terça-feira, 31 de agosto de 2010

A-11.

Andar. Andar até cansar.

Todos os dias, todas as horas. Até cansar, até me deixar cair em uma pilha de entulho nestas ruas esquecidas por tudo e todos.

Menos por mim...que ainda tenta encontrar alguma espécie de saída, alguma coisa de diferente, algo que vá me...salvar, resgatar. Não sei de nada. Não mais.

A trilha das folhas está completamente esbranquecida já fazem dias agora. Dias? Meses? Não sei dizer, não mais. Parei de contar, parei de me preocupar. Parei de comer e de beber. Pareço mesmo não precisar de nada disso por aqui. Não sinto nad. Nada, além de um imenso vazio.

Engraçado como as coisas mudam. Quando o mundo era ainda o que fora, em minhas horas vagas, eu também escrevia bobagens, tentava contar histórias e dar minha opinião sobre coisas...tudo em um daqueles sites gratuitos da agora extinta internet. Alimentava alguma vã esperança que alguém pudesse se interessar pelo que escrevia, quem sabe, arrumar um emprego como escritor, ao invés daquela carreira militar odiosa e vazia.

Lembro-me vividamente o dia em que resolvi desistir de tal sonho vago. Um de meus melhores amigos, que dizia ler o que eu escrevia, um belo dia me vem e me fala que não lia nada, só ia pulando os parágrafos.

Aquilo bastou para ser o último prego em meu caixão de resignação perante a vida que me fora destinada. A vida de um peão inútil, uma peça descartável na grande equação.

Se uma pessoa, que dizia ser meu amigo, não estava nem aí para mim, o que mais eu poderia esperar das outras pessoas, que nem meus amigos eram?

Hoje em dia me pergunto se nas atuais circunstâncias, tal desapontamento me serviria de mola propulsora para que eu afinal de contas abraçasse meu destino de nada ser. Pois é isto que continuo sendo, um nada. Mesmo no meio deste monte de nada, pouco coisa de diferente pode ser constatada neste ser vivo, neste ser humano que nada mais é que alguém que espera sua vez de se tornar um nada, oficialmente.

Já deveria ter morrido, entretanto. Ando e ando, nestas ruas que nunca acabam. Parece que estão gozando de minha cara, pois isto não faz o menor sentido. Eu ando e ando e ando mas não chego alugar algum. As ruas não acabam e parecem se repetir diante de meus olhos.

Digo tudo isto em voz alta, apenas para ter o que ouvir. Para conseguir escutar um último sopro de humanidade no meio desta imensidão de lixos e vento, de nada sobre nada, onde um nada por ali caminha.

Algumas vezes eu grito, apenas para ver se alguém me escuta. Para ver se alguma voz misericordiosa me responda, "você não está sozinho".

Sim, estou. O vento vazio me assegura disto.

Jamais estive tão sozinho assim, e olha que já fui o mestre de me sentir desta maneira no meio da multidão de final de tarde que circulava por estas ruas, por esta cidade, uma verdadeira manada de gente e mais gente, se acotovelando, esbarrando em meus ombros e nem sequer pedidndo desculpas; eu me sentia como se não houvesse ninguém ali.

Penso e penso e falo alto, e ando e ando, não chego a lugar algum. Sigo as folhas, que há muito deixaram de ser amarelas. O que me preocupa é que me parece que tais folhas estejam desaparecendo, à medida que ando. Parecem estar mais escassas.

Estou exausto, estou esgotado. Não sinto nada além de vontade de dormir. Não como nada, não procuro nada, não irei beber nada. Mais um dia, mais uma noite.

Onde estou...e porque isto está acontecendo? Será este meu inferno pessoal? Será isto?

Vejo, a alguns metros de distância, outra daquelas coisas estranhas que tenho visto nesta minha eterna peregrinação a lugar algum. Uma porção de luzes estranhas, multicoloridas, que formam uma massa de cores e sons, que fica pairando ali por alguns instantes, para depois desaparecer e só tornar a surgir daqui a dois, três, sei lá quantos dias.

Eu havia ficado alarmado com tais aparições, mas hoje em dia nem ligo mais. Como tudo ao meu redor, não passam de um nada. Uma promessa de algo, mas mesmo assim, som,ente promessas. Falsas promessas. Nem me importo mais.

Fecho os olhos e espero. Sei que o sono virá em breve, e por momentos, me esquecerei de todo este vazio. Pena que eu não sonhe mais. Ao menos poderia me distrair um pouco de tudo isto...de toda esta cinzenta inexistência.

