ilegíveis nos papéis que distribuo pelo deserto dos prédios, dos restolhos de civilização.

As árvores amarelas se desfolharam, atapetando toda a cidade extinta com uma passarela de matéria morta...tão bonitas aos olhos de um casual transeunte desta cidade, enquanto estivessem vivos. O espectador e a cidade.

Nada do que escrevo faz sentido, também.

No meio da passarela amarela, existia um caminho, entretanto. Um pedaço sem cobertura de mortas folhas. Segui tal caminho, o mais feio deles.

Reencontrei a praça do álcool eterno, de dias atrás....dias...meses? Não sei. Reencontrei a praça, o edifício. O único que ainda se mantem alto, que possui sua integridade, desde o primeiro andar até o último...onde me encontro agora. Subi e subi, degraus ainda funcionais, ao contrário dos extintos elevadores deste outrora tão imponente arranha-céu.

2076 degraus depois, cá estou. No topo do mundo, se pudesse assim ser tão cheio de glamour, este último espigão do mundo. Se é que isto é mundo, de fato.

O vento aqui é mais forte. As vozes que ele sussura são mais intensas aqui. Mas nada me dizem.

Chego à beirada, segurando este bloco, anotando tudo que se passa. Nada se passa. Nada, além de vento e desespero. Não existem grades. Não existem redes. A antena está arruinada, não existem transmissões. Nem indo, nem vindo, nada.

Vento.

Vejo, vejo tudo lá embaixo, do jeito que eu deixei, do jeito que deixaram, sabe-se lá quantos anos atrás, quantos milênios atrás. Ruas amarelas, desprovidads de gente, mas carpetadas do mais sublime tapete de mortas folhas destas...destas estranhas árvores, que nada me trazem além deste sentimento de imensidão, de ser a gota d'água na atmosfera de Júpiter.

Nada que escrevo faz algum sentido. E o que procuro aqui? O que estou fazendo aqui?

Será que consigo voar? Talvez. Talvez todos tenham se ido deste planeta para não obscurecer minha glória de ser o primeiro homem a conseguir voar, sem asas, sem motores, sem nanotecnologia. Todos devem ser poupados deste dantesco espetáculo.

Chego à beirada e olho para baixo. "Se contemplares o abismo, o abismo vos contempla de volta?" Estou certo? Metros e metros, lá embaixo, estão me esperando todas as folhas que me servirão de túmulo.

Ergo os braços e grito. Grito como jamais gritei antes em minha vida. A cidade parece escutar.

Mas nada me diz.

O vento, o vento assobia em meus ouvidos. Fecho os olhos. Mais um passo adiante. Mais um passo. Quantos mais existem até a última beirada?

Passo. Passo. Vento, vento. Não abro os olhos. Vento, vento.

Outro som aparece em meus ouvidos. O que foi?

Nada ao redor. Nada. Vento e ar.

Olho para baixo. Estou mais perto da beirada que imaginava, e sinto a devida vertigem, mas nem de longe é tão forte quanto na época em que...estava vivo. Na época que eu e outros estávamos vivos.

No meio da amarelidão das ruas...vejo pontos brancos que se fundem numa só cor...que reúne todas as outras e parece não ter cor, não ter sabor.

Uma rua branca, no meio do degradê dos amarelos nadas.

É hora de descer daqui. Pelas escadas.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A-8.

Nem mais me importo em tentar registrar aqui mais nada sobre a passagem do tempo. O que é o tempo, por aqui, se não uma sucessão de claro e escuro? Dia e noite. E ninguém, absolutamnete ninguém.

Lembrei-me ironicamente do tal questionário para se entrar neste tipo de porjeto. Por mais que a coisa estivesse planejada de durar algumas semanas, talvez uns poucos meses, o tempo aqui teve relevência. Para me anular, me transformar no último cara vivo neste deserto que se tornou este planeta, esta cidade, não sei.

Dizia o pré-requisito para o programa, que queriam pessoas descompromissadas, com pouco vínculo familiar, afetivo, com outras pessoas. Lá fui eu, quebrado e fudido, "quando você está na lama, ninguém lhe quer." Quem sabe se, depois de todo este processo, eu iria conseguir ter um dinheiro a mais. Para me sentir menos lixo, mais humano. Mais digno de sobreviver, de manter, uma vida no mundo. Amparar alguém, constituir famíla, etc. Ao invés de apenas me consumir em minha inexistência.

