quarta-feira, 3 de março de 2010

XXXXX. Ç.

Chove, chuva. A Pessoa se encontra em algum lugar, mas não sabe onde está ou o que está acontecendo. A Pessoa não deveria ter comido toda aquela pizza no jantar. Mas todos aqueles peperonis! Todos eles sorriam, lindos lindos, engordurados naquele sebo todo do queijo e da massa, acrescentar azeite! é uma boa idéia? Talvez, se fosse um prato um tanto quanto mais leve, uma sopinha de isopor ou angu com Toddy.

Pesadelos, pesadelos abundaram, habitaram seu sono, fizeram com que a noite se tornasse ainda mais negra naquela manhã, ou naquela tarde, quiçá vezpertina de Matutina. Espírito Santo ou Bahia? Não saberia a Pessoa dizer, uma vez que faz-se manhã e é chuvosa, moles massas, tudo macio e escorregoso. Assistir a todas estas gotas caindo lhe é um suplício, uma barafunda, no meio da turba, caem as gordas, escorrem ralo abaixo! Se tornaram 99% gordura, tanto na vida real quanto na carochinha que lhes é confiada à nascença. Onipresença! Onisciência, onipotência. Existe alguém que muito se ri de tudo isto, de nós e nossa inutilidade.

Grandes são os desertos, minha alma, e tudo é deserto. Deserto? No meio de todo este mofo recorrente, deste mofo iminente, de todo este bolor? Não acredito, pois eis que toda esta chuva é contraditória a esta poesia! Ainda que seja em a alma exterior de alguém que não conheço, não conhecerei, nunca conheci, não é razão para se estar me contradizendo. Me contradizendo! Como ousa! Como lousa! Um quadro negro! Aulas de matemática. Eis que não sei mais dividir, somente por um, não por dois, nem por três. As casas são decimais mas não inteiras, nem tampouco racionais. Quem se lembra? Quem se lembra daquelas remotas tardes de 1987, 1986, 1985? Tardes de deveres de casa, matemáticas eram noves fora, quadradinho dentro. Quem se lembra do QVL? Alguém? Alguém?

Fez-se feito os videogames, agora com menos realidade me 8 bits de definição em RGB na sua televisão de sua casa, em que seus pais restringiam o acesso, ou o excesso. Todas aquelas noites! Em claro mas no escuro! Na calada da noite, habitavam as mais diversas obscenidades em termos surreais, ali habitavam todos aqueles seres surdinos, mofinos mas que criaram força conforme o tempo passou, conforme a vida quis e foi. Para onde, para onde? Mais adiante, as gorduras totais eram saturadas e foram devidamente digeridas na noite de ontem, que não foi hoje mas será amanhã de manhã, vou pedir um cafééééééééeééééééeéééééé só pra mim, só pra mim e pra mim e pra mim e meu e mim mesmo e talvez o Syd. O Barret, claro.

Sempre chuva, sempre presente, quando deveria estar embaixo da terra, em límpidos canos e tubulações de PVC, quer seja disto, quer seja daquilo. Nada aquece mais que o aquecimento global, este desconhecido, este irreconhecível desconhecido, desfigurado, desmilinguido. Não a formiga! Não a crendice! Em quem, acreditar, quando Mitra aqui está para ficar, para aqui reinar, desde 25 de dezembro de outras passadas eras, outras passadas religiões que dela se apoderaram em evidente e astuta manobra para converter mas sem ser completamente, em termos romanos, em termos monoteísticos, a religião que só toca em uma caixa e nem tem surround. Coisa de pobre, evidentemente, evidentemente.

E mais adiante tombam as tumbas, novas ou velhas, trajando organdi verde ou apenas plumas e paetês compradas nos 104 tecidos, que tanto habitavam aquelas remotas tardes dos anos oi-oi-oi-oi-oi-oi! Cretin family, cretin family Everyone's against me! Cretino foi ter sido eu, apenas eu e eu e mim mesmo, aqui a escrevinhar tudo isto que nada diz mas tanto significa, àlguns, àqueles, àos oestes e Örestes, Quërcïa ou não, com acentos diversos, mais legais, mais sentidamente com sentido do que retirar da idéia o cerne da idéia que seria o äcentö.

E põrquê não ïnventär aqüi minha pròpriá linguagëm? Azim, zòmentë ëü entenderia o que se pässa!

Mas assim jhá o éh. Deztä fôrmá, ficärà defícïl entendher o qhue se paça pör aquhï, nhão éam mesmô?

Kontüdo, ö thempö paça e aqui tëm-se que thrabälhar, e haprendhër RRRedez e Rouindoüs Sërver 2003.

Ässïm, ässhado. Até amänhâ.

terça-feira, 2 de março de 2010

Mais um dia.

