sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Retorno.

O Adicto anda pelas ruas, anda pelos lugares, vê pessoas e gentes por todas as partes, mas não Pessoas, muito menos Gentes. Ele sabe que deveria encontrar, sabe que deveria achar, mas não sabe onde. Procura e procura, mas tudo lhe faz perguntar, questionar. Sente o retorno se aproximar, o retorno, a proximidade dele, e se assusta. Com o tanto que deseja, precisa retornar.

Para onde? O Adicto é adicto, é viciado. Não precisa de uma razão, um motivo, se assim apenas o fosse. Mas não é. Ele sabe de sua razão, sabe de seus motivos. Tenta e tenta se manter distante, mas sabe que não dá mais conta. Infiel, dirão uns, maluco, dirão outros, e todos o apedrejarão. Todos, menos seus companheiros de vício, que ele sabe bem onde encontrar, assim que o retorno acontecer. E deve acontecer, vai acontecer, bem sabe ele.

O tempo passou, anos passaram, longe. Mas em verdade, ele sabe que não saiu do lugar, não encontrou algo que só o retorno pode oferecer, naquele lugar, naquele mundo que só ele sabe acontecer, ali, somente ali, onde ele sabe que deve se encontrar. O Adicto sabe que talvez, porventura, não devesse agir como tal, mas está cansado. Cansado de tanto tentar, nunca conseguir. Tanto olhar mas nunca encontrar. Adiantará retornar? Conseguirá, de fato, retornar? E se depois ali não mais se encontrar, conseguirá ele voltar?

Não sabe. Não pode saber. Repire fundo, senhor Adicto. A coisa irá engrossar, o tempo irá passar, a vida prosseguirá, por todos os lados, por todos os lugares. Mesmo para ti, que retornarás. Que está retornando, mesmo sem saber se deve, se pode. Mas Adictos sabem: eles se afastaram, mas nunca dali saíram. Eles sabem, e o Adicto não é diferente. Ele sabe. E teme. Mas todos se cansam. Todos aqueles, que tentam encontrar mas não acham, sabem. Sabem que o tempo passa e as coisas deveriam acontecer, mas não acontecem. Não àqueles que são como ele. Adictos.

Prossiga, vá em frente. Caso tudo dê errado, o mundo real cá estará, ele sempre esteve. E o tempo passa, bem sabemos todos. Assim ou assado, acontecerá. Os relógios não param, ainda mais com tanta fonte de energia sustentável, tantos servidores, tantos reatores. Tantas células independentes, tanto progresso. Para o Adicto, nada disso presta, nada significa. Chega.

O retorno, irá acontecer. Está próximo. Em seu sangue, a sensação é de fissura. Tremores. O coração dispara quando vê a coisa diante de si. O mundo, o Mundo. Todo o Mundo, toda sua inutilidade e toda sua glória; todas suas cores, sons, criaturas. Tudo que ali está, encerrado dentro daquela caixa, daquele local. O Adicto suspira e pensa mais uma vez no outro mundo que está prestes a abandonar. Valerá a pena?

Só existe uma maneira de saber. Somente uma.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Conserto.

Entro na assistência técnica. Logo ao balcão, encontro-me com certa pessoa, mesma espécie, mesma altura, talvez algumas diferenças fundamentais na estrutura físico-química em funcionamento mental no momento. Bom dia, boa tarde. Que desejas. Existe um defeito, explico eu, que me impede de permitir acesso a certas áreas ditas prazeirosas e/ou motivacionais em mim. Pois não, chamarei o técnico.

Duzentas e cinquenta passos de formiga depois, vem a mim o Técnico, taciturno como a noite, e me perguinta, sabes onde fica o defeito? Pois sim, bem aqui, no interior desta caixa craniana, que trago imediatamente por cima de meus ombros. Ah, um caso clássico. Brandindo uma pequena marreta pesando 300 Newtons, ele desfer golpe oblíquo às minhas têmporas. Sentiu isto? Sim, evidentemente. O que não sinto é o rumo, é o caminho, são os pés no chão. Ah, então o caso é mais complicado. Terei de fazer exame mais demorado. Acompanhe-me.