Agora, vejo todo este amontoado de detritos ao meu redor, e muito me pasmo em perceber que pouca coisa mudou em minha existência. Eu continuo sendo o mesmo cara sem amigos, sem família, sem ninguém, que eu era antes de embarcar naquela canoa furada de projeto.

Fui dormir não tendo nada, acordei na mesma, senão pior que dantes. Além de não ter nada, não ter ninguém agora era apenas um reflexo da realidade de ser o último, o que ficou para trás.

O que aconteceu por aqui, não sei, não creio que irei descobrir. Mas a verdade é que estou cada vez mais e mais louco, tendo alucinações já. às vezes penso ter visto a tal árvore branca, numa imensa cratera, mas dois dias depois, nem sombra da coisa eu vejo. A tal praça do quearto secreto num prédio adjacente? Nem sinal, nunca mais.

E no entanto, meus auxiliares para um bom sono, os álcoois e os cigarros, lá estão em algum lugar da zona de meus recintos, sem que eu nem saiba onde estão, nem ao menos saiba como eles não acabam.

Estou ficando doido, mesmo.

Em outras andanças por estes dias, voltei a encontrar os tais papelinhos amarelecidos pelo tempo, com garranchos ininteligíveis, espalhados por aí. Agora, eu fiquei encucado uns dias quando voltei a encointrar tais coisas, mas depois de uns dois dias matutanto, eu descobri o que estava acontecendo.

Mais um reflexo de minha iminente loucura. Descobri que tais papéis saíram de meus próprios pertences...de alguns blocos de papel que estavam armazenados no fundão de minhas coisas. Resolvi investigar e descobri que alguns deles tinham páginas arrancadas. Apanhando estas páginas que encontrei em meio aos escombros, eu verifiquei que todos eles se encaixavam perfeitamente naos canhotos restantes nos blocos por mim esquecidos.

Ou seja, eu estive arrancando estas páginas, escrevendo toda aquela miríade de coisas inúteis ali, e sonambulei por ali, espalhando estas coisas ao meu redor, como se fosse um joguinho. Uma distração. Sonâmbulo. Que maravilha.

Os dias e dias passam sem que eu nem ao menos perceba. Em minhas semans iniciais por aqui, eu tentei de todas as formas lutar contra a barba que ia crescendo em minha cara, queria me manter limpo, asseado. Queria manter um registro de tudo, ser racional.

Para quê? Para quem? Para mim? Eu, que não era nada antes, e agora sou o nada absoluto?

Para quê? Para quê? Para quê? Para quê?

Somente o uivo do vento me responde.

Até quando?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A-7.

Dias desde a última anotação: ?

Cada dia que passa, é como se uma vida inteira estivesse se desenrolando diante de meus olhos. Diante de meu nariz. Poir debaixo desta pele, destes osso, as coisa parecem mesmo estar fossilizadas, esquecidas.

Não escrevo nada desde sei lá quando, talvez dois dias, talvezum mês, um ano. Não entendo mais nada do que se passa neste local. Alguns dias estou relaxando à beirada de meu rio, e de repente eu pisco e já é noite fechada, faz frio. Como se tivessem dado um corte seco de seis, sete horas em meu dia.

Não consigo mais dormir sem ser inebriando-me com aquele escasso estoque de álcool que trouxe daquele lugar que....bem, ou não existe ou ficou perdido para sempre no meio do labirinto deste deserto urbano que um dia já foi uma cidade. Apesar de ser um modesto suprimento de garrafas que consegui angariar naquele extinto recinto, elas parecem não ter fim.

Lembro-me quase nitidamente que vou tentar dormir, rolo e rolo no meu estrado improvisado, me levanto exasperado e apanho no escuro mesmo alguma garrafa aleatória na prateleira defronte. Bebo e bebo, e depois tateio os apetrechos fumacentos, quase sempre acho um dos maços de cigarros, que também parecem nunca acabar. Bebo e fumo, até desmaiar.

