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terça-feira, 12 de abril de 2011

Deserto.

-Eu te odeio.

Nada. nenhuma resposta. Àquela hora, na calada da madrugada, esperava escutar réplicas; um par de pessoas mais normais já estariam se degladiando, se esfregando no chão, no asfalto, punhos cerrados, secos barulhos, oriundos de socos, muitos socos.

Mas nada. Silêncio.

Também, o que poderia esperar? Asfalto? A última estrada se acabara no nada, meio do nada, nada em direção a nada, lugar nenhum. Bem vindo seja. População: ninguém.

Ou alguém. Alguéns, se é que tal coisa existe. Se é que o que somos existe para fora além do que somos para dentro. Isto existe? Existimos para os outros, queur dizer, o que somos de nós para nós?

-Idiota.

Nada. Nenhuma resposta. O que é o silêncio para quem faz dele sua divindade? Seu deus? Existe algo além da humanidade não presente ali? nada, ninguém.

Não pode se olhar nos seus olhos sem ver o que acontece. Não poderia se ver sem se odiar.

Na surdina da noite, apanhou o carro, dirigiu muito tempo. Deserto. Nada além de areia e ninguém, por todos os lados. Deserto. Sim, como diria um certo alguém, grandes são, e tudo na vida é deserto.

Em sua vida.

Ninguém além do reflexo. Do que era. Do que é.

Ninguém.

Porquê...porquê não conseguia fazer como o que escrevera, escritor falido, de si para si, meses atrás. Por que não mais era aquilo? Havia alguma certeza? Havia alguém ali? Algo que prestasse? Para quê? Para servir de mau exemplo, de referência, paradigma do fracasso e da auto-piedade. Piedade?

-Filho da puta, eu te odeio.

Nem mesmo um eco. Não ali, não sem paredes ao redor. Nada, além do chão e das estrelas, tão distantes, tão mortas, luz morta a viajar, anos luz a fio. Registro incorreto de algo que fora e não mais era.

Assim como ele.

Quando, quando teria fim, tudo aquilo? Era isso que queria? Era isso que era? Pesadelo inacabado, inacabável. Eterno enquanto durasse. Enquanto vivesse.

-Por quê você não morre??

Todas as perguntas sem respostas...apesar de bem saber ele todas. Todas.

Não tinha mais nada a ser feito. Nada havia além do nada. Nada.

Areia e estrelas. Tudo e nada, assim como ele.

Assim como ele.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Demissão.

A tarde caía com vagareza incomum.

E mesmo assim, ele sentia que as horas não estavam sendo suficientes. Dias e dias, sem emprego, sem amarras. Decisão sua, decisão da vida, acasos. Não saberia precisar se tinha sido adequado ou não. Tinha se fartado de aguentar, tolerar aquele absurdo, tempo demais se passou ali, no local onde as horas não passavam, escorriam. Coisa viscosa, matéria para muita perda de tempo, perda de todo o sentido.

A bomba havia explodido alguns dias atrás, com a inesperada notícia de que estariam reduzindo isto e aquilo, enxugando quadros de funcionários, organizando despesas, coisas assim, entendo, entendo, há que se gastar dinheiro para se fazer dinheiro, preparar a auditoria, determinar aqueles que são dispensáveis e os que são valiosos.

Dizem.

Recebeu com sobriedade a novidade, tratou de conjecturar planos, de adquirir coisas, preparar o terreno para o ocaso que viria em seguida. Sim; por mais que ele sinceramente desejasse sair dali, não estava preparado para nada que viria em seguida. E com tanta coisa na vida, tanta despesa, tanto orçamento pululando em suas finanças, não pôde deixar de se sentir aturdido.

O caminho, sempre tão claro e ao mesmo tempo sombrio, insípido, desprovido de excitamento e de motivação, agora se tornara um buraco negro indefinido, onde tudo era possível mas somente as más perspectivas tomavam as rédeas de sua imaginação. Daí tanto escapismo. Tanta farmacologia, dita ilegal, aos olhos caducos da lei e da moral, dos bons costumes, da puta que o pariu, por assim dizer.

Quem estava na merda não eram eles.

Dias e dias de desfocada realidade, de horas a escorrer pelas paredes, pelo reboco inacabado do quarto. Aromas mofados, visão turva. Muita comida mas nenhum nutriente, apenas calorias e mais calorias. Todo o tempo do mundo, todas as horas do universo, à sua disposição.

Sentado, escornado na cadeira, sentia o sangue viscoso a passar por ali, captar oxigênio, alcalóides que não deveriam ali estar mas que alegremente eram distribuídos ao restante dos órgãos, em especial aquela massa cinzenta como seu dono, que tanto ansiava, mais e mais, mais um gole, mais um trago, mais fumaça.

Horas e horas. Sentia o formigamento dos dedos, sentia os olhos das paredes a espreitar, por todos os lados, olhos. Tempo, que tanto era disponível agora, passando, minutos gosmentos a emperrar o final de tarde.

Libertação, mas a alto custo, pois sim.

Sabia, entretanto, que estava na hora. Mais uma dose, mais um pouco, e lá estava, no fundo de sua mente, a comichão cerebral necessária. E ali, logo ali, encerrada em um estojo, aguardando por seu toque, estavam as seis cordas. Bastavam seis.

Para isso existe o tempo livre, para isso existe a inspiração mesmo bioquimicamente corrompida. Para isso existe a razão de ser que sentia ao fazer tal coisa. Tantos equipamentos, comprados ao longo dos anos mal remunerados.

Cambaleantemente apanhou o instrumento, fez as conexões sem nem saber como, não deixando de se perguntar por que ainda não haviam instrumentos sem a necessidade daqueles cabos que tanto lembravam esguias serpentes, elétricos ofídios. Ligar na tomada, sentir a eletricidade.

Música, para sempre ela, aquela coisa, aquele arrepio que somente ela sabia surtir sobre aquele homem esquecido naquele canto por todos e si próprio. Morreria um dia, mas deixaria sua música, deixaria suas tentativas sonoras de produzir calafrios em ouvintes alheios.

Caía a tarde, mas crescia a luz que das cordas emanavam. Ou talvez só seria mais um efeito do estado inebriado? Não saberia dizer, mas não importava.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

C-4.

Diante de tal onírica planta, ele finalmente sentiu. A paz que almejava fazia tanto tempo. Tantas perguntas, nenhuma resposta. Lembrou-se de tudo que havia acontecido desde que havia saído daquele casulo criogênico, em um espaço de tempo indefinido, mas que agora, mais que nunca, lhe parecia estar dele distanciado por uma eternidade.

Tempo se esticando em todas as direções, era o que parecia sentir, diante da alvura daquela árvore, apesar de tudo ao seu redor ter se apagado desde que ela brotara daquele infértil chão, naquela estéril cidade esquecida pelo tempo e pelos acontecimentos.

Estava agora a um braço de distância do tronco, e hesitava. Tinha a nítida certeza que assim que tocasse naquela casca, tudo faria sentido, out tudo acabaria. Não sabia por que tal instintiva certeza imperava em sua mente, que ainda tentava debalde fazer formulações, procurar uma explicação, uma razão.

O que era razão diante dela?

Inspirou um grande volume de um ara agora inexistente, e estendeu o braço, mantendo os olhos bem abertos. Acontecesse o que tinha que acontecer. Era isso que tinha de fazer. O que precisava acontecer.

Sentiu a textura do tronco, a asperez da casca, na ponta de seus dedos, à palma da mão. Era somente isto? Seus olhos perscrutaram a escuridão ao redor. Nenhum sinal de vida, nenhum sino da redenção, nenhum túnel com alguma luz. Nenhum som.

Alguns momentos se passaram, mas lhe pareceram uma eternidade. Sentiu um princípio de desespero aflorar novamente em sua alma, e fechou os olhos. O que viria agora? Era assim que tudo acabava?

O braço cuja mão tocava o alvo tronco perdeu um pouco da força e deixou com que os artelhos roçassem levemente a casca...descendo alguns centímetros para baixo.

Sentiu algo ao fazê-lo. Um tremor, uma eletricidade, algo indefinido. Abriu novamente os olhos. E soube.

Estendeu o outro braço, mandando às favas todo o medo, toda a hesitação que nele ainda existia. Abraçou a árvore, como se sua vida dependesse disso. Como se ela fosse...

Lenora.

Como se ela ainda estivesse viva. Como se aquela tarde em que se conheceram fosse agora...Naquela reunião dita subversiva. Toda a ideologia contra o regime, toda afilosofia, todo aquele papo, tudo havia lhe fugido aos sentidos assim que seus olhares se cruzaram naquele apertado salão clandestino.

Lenora. Se lembrava agora.

Tudo lhe voltou à mente, memórias. Verdadeiras recordações, que apagaram todas as outras mentiras que havia sentido desde que tinha sido capturado, desde aquela noite em que o tal movimento antagônico ao hediondo governo tinha sido esmagado. Uma torrente de sensações invadiu-lhe todos os sentidos, dores, gritos, aflições.

Ele apertou os braços em torno da árvore. Não, não. Eles tinham matado sua Lenora, em frente a seus olhos. E o arrastaram aos trambolhões dali, muitos braços segurando os seus. Não. Quanta dor, quanto sofrimento. Sua alma estava novamente sendo rasgada. De novo não.

Queria chorar, gritar, mas só conseguia apertar ainda mais seu abraço. Não. Não.

Mas, suas memórias de repente começaram a circular em outra direção, para longe daqueles momentos tão horrendos. Sentiu que sua readquirida memória voltava-se para algns outros momentos. Os olhos dela. Aquelas frases desconexas emitidas quando tentou com ela conversar, falhando miseravelmente em fazer algum sentido ou transmitir alguma sensação de segurança.

Suas risadas...todos aqueles detalhes que nos parecem tão triviais e que tanto pesam, tanto importam quando nos lembramos deles. Especialmente em seu caso.

Aquela tarde, uma das últimas que tiveram juntos antes de tudo ter ido para o inferno, em que caminhavam juntos num parque vandalizado por outro grupo dito terrorista. Haviam jogado tinta branca por todos os lados...inclusive em uma árvore. Em seus olhos, aquele ato de vandalismo vegetal tinha lhe parecido tão...poético, tão bonito aos olhos, por mais estranho que parecesse.

E ela também enxergara a poesia no meio do caos.

Todos os momentos juntos dela, tudo importava. Para o bem ou para o mal, em efusões de alegria ou impaciência, de dor ou amor, de prazer, de tristeza. Tudo que importava. Sentiu a paz novamente em sua alma, agora que conseguia focar no que realmente importava. Lenora, Lenora. Nunca mais lhe esqueceria.