Manhã, novamente, manhã. O Noiado é despertado e olha preguiçosamente para a fonte daquele inoportuno som, aquele que conforme ele mesmo diz, "arrebatador de sonhos." Mais alguns minutos, nesta manhã cansada. Mais alguns minutos, mas não sem antes re-ajustar mais um horário para evitar imprevistos. Mais quinze minutos, quinze minutinhos. Bem sabe ele que não irá voltar ao país das asas inexistentes, das compras insanas e belas e solícitas odaliscas a granel. Não. Mas mesmo assim, é uma manhã mais cansada que outras, eis que o dia anterior foi muito andante, muito mesmo, com direito a uma ida e volta inútil de seu emprego às imediações da Central de Ladroagem do Trânsito, ou DETRAN. Ida e volta, duas vezes.

Andar faz bem à memória deste que lá em sua senzala esqueceu o fundamental para seu exame da malhção de velhos, ou simplesmente fisioterapia, mais uma vez a tal, mais uma vez a dita.

Enfim, pondo-se finalmente de pé, o Noiado olha através da janela para o plúmbeo horizonte, sinal certo de um dia chuvoso, dia em que as alergias infames se manifestam em sua maior força. Adiante; não é nada útil ficar ali a olhar para aquela paisagem acinzentada. O tempo passa e a manhã urge. Ou ruge, em anagrama mais adequado ao sentimento desta plena terça-feira nada gorda, nada magra. Adiante, adiante.

Bom dia, faz-se necessário um abraço naquela que o gerou, naquela que por tantos e tantos anos tolera este peso inútil de tanta potencialidade e tanta imbecilidade, constituição esta que quase anula a existência daquele ser. Faz bem à alma, ele presume. E de certa forma é bem verdade. Um abraço por vezes pode salvar vidas, conforme algumas vezes por ele já visto. Se não, ao menos pode acrescentar uma nota mais soante a esta sinfonia dissonante que é viver. E assim o foi, ao menos em seu interior, em sua mente. Seja lá onde for.

Sair e enfrentar o estranhamento da primeira manhã fria deste ano que parece que começou ontem mas que de fato tem como nascimento três meses atrás. Como o tempo passa, como os clichês imperam, como eles imperarão por toda uma vida, toda uma existência. Faz-se necessária nesta caminhada a té o transporte, a ferramenta fundamental para a sobrevivência do Noiado, aquela que para ele tanto sentido faz e para outrem não passa de esquisitices sonoras.

Música. Começemos com Dramarama e sua ode à vida inútil e este mundo bizarro que nos circula, palavras exageradas mas que que soam tão verdadeiras para este Noiado em questão. O vento é frio na praça, e mais além os friorentos mendigos que ali residem já há muito despertaram e já estão a postos em suas colheitas matinais por entre os detritos por outros ali deixados. Passa o tempo e não passam ônibus, e ele se põe a questionar se a famigerada greve ainda existe. Felizmente, após longos minutos de espera no vento frio, lá vem a caixa gigante de quatro rodas. Um brinde ao duo The Black Keys, por lhe fornecer música deveras animada para um pouco sacudir os frígidos ossos do Noiado. "Just Couldn't Tie me Down", de fato.

Mais adiante, ele observa com grave pesar as infelizes mães que retiram daquele ônibus seus filhos com problemas físicos sérios e que são tratados naquela clínica de reabilitação existente ali perto. É de se cortar o coração se você prestar atenção em demasia, e faz com que o Noiado tenha nefastos pensamentos sobre a criação, o Criador, e seu às vezes quase evidente sarcasmo perante à vida. Melhor não focar neste aspecto, não nesta manhã cansada.

Passam os carros, passam o tempo, passam as horas e a temperatura no display que ali existe para todos inquirirem a silente pergunta sobre os minutos, os segundos e as horas. Tempo. Mais adiante. Distraidamente, o Noiado olha para fora de sua janela, vê tudo mas nada vê, pois nada lhe parece real ou relevante.

E eis que naquele momento, uma de suas sinfonias roqueiras preferidas lhe atinge os ouvidos em cheio. Naquela manhã em especial, todo o sentido fazem aquelas palavras musicadas. Faz-se necessário escutar a dobradinha, eis que são de fato duas músicas de um mesmo disco que se emendam. Abençoados sejam os egocêntricos e complicados irmãos Robinson e sua banda de negros corvos.

"Hate and greed, swollen and sweet
Let's start this misery, if that's where you wanna be."

A Ballad In Urgency, de fato. Naquela manhã parece ser uma coisa urgente, escutar algo do naipe daquelas duas músicas, que tão reais, tão viscerais, parecem ser aos ouvidos do Noiado. Mas o grande momento, o momento que ele sabe que naquela específica manhã irá lhe causar aquela sensação única de arrepios que se irradiam da base da nuca por toda sua espinha, vem com o término da primeira música e o início da segunda. A emenda de piano, baixo e guitarra.