Sangrando da ferida causada pelo prévio exame, e um tanto atordoado, sigo adiante naqueles corredores, onde vislumbro de relance várias pessoas com partes defeituosas aguardando conserto, aguardando peças. Um homem dito apaixonado segura nas mãos quebrado coração, à espera de algum socorro, alguma coisa que o valha. Outro se contorce ao chão, aparentemente possuído por ataque de cólera. No final do corredor, entramos em uma sala com diversos e obscuros equipamentos. Sente-se aqui, diz o técnico, enquanto preparo os instrumentos.

Fico ali à espera, enquanto ouço o vago rumos de um instrumento sendo esfregado em uma áspera superfície. Clamores vêm do corredor, da sala ao lado, rudes chamdos, palavras sem sentido, coisas, coisas. Enquanto fixo o olhar em uma pequena rachadura no chão, surpreendo-me com certa incômoda sensação de estar sendo eu rachado ao meio, por estranhas e indefiníveis forças. É a serra que me arranca o topo da cabeça, aparentemente. O Técnico se debruça por sobre aquela sangrenta confusão e mexe daqui e dali, me fazendo sentir assim ou assado, dependendo da área mexida em o cortéx defeituoso. Enferrujados eletrodos são inseridos naquela massa em meu coco, e sinto vontade indefinível de comer raviólis, de escutar Mozart.

Mexe daqui, mexe dali,o Superior me faz ir de eufórico para deprimido, de acordo com a área sendo eletricamente estimulada. Me ponho a pensar em Gorki, para depois me lembrar de certo parafuso que perdi em uma remota instância ao sul da Bahia, anos atrás. É, diz o superior para o Técnico

É, o caso é feio. Espere mais um momento, vou trazer meu superior. Enquanto aguardo a chegada do mais experiente funcionário local, sinto estranha sensação de estar sendo esvaído da força vital, e me pergunto se a poça de sangue aos meus pés tem algo a ver com tal sensação. O Superior chega, e de longe já consegue verificar a gravidade da situação. Desilusão, falta de sentido. Sei como é. Traga a bateria de 1200 volts. Estranhas cores se formam em minhas vistas, estranhos sons pareço escutar, além dos lamentos alheios oriundos de outras partes do prédio.

Hum, me parece que este pedaço está meio emperrado. Falta aqui um parafuso. Chave de fenda. Porcas. Porcos. Borracha de silicone. Rejunte de cimento. Olho casualmente para o teto, e vejo que ali só existe indefínivel túnel de luz, como se estivesse a me chamar. Não se assuste nem se encha de esperança, me diz o Superior. É por causa do marcapasso que instalei por trás de seus olhos que vês tal manifestação aparentemente benévola. Ah sim, digo em russo, continuando em romeno, achei que fosse a tão afamada luz, ou Luz, se assim o preferir.

Trazem ácido muriático para a limpeza do restante grosseiro do rejunte de cimento que une as metades de meu coco, e para desengripamento de certas juntas da máquina do mundo, de meu mundo, devo dizer. Apertam junturas, fazem acertos, sintonias finas. Substituem o processador, tão obsoleto, tão antigo, tão româtico, bobinho, por assim dizer. Trocam as memórias, mas e aquelas que eu queria guardar, como é que faço? Não faz, é simplesmente assim. Não fazes, não farás. Não mais.

Colam alguns decalques indicando a moderna placa de vídeo, o processador mais atualizado, Intel, NVidia, sei lá. Peças chinesas, mas de confiança. Me dão amigável tapinha nas costas e me recomendam rebootar o sistema e formatar o disco duro de seis em seis meses. De quebra, instalam o Word como pprocessador de texto padrão, e me perco em configurações de idioma. Agradeço em esperanto, e de lá me retiro, ainda sem rumo, mas com um mundo novbo e digitalmente alheio ao meu redor, nada mais me importando com certas trivialidades modernas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Normalidade.