Neste momento, sentiu que seus braços, seu corpo, não mais abraçavam uma árvore, mas algo mais delgado, macio ao toque. E sentiu um suspiro. Braços que também lhe enlaçavam o corpo. Aquele toque familiar. Aquele calor tão confortante.

Não precisou abrir os olhos.

Sentiu tudo de bom novamente. Tudo que lhe havia sido negado, roubado, pervertido em sua mente. Podia simplesmente focar no que lhe importava, no que sempre fizera sentido. Nada mais.

E o tempo se estendia em todas as direções, mas focado apenas nestas sensações.

Para sempre e sempre.


terça-feira, 28 de setembro de 2010

C-3.

Era agora.

Enquanto os pés batiam silenciosamente no chão, aproximando-se cada vez mais do local onde a folha ainda dançava ao sabor de um ilusório vento, ele tinha a nítida certeza de que aquilo era algo importante. Não saberia precisar bem por quê, mas tinha certeza disto.

Ao seu redor, todas as cinzentas construções abandonadas nada diziam. Eram silentes testemunhas de todo aquele absurdo que desenrolava perante seus olhos.

E agora, que estava a segundos de apanhar aquele enigma flutuante, parecia que o tempo havia entrado em marcha lenta também. Momentos se passavam feito horas, imersos na estranha viscosidade de toda aquela abstração excessiva ao seu redor.

Estava logo ali. à Distância de um braço ou menos, agora.

Estendeu o braço, abriu os dedos e se preparou. Como se apanhar aquele fragmento fosse significar sua vida ou morte. E de certa forma, era isto que aquilo significava. No meio daquela miríade de absurdos que havia se tornado sua vida, aquele papel significava o derradeiro fio de esperança.

Fechou os olhos e ordenou seus músculos do ombro, do braço, da mão a realizarem a tarefa.

Sentiu o quase inexistente volume do papel roçar em seus dedos e apertou com força. Pôde sentir a deformação causada pelo desproporcional esforço causado pela ação.

Abriu os olhos.

O papel, amarelecido pergaminho, estava firmemente preso entre seus dedos. Tudo era silêncio. Sentiu um certo medo de levá-lo aos olhos. Sabia que não se tratava apenas de um fragmento em branco, uma vez que já havia vislumbrado escritos em sua superfície.

Chega, disse sua voz interior. Dane-se tudo. O que teria a perder?

Olhou firmemente para a folha. De fato, havia um texto ali. Algo parecido com a escrita cursiva de uma pessoa...Trazendo-a mais perto de seus olhos, parecia algo escrito por uma mulher, a julgar pela elegância das letras, suaves e bem desenhadas.

Mas...não conseguia entender nada do que estava escrito ali. Eram escritos ininteligíveis, apesar de toda sua finesse gráfica. Não saberia dizer quantas vezes correu os olhos de cabo a rabo por toda a extensão daquela carta, procurando desesperadamente por algo que fizesse sentido no meio de todos aqueles grafismos.

Nada.

Sentiu um imenso peso em sua alma. Caiu de joelhos ao chão, sem nem ao menos sentir o rude impacto deles ao solo. Queria gritar, queria chorar, mas nada fez; sabia que de nada lhe valeria.

Estava tudo acabado. O mundo ao seu redor não existia, um labirinto falso de ilusões, de fantasmas há muito extintos de algo que algum dia fora tudo em sua vida...e que agora nem ao menos volume possuía.

Deixou a folha cair de sua mão enquanto mirava o vazio. Tudo ao seu redor. Vazio.

A folha rodopiou levemente, e foi pousar ao solo.

Olhava, atonitamente para aquilo. Quão frágil fora sua última dose de esperança. Sentia os olhos secos, a garganta extinta em um protesto aos céus, ao universo, que não conseguia expurgar.

Piscou. E viu.




A folha. Estava de cabeça para baixo.



Vislumbrou, entre os garranchos, um desenho familiar, não escrito. Os hieróglifos se uniam de uma forma que não sabia definir, mas que agora faziam sentido. Aquelas linhas se fundiam, vistas por aquele ângulo...

Formando o desenho de uma árvore. O que eram aparentemente letras repetidas nos versos iniciais daquele poema visual, eram em verdade, folhas. Folhas brancas.



Uma árvore branca.



Sentiu um arrepio percorrendo sua espinha. Sentiu tremores em seu corpo. Mas não vinham de seu interior, de seu âmago. Vinham do solo em si. Tudo tremia, e a sensação se tornava cada vez mais nítida. O chão embaixo de seus joelhos era cada vez mais sacudido por uma força indefinida, mas inexorável, cada vez mais absoluta.

Levantou-se de supetão. Vislumbrou rachaduras se formando debaixo de seus pés. Viu que muitos dos cinzentos prédios ao longe, tombavam silenciosamente, uns sobre os outros, dominós gigantes e mudos.

As fissuras aumentavam de tamanho. Mas não sentia nenhum medo.

O tremor era cada vez mais forte, mas nenhum som havia no ar. Nenhum rumor lhe chegava a seus ouvidos.


Do chão cinzento, viu uma forma estranha brotando. Uma forma orgânica.




Um galho.


Folhas...brancas.





Fechou os olhos e sentiu apenas o tremor. Não havia nenhum receio dentro de si. Não havia motivo para se ter medo, apesar de toda a incongruência, todo o absurdo do espetáculo que se desenrolava ao seu redor.

Abriu os braços em gesto de redenção. Não temia nada.

Não soube dizer quanto tempo ficou com os olhos fechados, mas sentia o apelo visual a lhe chamar. Levantou lentamente as pápebras e viu.



A árvore branca. Imensa. Onipotente em sua vista.


Todo o restante, todos aqueles ilusórios prédios haviam desaparecido. Estava como se suspenso numa imensidão, vazia por todos os lados, se enegrecendo progressivamente, num degradê lento até onde sua visão alcançava. Era como se estivesse suspenso em um imenso vazio, um vácuo de escuridão, onde a única fonte de luz....vinha da árvore.



Mas não se importava.



Tudo que lhe significava, tudo que lhe fazia sentido era a imensa árvore.


Sabia que nada daquilo lhe fazia sentido, lhe dava resposta alguma a todo o absurdo que precedera semelhante espetáculo. Mas não se importava também.


Inspirou fundo. E deu o primeiro passo em direção ao bizarro vegetal.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

C-2.

O papel.

Só conseguia ver aquele pedaço de papel a esvoaçar no espaço morto à sua frente. À medida que seus pés iam alternando largas passadas, seus olhos estavam fixos na única coisa que parecia de fato existir naquele estranho mundo que o circundava, que havia se tornado ainda mais bizarro devido aos acontecimentos dos últimos minutos.

Estranha também, era a distância que o separava de tal papiro. Parecia não encurtar, por mais que ele usasse as pernas. Redobrou o esforço, ordenava mentalmente que as pernas voassem. Seus pés batiam no chão secamente, mas não conseguia ouvir o som das passadas. Olhou rapidamente para eles e constatou que apesar de baterem violentamente no empoeirado chão, nenhum grão de pó era levantado.

Era como se aquele já parado mundo houvesse subitamente tornado inerte. Pausado. Afastou todos os ambíguos pensamentos decorrentes de tal constatação. Sabia que o diferencial de todo aquele absurdo estava à sua frente, metros adiante. Na folha que dançava no ar.

Mas não conseguia nunca chegar lá, por mais que ofegasse, por mais que sentisse que suas pernas estivessem bombeando ácido. Por mais desesperado que estivesse. Sentia vontade de gritar, de se esgoelar para os cinzentos céus. Tentou se acalmar. Focar. A folha. A folha.

Momentos se passavam, minutos, horas, talvez. Nada mais fazia sentido, nem mesmo a passagem do tempo. Estaria sonhando? Estaria em um pesadelo?

Fechou os olhos, sem parar de usar as pernas. Reparou que não escutava o menor ruído em seus ouvidos. Não sentia o ar batendo em seu rosto. Nada. Ainda sem abrir as vistas, levantou a mão direita e desferiu seco golpe contra seu próprio rosto.

Sentiu. A dor.

Parou de correr.

Ofegante, dobrou seu corpo em direção ao solo. Sentia sua sanidade a lhe abandonar. O que diabos era tudo aquilo? O que significava? Tantas perguntas. Nenhuma resposta. Nada de concreto. Tinha receio de tentar vislumbrar a folha, o único diferencial que parecia existir naquela cinzenta e caótica realidade.

Medo.

De repente, uma supostamente extinta torrente de sentimentos lhe invadiu a mente. Sentiu medo, ódio, fúria. Tristeza. Sentia imensa vontade de chorar, mas sabia que de nada lhe valeria se curvar, se resignar. Parte dele sentia que deveria abandonar seu controle das pernas, que deveria relaxar todos seus músculos, abandonar toda a esperança. Cair ao chão e esperar pela morte.

Algo assim.

Mas não. Havia ainda alguma teimosia naquela anônima cabeça. Naquela mente sem identidade.

Levantou a cabeça, suspirando fundo e retesando seu maxilar enquanto o fazia.

A folha estava muito mais perto dele agora. Voando ao sabor de um vento que seu corpo parecia não poder mais sentir. Não procurou entender, não teve nem tempo para entender. Seu impulso já o dominava, ordenando imperativamente que voltasse a fazer uso das pernas.

Na rua, atapetada pelas agora inertes folhas amarelas e brancas, haviam alguns obstáculos. Ruínas de carros, pilhas de indefinidos escombros, tudo parecia estar em seu caminho, tentando impedi-lo de apanhar tal papel.

Ignorou tudo. Passou reto, por dentre tais aparentes entraves em seu caminho. Não existiam.

Via agora a folha com cada vez mais nitidez.

Adiante. Adiante. Era tudo que conseguia pensar. Era tudo que sabia pensar.

Apanharia aquela coisa, ou morreria tentando.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

C-1.

Por todos os lados, a cidade cinza se estendia, diante de seus olhos. E ele ainda estava ali, sem conseguir ao menos ter forças para tomar a única decisão que tomava todos os dias. Andar ou não andar? Continuar a seguir o caminho interminável das folhas amarelas, ou apenas permanecer ali, ficar.

Ele olhava para uma folha amarela que era embalada pelo vento, indo de lá para cá, uma dança aérea, etérea como seus pensamentos, como sua existência naquele lugar. Nada mais fazia muito sentido. Em sua cabeça, ululavam as contradições. Não se lembrava de muitos detalhes sobre sua vida.