Que lhe acerta com todas as forças e quase o faz desmaiar. Feche os olhos, caro Noiado. Pois neste exato instante, tudo mais perde sua realidade nauseabunda. Tudo deixou de existir naquele momento. Apesar do ônibus estar estranhamente lotado para a hora, todos os passageiros, o trocador, o motorista e mesmo o ônibus deixaram de existir.

Naquele momento, naquele raro momento, tudo que existe é o Noiado e sua música predileta para aquele instante. Música esta, que lhe acompanha naqueles metros restantes até a saída do trepidante meio de transporte.

Música esta que lhe traz um pouco de vida para aquela confusa cabeça. Música esta que lhe tem especial significância, eis que naquele momento, de uma forma estranha e para todos desconhecida, aquela sonoridade lhe salvou a vida.

Afinal, aquelas pequenas coisinhas, aquelas notas para tantos tão triviais ou mesmo irritantes, são as cosas que salvam a vida deste Noiado. São estas coisas que têm real valor para este ser tão pobre de monetários mas tão rico de complexidades e platitudes.

E adiante ele segue, pois o dia há muito já avança e da vida real ele só pode fugir ou utilizando artificiais artifícios ou escapando para aquele reduto agora distante, mas que tem tanto valor para o Noiado no Sótão.

Este ser que tanto escreve e tanto pensa, mas nada resolve. Este paradoxo ambulante, tão pleno de chatices e ferrenhas críticas a si mesmo, mas que aparentemente é bom companheiro, segundo a opinião alheia de alguns, que tanto lutam para fazer com que ele entenda isto, aparentemente.

Adiante. Há muito a ser feito ainda. Que as pequenas coisas lhes forneçam ânimo para aqui no meio de nós ele continuar, apesar dos pesares e de sua cabeça repleta destas coisas.

Adiante.

"No time left now for shame
Horizon behind me, no more pain
Windswept stars blink and smile
Another song, another mile
You read the line every time
Ask me about crime in my mind
Ask me why another read song
Funny but I bet you never left home

And on a good day, I know it's not every day
We can part the sea
And on a bad day, I know it's not every day
Glory beyond our reach."

---------The Black Crowes, Wiser Time.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Raporte Rapôncio. Reporte, reporte!

Final de semana. Ainda que seja mais ou menos, é ainda melhor que o restante dos dias. Basta se ter esta informação em mente em qualquer sexta feira para melhor emoldurar os dias vindouros, o sábado e o domingo. E com este foco, com esta mentalidade, é mais fácil se divertir nestes dias tão essenciais para a existência.

Bem sei que o final de semana esteve repleto de tensões internacionais, mais terremotos sul-americanos, mais tragédias, mais dias e dias de reportes sobre o número de mortos, o desespero familiar, a filhadaputagem alheia e tudo mais que aconteceu e que somente agora pela manhã eu fiquei sabendo, ainda que parcialmente: não me demorei muito a examinar os fatos ou as interpretações dos fatos sobre ditos acontecimentos. Bem sei que é só o começo de uma infinidade de reportes semelhantes. Este ano está bom para os salafrários, com tanta coisa ruim acontecendo lá fora, sempre existe a manchete trágica para distrair a galinhada de fatos mais escandalosos e mais próximos, como sempre acontecem em nossa capital da desonestidade, vulga Brasília. Vulga, de fato. Bem vulgívaga esta cidade e seus habitantes, enquanto funciuonários públicos, eu digo. Enfim.

Na medida do possível, esteve bão o final de semana. Sexta, fomos para aquele reduto noturno estranho denominado Savassi, onde algumas das mais bizarras tribos desta cidade se reúnem. E vimos que por mais que o tempo passe, as ditas "novidades" das gerações mais recentes se manifestam de maneira bem estranha àquele local, com direito até a uma certa invasão do batidão do fanque em plena noite de emos e emas que por lá circulavam. Se nos postarmos suficientemente longe desse povo, teremos nosso sossego para a conversa diversa e tranquila de uma noite que foi regada a rum, ainda que em pequena quantidade, mas que mesmo assim tonteou levemente este ser que tanto escreve. Nada de mais, felizmente: nenhum vexame dali saiu. Não passei mal nem fiz papel de idiota para a alegria de quem está na platéia. Não desta vez, me desculpem.

Boa conversa jogada fora de buteco, sempre salutar, sempre almejada, ainda que nem sempre chegamos a conclusões algumas ou pelo menos a alguma conclusão que preste para algo. Mas sempre é assim, presumo eu. E ainda que não seja atingido o objetivo sumo de perceber aquela coisa, fazer aquela mudança, achar aquela pessoa ou seja lá qual for a ambição reinante no momento - conversas de buteco são sempre salutares, de uma forma ou de outra.