Durmamos, esperemos. O que mais posso fazer?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Adendum.

Estou tão retardado de sono aqui hoje que esqueci-me de outro título que foi por nós assistido na sessão de cinema trash em casa, que precedeu FrankenGirl vs Vampire Girl. A sequência completa fica organizada de tal forma:

1 - Robo Geisha
2 - Zombie Strippers
3 - MegaShark vs Giant Octopus
4 - Matadores de Vampiras Lésbicas
5 - FrankenGirl vs Vampire Girl
6 - Zombieland.

Matadores de Vampiras Lésbicas é um filme sem a menor pretensão de ser sério, coisa que por muitas vezes irrita em filmes trash, que fazem força de tentar extrair alguma seriedade dos absurdos por eles veiculados naturalmente. É uma produção britânica, e conta com hilárias sequências e engraçadíssimos diálogos, bem no estilo britânico de se fazer comédia através de nonsense. Infelizmente, não ocnseguimos ver o filme todo, uma vez que os famosos DVDs paraguaios vendidos nos Xópis Ois da vida estão sujeitos a estarem arranhados ou nem sequer serem gravados apropriadamente, como foi o caso deste. Como é de fato uma comédia, a história não despontou, mas não recomendo a exibição deste título para marmanjos que só se interessem pelo filme pelo título. Não, caros mancebos: não é um filme pornô, apesar de ter cenas que quase chegam a ser provocantes, mas que irão francamente desapontar qualquer tarado que se preze. Como não foi possível assistir o filme até o final, não chegarei a dar uma nota final, mas eu diria que gira em torno dos 8 a 8,5.

Sessão Cineplex 2010 de cinema em Casa: #3.

E então o final de semana se foi. Infelizmente, tudo que é bão tem de acabar, como dizem por aí, como podemos notar claramente no decorrer dos dias e meses e anos que cá passamos, neste manicômio esférico. Enfim, há que se fazer o possível para tornar a jornada um tanto menos penosa para nós, em especial para aqueles que como eu, sabem que nunca se darão por satisfeitos com coisa alguma, em nenhuma altura destes parcos anos que cá temos que comparecer.

Enfim, neste final de semana eu e meus velhos companheiros de guerra dos tempos memoriais da já extinta fase biológica de minha vida, estivemos em massa diante de uma tela televisiva e por meio dela nos libertamos de várias de nossas agruras da vida hedionda, muito nos rindo de pérolas cinematográficas especialmente feitas para alegrar os seres como nós, estranhos seres. E com efeito, podemos afirmar que tal manobra deu resultados; ao menos eu posso afirmar que não pensei em nada chato enquanto degustava coxinhas, pães de queijo e outros quitutes de rápido preparo, validade duvidosa e sabor garantido.

A vida se assegura de, muitas vezes, nos enganar e fazer parecer que tudo vai dar errado. O evento parecia que não iria se concretizar. No final de semana em questão, meus companheiros que moram láááá longe de minha casa, foram surpreendidos com uma excepcional corrida de São Pedestre ou algo que o valha, que aconteceu nalguma hora do sábado, e que quase os preveniu de cruzarem a cidade para que a sessão começasse. Demoraram umas duas horas ou mais para fazê-lo, devido à zona que nosso já caótico trânsito se tornou.

Felizmente, no final tudo deu certo: eles chegaram um tanto atrasados, mas em tempo de ainda assistirmos os dois primeiros títulos antes que o sono me arrebatasse por completo e me prevenisse de assistir ao terceiro filme.

Os títulos da oitava arte - aquela que fica um tiquinho acima do cinema dito ordinário - escolhidos para o evento em questão foram os seguintes:

1 - Robo Geisha
2 - Strippers Zumbis(não o pornô, e sim o trash)
3 - Mega Shark vs Giant Octopus(?) - [Este eu dormi, infelizmente.]
4 - FrankenGirl vs VampireGirl(?) - (algo assim)
5 - Zumbilândia