Não tinha nome. Já não sabia quem era. O que estava fazendo ali.

Como poderia fazer alguma coisa, se ele mesmo não era nada? Que esperança poderia ter, sabendo disso? Era o mesmo de estar preso, permanentemente trancafiado em uma diferente espécie de inferno, bem diferente daquele apregoado por todos os entusiastas da danação eterna por cozimento em fogo lento, por capetas armados de tridentes que torturavam todas aquelas pessoas que ali estariam pelo simples fato de serem humanas.

O inferno dele era bem diferente. Em tons de cinza. Ao invés de demônios, havia somente prédios arruinados. Já havia perdido a conta de quantos dias passara sem sequer pensar em se alimentar de qualquer coisa, e isto em nada importava. Não sentia fome nem sede. Era um imortal caminhando pelo deserto infindável de uma cidade fantasma.

De fato, um inferno bem diferente do normal. Com um único habitante.

Ultimamente, parecia que tal lugar estava passando por sutis mudanças, começadas desde que as árvores amarelas perderam todas as folhas. As noites eram mais opressivas, silenciosas. O vento não mais assobiava por entre os escombros. E, vez ou outra, alguma coisa parecia mudar de lugar de repente, como se fosse uma ilusão.

Ele não se importava com mais nada. Havia perdido quase toda a esperança e motivação. Alguns dias, ele nem sequer abria os olhos. Ficava esticado no chão onde tinha se deitado na noite anterior e ali ficava, esperando não sabia nem bem o quê.

Se é que havia algo a esperar ali.

Suspirava enquanto relembrava tudo que havia acontecido ali, tentando em vão buscar alguma conexão com suas escassas e ambíguas memórias. Se lembrava de tanta coisa, de treinamentos, de sonolentas tardes assistindo palestras...mas não se lembrava dos rostos de ninguém. Não se lembrava de nada que lhe fora dito. Era como se tudo aquilo fossem anônimos cartazes circulando por sua cabeça, imagens estáticas, escondendo algo por detrás.

Que idéia mais maluca.

Mas naquele dia, havia algo estranho no ar, e ele nem ao menos sabia dizer o que era. Podia sentir, mas não sabia definir o que era. Ainda assim, o desânimo reinante em sua mente, não lhe dava forças o suficiente para se levantar e tentar vislumbrar alguma diferença naquele inferno cinza. Olhava a folha que ia de lá para cá, e apenas respirava.

Mas, de repente, a coisa aconteceu. A folha parou no ar.

Não saberia precisar quanto tempo ficou olhando. E levou um certo tempo até que percebesse de fato que aquela folha pairava no ar. Franziu a testa e se pôs de pé, aproximando-se lentamente. De fato, ela havia parado no ar. Esticou o braço, procurando tocá-la.

Sua mão atravessou a folha.

Ele ficou ali olhando, sem saber o que pensar. Repetiu a operação na direção contrária, obtendo os mesmos resultados. A folha era um fantasma. Um holograma.

Sentiu o coração dispara pela primeira vez em muitos dias. Aguçou os sentidos, e olhou ao redor. O restante do cinza inferno permanecia intocado, aparentemente. Mas foi aí que se deu conta. Outras folhas amarelas estavam paradas no ar.

E assim como a primeira, elas eram meras imagens paradas no ar, como se fossem de fato imagens vindas de alguma espécie de projetor holográfico. Sem massa. Imagens tridimensionais pausadas no ar.

Sentiu sua cabeça girando. O que era aquela nova forma de sortilégio?

Sentiu que precisava de apoio, como se sua pressão houvesse repentinamente baixado até níveis perigosos. As pernas bambearam e ele buscou suporte em uma coluna cinzenta ao seu lado.

Tomou um susto quando sentiu que a coisa não estava ali, e se desesperou ao sentir-se em queda. A coluna não existia.

Felizmente, o chão ainda estava ali, e recebeu seu corpo com a dureza esperada. Fechou os olhos enquanto deixava que a dor amainasse um bocado, mas quando os abriu, tomou outro susto. A imagem da coluna atravessava seu corpo, como se lhe houvesse empalado. Levantou-se de supetão, e se afastou daquilo.

Que diabos estava acontecendo agora?

Olhou ao redor. Tudo parecia normal, mas ele sabia que não era o caso. Tudo que o vento havia levantado, folhas amarelas e pó, estava parado no espaço. Se aproximou lentamente de outra coluna, e tentou tocá-la, obtendo o mesmo resultado. Era uma imagem projetada. As tábuas no chão. As folhas espalhadas no chão. As paredes dos prédios.

Nada existia.

Sentiu um súbito pânico se apoderando dele. O que já parecia por vezes ser apenas um sonho, agora era um pesadelo. Seu coração estava disparado e ele ofegava sofregamente diante de todo aquele absurdo. Fechou os olhos com força e se estapeou para ver se conseguia se livrar da visão.

Quando abriu os olhos de novo, tudo estava do mesmo jeito que estava segundos atrás. Mas...

Havia algo parecido com uma folha de papel metros adiante, sendo levada pelo vento. Se é que havia de fato algum vento ali.

Correu naquela direção.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Partida.

Naquele dia, milhares de pessoas lotavam o estádio para assistir àquele jogo, supostamente tão importante para a vida de todos os presentes, todos os ausentes, todo o mundo que ali se encontrava, em franca celebração pela vida e pelo jogo, por valores tão importantes para todos, que ali se escondiam de suas vidas, de seus problemas. Por hora e meia, aproximadamente, nada mais importava, nada mais lhes importunava.

Era um digno embate de cores e sons, onde milhares de cornetas de plástico soavam uníssonas como miríade de insetos; todos dotados daquele monocórdio instrumento sopravam a plenos pulmões, fazendo parecer que todo o estádio em si fosse uma coisa viva, uma entidade com vontades e propósitos próprios. Todos ligados nos movimentos daqueles homens que corriam atrás de uma bola. Grandes propósitos eram ali instaurados, grandes motivações eram reveladas ao assistirem aquele degladiamento, onde a arte se misturava com a ginga, a malícia do gesto falso, tantos pulos e tantas carreiras a serem corridas, em busca das redes, do ponto, da decisão.

Mundial campeonato este, desdenhado por poucos, ignorado por ninguém; inegável é sua força, a força deste esporte, deste encontro entre a brincadeira de crianças e a carreira milionária de tantos adultos, seletos seres que da vida tiraram a sorte grande, por serem bons naquilo que faziam em campo. Muito para desgosto daqueles ínfimos homens que ali assistiam, coração na mão, esperança no peito, alguma forma de estranha catarse se processando enquanto de seus problemas se liberavam ao fazer daquelas pernas que tanto corriam suas, faziam daqueles corpos que se encontravam seus, faziam de tudo para tornarem-se, de certa forma, tão afortunados como aqueles raros seres que ali corriam, suavam, cabeceavam, chutavam...e ganhavam rios e rios de estranhos monetários enquanto o faziam.

A partida agora quase chegava ao fim, e o empate muito aborrecia a todos: seria necessário estender o tempo, será que a coisa iria aos pênaltis, será que a tensão já reinante ainda se tornaria mais intensa, mais insuportável, mais insustentável? O tempo passava, os segundos corriam, e aqueles atletas de poucos se tornavam motivo cada vez maior de todos, se tornando por vezes algum propósito mais avançado, mais resoluto que a resolução da própria vida de todos os presentes, todos os pagantes, todos que no mundo inteiro se pregavam diante de teletelas, ó Grande Irmão, e dali não se removiam, não se moviam enquanto a coisa não terminasse.

Em lance controverso, um dos atacantes do time tal se lançou contra outro, roubando-lhe o esférico objeto da atenção, da tensão mundial, e partiu para uma desembestada carreira em direção ao lado das redes adversárias: o tempo estava quase esgotado agora. Talvez fosse este o lance final, decisivo, que libertaria a todos daquela inumana apreensão, de toda aquela paranóia. O time tal se ergueu, fez valer seu esforço, correu a não mais poder, enqaunto os outros não lhes largavam, perseguindo-lhes de perto, muito perto. O atacante foi confrontado por certo adversário, e teve de abrir mão de sua glória pessoal para o bem de todo o time, de todo aquele meio mundo que nele agora focava ses olhos, suas lentes, suas câmeras.

Chutada para a esquerda, a bola desferiu no ar estranho assobio, fez uma inexplicável curva e sentiu o peso da gravidade, entortando-se para baixo, descrevendo uma parábola de vento que pocos viram, mas que era direcionada para o encontro com um outro menbro do time tal, que saltou em um átimo de segundo e tentou, com sua cabeça, retransmitir aquele objeto controverso para outro destinátario da mesma equipe.

E foi aí que aconteceu.



Como? Ninguém soube explicar. Nem o atacante nem a coisa pavorosa, sequestrante, alienígena, pouco se sabe, foram jamais encontrados. Ainda assim, o mundo assitiu estarrecido àquela estranha ascensão, aquele bizarro acontecimento, que fez com que tudo parasse, com que os fôlegos fossem inspirados mas não expirados, jamais expirados, naqueles vinte segundos que procederam após tal incidente. Velozmente, a dupla subiu e subiu, em direção à incandescente estrela que silenciosmante tudo assistia e nenhuma palavra dizia. Em pouco tempo, aquele estranho par se tornara apenas um ponto escuro no azul do céu, para depois desaparecer por completo.

O mundo parou naqueles instantes, e forma raros os seres que ficaram sem ar ao contemplar diante de seus atônitos olhos o que estava acontecendo. Todas as vuvuzelas quedaram-se silentes, todos os confetes e serpentinas pareciam ter adquirido peso extra, como se a gravidade, ausente para o infame par que aos desconhecido subia, agora lhes reclamasse a porção devida e previamente ignorada. Tudo caiu por terra, menos aquele estranho casal que subiu e sumiu.

Tudo parou, tudo se fez insano, e de repente todos se viram quase cegos de tanto para cima olharem, de tanto que suas retinas se machucaram ao contemplar aquele dantesco espetáculo. Nada mais era o que era, tudo fazia anônimo, tudo se parecia com nada.

E o mundo parou, todos os relógios perderam as forças, o dia ficou parado, o sol nunca mais se pôs...isto tudo em menos de vinte frações de minuto, em vinte inesquecíveis momentos, que tanto foram somatizados, impressos a ferro e a fogo na mente de todo o mundo que ali se encontrava, ao vivo ou não.

Tudo perdera o sentido, mas de forma difusa, diversa, diferente da forma que momentos antes todos se esqueciam das vidas, dos fatos e de tudo mais, diante daquela partida.