Lembrei-me de outra saída ocorrida em outra passada sexta feira, data em que houve outra reunião butecal, esta em local mais centralmente localizado e com uma galera completamente diferente da envolvida nesta última patuscada do dia 26. Foi um encontro um tanto quanto mais tenso, pois os envolvidos no processo esiveram a discutir, mesmo acaloradamente, acerca de certas condições reinantes na vida deste escritor de araque que aqui está. Os ânimos chegaram mesmo a se exaltarem, porém não chegamos às vias de fato: felizmente tudo ficou entre amigos, pois me parece que estes também não estão isentos de discussões mais sérias e divergências mais agudas.

A grande conclusão da noite foi-me nada lisonjeira, mas foram daquelas coisas que a gente precisa ouvir, e mesmo coisas que precisamos "se ouvir" dizendo para os outros para verificarmos o quão loucos estamos nos tornando. Explico melhor. Certas idéias se formaram em minha cabeça durante este longo período de "pobremas" que estou passando, e por mais incongruente que possa parecer, tais idéias faziam pleno sentido dentro do campo mental em que foram concebidas ou desenvolvidas, melhor dizendo.

Mas, quando tais idéias são ditas a outras pessoas, em voz alta, quando as palavras sairam de minha boca e soaram no ar, elas chegaram a meus ouvidos como uma sequência de absurdos. É a hora em que parei para pensar e verificar que estou de fato ficando cada vez mais e mais doido. Me parece que a solidão em excesso realmente faz com que a nossa percepção da realidade seja altamente deteriorada.

Lado outro, se foi bom ter ouvido tais coisas, para se chegar a esta conclusão, isto em nada adiantou muito no processo de solucionamento de tais "pobremas". Você tem a informação mas não sabe o que fazer com ela.

Aparentemente, um passo certo a se dar é tentar não se tornar o campeão mundial de eremitagem. E se as sextas feiras forem dotadas de eventos assim, quem sabe. Pode ser que dê certo, pode ser que algo aconteça que vá a tirar do marasmo este ser.

Enfim, veremos. No momento, o tempo ruge e pede-se café. Avante, pois eis que hoje recomeça a labuta com o intuito de afastar mais um aspecto de minha velhice declarada.

Até lá, café. Café e mais café.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Idéia, nenhuma.

Idéia, nenhuma.

Estive uns quinze minutos digitando um certo poema aqui. Quando estou meio sem saber o que escrever, por vezes coisas versadas salvam, mas hoje, nem isso se salvou. A coisa estava ficando completamente ridícula. Selecionar tudo e apagar. Já era. Nem mesmo me lembro do conteúdo dos infames versos que foram atirados ao lixo virtual.

Acontece comigo mais que eu gostaria, infelizmente. Atirar coisas ao lixo.

Como eu disse em prévia narrativa sobre a famigerada faxina que realizei nas férias, por vezes é difícil fazer tal tarefa, especialmente quando se trata de algo que envolve todo um processo criativo, e não simplesmente algo em escrevi um recado, um papel onde fiz uma conta, coisas assim. Mas me espanto com a facilidade que é deletar uma coisa que não estou gostando de escrever. Tenho escrito algumas bobagens à parte quando posso, e me surpreendo com a facilidade infinitamente maior que tenho em lidar com o processo de descarte de coisas que estou escrevendo num editor de texto do que em se tratando de uma coisa que desenhei num papel.

E nem posso falar que é devido ao fato do papel ser uma coisa digamos, concreta, pegável, um objeto físico, etc. Quando faço alguns rabiscos me valendo de meios digitais, eu descarto a coisa facilmente. É só apertar uma tecla. Vai tudo embora.

Claro, existe a salvaguarda do processo digital, uma vez que uma ação em um computador geralmente pode ser desfeita apertando uma combinação de dois botões do teclado. Creio que tudo isto gera uma certa sensação de segurança sobre a obra em si. É o famoso Ctrl+Z, atalho este que deveria existir na vida. "Fiz merda! Ctrl+Z!"

Pena que nem sempre a realidade imita a ficção.

Mas é estranho de fato, esta sensação de "segurança" maior que tenho com meios digitais. Como não escrevo à mão desde os remotos tempos dos ditados no colégio, não saberia dizer se este receio de descartar as coisas se manifestaria na minha parte de criatividade escrita. Sei que ela existe com uma força descomunal na parte desenhada, esta quase desconhecida, esta tanto ocultada, tanto censurada por seu próprio autor.

Até hoje me pergunto o que leva uma pessoa a ser deste jeito, com esta obsessão. Perfeccionismo? Ou mera empáfia? Coluna do meio, eu diria.