E acordo como se nada houvesse acontecido. As garrafas voltam magicamente para a mochila, bem como os cigarros. E me levanto, checo as armadilhas, cozinho os bichos, como, bebo água, tomo um banho no rio, me sento para secar e...

De repente, noite.

Assim, do nada.

Ao menos aquele episódio das vozes parece ter se extinguido para sempre. Presumo que tenha realmente sido alguma espécie de intoxicação alimentar causada pelas rações de nutritivo isopor...Algo assim.

Mas a verdade é que nada faz sentido por aqui. Em minhas andanças, tenho visto que as árvores amarelas estão cada vez mais frondosas, repletas de botões. Suponho que teremos uma certa "primavera" por aqui em breve.

Ando e ando, bato pernas todos os dias por estas ruas, tudo parece igual. Nunca mais consegui retornar àquela praça em que encontrei o tal prédio do álcool. E tento quase todos os dias achar aquilo, pois está me encucando. Quase parei de explorar as ruínas, entretanto. Não tenho tido paciência, nem sei bem precisar por quê.

Entretanto, ontem descobri uma coisa inusitada. Enquanto fazia minha peregrinação diária pelas ruas, avistei ao longe uma coisa que me parecia ser uma espécie de declive mais adiante, como se fosse uma ladeira, algo assim na rua. Olhando de longe, para ser sincero, mais parecia ser o bordo de uma imensa cratera. me aproximei cautelosamente, pois algo de muito estranho pairava em torno daquele lugar que me era ainda desconhecido.

Fui chegando lentamente à beirada da tal cratera, e me embasbaquei.

De fato, eu só poderia classificar tal buraco como uma cratera: a forma e as bordas não me permitiam chegar à outra conclusão. Por um segundo apenas pensei ter encontrado a fonte de toda a destruição ao meu redor, mas tal sensação se dissipou assim que firmei os olhos em direção ao centro de tal buraco.

Lá embaixo, metros e metros abaixo do nível do solo, havia uma imensa árvore...branca. Não apenas nas flores que ostentava em seus galhos: toda ela era de um tom leitoso, as folhas, o tronco.

Desci cautelosamente até chegar ao pé de tal vegetal, que era de fato muito imponente, assim como aquele imenso buraco no qual ela fazia parte. De perto, ela se parecia muito com as demais árvores amarelas espalhadas pelos arredores de Ruin-town, a não ser pelo tamanho - deve ter uns vinte e cinco metros de altura para mais, no mínimo - e pelo tom esbranquiçado.

Fiquei ali contemplando aquela imensa árvore e pensando. Alguma coisa de muito estranha estava no ar naquele lugar, e mesmo assim...a sensação que aquele paquiderme vegetal me transmitia era estranhamente serena, quase incongruente com todo o absurdo ao redor, toda aquela destruição, aquela crater que parecia ter sido causada ou por uma imensa bomba ou gigantesco meteoro....e que tinha em seu centro apenas uma árvore, uma bizarra árvore.

Não resisti por muito tempo. Estendi meus braços, apanhei alguns dos galhos mais baixos e comecei a escalar a dita. Subi e subi, mas parecia nunca chegar no topo dela. Mesmo porque os galhos mais altos pareciam ser muito frágeis. Em certa altura, parei. Inspecionei o tronco do galho que meus pés estavam, me certifiquei que era uma parte realmente sólida da planta, e resolvi ali me recostar.

Sentei-me, já esperando aquele desconforto típico que tal macaquice costuma causar em humanos, especialmente se eles já estão suficientemente envelhecidos por décadas e décadas, ou mesmo milhares de anos (sabe-se lá quanto tempo estive desacordado). Mas o tal "assento" me foi surpreendentemente confortável.

Não sei precisar quanto tempo fiquei ali, tampouco sei explicar o que me causou fazer tal coisa, mas fechei os olhos e lá fiquei.

Me sentia estranhamente sereno ali. Como se fosse um local de descanso mesmo, algo que me recarregasse as energias, nem sei dizer. Abri os olhos depois de um tempo indefinido, já esperando encontrar alguma bizarrice diversa diante de mim ou já estar novamente englobado pelo negro envelope da noite fechada, mas...