Partida, para onde, para onde.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O jogo.

Pedro olhou para o tosco relógio de pulso. Dez e meia, manhã de terça, dia importante para o país, para a supremacia daquele povo na coisa que era o maior sonho de todos eles, os operários. Era dia de seu país participar da competição mundial, coisa que somente acontecia de tempos em tempos, e que Pedro nem bem se lembrava ao certo qual era este intervalo, tamanha era sua excitação para tal evento.

Na trefilaria, o clima de animação era geral. Todos os operários trajavam, de certa forma, as cores do país por cima dos uniformes. Mesmo que o capataz deitasse-lhes olhares tortos, eles nem se importavam, pois sabiam que Aquiles também era patriota sazonal, assim como eles. No ano em que tal competição acontecia, todos eles amavam seu país com todos seus corações; esqueciam-se dos seus barracos, da falta de dinheiro, das mulheres que lhes gritavam por estarem gastando muito dinheiro com cachaça e aguardentes, modernos ópios legalizados pela legislação vigente. Enquanto isto, elas mesmas se escondiam em suas televisões, em suas novelas. Iam para a missa. Pagavam o dízimo ao pastor. O dinheiro que lhes fará falta garantirá a salvação.

Pedro nem sequer pensava em nada disso, apressava-se em terminar aquele serviço que tanto detestava, para depois fazer hora, fumar um cigarro, e aguardar o meio dia, hora em que o embate seria levado ao vivo e a cabo. Fazia força na alavanca, a fim que esta se movimentasse mais rapidamente para soltar aquele fio-máquina ainda incandescente do monstruoso maquinismo que processava aquela lava, aquele metal derretido. Lá fora fazia frio, mas ali dentro era sempre o inferno. Pedro puxava e empurrava aquela haste de ferro com fúria. Olhou novamente para o relógio do paraguai: onze e quinze.

Estava se aproximando a hora. Ele não desejava mais nada no mundo, não queria saber de sua mulher nem de suas "cachorras", não queria saber de seus filhos, aqueles catarrentos. Não queria saber de nada que não fosse a cerveja, o cigarrinho e o espetáculo televisivo mostrando a disputa pela supremacia mundial de tal esporte. Estava muito perto agora. Os companheiros já haviam preparado tudo na sala a eles reservada para a exibição do jogo: isopores com gelo e latinhas de suco de cevada, aos montes la jaziam. A empresa não os liberaria para sair mais cedo, mas ele não se importava. Não naquela hora. Ele sorriu. Perto, muito perto.

De repente, a alavanca travou enquanto ele a puxava, e sentiu um rumor, um tremor percorrendo toda a gigantesca máquina. Quase teve um surto de raiva. Aquilo precisava acontecer justamente agora? Bem agora? Como assim! Tentou forçar a barra com a alavanca, para a frente e para trás, mas ela não se movia. Ele disparou a xingar, gritando impropérios a plenos pulmões. Aquiles ouviu tudo aquilo e lá foi recriminar o funcionário rebelde.

Mas Pedro, olhando novamente para o relógio e muito se exasperando, por saber que teria que resolver tal emperro antes da partida começar, e se dirigiu para a base da máquina. Pôs-se a golpear com as mãos o rebelde maquinismo, ignorando completamente os apelos de Aquiles; ele sabia que estava violando o protocolo de segurança, mas nem se importava, ele só queria saber de ver o jogo; logo, teria que resolver aquilo mesmo que ameaçasse sua vida. O jogo, o jogo. Dez minutos! Ele tinha que correr, que agilizar. Bateu com mais força, com toda a força que seu corpo lhe permitia desferir contra aquela maldita coisa emperrada. Ele se abaixou para olhar de perto aquela coisa, ver se o tubo por onde saíam aqueles pedaços incandescentes não estava entupido, de certa forma.

Nisto, as vibrações causadas pelo impacto seco daquelas mãos calejadas surtiram efeito: um pedaço de rebarba de ferro derretido que havia secretamente se instalado entre algumas engrenagens e havia causado o enguiço, se soltou e a máquina voltou à vida de prontidão. Aquiles ainda gritou algo, mas não a tempo. Pedro nem sequer chegou a escutar direito. Ou assim lhe pareceu. O próximo fio-máquina que deveria ter saído há uns dez minutos atrás saiu de supetão das entranhas do maquinismo, e perfurou a cabeça de Pedro como se ela fosse uma mera sacola de plástico sendo trespassada por um arame esquentado no isqueiro por alguma criança que brinca com fogo. O jogo.

O jogo. Foi o último pensamento que se passou naquele corpo agora já sem vida. Aquiles berrava, pois a máquina ainda estava em funcionamento e arrastava o corpo à medida que o pedacinho de inferno saía de sua boca. Ninguém lhe deu ouvidos: já haviam todos corrido para a sala de televisão. Ele teve de correr até o painel de controle e tentar desativar a coisa sozinho, mas ele sabia que teria que operar também as malfadadas alavancas que momentos atrás Pedro praguejava contra. Horrorizado, viu que aquele fio incandescente havia queimado tanto a face daquele operário, e o atrito contra aquele crânio havia produzido o efeito de se passar uma faque quente na manteiga.

Pedro jazia na esteira que apanhava tais fragmentos, com a cara terrivelmente desfigurada, e o pedaço do inferno ainda queimava-lhe o copro em outros lugares. Aquiles berrava e berrava, mas ninguém escutava. Desesperado, saiu correndo em direção à sala onde o embate já corria solto.

Enquanto isso, outro fragmento daquele muito queimante material era despejado por cima daquele inerte corpo. O cheiro era horrendo: sabia àqueles torresmos chamuscados na hora, mas todos operários o saberiam, momentos mais tarde, quando reapareceram contrariadamente no palco dos horrores, para auxiliar Aquiles a resgatar aquele extinto funcionário. O cheiro de carne humana queimada empesteava o local, mesclando-se com o odor de todo aquele ferro em ponto de ebulição existente naqueles caldeirões.

Todos se horrorizaram, alguns sentiram náuseas, mas muito somente praguejaram. Maldito seja este imbecil, que nos privou de ver o jogo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Reencontro.

Mais uma noite. Mais uma discussão.

Uma pá de discussões para ser sincero. Havia estado ele num bar, em companhia de amigos até tarde, e agora voltava aturdido, estonteado para casa. Não pelo efeito inebriante devido à ingestão de alcóois ou outras substâncias inebriantes, não. Cambaleava devido à surra mental que haviam lhe inflingido. Sentia-se como uma turba de torcedores amalucados em dia de clássico tivessem passado por cima de seu atônito corpo.

Na verdade, não haviam lhe agredido. Não. Ele sabia disto. Ele havia embarcfado na onda errada de se deixar agredir, não pelas opiniões divergentes de seus amigos, mas....pela sensação renovada de que ele era um ET naquele mundo. Que nunca, jamais, encnotraria nenhum alento em parte alguma daquele globo, ou antes glóbulo flutuante.

Não havia sido a primeira vez e sabia que não seria a última. Entrou em casa sentindo-se mal, com o estômago a revirar, sem que nem havia comido nem bebido nada naquela noite. Não havia ninguém na casa, e isto aumentou ainda mais sua sensação de solidão absoluta....naquele mundo, naquela dimensão, naquele universo. Tudo estava errado, mas ele sabia da verdade.

Ele estava todo errado. Tudo que acreditava, tudo que sonhava, tudo que queria. Nada fazia sentido algum naquele mundo. Ele estava errado. Era ele o estranho. Eram dele as opiniões de outro mundo, que sempre soavam risíveis a todas as outras pessoas.

Quase todas as outras pessoas. Algumas compartilhavam de suas opiniões; não todas, bem entendido. Mas mesmo assim...esta pequena porção de gente contra o restante da população do mundo...Não era preciso ser um gênio da estatística para chegar à mesma conclusão que que ele chegara naquela madrugada.

Eles estavam errados. Ele e seus parcos amigos que pensavam como ele.

Quem ganharia nesta briga, quase sete bilhões de pessoas contra dez, quinze malucos?

Riu disto amargamente, e se dirigiu ao seu reduto final, seu refúgio de todo aquele nonsense que lá fora imperava, o sótão. Abriu a porta e olhou ao redor. Nada, evidentemente. Ali só se ouvia o quieto rumor do vento e das traças comendo seus papéis, aranhas marrons circulando silenciosamente em busca de eventuais presas.

Sentou-se na beirada da cama. Sabia que naquela noite, não haveria descanso para aquela mente inquieta. Sabia que não haveria conforto naquele colchão. Os travesseiros se transformariam em pedra. Já havia tido noites como aquela.

Tudo passa, tudo passa.

Não estava passando. Desde remotos anos do final da década de setenta. Nunca, nunca havia passado. Levantou-se e foi até seu esconderijo de coisas proscritas pelo ministério da saúde. Selou o cigarro de palha e o acendeu, aspirando toda aquela toxicidade. Sentiu o corpo relaxar um pouco, mas uma de suas vozes interioranas, sempre chata afirmava-lhe, "cinco minutos a menos de vida para cada cigarro!" Foda-se, afirmou ele em voz alta. Queria que fossem cinco anos a menos.

Covarde, replicou outra voz do interior de sua cabeça. Ele soltou mais uma baforada contra o vazio do sótão e tratou de silenciar todas as vozes que começaram a se levantar em sua cabeça. Mas esta não se calava. Covarde. Se queres fazer algo significativo, saia deste mundo batendo a porta. Dê logo um tiro em sua cabeça, e cale para sempre todas as vozes.

Tragou mais um tanto de fumo. Já havia argumentado demais naquela noite, não queria saber de mais nada. E sabia que não iria fazer nada do naipe sugerido por sua voz suicida. Ele era teimoso. Duro.

"se você morresse...
mas você não morre.
Você é duro, José!"

E sabia que precisavam dele vivo naquela casa. Não iria abandonar as pessoas que mais gostava apenas por ser um problemático, um alienígena. Não era assim tão egoísta.

Queria que tudo se calasse naquela noite, mas sabia que a insônia reinaria absoluta. Foi até outro secreto recesso de suas coisas e apanhou o suco de dormir previamente preparapo dias antes. Ilegalmente preparado. Nem pestanejou. Bebeu uns três goles: sabia que aquilo lhe bastaria. Fez suas abluções, apagou a luz e se dirigiu para a cama.

Ficou ali, na escuridão, pensando no que ouvira na noite, no que ouvira durante a vida. Errado, errado, estás errado, seu mundo é de faz de conta, ha ha ha. Suspirou pesadamente e rolou, de cá para lá, por um bom tempo. O sono artificial e/ou natural não lhe chegava. Estava cansado, estava moído, só queria calar tudo aquilo, fugir de tudo aquilo da maneira que lhe era permitida por lei.