Tec, tec, tec.

O que tanto escreves? Coisas. O que são estas coisas? Coisas que vivencio, que penso, nos dias que ainda estou vivo, estou acordado, lúcido. Lúcido, sei. Você. Sim; apesar de sempre ter sido tachado de doido, sei que não sou mais doido que as pessoas ao meu redor. Faço isto e aquilo, coisas estranhas, maravilhosas ocupações, mas somente para mim. Olhe ao redor. Quem está a volta de você é normal? Se responderes sim, estás enganado.

Ninguém é normal. Não ao menos como querem que sejamos, não como afirmam ser. Todos, todos temos as esquisitices que só mesmo nós compreendemos. Bela desculpa, esta, para ser esquisito e se apaziguar. Não é bem assim, eu diria. Pense, veja se tal normalidade existe em todos planos de sua vida. Pense. Seja sincero.

Conheco gente normal que fala sozinho. Conheço gente normal, que é consumista compulsiva de porcarias tecnológicas que compram apenas por comprar. Conheço normais que só conseguem dormir se antes de se dirigir ao leito, lavam a mão umas quinze vezes. Conheço normais que adoram mijar em seus quintais, mesmo estando o banheiro ali, de seus lados. exisstem normais que trocam filhos por cachorros, gatos, iguanas, marmotas, e quejandos.

Existem seres absolutamente normais que se frequentam igrejas, cantam no coro, e pagam por seu lugar no "céu," religiosamente, por assim dizer, e roubam a internet do vizinho, fazem cópias ilegais de softwares, de cds de música que prega a palavra do senhor deles, este que sempre apregoa que não deves roubar. Normais, normais. Que são inteligentíssimos, produzem teses científicas, permitem o avanço da sociedade, ganham prêmios Nobel, mas que não conseguem interagir com pessoas do sexo oposto.

Normais.

Que se acotovelam diante de um aparelho televisor para verem dois homens se batendo, quebrando a cara um do outro, sangrando, em exibição típica e idiota de força. Que julgam quem não aprecia tal violência como seres aparentemente retardados, idiotas, afeminados, coisa que o valha. Normais, que se inscrevem em cursos que não querem fazer, aprendem matérias que não querem aprender, apenas com o intuito de arrumarem um emprego que lhes renderá estabilidade infinita para coçarem o saco e atrofiarem seus tão inteligentes cérebros em empregos absolutamente inertes.

Normais, que escutam música clássica e ainda assim conseguem apreciar um "fanque" carioca. Como seria possível conciliar tais extremos? Sendo normal, aparentemente. Normais, que desenham, desenham, desenham, e não conseguem render um puto com tal atividade, mas que ainda assim não param de tentar. Normal. Seres típicos, que pregam a paz no mundo mas realizam a desforra contra seus compatriotas em violentos videojogos. Requintados seres, que nunca permitem a pronúncia de palavras de baixo calão em sua presença, mas que não hesitam em julgar os outros ao seu redor, que não trajam roupas de marca, camisas de botão.

Pessoas que sempre têm de estar acompanhadas. Que não conseguem ficar sem sair de casa. Que não conseguem juntar dinheiro. Que se excitam com coisas impublicáveis, que riem de grosseiras piadas, que fazem parte de estranhas instituições, que ganham a vida explorando a fraqueza alheia. Que fazem dos outros alvos inimigos, mesmo que estes nunca tenham sequer lhe dirigido a palavra. Normais.

Gente que precisa de oito talheres à mesa para apreciar uma refeição com dito requinte. Que gostam de comer caviar. Que gostam de Campari. Que tomam drogas para recriar um mundo paralelo e lá tentarem viver. Que se refugiam da realidade em eletrônicas diversões, que procuram apenas o lado negro das pessoas, para depois usar tais apontamentos como armas contra tais pessoas aparentemente tão normais, tão triviais.