Não havia nada de incomum naquele incomum mundo ao meu redor. Nada de diferente. E o tempo nem parecia ter passado. Resolvi descer e voltar para casa, poois eu sentia sede. Somente sede, não sentia nem fome nem cansaço.

Saí da cratera, e fui apanhando no chão alguns destroços suficientemente coloridos para me servir de guia. Eu queria voltar àquele lugar novamente. Fui espalhando tais marcadores pelo chão, até encontrar uma de minhas ruas já mentalmente mapeadas. E cheguei ao meu rio, ao meu lugar.

Me sentia muito bem. A noite caiu e não tive problemas para dormir ontem. Acho que sonhei com alguma coisa, mas não me lembro o que era.

Hoje acordei e decidi retomar meus escritos, para registrar aqui os acontecimentos estranhos deste tempo de bizarros acontecimentos, no meio deste deserto. Tentarei achar a cratera novamente hoje. Sinto que ali se encontra alguma parte importante deste mundo como ele é agora, depois de tanta destruição, de tanto abandono.

Veremos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A-6.

Dias desde a última anotação: vários.

Minha cabeça lateja. Por onde começar?

Abandonei estes escritos por um bom tempo. Perdi grande parte do que já havia escrito, devido a meus devaneios destes últimos tempos.

Não me orgulho do que fiz, mas também não sinto nenhum remorso.

Estou ficando meio doido já, pelo visto. Bem, comecemos do princípio. Alguns dias depois de ter encontrado aquela esquecida guitarra, minha insônia voltou. Com força. Fiquei uns três dias sem nem ao menos me sentir cansado, mas mesmo assim, eu queria dormir de qualquer maneira. O sono é um excelente passatempo quando as horas são completamente livres e sua única obrigação é manter-se vivo.

Ao fim da terceira noite em que velei incessantemente noite afora, até o raiar do dia, eu saí cedo daqui de "casa" e me pus a andar a esmo pelas ruas. Quando o sol já estava alto e a fome começou a aparecer, me dei conta que não sabia onde estava. Havia andado tanto tempo apenas olhando para o chão, no piloto automático, que passei do ponto e estava numa área por mim ainda desconhecida. Nenhum ponto de referência.

Como tenho o senso de orientação digno de um cachalote em terra firme, acabei me perdendo mais e mais a medida que tentava encontrar algum modo de voltar ao meu canto. Depois de várias horas rodando e rodando, me vi diante de um monumento carcomido, uma espécie de praça central. Eu me lembrava daquela praça, do tempo em que as coisas ainda existiam propriamente ditas, e me espantei com o estado arruinado do monolito central, agora um monte de escombros esquecido.

Não sei ao certo o que aconteceu ali, mas afirmo que foi algo muito estranho. Enquanto contemplava o monumento, me aproximei um pouco para tentar ler o que estava escrito na placa de identificação, e...não sei.

Houve um momento em que tudo sumiu, mas...não foi bem um desmaio, não foi nada. Eu estava caminhando em direção ao monolito, e olhando para a placa, e de repente...eu não consegui mais enxergar nada.

Havia anoitecido.

Sim, estranho, muito estranho. Foi como se entre dois passos meus em direção ao monumento, passaram-se umas cinco ou seis horas. Assim, do nada. Estava absolutamente escuro.

E eu estava ainda perdido.

Felizmente, eu sempre carrego comigo uma tosca mochila com alguns petrechos, entre eles a tal lanterna de fricção que havia encontrado naquele laboratório. Depois de uns seis minutos torcendo aquela josta, consegui uma carga para no mínimo conseguir entrar num dos prédios extintos ao meu redor e me abrigar um pouco. Algumas noites, costuma haver tempestades de poeira por aqui, então resolvi não arriscar.

Dentro do tal prédio, improvisei um acampamento, consegui acender uma pequena fogueira, e lá fiquei, olhando para o fogo e tentando sentir algum sono, mas nada. Depois de um bom tempo, exasperei-me. Me levantei, fiz mais carga na lanterna e comecei a explorar o prédio.

Resolvi descer uns degraus e virar à esquerda num corredor estranho. Eu tinha uma estranha sensação de perpétuo dèja vu, como se já estivesse estado ali. Como se eu soubesse para onde ir. Entrei numa sala, aparentemente deserta, mas segui reto em direção à parede oposta e empurrei a porta aparentemente secreta que ali havia.