Pôs-se a olhar o teto. O silêncio era absoluto naquela noite.

De repente, ouviu um som, inicialmente tímido e quase inaudível, mas depois foi ficando mais firme, mais...estranho. Era como uma espécie de sussurro, ao menos com isto se parecia. Levantou um pouco a cabeça, olhou ao redor. Nada. A escuridão ali não era absoluta, pois as janelas de vidro da frente do sótão não tinham cortinas, e a luz da rua por ali entrava livremente. Mas aquele som...ele existia, vinha de alguma parte. Pôs-se sentado na cama e aguçou seus ouvidos.

Nada. Silêncio, novamente. Suspirou e abaixou seu corpo novamente, mas parou no meio do movimento. Ouviu o som novament, vindo...do travesseiro. Sussurros.

Como um raio, pôs-se de pé. O interruptor de luz estava do outro lado do quarto, mas sentia agora medo de transpor aquele espaço. Sentiu algo como um vento passando por sua nuca, um arrepio gelado se irradiando por todo seu corpo logo em seguida. Havia ali perto o banheiro, uma luz. Para lá se dirigiu, tremendo.

Assim que se pôs na moldura da porta, sentiu algo estranho e instintivamente olhou para o espelho. Viu sua escura silhueta ali refletida, evidentemente. Pôs a mão sob o interruptor, mas assim que fez menção muscular de o acionar, viu um vulto que se moveu rapidamente por trás de seu reflexo no espelho.

Agora aterrorizado, ele se voultou e olhou para ovazio do cômodo. Nada, evidentemente. Ele deveria estar sofrendo de stress pela surra mental da noite. Mas sentiu novo calafrio se irradiar de sua nuca quando ouviu novamente um sussurro em seu ouvido.

Olhou ao redor, para o chão, para as paredes, procurando ver algo. Nada, nada havia ali dentro, nada. Nada havia ali dentro. Mas...

Levantou a vista para as janelas de vidro. Lá fora.

Havia uma...coruja? Ali.

E sorria para ele.

Dizem que em momentos de extremo pânico, o corpo se retesa todo, preparando-se para lutar ou fugir, mas ele não fez nada além de travar todo, quase por completo, quase não conseguindo pensar em nada, nada além daquela visão. Pois sabia que não era uma coruja, que não sorriem. O que era, não saberia dizer, não poderia dizer. Seu corpo estava paralisado, e apesar de toda a tensão reinante em todos seus músculos, ele não consegui sequer respirar. Sentia que algo se aproximava...que algo fazia sons indefinidos em seus ouvidos, vozes, muitas vozes, nunca dantes escutadas.

Sufocado, tentava entender tudo aquilo, mas abia que não poderia. Seus pêlos, agora todos eriçados eram capazes de sentir a leve brisa que se formava ao seu redor, com que causadas pelo ar expelido por milhares de invisíveis bocas que sussurravam. Seu coração parecia que iria explodir. Sua pressão devia estar parecida com a de uma locomotiva a vapor.

Mas não conseguia se mover, não podia se mover. Os únicos músculos que ainda lhe obedeciam eram os oculares, que se voltaram irracionalmente em direção à janela. A aparição estava agora do lado de dentro. Havia triplicado de tamanho, e havia mudado de forma. E sorria para ele. Chegava cada vez mais perto.

O quê era aquilo?

Cada vez mais perto.

O quê era aquilo???

Mais perto.

O QUÊ ERA AQUILO????

Perto.

Sorriso, sempre presente. Batimentos cardíacos, quase chegando aos trezentos. A visão começou a escurecer, assim que viu a mão se levantar e estender os dedos em direção à sua cara. A forma, agora ele pôde reconhecer. Mas não queria aceitar, nada que nele havia de racional aceitava aquilo. Nada. Sorriso. A visão cada vez mais obscurecida, ainda pôde registrar os dedos que passaram suavemente por seu rosto, cerrando-lhe as pálpebras. Sentiu seu coração bater cada vez de maneira menos e menos desesperada, e sentiu sua tensão se aliviando, de maneira muito incongruente para tudo aquilo.

Sentiu que sua consciência ficadva pesada, sentiu um pesado sono se apoderando de seus sentidos. Mas...o quê....como....quem...

Não sentiu mais nada.


Voltou à consciência sem sobressaltos, por mais estranho que possa parecer. Lembrava-se nitidamente de tudo, mas não entendia nada. Sentia-se calmo, sereno, mas sua inquietação mental fez com que se levantasse da cama onde estava confortavelmente deitado.

Era dia. Esfregou os olhos e olhou ao redor, com um ruga cada vez mais pronunciada em sua testa. Estava no sótão, mas nao era o sótão, com suas nuas tábuas de chão sem acabamento, seu telhado desprovido de forro, suas paredes toscas e cinzentas.

Estava tudo novo, arrumado, limpo. As paredes pintadas. O chão impecavelmente limpo e "sintekado". Um forro de gesso com detalhes rebuscados em seus cantos escondia as telhas e a caixa d'água barulhenta. A porta que dava acesso ao interior do outro sótão estava proviida de uma escada bem-feita, bem acabada.

Era outro lugar, só poderia ser. Mas seus inquietos olhos continuavam a perscrutar aqueles arredores....e viram o antigo telefone de seu avô, numa estante finamente acabada. Seus livros, todos organizados em prateleiras muito diferentes daquelas coisas remendadas que ali haviam. Sua caixa recém comprada da coleção de Calvin e Haroldo, ali estava cuidadosamente depositada.

A imensa mesa verda que era de seu avô ali estava, com seu computador, seu scanner, sua tablet. Havia uma bateria no centro do quarto, e várias guitarras penduradas na parede oposta, onde também havia um fino guarda roupa, fechado. Olhou para o lado esquerdo de sua cama. Na alva parede, pendia o quadro emoldurado que seu amigo Fernando havia lhe presenteado semanas atrás, ao lado de emoldurados desenhos que...pareciam ser alguns de meus melhores desenhos, que nunca havia terminado, nunca haviam passado da fase de esboços.

Estava em casa. Mas não estava. Mesmo a cama que estava sentado era gigante, absurdamente confortável.

De repente sentiu delicadas mãos a lhe acariciar o ombro. Com um sobressalto, se voltou. Ela lhe olhava com aquele sorriso que nunca havia deixado de existir na forma estranha forma que dele se aproximara na noite anterior. Olhos verdes, cabelo moreno. "Calma, ela disse. Vai passar. É normal se sentir perdido."

Perdido? Eu estava desorientado. Quem era ela? O que era tudo aquilo? Ela segurou minhas mãos, que tremiam, muito. Mas assim que senti o toque aveludado daquela pele, senti uma imensa calma se apoderando de mim. Ela sorria, nada dizia. Pus-me a estudar aquela bela mulher. E percebi que havia algo de imensamente familiar naquela desconhecida.

Ela não me era desconhecida. Exibia em seu braço esquerdo uma tatuagem que eu havia visto antes. Um belíssimo dragão. E na hora me lembrei daquele dia no shopping. Do desencontro. De minha busca desesperada pela dona daquele lampejo de beleza que me havia passado pelo canto do olho. Era ela.

"Bem-vindo ao seu mundo, meu querido." Ela me disse, me abraçando apertadamente. Eu senti uma imensa onda de emoções varrendo todo meu ser. Queria rir, chorar, correr, gritar. Tudo ao mesmo tempo agora.

Estava em casa. E sabia que ali estariam todos que comigo se importavam e que de alguma forma haviam me ajudado por toda uma vida de busca. Busca por meu lugar, meu mundo, fora daquele imenso turbilhão de absurdos que quase me levaram à beirada do abismo.

Não entendia direito como havia chegado ali, mas não importava. Sabia que estava em paz agora. Não precisava de mais nada.

Estava em casa.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Arte!

Naquele final de tarde, o Noiado saía de seu emprego de merda ainda mais noiado que o costume. Não que tivesse ingerido drogas em nenhum momento do dia, ao contrário do que imbecis viciados em gírias pudessem pensar; não, ele apenas tivera de aturar as drogas que ali trabalhavam em conjunto consigo, se é que era possível chamar aquilo de trabalhar. Como recém "promovido" ao cargo de TI da empresa(sem nenhum aumento salarial, evidentemente), o Noiado tivera um dia díficil ali: os frangos receberam mensagens de vírus por seus "messiênes" e TODOS clicaram nos links suspeitos. Resultado, ele tivera de formatar três máquinas, tivera que instalar versões atualizadas de anti-vírus em todos os computadores, ouvir que estava demorando demais e uma das frangas inclusive reclamou da demora por que tinha um "encontro marcado" no MSN com um cara qualquer. Torcera para que tal encontro gerasse frutos...que o cara fosse um psicopata que engalobasse tal cretina e que ela despertasse esquartejada em um lote vago qualquer do bairro Gorduras. Bem apropriado à massa corporal daquela baleia inútil.

Mais adiante, pediram-lhe que instalasse o orkut em uma máquina.

Enfim, tibera um dia de cão. Saiu dali esbravejando mentalmente a tudo e todos que encontrava em seu caminho, e teve mesmo que se segurar para não empurrar aquela gente retardada que andava a dois passos por hora e ocupava toda a calçada, nem atirar ao trânsito os idiotas que cuspiam no chão ou que encorajavam seus hediondos rebentos(céus, eles se reproduziam num ritmo alarmante) a jogar os papéis de bala pela janela do coletivo, sendo que a lixeira interna do ônibus estava bem defronte tais seres abjetos.

Rilhando os dentes, ele desceu perto de uma galeria de arte, onde uma Doidinha que ele conhecera por acaso num local qualquer meses atrás e que lhe parecera ser uma pessoa sensata havia marcado de se encontrar com ele. Haveria uma exposição de "múltiplas artes" ali naquela noite, e apesar de nunca o Noiado ter paciência com tais artes e partes, resolvera atender. Talvez fosse apenas preconceito de sua parte. A Doidinha havia lhe afirmado que seria "uma noite memorável", pois haveriam muitas perfomances, inclusive musicais.