Pessoas que têm dinheiro suficiente para comer no desjejum notas de cem euros mas que regateiam preço ao comprarem camisas de camelô. Gente que apregoa o amor divino, a glória aos céus, a moral e os bons costumes mas que têm escondidas em algum canto de seus computadores arquivos de pornografia infantil.

Gente que coleciona cascas de ovos. Pessoas que vivem em apartamentos regidos por seus animais de estimação, que dormem com gatos, que levam o cachorrinho na acunpuntura. Gente que habita a casa de seus familiares mas que não lhes considera familiares.

Normais, normais. Que escrevem e escrevem, coisas estranhas, que moram em mofados sótãos e tanto maldizem a humanidade, mesmo sendo irremediavelmente parte dela, parte da mesma "escória" que tanto apregoa em seus escritos...

Normais, estes seres. Eu e todos nós. Todos vós. Eu tu ele nós vós eles.

Normal, é ser doido. Aparentemente.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Planejamento.

Vá para a casa de seu amigo, seu irmão. Vá e se reencontre. Em meio à trivialidade e saudosismo, se reafirme no que és. Feriado, feriado, tão poucos, tão queridos, por todos nós meros mortais que não nascemos em dourados berços de diamantes e ouro branco, ainda que mesmo assim seriam prateados, por assim dizer. Relembre tempos passados, ressurja das cinzas que antecederam tal data. Encontre.

Sinta a umidade do ar, beirando a casa dos milhares, uma vez que centena nenhuma poderia ser mais descritiva, sinta o frio local, que tão bem conheces, desde tempos primordiais. Chegastes preparado? Deveras, deveras, bem conheces tal clima, tal local. Névoa, "neve" a perder de vista, mesmo que avista não valha para muito no presente momento, em presentes circunstâncias.

Amigos, amigos, bem vindos sejam, bem aventurados sejam, que nos fazem rir, sorrir, no meio de tanta chatice humana, desumana, profissional, pessoal, passional, seja lá o que mais. Beba, beba, sorria, fume, se divirta. É uma ocasião especial, deveras. Sinta o etanol rodar, rodopiar sua cabeça, ameaçar expurgar além das mazelas triviais, banais, boçais, de tua cabeça, o conteúdo de peixes e cogumelos comestíveis de seu estômago. Resista! Visites a cama, porém não o banheiro.

Não sem antes desastrada e etílica mão quebrar em pedaços alheia propriedade. A vergonha, a vergonha. Acontece com os melhores e piores bebuns. Enfim.

Reencontre velhos amigos, cada qual de seu jeito, cada qual com seu jeito, sinta raiva daquele que é mais contundente mesmo sem ser um cretino, sinta a inexistência crescer dentro de você diante de tal comentário, tão normal a seu amigho quanto o ar que respiramos. Sinta a raiva aflorar, mas aquiesças em silêncio. Bem sabes o tão retardado e reclamativo andas em seus escritos, em seu ser.

Entretanto, tenha a errada viagem de crescer tal certeza em tua cabeça enquanto recusas novas socializações. No interior lúgubre de teu barco sem mar, seu quarto especialmente arranjado, sintas a inexistência tomar conta de teus pensamentos antes de dormir. Tenha raiva mais uma vez de teu amigo, mas saibas que foi culpa sua, sempre é culpa sua.

Não estragues o feriado. Passe por cima, acorde no dia seguinte, tudo em seu lugar, todas as paredes e muros com suas pedras e tijolos de silêncio e resignação.

Apareçam, outros companheiros! Aquele que foi seu companheiro em outro mundo nada real, e aquele que todos insistem em caçoar, de seus repentes e dizeres não muito pensados. Converse com este e aquele, sinta novamente a inexistência aflorar, a necessidade quase insana deste mundo abandonar, e retomares irreal vida, irreal ocupação no mundo das máquinas, da fantasia cibernética que já foi oitenta e cinco por cento de sua vida. Sinta o apelo de tal chamado, irresistível e perigoso, pelo ponto de vista de certa porção dita racional de tua mente e aos olhos de psicólogos, antropólogos, psicanalistas e quejandos.