Bem sei que estas análises auto-inflingidas podem levar as pessoas ao tédio absoluto e ao "xis" vermelho que geralmente fica no canto esquerdo superior da tela em que se leêm semelhantes escritos, mas sinceramente isto me intriga, por anos e anos. E tenho aqui a vã esperança que alguém possa ler isto e se identificar, ou no mínimo se pôr a pensar sobre a diversidade humana, este grande mistério que nos envolve. Tantas e tantas pessoas, mesmo pasteurizadas pela vida moderna e sua massificação de quase tudo, todas são diferentes umas das outras. Nenhuma pensa da mesma maneira, ninguém age da mesma forma.

É algo que me põe para pensar, mesmo em momentos mais inoportunos, como esta manhã de sexta feira em que deveria estar aqui escrevendo algo com mais valor, com mais essência. Mas como disse anteriormente, esta é somente minha opinião, e mesmo que não seja tão lisonjeira para comigo e minhas pequenas criações diárias, quem sabe? Alguém pode estar gostando.

Ou não.

Ah, o poder destas duas palavras me põe doido. Quer acabar com a seriedade de qualquer argumentação? Fale estas duas palavras assim que seu interlocutor encerrar seu pronunciamento. É uma certeza de debate instantâneo, caso os presentes estejam com dispor de discutir tais coisas ou simplesmente a fim de encher o saco. Acontece muito, ehehehe.

E como esta coisa aqui hoje está bem descabida e meio caótica, acho melhor encerrar a semana blogal aqui mesmo.

Deixo, entretanto, os protestos de elevada estima e consideração a todos que por aqui se aventurem, no meio das letras e dos devaneios deste Buriol. Bão final de sumana a todos e até mais um episódio das Segundas Nauseabundas, em cartaz na próxima segunda!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Tempo de despertar!


Certas manhãs têm mais densidade que outras, aparentemente. Esta me parece ser uma mais pesada que as demais desta semana, e nem sei bem precisar por que tenho tal sensação, para ser honesto. Talvez seja apenas o fato que ainda não me acostumei ao novo horário, e continuo acordando uma hora antes do chamado eletrônico da parafernália ao lado de minha cama. Desde nem sei bem quando, venho usando uma daquelas bobagens que costumam ofertar como brinde por aí para realizar a tarefa de me despertar. Trata-se de uma régua acoplada a uma calculadora cheia de funções bizarras, coisas que nunca mesmo entendi para que servem, como horários do mundo inteiro. Para quê eu iria querer saber isso? Existe alguém que realmente se importa com isso? Profissionais do mercado de valores, será? Ou apenas pessoas obcecadas com a hora de Cingapura estando em São Paulo, ou algo assim? Engraçado que aquilo serve como tudo, menos como régua. Enfim, régua de adoradores de tecnologia, eu suponho.

Para mim serve de despertador improvisado.

Enfim, hoje lá fiquei a hora tradicional antes do horário oficial de me levantar, imaginando, pensando e tentando voltar a dormir. Não me importo tanto pois não tenho me sentido tão cansado, apesar de que a greve dos transportadores públicos ainda existir e ainda estar exigindo de mim caminhadas ainda maiores para cá vir. É a vida. Estaria pior se ainda estivéssemos no antigo horário de Bestão com sua economia de 0,00000000000000000000zero por cento. Então ali fico até a sirene tocar, e assim que ela o faz, me levanto.

Não costumo ter grandes problemas para me pôr de pé, mas bem sei que existem dias que são muito, mas muito mais densos que outros, quando a canseira impera e o sono é insuficiente. Ontem mesmo estive com alguns amigos à hora do almoço, e estávamos comentando sobre esta tarefa inglória de se pôr de pé a tal hora matutina, semi-madrugada para nós humanos. Hoje em dia, muitos de nós utilizam os aparelhos de telefonia ortomoleculares para servir também de despertador, e isto costuma custar caro para alguns, conforme já percebi por aí.

Existe a ameaça do botão "soneca", ou "snooze" como diriam seus primos internacionais e intermunicipais. Com um toque neste botão, você desativa o alarme e ganha mais dez minutos ou menos, dependendo do modelo, de sono ilusório. Eu nunca me utilizei de tais recursos pois bem sei que nas manhãs de maior densidade, eu usaria e abusaria deste recurso, até que já estivesse duas horas atrasado para vir ter a meus grilhões capitalistas. Cem mil chibatadas. Curiosamente, tal função até existe na tal régua tecnófila, mas como a coisa tem um bilhão de botões devido a suas inúmeras e inúteis funções, eu nunca sei onde fica tal botão muito menos tento achá-lo na penumbra matinal de meu quarto, que só possui um interruptor láááááá do outro lado.