Inicialmente, ele já azedou por ali avistar uma certa pessoa, que meses atrás havia lhe criticado indignada um de seus desenhos. A Tal Pessoa era música, ou assim afirmava ser, e havia notado que as representações de notas musicais em um dos desenhos do Noiado estava incorreta, pois o ângulo de difração da nota em harmonia com a sétima casa de Plutão(que nem era mais um planeta), estava incorreto. Isto, quando tudo que o Noiado havia querido representar era uma nota desafinada de um balão de um quadrinho de humor. A Tal Pessoa havia lhe sequestrado quase todo o humor naquele dia, e ele teve ímpetos de defenestrar Tal Pessoa, mas não o fez, pois ela na época estava namorando um de seus melhores amigos. Virou o rosto e procurou ao máximo fingir que nem conhecia Tal Pessoa.

Felizmente, a hipocrisia na sociedade geralmente é mútua.

As performances começaram, inicialmente com um cara portando violão, que se sentou em um banquinho e começou a fazer estranhos ruídos estranhos, descompassados e desafinados em seu violão - que evidentemente estava muito mas MUITO desafinado - enquanto emitia sons guturais igualmente desafinados e descompassados. Palmas e mais plamas ecoaram, até "bravos" soaram da atônita platéia, enquanto o Noiado estava atônito era de ter presenciado tal porcaria e ainda ter que escutar a ovação imbecil da platéia.

Olhando ao redor, haviam telas com rabiscos inúteis espalhados pelas paredes, e nos cantos, haviam depósitos de lixo, ou assim ao menos lhe pareceram aquelas instalações que ali estavam expostas. Instalações? O Noiado já havia visto instalações sanitárias que faziam muito mais sentido, artisticamente falando, do que aquelas...coisas ali expostas. Sem falar que aquelas instalações sanitárias eram DEFINITIVAMENTE mais limpas e funcionais que aquela merda toda.

Enquanto olhava incrédulo para todo aquele espetáculo de estupidez ao seu redor, a Doidinha puxava papo com ele, e quando descobriu que o Noiado era do signo de Virgem, demonstrou nítido desapontamento, uma vez que era entusiasta destas bobagens astrônomicas ou astológicas, e sendo ela do signo de Gêmeos, era incontestavelmente incompatível com o Noiado. Ao que o Noiado pensou, "Já vai tarde", pois ele havia notado que a Doidinha apreciava de fato toda aquela idiotice divulgada naquele antro de imbecis.

Um pouco mais adiante, havia um mau cheiro insuportável no ar. Alguns membros da alta roda da sociedade contemplavam quadros de merda - literalmente. O Artista responsável havia cagado em telas e ali elas estavam expostas, para a sensação de toda aquela gente que representava o PIB da sociedade.

Ou seja, a População Incrivelmente Burra.

Mais adiante, um cara se cortava, recolhia o sangue em potinhos e os punha numa espécia de arma, enquanto discursava babaquices acerca de idiotices sobre a arte de ser vida e tudo que o sangue carregava em seu interior; o sangue era um arma. Ao passo que o Noiado só desejava ter uma arma de verdade com ele naquele momento.

Em outro canto, eram exibidas milhares de fotografias gigantescas de....cus. Cu também é arte, dizia o chamado.

Mais além, havia um cachorro encerrado numa redoma de vidro, que o Artista estava lentamente matando de fome e de sede, enquanto discursava sobre....coisas.

Naquele momento algo aconteceu com o Noiado: seus olhos se tornaram rubros, suas mãos tremeram e ele avançou até uma parede, onde removeu um extintor de incêndio que ali havia. Carregou-o até a redoma de vidro onde o pobre animal agonizava e imediatamente partiu aquilo em milhões de pedaços, enquanto o Artista protestava veementemente contra tal bárbarie. Não por muito tempo. O Noiado usou o extintor para extinguir tal Artista, fazendo com que a cara de tal ser ficasse côncava em seu crânio, e o Artista tombou morto ao chão. O cão moribundo começou a devorar vorazmente o Artista, fazendo com que o Noiado risse melevolamente de tal cena. Vingança é um prato que se come frio, mas neste caso, um cadáver ainda quentinho vai bem para um pobre animal que seria sacrificado em nome de uma arte que de arte só tem o nome.

Depois, O noiado avançou até o outro Artista que ainda estava na sua ladainha com o violão e seus grunhidos. Tomou-lhe gentilmente das mãos seu instrumento e o enfiou goela abaixo, enquanto os olhos de Tal artista pulavam para fora de suas órbitas. O corpo do Artista lá ficou jogado àquele canto.

Depois, o Noiado apanhou pelo colarinho o autor da arte esmerdeada e esfregou raivosamente sua cabeça nas telas de merda - literalmente - que havia produzido, ate que a vida deixasse aquele ser idiota. Logo em seguida o Noiado fez com que o outro Artista engolisse - sem dobrar nem amassar nem nada - as imensas fotografias dos cus ali expostos, até que este também tombasse sem vida ao chão.

Arfando, bufando, com o coração a mil por hora, o Noiado de repente escutou palmas. Estavam lhe ovacionando! Um dos represenatantes do PIB veio apertar-lhe a mão, pois nunca havia presenciado uma performance com tanta energia e veemência: Nunca ahviam visto uma pessoa representar de maneira tão concisa e eficaz a luta da Arte contra as Partes, a luta do predomínio da vercaidade da incontingência e inevitabilidade do anacronismo presente por toda a sociedade irrisória e arquétipa, sendo evidentemente esta descentralizada e dotada de paroxismos inevitáveis. Nunca, mas nunca alguém com tanta bipolaridade austera conseguira encenar de forma tão definitiva a luta pela originalidade, contra os arcadismos e os pluralismos de uma sociedade não mais rural, mas voltada para a inevitabilidade escusa das partes, que se voltavam contra as artes e nelas se exprimiam, de tal maneira que levaram muitos dos presentes a se debulharem em lágrimas e soluços sinceros. A panacéia da morosidade do desenvolvimento sustentável estava definitivamente provada; de maneira mais cartesiana impossível. A Doidinha dele se aproximou e tomou-o pelo braço, olhando apaixonadamente para ele, enquanto os demais presentes continuavam a aplaudi-lo de pé.

Naquele momento, a cabeça do Noiado explodiu.

No dia seguinte, os jornais de todo o mundo lamentaram efusivamente a perda de semelhante artista. Era uma perda inexorável e incomensurável para o mundo da arte.

De fato.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A cama.

Dias e dias. Manhãs e noites, horas e horas.

Momentos que se passaram, mas que ele nem viu. Estava lá mas não saberia dizer o que havia se sucedido. Havia uma festa, ele parecia se lembrar disto, uma festa, em algum lugar. Se lembrava que tinha ido encontrar alguns de seus parcos amigos que ainda restavam naquela vida, e dali tinham ido para a casa de alguém, que tinha um "esquema muito bom" e que "estaria cheio de mulher", vagas promessas que ele já havia escutado antes.

Pouco importava. O que ele queria de fato é ter acesso a algum lugar diferente, com novas possibilidades, novas...mercadorias em potencial. Naquela manhã em particular, ele se lembrava disto: que haviam ido para tal festa, e todas as pessoas existentes lá tinham cara de peixe. As paredes eram feitas de alguma gosma indefinida, de cor de flicts. O que era essa cor, flicts? E como esta estranha palavra havia aparecido em sua cabeça?

A cabeça, esta doía, e muito. O que havia acontecido ali, ele não se lembrava de todo. A pessoa que era dona do pedaço, que tinha cara de truta e fala mansa porém autoritária, havia oferecido aos conhecidos e amigos dos conhecidos o tal esquema, que de fato era muito bom, muito, muito bom mesmo.

Tão bom que havia deletado de sua memória o que havia se sucedido logo em seguida. Ele se lembrava de ter passado a coisa adiante, saído de fininho para ir ao banheiro, e invadido alguma espécie de quarto de dormir da casa, onde tentou em vão ser discreto para adquirir "novas mercadorias." Lembrava-se de berros e censuras e mesmo agressões.

Dali, as coisas se embolavam em sua cabeça. Haviam imagens confusas de peixes gritando, cadeiras voando e punhos cerrados acertando em cheio sua cara.

O que havia acontecido?

Foi aí que se deu conta. Ele não estava em casa. O teto que seus olhos fitavam era muito limpo para ser de seu quarto. Quis se levantar, mas sua cabeça pareceu estar pesada demais. Não pôde fazer nada, mas ouviu passos confusos em sua direção. Figuras vestidas de branco e uma com um estranho chapéu lhe olharam de soslaio, exibindo um certo asco em seus rostos também.

Ele se desesperou, pois sabia o que aquilo significava. Precisava sair dali, precisava fugir. Jurara a si mesmo que não mais voltaria para aquele lugar, nem que precisasse se matar. Um dos membros da "máfia branca", como eram jocosamente denominados percebeu seu estado de agitação e mordeu a tampa de uma seringa. "Este cara está muito agitado."

Virou o rosto, pois detestava a imagem de agulhas, mas não sentiu nada lhe picando. Mesmo assim, imediatamente após ter visto a seringa se afastando de si, sentiu a cabeça girar e as coisas ficaram mais e mais lentas. "Não se importe, ele não vai a lugar nenhum de qualquer maneira." Risadas. "Eu sei, mas quero evitar a fadiga" Ha Ha Ha.

As imagens novamente se distorceram e sua cabeça ficou ainda mais pesada. "....atiraram nele às três da matina, disseram que...", "....os raios X não mentem. A paralisia...."

As coisas ficaram mais e mais distantes. Precisava sair dali. Precisava fugir.

Precisava dormir. Precisava de mais uma dose, apenas mais uma dose. "Cale a boca, de agora em diante a sua dose vai ser diária de fato...." Enfermeiros e enfermeiras, fardados e agentes, tudo se passava diante de seus olhos mas parecia que nada havia de real ali.

Não lhe deixavam pensar, não lhe deixavam nem sequer se levantar.

"...não quero ficar tomando conta de um idiota viciado e paralisado, porra!...."

Precisava sair dali. Sentia que estavam falando algo a seu respeito mas nem conseguia entender mais nada. A realidade eram dias e dias de bizarros sonhos, de medonhos retornos a um passado já distante, longe de tudo aquilo que havia se tornado sua vida, sua razão de existir. Sua necessidade diária.

Precisava fugir. Precisava.

A infinidade era um teto branco, que sempre olhava fixamente até tentar dali sair e logo em seguida ter sua mente calada por alguma espécie de agente paralisante que lhe injetavam assim que escutavam seus resmungos frustrados ao tentar dali sair.

"......parece mesmo que ele nem sabe o que está acontecendo...."

E não sabia. Não poderia saber. Nada mais fazia sentido.

Um dia, não acordou mais. E dali o levaram, muito aliviados, para uma repartição alheia qualquer. Algum lugar além da imensidão branca de seus últimos momentos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Seis mais sete.