Vá dormir, novamente. Mais cedo, mais faminto por sentidos, antes de perder os mesmo, naquele embalar mole da cama, da sonolência, de teu barco sem mar. Dia seguinte, reencontre o dono da casa, tudo em seu devido lugar, mas o vazio tomando conta de tudo. Sinta novamente a tentação de seguir adiante o plano de tudo abandonar, e ceda levemente, tome o primeiro passo. Pouco falta agora, para tudo recomeçar. Tudo terminar. Veja maus filmes, coma boas comidas, veja discussões alheias, se pergunte se existe união realmente valiosa, questione pele enésima vez a possibilidade das pessoas ficarem juntas. Vá dormir, novamente.

Acorde e vá trabalhar, sentindo o distante apelo da virtualização de teus problemas. Se pergunte se existes deveras, sendo humano sem deveras assim se sentir.

Onde está seu lugar? Aqui, neste mundo, dito real, ou ali, onde nada é de fato verdadeiro?

Sinta, em plena terça-feira, o ocaso de uma segunda que não teve lugar.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Boas Salenas Cronópios.

Em referência ao texto anterior, e como recomendação de leitura, imensamente recomendável por minha parte, mesmo que pulhas como Max não lerão por não saberem apreciar um bom e velho nonsense, cá está um link deveras interessante.

Maravilhosos Afazeres, ou apenas 433.

De fato, deveras. Enfim.

Que maravilhoso afazer é acordar, descer a escada aos pulos, apanhar na estante livro de Cortázar, ler aos remelexos, sair de casa disposto a abrir caminho por entre as pessoas a golpes de envelopes com selos.

Que maravilhoso afazer é pegar o ônibus, passar a catraca, e transitar frente a ela, enquanto se contam moedas de um centavo, ao passo que atrás de nós a fúria cresce; querem matar-me mas estou protegido pela roleta e pelos louros da lei, da moral e dos bons costumes. Assim que termino de contar duzentas e quarenta moedas, retirar do bolso uma nota de cem euros e oferecê-la ao trocador, fique com o troco, e o restante dos passageiros que se fodam.

Que maravilhoso afazer é descer no centro, defronte ao pirulito da praça Sete, que poucos se lembram de que Setembro, se munir de pá e picaretas e tentar fazer dali um sítio arqueológico, evidentemente, tal monolito só poderia ter sido deixado ali por fenícios ou trácios; instituir palanque e falar aos transeuntes aos gritos, "o fim está próximo", com uma bíblia debaixo da asa esquerda e dedo indicador acusador em riste; condenar o consumismo ao passo que vejo a cotação das ações da Igreja Universal na internet, em meu iPhone.

Que maravilhoso afazer é entrar num café e pedir chá. Chá, outra vez chá, para depois pedir um sanduíche de rúcula com agrião, embebê-lo no litro de chá e depois sair à rua assobiando o Tannhäuser, para júbilo e lágrimas de um velhinho alemão e nazista oculto que por ali passava, com o intuito apenas de denunciá-lo à subcomissão de quinhentos ou doze agentes da OTAN que coincidentemente por ali passavam.

Que maravilhoso afazer é assistir à execução fria e sumária, em praça pública, de tal velhinho, não importa se ele era isso ou aquilo, se já tinha se arrependido de seus crimes ou não., se tinha netinhos ou mesmo alguma senhora que dele dependa financeiramente. O que conta é divertir o público. A turba se acotovela diante do patíbulo e acompanha a tudo.

Que maravilhoso afazer é tomar do microfone, plugá-lo num poderoso sistema de PA esterofônico, preparar seu melhor trejeito de locutor esportivo e narrar a execução com ênfase futebolística e verificar como a multidão se empolga e mesmo torce contra a vida de tal infame prisioneiro. Quando a vida de seu corpo expirar, berrar, "Está MOOOORTOOO!!!!" a plenos pulmões, como se narrasse um gol. Observar como a multidão faz festa.