O grande favorito do evento era Robo Geisha, que já prometia momentos da mais pura diversão trash, conforme anunciado pelo trailer do filme, que já conhecíamos desde o meio do ano passado, se não me engano. Filmes japoneses como este são verdadeiros tesouros para os cinéfilos da oitava arte como nós. Infelizmente, não foi o grande vencedor da noite: o filme conta com excelentes momentos, daqueles de se dobrar de tanto rir diante dos absurdos mostrados na tela. Mas o filme me pareceu tentar explicar muito detalhadamente os absurdos exibidos, e alguns momentos cheios de muito blah blah blah (que não faziam o menor sentido, quer seja pela patética história ou pela tradução bizarra exibida nas legendas), se tornaram puramente chatos. Mas em geral, as cenas mais dantescas do filme salvaram, quer seja pela presença inexplicada de um exército de Geishas que se transformavam em robôs e faziam ameaças a outras pessoas, quer seja com serras circulares saídas das bocas de tais robôs ou seja pela presença de bizarros armamentos como mamilos superdesenvolvidos(?!) nos peitos das agentes e que emitiam jatos de leite (!) ácido, salvaram o filme. Outros destaques foram a presença de lutas absurdas entre as geishas, que contavam com armas especialis, feito as katanas de bunda. O pagode(a construção, não o "estilo" musical) gigante(que as protagonistas custaram a avistar, mesmo que estivesse diante dos olhos delas), que se transformou em robô gigante estilo Jaspion e saiu dando murros em prédios, que além de serem destruídos...sangravam. Este foi o primeiro robô que consegue vomitar da história dos filmes, creio eu. No geral, é um bom filme, apesar da presença desnecessária de sequências paradas e cheias de explicações desnescessárias a uma história já devidamente absurda para começar. Eu dou nota 7 em 10.

Zombie Strippers - este título parece ser comum a outro filme, de natureza um tanto quanto mais...educativa, por assim dizer. Sim: existe um filme pornô que envolve zumbis, e não me surpreendo com tal informação, uma vez que a regra 34 é inexorável: sem exceções. Mas o filme que nós assistimos, apesar de contar com momentos questionáveis para a formação de crianças de até quatro anos de idade(hoje em dia, meninos de doze anos de idade já têm PhD em pornografia, caso tenham acesso à internet), não é um filme educativo sobre sexo entre zumbis e humanos, mas sim uma épica comédia trash sobre o mesmo tema: contando com aquelas histórias absurdas e inexplicadas de como um zumbi vai parar num clube de strip e acaba infectando suas strippers, o filme tem hilárias sequências. Aparentemente, as mulheres, mesmo enquanto zumbis, têm inveja uma das outras e se atracam de maneira bem inusitadas durante todo as partes realmente interessantes do filme. Alguns dos destaques: a stripper que come o..."entusiasmo" do primeiro marmanjo inusitado a ser presenteado com um lap dance undead, a stripper gótica que quase vira helicóptero numa disputa de pole dancing, e a ironia do único zumbi que pede para se morto...e é capturado pelo inexplicável time de militares que parecem sempre estar envolvidos com zumbis, neste tipo de filme. Dou nota 8.

MegaShark vs Giant Octopus: Eu não assisti tal pérola, pois como o evento atrasou muito, e estava devidamente cansado por ter tido de fazer extensa faxina para receber meus amigos, eu estava muito cansado, já tendo pescado bastante durante a exibição dos dois primeiros títulos do evento. Conforme disseram meus companheiros, é um filme meia-boca: com algumas cenas realmente psicodélicas, como um tubarão que abocanha um avião em pleno voô. Hu-há. A nota por eles proferida para tal filme é 5.

FrankenGirls vs Vampire Girl - o título desta película é obscuro(não achei trailer para tal nome no youtube), pois é um destes filmes que só um país feito o Japão poderia nos oferecer. De fato, a cultura nipônica é das mais bizarras do planeta, e não estou exagerando. Este foi o primeiro filme por nós visto no domingo. Nada melhor para abrir um bom dia do que assistir a abjeta história de um colégio onde vampiros a la Twilight(eca) existem, vampiros que não temem cruzes nem a luz do dia, e que possuem sangue que...se mexe por conta própria, assume forma de seta enquanto estão em um tubo de ensaio, onde um pacato professor assume a identidade secreta de um bizarro Dr. Frankenstein travestido de...sei lá que diabos era aquela roupa, e duas garotas disputam pelo amor de um japa, que acaba se tornando vampiro, apesar do ódio mortal da filha do dr. Bizarro-san. Seria um péssimo filme, uma comediazinha romântica, se não houvessem cenas como a vampirinha do filme(uma japa mignon pra carai), descascando - literalmente - a caveira de uma FrankenGirl, para depoois arrancar tal caveira e empilhar com outras duas. Aliás, a primeira destas garotas-robôs criadas no filme é fantástica, que arranca seu próprio braço para brigar com sua rival, sendo que tal braço se torna um bumerangue, e depois ainda serve de hélice para que tal garota se torne um...helicóptero. Fantárdigo. O filme é uma maravilha da oitava arte, e grande campeão do evento. Dou nota 9.