Que infortúnio não existir formatação de parágrafos aqui. Tentei improvisar, mas não funcionou muito. Enfim, adiante.

E então, a Raiva virou para o Remorso e disse, "Não sei porque cargas d'água você se comporta desta maneira! Mas que inferno!" E ele, suspirando disse, "A pergunta sempre foi esta, meu caro. E lamento muito isto. A pergunta sempre foi - porque, por que, por quê--" - "Porquera! Pra merda com isto tudo! Você só sabe fazer merda e ficar aí chorando!"

Remorso olhou para o chão, seu eterno companheiro de todas as horas semelhantes a esta e disse, "Eu sou assim, e você sabe disso. Quem me manda fazer as coisas não sou eu, e lamento muito isto. Mas é assim. " A Raiva ficou encolerizada e foi-se embora dali de perto. Mesmo assim, sabia que não poderia andar muito longe de seu companheiro, uma vez que eles sempre andavam juntos. E o Remorso normalmente só entrava em ação depois que a Raiva atuava.

Neste ponto, a Memória resolveu atuar, enviando todos para outro tempo, ainda que este nunca tenha existido de fato a não ser naquele domo fechado por estruturas ósseas de um cara qualquer para todos os outros, mas não para aquele espaço em especial. Ali, as coisas funcionavam daquela maneira.

No rearranjo temporal subliminar que se sucedeu, a Memória pôs-se a realizar uma espécie de triagem mental daquela mentalidade existente naquele momento, dentro do domo. Ela queria por que queria encontrar a Alegria, esta há tanto desaparecida. Por vezes, a Memória julgava que esta sumida de fato nem existia de fato, tão raras eram as vezes que se encontravam por ali.
Muito tempo temporal interno se passou, e a Memória acabou se perdendo no meio da estapafúrdia que se sucedeu ao revirar tantas pedras, mexer tantos móveis, sacudir tanto a poeira daquele sótão mental que ali existia. Foram tantas as Lembranças que surgiram desta confusão. Muitas delas já se julgavam há muito esquecidas. Algumas estavam ou pareciam estar simplesmente escondidas, perdidas no labirinto de emoções e outras lembranças.

Ao se circular por este baú de memórias, é recomendado atenção, e o Pensamento era famoso por não haver nunca se preocupado muito com este tipo de atenção, ao menos não naquelas circunstâncias, não enquanto o Dono daquilo tudo estava provavelmente sentado em algum lugar esquecido pelos Outros. Provavelmente estaria com as mãos sustentando a cabeça , naquela posição típica de quem se desespera ou aparenta estar desesperado.

Ou simplesmente quer aparentar estar desesperado.

Ah, o Remorso, este voltou a falar; embriagado por tantas e tantas Lembranças, ele subiu ao pódio central e fez-se ouvir, ainda que grande parte das estruturas narrativas ali presentes no momento tenham escolhidas ficar surdas naquele exato instante.

Mas ele falou e falou, e ao seu lado, veio vindo de mansinho a Raiva. Ela quase nunca conseguia ficar surda aos lamentos de seu eterno companheiro, e ainda que esta Raiva fosse residente de um corpo quase desprovido de Iniciativa, ela bem sabia fazer as coisa ali dentro dançarem conforme sua música.

Música. Aqueles dois atuavam como uma dupla musical, não sertaneja, evidentemente, na maior parte do tempo. Um, fazia as baladas de lamentação, as choradeiras de costume, enquanto ao seu lado, calada, a Raiva ia tomando forma e crescendo. Ironicamente, naquela Realidade daquele Domo, quem abria aquele tipo de "show" era o Remorso, que às vezes se travestia de Recordação, para depois se tornar apenas uma Ladainha.

Normalmente, naquela hora, a Raiva já estava espumante e tomava de assalto o palco: ela chegava derrubando para fora o Remorso, que muito se lamentava ao colidir com o chão, e lá ficava chorando. A Raiva, quando tomava conta do espetáculo, era algo para ser visto. Normalmente seu clamor de cem bilhões de raivosos clarins desafinados e desencontrados, ensurdeciam todas as outras Emoções ali presentes, fazendo com que todas elas não pudessem ignorar seu apelo raivoso.

Em algumas vezes, ela se tornava Fúria, e então o caos se espalhava ainda mais rapidamente. Com sua guitarra de oito cordas e seu pedal fuzz ligado no máximo, estraçalhava toda a Lógica, acabava com a Razão e aumentava o volume do desafinado Amplificador que se situava abaixo do pódio central do Domo. Não eram raras as vezes que o Domo ficava desprovido de sons assim que a Fúria terminava seu espetáculo de horrores.

Felizmente, naquela manhã, a Raiva não se tornou algo piro, e apenas fez uma breve apresentação, ainda assim ensurdecendo a Razão e obrigando o Pensamento a se comportar de maneira errada, fazendo conexões erradas por toda a extensão do Domo.

Momentos mais tarde, entretanto, o Pensamento se fez mais alto e anunciou o resultado trágico de todo aquele acontecimento matinal: durante todo o dia, até que fosse acionado o Protocolo de Desculpas ou caso fossem eles brindados com a Indiferença alheia, eles seriam perturbados pela Preocupação, esta auxiliada pelo remorso e ainda assistida, eventualmente, pela Raiva.

O restante das Emoções quase não se espantaram. Era de se esperar, quando a Raiva e o Remorso faziam seu show, normalmente o resultado eram algumas horas, no mínimo, de encheção de saco. Taquicardias, trânsito de merda nos setores baixos, ficava tudo bagunçado.

Mesmo assim, sabiam que não havia saída para eles, uma vez que para eles, estar no Domo era como estar atado para sempre naquela Realidade, irremediavelmente. E bem sabiam todas elas que, aquilo não se escolhia, assim como pessoas não escolhem as famílias em que se nasce. E sabiam que, enquanto o Dono do Domo não fizesse de outra forma, tudo ficaria na mesma.

Mas elas bem sabiam que isto era apenas um sonho, uma vã esperança num Domo como aquele, que era constantemente regido de forma tão dissonante como aquela manifestada na manhã daquele dia.

O que poderiam elas fazer? Apenas esperar, e fazer suas funções, dançar conforme a música.

Até quando? Nem mesmo o errante Pensamento saberia precisar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A guerra do fanque.

Que diabos.

Ficou ali alguns instantes atônito, sem entender direito o que estava acontecendo. Sabia que tinha sido desperto, não por causas naturais. O que afinal de contas estava se passando? Ouvia, por perto de sua casa, perto de suas imediações físicas, um rumor estranho. Algo como uma miríade de bate-estacas ao redor, como se houvesse algo de terrível acontecendo.

O velho se levantou hesitantemente, e se dirigiu ao banheiro. A barafunda lá fora continuava, algo inimaginável para ele aceitar ou compreender a tal hora, na suposta calada da madrugada. Sua cabeça andava cada vez mais confusa e tinha consciência disso, embora às vezes não tivesse plena certeza disso, ou de mais nada. Diziam coisas com nomes estranhos todas as vezes que ia ter ao escritório daquele senhor que trajava branco e só se dirigia ao seus acompanhantes, e não diretamente a ele, o general.

Sim, general! Havia combatido com valor na guerra dos Tartufos contra os Sacripantas, e havia adquirido certos direitos que eram de berço. Berço de guerra? Melancias? Sua cabeça às vezes confundia tudo, e precisava de uma boa chacoalhada para assentar a poeira. Precisava também de limpar os tapetes da sala. Olhou para o espelho, e amaldiçoou seu bisneto. Sabia que o pequeno pulha pregava esta peça por vezes, afixando uma foto de um senhor que não o era no espelho, a fim de mangar com a pessoas do General.

General, sim! Lembrava-se das manobras de guerra e sobretudo, das piadas de caserna que deveria endereçar sempre aos seus superiores, em detrimento aos soldados e para triunfo de sua unidade. Contra os Tartufos! Contra os Sacripantas. Precisava também de dar de comer ao ornitorrincos rupestres que no fundo do quintal se acumulavam.

De repente, o som enérgico e urgente de uma sirene se fez absoluto no ar. Imediatamente ele se posicionou rente ao chão, buscando abrigo. Rolou para debaixo da cama e ficou a escutar. A sirene soou novamente, desta vez acompanhada de um outro som característico, algo muito familiar, como um som que ele já ouvira antes, tantas e tantas vezes. "Plim-plim"? Onde será que já havia escutado aquilo?

A sirene se repetiu, e desta vez foi acompanhada de um rumor claro de uma explosão massiva. Ele se alarmou. Deveria ser o retorno do Brigadeiro Quindim de Souza, com sua hora de Sacripantas. Provavelmente estaria tentando fazer um cerco à sua casa e pegá-lo desprevenido. Ah, mas isto não aconteceria! Ele nunca estava desprevenido. Mesmo que aquelas pessoas, gerentes ouy sub-gerentes um tanto vesgos que tentavam lhes ocultar sua identidade e que falavam difícil, mesmo eles não saberiam o que ele tinha em reserva.

Lá fora a guerra continuava. Seu coração fez-se apertado, subitamente, pois saberia que daquela ele não voltaria. Sabia que estava chegando sua hora e sua vez, e que desta vez ele faria valer seu nome. Seria a hora e a vez de Augusto Matra--

...não, espere. Aquilo não poderia estar certo. Era seu nome Augusto? Não era mesmo aquele outro nome que o agente de branco sempre se referia em sua presença? Al o quê mesmo? Alzarráimer? Como era mesmo?

Outra explosão se fez audível lá fora. E logo em seguida ouviu uma voz esganiçada a se lamentar num megafone ou coisa assim: "Tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha" Ele se horrorizou, enrijecendo as costas. Malditos Tartufos! Deveriam estar torturando aquela pobre criatura, a julgar pelo tom desesperado e desafinado de seus lamentos. E a sirene ecoava com todas as forças.

O velho se dirigiu para sua cama, arrastando-a de supetão. Poderia estar fraco, poderia estar velho, mas não se entregaria de tal forma passiva, nem permitiria que torturassem alguém daquela maneira hedionda com que estavam a fazê-lo ali perto. Atrás de sua cama estava o repolho, ou melhor dizendo, o esconderijo do repolho, ou ainda, o esconderijo do cofre do escondido repolho. Quanto tempo ele não comia salada de repolho!

"Plim-plim", lá de fora veio o tal som, enveredado na miríade de estranhos sons que ainda ecoavam do conflito de proporções dantescas que deveria estar acontecendo do lado de fora de sua casa. Com um movimento resoluto, ele abriu o esconderijo e de lá tirou sua carga mais preciosa, alembrança que havia armazenado com tanto cuidado por tantos anos. Acariciou o fardo, e se dirigiu ao banheiro, com o intuito de se vestir apropriadamente.