Mas já ouvi hilárias histórias do pessoal que se vale do celular, e que faz uso do famigerado botão. Gente que nem percebe que está acordando para silenciar temporariamente o despertador, que groguemente levanta a cabeça, apanha o barulhento negócio, aperta o tal botão e imediatamente volta a dormir. E repete a operação umas sete ou quarenta e três vezes, até que perceba que está três horas atrasado. Duzentas mil chibatadas. Eu nunca conseguiria fazer isso, mesmo por que quando acordo geralmente demoro uns dez ou trinta minutos para voltar aos braços de Orfeu, o que passa do tempo da malfadada porém tão utilizada função.

Amigos me contaram que põem o horário para soar quarenta minutos ou mais antes da hora prevista, apenas para ficar nesse jogo de acorda-dorme-acorda-dorme. Outros, põem o celular longe da cama, pois aí têm que levantar para silenciar a coisa, e acabam acordando no caminho; entretanto já ouvi casos de gente que ainda assim consegue voltar para a cama e continuar a dormir. Um outro amigo meu me disse que atualmente ele deixa seu despertador no alto do armário de seu quarto, e para silenciá-lo, ele precisa ir até a sala apanhar uma cadeira para conseguir alcançar a soante coisa no topo de seu guarda-roupas. Aí é meio impossível de não acordar, embora desconfie que se bobear devem existir pessoas que fazem coisas semelhantes e ainda assim conseguem se atrasar pois conseguem voltar a dormir.

Trezentas mil chibatadas.

Ouvi falar uma vez de um despertador que "foge" do dono na hora de despertá-lo, algo com rodinhas e quejandos eu suponho. Algo que deve fazer a alegria de quem mais por perto estiver do despertante zumbi matinal. Imagine a algazarra: basta colocar uma música de death metal para soar nesta hora. É bom que acorda toda a casa de uma vez, e vai ficar aquele bom-humor reinante pelo resto do dia. Imagine um imbecil resolver usar um aparato destes em um dormitório coletivo. Muita, mas muita porrada. Na cabeça do dono do despertador. Suponho que seja de uma certa forma, o triunfo da função, eis que todos acordaram! Está cumprido o objetivo final.

Eu, continuarei usando a minha humilde régua de tecnofilia acentuada. Bem sei que quase nunca costumo falhar nestas horas, e não tenho nem meios de cair na tentação do famoso botão. E quando acontece de por acaso apertá-lo - são tantos botões que às vezes eu dou a "sorte" de apertar justamente o snooze - o resultado é incômodo, pois geralmente quando a segunda despertada soa, já estou longe da tal régua, geralmente fazendo um artesanato em barro no orelhão de louça, e isto gera muito dissabor.

Ahahahahaha, sou tosco pra carai mesmo. Mas é bão.

Enfim, já que cá estamos e acordados estamos, vamos ao que interessa, ou não interessa, como é o caso daqueles que mais se interessariam em continuar o jogo da soneca em seus quartos pelo resto do dia. Não dá, infelizmente. Não para nós meros mortais assalariados.

Adiante.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vista-se!?

Mas que confusão este evento local de paralisação das Mercedes azuis e quejandos. Sim, estou falando da famigerada greve no nosso transporte púbico. Felizmente, tenho conseguido me virar desde a segunda feira; de uma forma ou de outra ainda consigo chegar onde quero. Tá certo, onde quero porra nenhuma né. Onde PRECISO estar. Gastei uma grana a mais na segunda, mas nem me importo tanto.

O que estou tendo que fazer muito mais que o normal estes dias também é usar de maneira mais intensa meus pés. Não que eu não esteja tão acostumado assim, pois ando no centro muito mais que a maioria das pessoas. Não é à toa que meu carao de créditos busonescos geralmente tem um acúmulo de créditos que me levariam de ônibus até meados das estepes e pradarias da Chechênia, se é que tal vegetação sequer existe neste local.

Eu não me importo muito de andar, especialmente antes de cá chegar, pois lá fora ainda tenho a liberdade de perambular trajando apenas roupas mais adequadas à estas temperaturas relativamente elevadas provenientes da estação corrente. O que significa bermudas e camiseta sem mangas. E ainda assim cheguei aqui besuntado de suor. O calor tá bravo, mesmo com essas nuvens todas no céu hoje cedo...

E ontem, quando voltava pra casa me peguei pensando a respeito de certas coisas relacionadas à certos hábitos estranhos que os humanos galináceos têm e que são geralmente atribuídos à uma dita maturidade, por assim dizer. Ou como dizem. Supostamente, se torturar com roupas completamente inadequadas ao nosso clima é ser maduro, é ter status social, ter cargo importante.

Ou simplesmente ser um imbecil completo.