Como eu sabia que existia aquele compartimento escondido ali, não descobri até hoje, mas eu parecia estar meio que em transe. Supus que fosse culpa do período estendido de insônia.

Bem, dentro daquele quarto secreto...Havia uma imensa quantidade de garrafas. Vinhos. Vodkas. Whiskys. Tudo que se possa imaginar no univeros das bebidas destiladas. Várias garrafas vazias jaziam ao chão, mas haviam muitas, mas muitas garrafas fechadas, novinhas. Apesar de toda a poeira reinante.

Examinando o restante do quarto, descobri que ali não era apenas uma adega secreta, mas também uma tabacaria de primeira. Charutos. Fumo de rolo. Havia uma empoeirada mesa com tampo de vidro que encerrava um curioso cachimbo, aparentemente muito velho. Muito precioso.

Duas horas depois que havia encontrado aquilo tudo eu estava cantando feito um bobo alegre nos corredores daquele prédio. Resolvi descontar todos aqueles anos de abstinência, seguidos daqueles dias de absoluta solidão, me encharcado naquelas esquecidas relíquias. Enchi a cara até não mais poder, fumei uns três charutões, arranquei o cachimbo de sua perpétua redoma e o pus em funcionamento também. Eu tossia a não mais poder, e minha cabeça girava e girava, mas eu não me sentia mal. Estava muito bem.

Era muito bom se desligar. Ligar o foda-se. Afogar todas aquelas mágoas, toda aquela branca e imensa existência de nada sobre nada.

No dia seguinte, acordei de novo na tal praça, com um sobressalto. Me levantei cuidadosamente, já esperando a má onda da ressaca me atingir, mas...Eu estava me sentindo muito bem. Não estava com dores de cabeça, não estava entupido de catarro devido ao fumo...era como se nada houvesse acontecido. Mas eu estava trajando roupas agora estampadas por diversas manchas roxas, prova de que eu havia babado algum vinho.

Achei o prédio, entrei no saguão, achei minhas coisas lá esquecidas. Tudo em ordem. Juntei tudo, e resolvi tentar achar meu caminho de volta ao rio Porão. Mas quando ia saindo, lembrei-me da sala secreta. Será que eu deveria carregar algum daqueles líquidos esquecimentos, aquelas fumacentas distrações? Ou será que eu deveria deixar tudo ali, para não entrar na tentação de encher a cara todos os dias até morrer?

Meu lado mais fraco falou mais alto, e lá fui eu procurar a tal sala, em busca de algumas garrafas, alguns cigarros, alguns charutos. Foda-se, eu merecia: era o último ser humano por ali, quem iria me julgar? Eu mesmo? Meu determinismo de mandar tudo à merda estava em alta. Dane-se tudo.

Acontece que a tal sala não existia. Nem o corredor comprido o qual havia circulado na noite anterior. Rodei, rodei, procurei e procurei, só me detive quando percebi que as horas estavam passando, e eu estava quase morto de fome. Tinha que achar meu acampamento, e rápido. Saí esbaforido do prédio e circulei um bom tempo até encontrar um de meus marcadores numa esquina; virando à direita, encontrei a trilha que buscava. Estava salvo.

Alguns passos adiante, encontrei o rio. Segui adiante, e lá estava minha "casa". Meu cantinho na sombra, tudo certo. Fui imediatamente procurar uma de minhas conservas de carnes toscamente defumadas; estava de fato faminto. Me fartei daquela carne sem sabor, mas que havia se tornando estranhamente suculenta devido ao meu estado de crescente fome.

Fui apanhar minha garrafa pequena de água em minha mochila e muito me espantei quando a abri. Lá estava o cachimbo, alguns maços de cigarros, alguns charutos, duas garrafas de alguma vodka aparentemente "da boa", duas garrafas de vinho e uma de rum.

Não me lembro de ter colocado nada daquilo ali. Não me lembro de ter carregado todo aquele peso, tampouco me lembro de ter sentido diferença no peso quando apanhei minhas coisas naquela manhã.

Entretanto, lá estavam elas.