Depois de muito pensar a respeito da talassofobia e suas repercussões mundiais, o General se decidiu por ostentar o traje de gala que ali estava dependurado. Um tanto felpudo, aquela versão mais recente de tal traje, mas quem era ele para argunmentar com a junta de hum mil e quinhentos e nove e doze dúzias de Marechais Deodoros da Fo...fo....

Outra explosão rugiu lá fora, interrompendo a linha de seu pensamento. Ele se apoderou do fardo que há pouco havia retirado de seu esconderijo e para fora de sua casa se dirigiu, parando em frente à geladeira para prestar-lhe a devida continência e confiar-lhe suas últimas palavras.

Momentos mais tarde, os baderneiros de plantão que muito se divertiam em um estacionamento nauseabundo apelidado de "Mirante" continuavam a brincar com a paciência das pessoas que ali perto residiam, aumentando e diminuindo a intensidade do barulho que emitiam de seus "sons equipados com carros" que ali estavam. Traficantes, vagabundos profissionais e vagabundas do pior gênero, eram as pessoas que ali se aglomeravam em horas improváveis como aquela, na virada de um domingo para segunda, às quatro e meia da manhã.

Muito se riam ao imaginar o quanto deveriam estar incomodando os riquinhos de merda que ali perto residiam. E se divertiam mais ainda quando algum deles chamava a polícia - eles já haviam arranjado um esquema muito profissional para alertá-los de tal inconveniência de sua inconveniência. Um fogueteiro se postava em uma posição estratégica e os alertaria de qualquer eventualidade.

Entretanto, naquela madrugada, aconteceu o inesperado, o inusitado, o improvável: depois de muita farra, do meio do mato ouviu-se um certo rebuliço, e alguns dos elementos mais ditos "sujêras" chegaram a apontar suas armas de baixo calibre mas farta munição na direção do rumor.

Imagine o tanto que se riram ao ver sair do mato um senhor magro e alto, trajando um roupão rosa e um quepe de oficial do Exército. Quase se mijando de tanto rir, alguns dos elementos simplesmente sacudiram a cabeça e tornaram à baderna premeditada. Um deles entretanto, aparentando características de um líder nato, por assim dizer, exigiu que o intruso, aquele "velho coroca dos infernos" batesse dali em retirada.

Ao que o velho se contraiu todo, fazendo pose de importante, estufando o peito e afirmando para si e para os outros ao seu redor, "Monstros! Não permitirei que tais Tartufos levem a melhor perante cidadãos de bem! Não mais permitirei que torturem ninguém! Basta!"

O chefe dos tratantes arregalou os olhos quando o velho abriu de supetão o roupão rosa, exibindo um cinturão de granadas em seu peito magro. Com um movimento rápido, tirou uma delas, arranco também o pino em seguida, e com um sorriso maroto nos lábios, simplesmente abriu seus dedos, deixando a carga explosiva cair no chão, enquanto pensava orgulhosamente que haveria de comer muito repolho depois daquela noite.

Não chegou a sentir o calor do único tiro contra ele desferido, pois antes mesmo que a bala nele chegasse, a onda de calor e o som da granada detonando já havia tomado conta de todos seus confusos sentidos, arrebantando em série todas as outras pequenas cargas explosivas em seu peito armazenadas.

No dia seguinte, em todos os jornais daquela metrópole, o massacre da madrugada era comentado, de diversas formas. Ninguém sabia direito o que havia acontecido - se um velho gagá havia se fartado da balbúrida promovida por uma corja de desocupados hediondos, ou se um velho nazista havia se revoltado contra a manifestação festiva e inocente de um grupo de marginais da sociedade e feito o inimaginável.

Muito se fala até a data de hoje, e muito se diz. Mas nada se faz. Entretanto, nas imediações de tal cratera, os baderneiros nunca mais se aventuraram. E não mais a sirene decorrente da festa puramente incomodativa acordou pessoas, normais ou não, que por ali estivessem tentando dormir. Não mais aquelas pessoas que trabalhavam foram despertas pela turba de alegres desocupados, que às cinco iriam dormir até as treze, satisfeitos de terem estragado direitinho a segunda feira de seus "inimigos", antes mesmo que ela viesse a ter forma concreta.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Surpresa!

Já nem sei dizer como aconteceu. Não saberia dizer, de maneira alguma. E tudo aconteceu tão rápido, de maneira tão brusca, que quase nem vi acontecendo direito.

Algumas pessoas gritaram por socorro, outras ficaram paralisadas diante a cena. Mas, momentos antes, ninguém havia se importado. Não até a coisa em si acontecer de fato.

Meu coração estava disparado, a sei lá quantos mil batimentos por minutos, eu arfava feito um cachorro asmático...e raivoso. Creio que estava também babando, mas nem tive tempo de checar. Tempo...ou frieza. Não sei ao certo.

A baderna continuava ao redor, uns a clamar pelo meu sangue, outros estavam mesmo rindo histericamente e clamando por mais ação, mais! violência e mais! Muito mais!

Vários corriam na direção oposta à cena. E eu, enquanto a adrenalina baixava, me mantinha estranhamente calmo. Zen. Calmo como uma vaca hindu. Tudo ao redor estava em silêncio, ainda que algumas mulheres ao redor estavam se descabelando, se debulhando em pranto histérico. Mais adiante, alguns outros malacos olhavam a cena estarrecidos e discutiam entre si. Outros, com aparência de valentões pareciam gritar em minha direção, mas sem se aproximar.

Eu não ouvia nada. A última coisa que ecoava em meus ouvidos era o derradeiro grito dele. Aquilo ele não deveria estar esperando...não de mim. Não do imbecil com cara de idiota que ele havia escolhido. Aquele que ele iria rir muito de sua cara, assim que estivesse longe dali comentando o caso com seus companheiros de "profissão."

Aquele que ele se aproximou furtivamente, tentando não fazer ruído ou despertar suspeitas. Em cuja mochila ele havia enfiado a mão enquanto este esperava o sinal abrir.

Havia sido um dia de merda, por todos os lados. Um daqueles dias em que parece que tudo está contra você, e que mesmo o sol só brilha para pôr em evidência sua vida de merda. Um mau dia, por assim dizer.

Simples assim.

Anos e anos. Toda aquela vida que poderia ter sido e que não foi. Todo aquele besteirol que todos os dias todos ouviam-no dizer e reclamar. Toda aquela covardia, aquele medo, aquela joça toda reunida. Em um só cara. Em uma só pessoa.

Aquele, que sempre se curvou diante das merdas, diante das agruras causadas pela sua visão um tanto diferenciada de tudo e todos. Aquele, que sempre teve medo. Que nunca, nunca, havia reagido a nada, ou quase nada, que lhe haviam infligido.

Até aquele momento.

Em plena rua. Em pleno centro daquela infecta cidade. Naquela hora morta da tarde, em que ele tentava retornar ao seu ocaso, ao seu eterno marasmo, após ter aguentado dez horas da mais tenra inutilidade. Estava ele distraído, tentando se desconectar do mundo, de todo aquele caos ao seu redor.

Nunca iria reagir. Não aquele pedaço de gente, aquele ser completamente inofensivo ao mundo, aquele ser idiotizado por sua própria imbecilidade. Não.

A mão do meliante arrancou-lhe a música de supetão, deixando-o apenas com o cancelamento sonoro promovido pelos fones, ainda a funcionar inutilmente. Ele viu, incrédulo, o sujeito se esgueirando rapidamente pelas demais pessoas, que fingiam nem estar ali. Indiferença pela indifernça. Nós te ignoramos, assim como você nos ignora.

Naquela hora, sentiu algo se romper por dentro. Algo que desarranjou tudo. Que mudou algo. Empurrou de súbito alguns dos frangos ao redor, sentindo algo muito mais que pura raiva. Adrenalina? Ódio perfeito?

Não saberia dizer.

Em instantes, alcançou o cara, sem nem mesmo saber como. Sem ter visto como aconteceu. Sentiu seus joelhos se escalavrando no chão, mas não sentiu dor. Viu a cara desorientada dele, e em seguida sentiu algo em suas mãos....em seus punhos fechados. Sentia, novamente, a pele se resfolegar, se desprender devido ao atrito com a face dele. Ele não havia feito a barba, não precisava fazer a barba.

Nunca mais precisaria.

Sentia o caldo quente a emanar das pequenas veias arrebentadas, sentia o impacto seco dos punhos com os ossos da face dele. E queria mais, algo dentro exigia mais. Exigia o ruído de coisas partindo-se, esfarelando-se no asfalto. Um dente a menos. Outro dente a menos. Todos os dentes a menos. Um maxilar a menos.

Um filho da puta a menos.

Quendo se deu por si, não havia muito mais material para um dentista forense identificar o presunto. Riu malevolamente de tal pensamento, e começou a sentir algo como dor pulsante em suas mãos...que estavam em carne viva nas junturas.

Arfava como um cão raivoso e asmático, e seu coração era um tambor tribal, descompassado mas frenético. Sentia-se muito bem. Foi aí que começou a perceber, abafados pela função agora inútil dos fones, os gritos ao seu redor. Toda aquela estupefação.

Todos a contemplar, ninguém a ajudar. Todos a condenar, todos a horrorizar. Sorriu para todos, mesmo para aqueles que pareciam ser mais valentes....mas que perto dele não chegavam.

Sentia-se muito bem. Apanhou seu aparelho previamente furtado por aquele que ali não mais se encontrava, e replugou-o nos fones. Ah, música. Jesus & Mary Chain, quem diria:

"I was a car smash
She was a car smash
We did the car crash

I said the police
I kiss the police
I killed the police man

My mother kill my darkend soul
My mother kill my darkend soul
My mother lit my darkend soul

I got the stone look
I done the stone truck
I got the stoned look in my eye

Disease yeah
A disease yeah
A disease yeah

My lover touch my darkened soul
My lover touch my darkened soul
My lover lit my darkened soul

And now I know just where to go

I was a whore hound
I was a snake hound
I was a coke hound

I was the bad scene
I was the bad gene
I was the bad dream

My lover touch my darkened soul
My lover touch my darkened soul
My lover lit my darkened soul

And now I know just where to go"

Degenerate. De fato.

Pôs-se a andar, calmamente, enquanto a turba abria caminho. Parecia ouvir as ordens gritadas de alguns soldados rasos da PM, mas nem se virou. Estava tudo certo. Estava tudo calmo, agora.