Que maravilhoso afazer é sequestrar um avião, desviá-lo para Salvador, oferecer a desculpa de insanidade temporária à polícia baiana, juntamente com acarajés e oferendas a Iemanjá, se livrar de custoso processo criminal.

Que maravilhoso afazer é se postar defronte à mais famosa escadaria da capital Baiana, distribuir panfletos timbrados, oficiais, acerca das instruções de como subir uma escada e verificar com imenso júbilo como as pessoas, diante de tais impressos, se esquecem de como faziam para subir tais degraus. Ali permanecer por vinte ou duas horas e anotar num caderninho o número de pessoas que levantam o pé e o pé, respectivamente, e imediatamente caem ao solo, e tal qual baratas, não conseguem mais se pôr de pé.

Que maravilhoso afazer é contratar um cronópio paraassumir a direçao geral do imposto de renda e outros para a casa da moeda e casa civil; ver como depois de dois meses como a economia brasileira, tão em voga neste decadente mundo, se desfaz em um turbilhão de lágrimas e sangue, após a conversão da moeda do Real para a Rúpia Indiana.

Que maravilhoso afazer é viajar de trenó ao Japão, se logar em um dos milhares de ciber-cafézes do país, verificar as instruções Googlianas de como chegar à China, e proceder como tal, especialmente seguir a instrução de número 43:


Que maravilhoso afazer é trajar traje típico e muita fita adesiva fixada ao canto dos olhos, mesclando-me irremediavelmente à população local e me tornando irreconhecível às autoridades, invadir a central de censura da internet na China, liberar a pornografia e acesso às páginas da central de segurança deste imenso país e se dirigir à Praça da Paz Celestial, para assistir à tão prometida e adiada sequência.

Que maravilhoso afazer é verificar como o mundo entra em colapso após a queda do governo chinês e a queima de todas as manufaturas nada manuais de tal longínquo país.

Que maravilhoso afazer é apanhar uma escopeta, arrumar um cachorro a tiracolo e sair vagando pelas ruínas do mundo, enquanto se canta a décima primeira segunda de Beethoven, versão cover de Guided By Voices, evidentemente.

Que maravilhosos afazer é verificar que feriado se aproxima, e do caos estarei alforriado até terça feira, após as dez-a-oito da data de hoje; que maravilhoso afazer é beber muito álcool e realizar retiro espiritual, situação esta em que o espiríto prefere se retirar do corpo após o coma alcoólico.

Que maravilhoso afazer é escrever coisas sem sentido, lembrando-me de um de meus prediletos livros.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Validade.

No meio dos dias
que se tornaram noites
nada faz muito
sentido.

No obscuro sótão
que se tornou lar
refúgio
prisão
procuras o que não há.

Na manhã cinza
acordas
mas continua a dormir
dia afora
noite adentro.

No alto de sua empáfia
não encontras nada
nem ninguém
-não procuras mais nada
tampouco alguém.

Inerte vida
onde queres levar?
Inexistência
sobrevivência
sub-existência
onde queres chegar?

Não procuras ajuda
pois acha que não a merece
Não encontras ajuda
pois não pode se ajudar

Preferes a névoa,
a confusão de sentidos
químicos refúgios
abstratos sonhos
irrealizavéis ambições.

Não se lembram de ti
pois assim o quiseste
és o rei dos inexistentes
ausentes
desistentes.

Na calada da noite
ali estás
sozinho
ausente.

Onde você foi parar?
Onde queres chegar?

Até quando existirás?

Noite-dia após dia-noite,
a pergunta não quer calar.

Longe de tudo,
longe de todos
você vive
você morre.

dias que se tornaram
noites
insones
eternas.

Até quando?
Irás resistir
irás existir
conseguirás fingir
que vives
ao passo que cada dia
cada noite
morres
mais e mais.

Até quando?