Zumbilândia - foi o filme mais...sóbrio do evento, apesar de ser uma produção recente de Hollywood focada no tema mundo-pós-apolipse -de-zumbis. Conta com um elenco mais bem-pago e portanto, um tanto mais...sério que o da maioria dos filmes por nós apreciado, contando mesmo com Woody Harrelson(que faz um papel hilário de durão em busca do último Twinkie do planeta) e uma ponta de Bill Murray, este fazendo papel dele mesmo, maquiado de zumbi e ainda vivendo em sua mansão em Beverly Hills, ou seja lá onde for aquilo. Não foi dos filmes que mais nos fizeram rir, mas nem de longe é um filme chato. Apesar de darmos preferência para filmes mais avacalhados, foi bom ver um título mais bem-produzido sobre o tema, tão execrado por tantos ditos atores mais sérios. Dou nota 7,75.

De resto, eu curti muito o evento, e espero ainda termos outros antes do final do ano, apesar dos desencontros gerais que estão rolando neste péssimo ano de 2010. Fiquemos no aguardo então, e retornemos para a vaca-fria da segunda-feira maldita, com sua enxaqueca matinal, que já está me enchendo o raio do saco aqui.

Mais novidades no decorrer dos acontecimentos...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Aproximação.

...e eis que sentia que o final de semana se aproximava, e isto lhe dava muito ânimo, pois sabia que o final de semana, que se aproximava, era importantíssimo para sua saúde mental. Mas uma vez que sabia que o final de semana estava se aproximando, ele sabia que poderia confiar em tudo mais, mais nada importava, uma vez que o final de semana se aproximava, cada vez mais e mais e mais. Sabendo que o final de semana estava chegando, ele também sabia que chegava a época de bons amigos, boas risadas, relaxamento e quejandos.

Tudo isto graças ao final de semana que se aproximava, e que ele tinha fé que lhe salvaria saber que o final de semana se aproximava, cada vez mais. Uma vez que o final de semana se aproximava, ele poderia esquecer de todo o resto, de Sumpaulo, da dívida e tudo mais, uma vez que era cada vez mais inexorável a chegada do final de semana, que se aproximava. Sabendo que o final de semana estava logo ali, ele poderia ficar à espera do final de semana que se aproximava, tentando fazer de tudo para que o dia de sexta passasse o mais rápido possível, uma vez que o final de semana se aproximava, a cada instante, a cada momento.

E na posse dessa vital informação(o final de semana se aproximava), ele poderia tolerar de bom grado as dez horas escrotoriais que lhe separavam da chegada do final de semana. E se sentia muito bem, sabendo que o final de semana se aproximava e o evento de filmes, muitos filmes trash, na companhia de outros amigos ansiosos pela chegada do final de semana, seria muito bom. Uma vez que chegava o final de semana, ele sabia que a proximação do final de semana seria ideal, ideal para se libertar de toda esta merda que nos acompanha nos dias úteis, tão inúteis.

Sabendo que se aproximava o final da semana, ele poderia descansar, ele poderia ficar de boa, beber e muito se rir, das tentativas frustradas para uns, mas não aos assistintes(?) de fazer uma sétima arte que beirava a oitava, distinta, diferenciada, assim como o final de semana que se aproximava. E como se aproximava(o final de semana), ele sentia cada vez mais e mais disposto. Mais animado. Mais repleto de forças para acabar com suas forças durante o vindouro final de semana, que se aproximava, que chegava. Mais e mais e mais.

O final de semana se aproximava. Era tudo que precisava saber naquele dia em que a aproximação do final de semana(que chegava) era cada vez mais concreta. Trabalhadores servis do meu mundo, uni-vos em júbilo, uma vez que vos afirmo, veementemente, que o final de semana se aproxima.

Mais e mais, ele se aproxima. O final de semana. Ele vem, ele vem. Para nos salvar. Nos libertar!

O final de semana se aproxima. Spread the word, for it is approaching. The weekend.





Feels good man.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

B-3.

Não aguento mais.

Todas as noites, é a mesma coisa. Eu sou conduzida a meu quarto, triuinfante e cheia de idéias, e quando me vejo sozinha, o remorso começa a surgir.