Pensava eu que até hoje não tenho o costume de andar com "camisas de botão" enfiadas para dentro das calças, e me perguntava se isto era - mais um - sintoma de revolta adolescente sistêmica. Supostamente, você é um adulto caso se sujeite a usar tais trajes. E a coisa piora, pois me parece que quanto maior for o cargo, os encargos, o sálario e tudo mais, mais rídicula deve ser a roupa do cidadão detentor de todo este poder.

Não adianta, acho que nunca mas NUNCA entenderei qual é a vantagem de enfiar a camisa para dentro das calças. Jamais entenderei qual é o príncipio por trás de um terno, aquela redoma de cara costura, completamente inadequada paraum país onde no verão as temperaturas batem recordes. Infelizmente, bem sei que isto é sintomático mesmo de uma pessoa que vai ser um eterno questionador dos hábitos sociais da muderna zoociedade moderna, que nunca cessa de me espantar, e de quebra me fornecer material para todos estes textículos.

E esta questão das roupas sempre me fascinaram, pois considero uma extrema burrice ter que se vestir de forma completamente desrespeitosa para seu próprio corpo apenas para cumprir uma exigência social. Murro em ponta de faca falar disso? Pode ser, mas eu falo. Fiquei imaginando como seria chegar aqui andando o mesmo tanto que nadei hoje, mas trajando um terno completo. De duas uma, ou eu teria morrido no caminho ou teria me revoltado, arrancado o terno a gravavata o paletó e a camisa de longas mangas com botões e jogado num lixo. Teria chegado aqui só de cuecas. E teria cegado uma pá de gente no caminho, pois um bicho de goiaba feito eu reflete a luz matinal do sol que é uma beleza!

Mas de fato, eu queria saber quem foi o energúmeno que começou essa palhaçada de ter que se vestir de tal forma. Porra. Devia ser um direito poder usar bermudas ao menos, não é? Tá certo que iria ficar no mínimo engraçado ver aquele pessoal todo de bermudão por aí, mas acho que a galera iria passar muito menos aperto nesse calor. As gravatas eu nem comento. Nem em países frios eu vejo sentido naquela merda. E usar camisa pra dentro das calças me parece ser algo que só existe para dar emprego para passadeiras.

E é engraçado como um simples terno te faz imediatamente mais respeitável. Todas as vezes que me sujeitei a usar o meu terno que fica 363 dias por ano guardado, recebi elogios de como estava mais imponente, mais bem-afigurado, mais...sejá lá o que for. O que eu estava mesmo é com calor dos infernos.

Felizmente tenho um emprego que não me obriga a usar roupas demasiadamente agressivas. Tento aproveitar enquanto posso, pois bem sei que se aparecer algo que me pague mais mas que tenha por pré-requisito o uso de hediondas vestes, eu engoliria tudo em seco e me sujeitaria a usar a porra do terno. Não sou tão exaltado quando o que se está em jogo é meu poder aquisitivo, outra vil necessidade da zoociedade muderna.

E por falar em obrigações trabalhistas, esta cá não é exactamente uma delas, e já me olham de maneira estranha aqui, um dos seres que usam voluntariamente a camisa para dentro das calças sem que o emprego assim exija.

Quem está mais errado nesta história? Díficil dizer, creio eu.

Enfim, que voltemos ao trabalho e que as roupas nos sejam leves, pois o calor é grande.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Seis mais sete.

Que infortúnio não existir formatação de parágrafos aqui. Tentei improvisar, mas não funcionou muito. Enfim, adiante.

E então, a Raiva virou para o Remorso e disse, "Não sei porque cargas d'água você se comporta desta maneira! Mas que inferno!" E ele, suspirando disse, "A pergunta sempre foi esta, meu caro. E lamento muito isto. A pergunta sempre foi - porque, por que, por quê--" - "Porquera! Pra merda com isto tudo! Você só sabe fazer merda e ficar aí chorando!"

Remorso olhou para o chão, seu eterno companheiro de todas as horas semelhantes a esta e disse, "Eu sou assim, e você sabe disso. Quem me manda fazer as coisas não sou eu, e lamento muito isto. Mas é assim. " A Raiva ficou encolerizada e foi-se embora dali de perto. Mesmo assim, sabia que não poderia andar muito longe de seu companheiro, uma vez que eles sempre andavam juntos. E o Remorso normalmente só entrava em ação depois que a Raiva atuava.

Neste ponto, a Memória resolveu atuar, enviando todos para outro tempo, ainda que este nunca tenha existido de fato a não ser naquele domo fechado por estruturas ósseas de um cara qualquer para todos os outros, mas não para aquele espaço em especial. Ali, as coisas funcionavam daquela maneira.