Hoje, eu acordei no lugar de sempre, ao lado de minha já extinta fogueira, tudo em ordem. Mas as garrafas estão pela metade. Eu me lembro de ter enchido a cara ontem, mas...não me sinto mal. Não tenho ressaca. Uns doze cigarros sumiram. Não estou todo entupido, com nenhuma falta de ar. Nunca havia conseguido fumar nada antes sem passar muito mal, sem ter asfixias, tosses eternas e todo aquele maravilhoso catarro.

O que está acontecendo neste mundo? O que está acontecendo comigo?

Não sei dizer, não mesmo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A-5.

Dias desde a última anotação: 3.

Pléin. Plém. Plomn.

Estou aqui fora, sentado numa pedra convenientemente sombreada, perto do meu rio particular, que sai de meu prédio particular, segurando uma carcomida guitarra elétrica que encontrei abandonada num canto qualquer em minhas andanças por aí, neste deserto humano, nesta imensidão de vazias habitações.

Eu nunca mexi com instrumentos musicais, nem tenho idéia do que fazer com eles, mas apanhei a coisa assim mesmo. Estou sentado aqui, depois de tomar um banho nestas águas meio que geladas do rio Porão. Após muito apreciar um imenso banquete de cobras e lagartos - sim, os rastejantes répteis também são nutritivos, apesar de terem um gosto de isopor da porra.

Fico aqui, brincando com este instrumento, que já arrebentou duas cordas quando fui tentar mexer nas tarraxas da coisa. O tempo é inexoravelmente inimigo do rock and roll, eu diria.

Tarde preguiçosa. Não tenho vontade de fazer nada, não quero inventariar destroços, não quero caminhar a esmo por aí. Não existe nada de novo mesmo.

Os dias têm se arrastado de maneira cada vez mais devagar, e minha certeza de que estou aqui abandonado para todo o sempre se apodera de mim nestes momentos. Nunca fui um sujeito muito popular, inclusive quando me inscrevi no negócio lá, um dos requisitos do programa era justamente que eu fosse um cara meio que solitário. Sem muitos laços com ninguém.

O que tinha eu a perder? Sem muito dinheiro e sem nenhuma possibilidade, sem muitas perspectivas em outras áreas...Sem esposa nem filhos, sem muita coisa na vida. Era uma excelente oportunidade de ganhar uma grana a mais e...

Agora que paro para pensar, o que iria eu fazer com aquela grana? Nem planejei nada. Não estava muito precisando de dinheiro, é verdade. "Mas nunca sabemos o futuro, o futuro..."

O futuro me reservou uma passagem só de ida para um lugar onde dinheiro não existe. Onde nada existe aléma das sombras do que já foi uma meca do consumismo moderno. Dinheiro nenhum me serve para nada aqui, a não ser se for usado como material de auxílio na queima de madeiras mais finas para que as madeiras mais grossas de minha fogueira realmente peguem fogo...

Olho para o céu, não existem nuvens, apenas azul azul azul. Não existe nada. Nada. Apenas eu e os animais que por aqui ainda vivem.

O que estou fazendo aqui? Se todos morreram, de que me adianta estar aqui, estar vivo, rei supremo de nada neste deserto de tudo, nesta imensidão do que já foi e nunca mais será.

E eu, que sempre vivi sozinho, agora vejo como nunca fui tão sozinho como me proclamava ser, nas eventuais reuniões com meus escassos amigos. Sempre existia uma réstia de alguma extinta ambição de não o ser, de algum dia ser mais do que aquilo que eu era, de algum dia eu conseguir ser como os outros.

Nunca consegui ser nada além do último cara nesta cidade.

Jogo um pouco de água na minha cara, a frigidez deste insípido líquido me faz bem, me afasta um pouco as idéias tortas. De nada me adianta fazer todo este debate mental. Estou vivo, estou sozinho. Fim de papo. Tenho que me manter vivo, nem que isto seja apenas uma justificativa para me manter são, me manter ocupado, ter o que fazer.

Acho que vou aproveitar o resto do dia e ir para o norte. Tenho que tentar fazer um mapa desta região toda, para melhorar meu intventariado dos lixos diversos que algum dia me possam ser úteis. Tenho que me manter ocupado.