Pensei que poderia contornar tal sentimento mergulhando de cabeça na pesquisa, mas...algo dentro de mim sabe, sempre soube, que tudo isto que fazemos aqui...é uma atrocidade. Um verdadeiro estupro mental naquelas pobres pessoas.

Dentro desta solidão silenciosa destes cubículos à prova de sons que são nossas celas, o remorso sempre aparece. Creio ser este o motivo de isolarem acusticamente nossos...aposentos. Depois de fazermos toda a vontade abominável de nossos "protetores", o silêncio das celas nos aguarda para uma noite absolutamente opressiva. As paredes parecem mesmo se fechar por cima de nós, criando uma estranha claustrofobia.

às vezes, é possível escutar gritos abafados, vindos de algum outro quarto ao meu redor. Creio que não sou a única que tem dilemas morais em relação à nossa pesquisa obscura.

Minha principal..."paciente" parece estar se comportando de maneira estranha por estes dias. O outro subconsciente nela transplantado parece estar causando alguma espécie de reação adversa em seu córtex cerebral. Verificamos alguns sinais de deterioração celular em áreas periféricas do cérebro.

Parece que a pessoa sabe que está sendo violentada mentalmente. Os chips orgânicos que contêm a personalidade transplantada não apresentaram nenhum sinal de deterioração, entretanto. Não que isto me surpreenda: um artefato daqueles é bem diferente de um cérebro que já foi vivo um dia.

Vivo...e livre. Creio ser este o pior tipo de pós-vida que uma pessoa possa ter.

Me parece que o subconsciente original da paciente, ainda tenta, por vezes, retomar o controle das funções neurais. Reclamar para si o domínio daquilo que sempre foi seu por direito...Podemos ver isto claramente fazendo uma leitura do eletroencefalograma dela, que mostra picos de atividade neural quando tais episódiso de revolta interna aparecem.

Não sabemos ao certo como a coisa está se manifestando visualmente na realidade virtual por nós instalada na mente dela. Só temos controle absoluto sobre os parâmetros do mundo irreal que algum dos bioengenheiros planejou para este experimento. Na mente do sujeito inserido em tal realidade, já se passaram sete meses que ele foi "despertado" de um equipamento criogênico para descobrir um mundo arrasado,, por nós criado.

Os reflexos de tal embate mental entre a mente original da hospedeira e a transplantada estão começando a ser somatizados no restante do corpo dela. Os rins tiveram alguma necrose nada usual nestes últimos dias. O aparelho gastrointestinal está se contorcendo de maneira inusitada também. Não me surpreendo com nada disto. O copro dela está reagindo contra um invasor.

Um invasor...por nós posto, por nós arquitetado. Uma autêntica monstruosidade.

Estou ficando viciada na mais nova bebida oferecida por nossos "protetores"...uma que possui doses ainda mais altas de efedrina, eu presumo. É a única maneira de me manter acordada. E como fico extremamente trêmula por conta desta coisa, sou obrigada a tomar um relaxante muscular muito poderoso por cima.

Eu sinto...e sei...que isto está acabando comigo. Mas não posso fazer nada. Não consigo mais dormir. Não tenho mais calma. Não tenho mais paz. Especialmente sabendo que outro dia, apanharam um de meus colegas fazendo um registro escrito do que está vivenciando aqui, da mesma forma que escrevo estas linhas neste antiquado caderno.

No dia seguinte, ele não apareceu. Disseram que ele teve uma emrgência médica. Apendicite.

Bem sei que apendicite é esta.

O efeito do relaxante está passando, mas a efedrina ainda domina meu sangue. Quase não consigo mais escrever nada direito. E sei que os pesadelos mentais virão, em breve. Dizem ser um dos efeitos colaterais do abuso desta droga, mas creio que no meu caso, seja diferente.

Bem sei que minha moral, enterrada pelo peso das pesquisas, pela excitação dos resultados deste odioso experimento, se vê livre das amarras quando entro neste quarto.

Ninguém precisa me torturar. Eu mesma me encarrego disto. Todas as noites.

Até quando?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Multipass onerosus est.

Está feito. Agora é oficial. Não sou mais tão brasileiro assim, e aqui está a prova.

Mas foi custoso. Muito custoso.