No rearranjo temporal subliminar que se sucedeu, a Memória pôs-se a realizar uma espécie de triagem mental daquela mentalidade existente naquele momento, dentro do domo. Ela queria por que queria encontrar a Alegria, esta há tanto desaparecida. Por vezes, a Memória julgava que esta sumida de fato nem existia de fato, tão raras eram as vezes que se encontravam por ali.
Muito tempo temporal interno se passou, e a Memória acabou se perdendo no meio da estapafúrdia que se sucedeu ao revirar tantas pedras, mexer tantos móveis, sacudir tanto a poeira daquele sótão mental que ali existia. Foram tantas as Lembranças que surgiram desta confusão. Muitas delas já se julgavam há muito esquecidas. Algumas estavam ou pareciam estar simplesmente escondidas, perdidas no labirinto de emoções e outras lembranças.

Ao se circular por este baú de memórias, é recomendado atenção, e o Pensamento era famoso por não haver nunca se preocupado muito com este tipo de atenção, ao menos não naquelas circunstâncias, não enquanto o Dono daquilo tudo estava provavelmente sentado em algum lugar esquecido pelos Outros. Provavelmente estaria com as mãos sustentando a cabeça , naquela posição típica de quem se desespera ou aparenta estar desesperado.

Ou simplesmente quer aparentar estar desesperado.

Ah, o Remorso, este voltou a falar; embriagado por tantas e tantas Lembranças, ele subiu ao pódio central e fez-se ouvir, ainda que grande parte das estruturas narrativas ali presentes no momento tenham escolhidas ficar surdas naquele exato instante.

Mas ele falou e falou, e ao seu lado, veio vindo de mansinho a Raiva. Ela quase nunca conseguia ficar surda aos lamentos de seu eterno companheiro, e ainda que esta Raiva fosse residente de um corpo quase desprovido de Iniciativa, ela bem sabia fazer as coisa ali dentro dançarem conforme sua música.

Música. Aqueles dois atuavam como uma dupla musical, não sertaneja, evidentemente, na maior parte do tempo. Um, fazia as baladas de lamentação, as choradeiras de costume, enquanto ao seu lado, calada, a Raiva ia tomando forma e crescendo. Ironicamente, naquela Realidade daquele Domo, quem abria aquele tipo de "show" era o Remorso, que às vezes se travestia de Recordação, para depois se tornar apenas uma Ladainha.

Normalmente, naquela hora, a Raiva já estava espumante e tomava de assalto o palco: ela chegava derrubando para fora o Remorso, que muito se lamentava ao colidir com o chão, e lá ficava chorando. A Raiva, quando tomava conta do espetáculo, era algo para ser visto. Normalmente seu clamor de cem bilhões de raivosos clarins desafinados e desencontrados, ensurdeciam todas as outras Emoções ali presentes, fazendo com que todas elas não pudessem ignorar seu apelo raivoso.

Em algumas vezes, ela se tornava Fúria, e então o caos se espalhava ainda mais rapidamente. Com sua guitarra de oito cordas e seu pedal fuzz ligado no máximo, estraçalhava toda a Lógica, acabava com a Razão e aumentava o volume do desafinado Amplificador que se situava abaixo do pódio central do Domo. Não eram raras as vezes que o Domo ficava desprovido de sons assim que a Fúria terminava seu espetáculo de horrores.

Felizmente, naquela manhã, a Raiva não se tornou algo piro, e apenas fez uma breve apresentação, ainda assim ensurdecendo a Razão e obrigando o Pensamento a se comportar de maneira errada, fazendo conexões erradas por toda a extensão do Domo.

Momentos mais tarde, entretanto, o Pensamento se fez mais alto e anunciou o resultado trágico de todo aquele acontecimento matinal: durante todo o dia, até que fosse acionado o Protocolo de Desculpas ou caso fossem eles brindados com a Indiferença alheia, eles seriam perturbados pela Preocupação, esta auxiliada pelo remorso e ainda assistida, eventualmente, pela Raiva.

O restante das Emoções quase não se espantaram. Era de se esperar, quando a Raiva e o Remorso faziam seu show, normalmente o resultado eram algumas horas, no mínimo, de encheção de saco. Taquicardias, trânsito de merda nos setores baixos, ficava tudo bagunçado.

Mesmo assim, sabiam que não havia saída para eles, uma vez que para eles, estar no Domo era como estar atado para sempre naquela Realidade, irremediavelmente. E bem sabiam todas elas que, aquilo não se escolhia, assim como pessoas não escolhem as famílias em que se nasce. E sabiam que, enquanto o Dono do Domo não fizesse de outra forma, tudo ficaria na mesma.

Mas elas bem sabiam que isto era apenas um sonho, uma vã esperança num Domo como aquele, que era constantemente regido de forma tão dissonante como aquela manifestada na manhã daquele dia.

O que poderiam elas fazer? Apenas esperar, e fazer suas funções, dançar conforme a música.

Até quando? Nem mesmo o errante Pensamento saberia precisar.