Ontem, eu e minhas irmãs fomos pela terceira vez para Sumpaulo, a fim de finalmente resolvermos esta questão internacional. Era para termos finalizado esta peleja desde o ínicio de julho, data em que iríamos receber o passaporte tcheco, mediante visita a esta cidade e o pagamento dos devidos emolumentos e custas referentes à confecção do mesmo. Entretanto, quando lá chegamos, fomos gentilmente informados que o sistema estava fora do ar, que teríamos de ali voltar outro dia.

Muito obrigado por nada.

Enfim, são águas passadas do gelado mês de julho, eu não me importava mais com isso, apesar da experiência ter me arruinado financeiramente. Pois bem, passados quase dois meses, a atual cônsul iria dali se retirar, então corremos para de uma vez resolver tal parada. Marcamos, agendamos, enchemos o saco dos funcionários do consulado para que não repetissem a proeza de nos fazer gastar muito dinheiro e perder um dia de serviço em vão. Caso acontecesse de dar errado desta vez, eu já havia prometido a mim mesmo arrancar a cabeça do pessoal de tal instituição com os dentes.

Não aconteceu: chegamos uma hora antes do previsto e já fomos atendidos, uma vez que o pessoal ficou sinceramente envergonhado da palhaçada da visita anterior, que nada rendeu além de débitos. Resolveram tudo e apanhamos os tais documentos.

Vitória.

Nem tanto.

Aconteceu um pequeno imprevisto. Como deixamos para resolver as coisas meio que em cima da hora, o voô que costumávamos pegar para retornar estava esgotado, e minha irmã, na correria de resolver tudo para voltarmos no mesmo dia - eu não queria ficar dois dias naquela cidade do inferno de maneira alguma - cometeu um leve deslize, enquanto olhava a possibilidade de pernoitarmos lá(proposta por mim rejeitada e por meu emprego também).

A passagem de volta não constava nos registros da companhia horrenda.

(Nota: não, NÃO voe pela porra da companhia Webjet. É uma verdadeira merda de companhia, péssimo atendimento e tarifas idiotas para casos assim. Antecipar voô? Claro, mediante o pagamento de 110 renais por pessoa + diferença de tarifa.)

Havíamos, inadvertidamente, agendado uma passagem para...o dia seguinte, 24 horas depois.

Como fazer então? Eu já estava zerado de crédito no banco, contando com a estrondosa e onírica quantia de dez reais em minha conta. Precisaríamos pagar os tais 110 reais para cada. Me lembrei de uma modesta poupança que possuía na Caixa Econômica. Já estávamos esbaforidos, desesperados nesta corrida contra o tempo e contra o débito. Fomos correndo para os terminais existentes no aeroporto. Adivinha se não estavam funcionando. Claro que não. Corre para o banco 24 Horas. Tarifas absurdas, mas era uma emergência. Felizmente havia o necessário na minha modesta poupança, que deixou de existir.

Volte para o terminal da merda da companhia, que nos fez enfrentar a fila toda de novo. A esta altura, eu já estava trnasferindo minha promessa de arrancar as cabeças dos atendentes do consulado para a filha da puta no balcão da porra da empresa. E eu não era o único. Todos que estavam naquela fila queriam matar os atendentes da companhia. Havia um baiano que estava quase puxando a peixera e pondo os fatos da mulé para fora dos compartimentos usuais.

Pois não. Ah sim, vou ter de abrir o voô. Terão de pagar a taxa de...já sei, vagabunda. Eu pago, resolva meu problema. (dez minutos depois) Senhor, infelizmente não é possível fazer tal manobra, o senhor teria de comprar as passagens de volta e cancelar a do dia seguinte. Evidentemente, só restituiremos 50% do valor que vocês pagaram. Quanto custam as passagens? Quatroceintos e noveinta(paulistês) e oito reais, senhor.

Eu tenho dez reais no banco. Ficar até o dia seguinte? Sem dinheiro nem para comprar uma bolacha nesta merda de cidade, ter de pernoitar nesta porra de aeroporto no cu do mundo, onde uma fatia de pizza custa vinte reais??

Nem FUDENDO.

Existe endividamento, cheque especial, para estas horas.

Lá vou eu correndo para o terminal do Bradesco. Empréstimo. Quatrocentos reais. Câmera lenta, especialmente selecionada para momentos de extrema pressa como este. Nhec nhec nhec. Etapas desnecessárias, telas cheias de informações inúteis sobre como o banco irá comer meu rabo nos juros. Blah blah blah, FODA-SE!!! Libera minha grana, caralho!!! A quantia estará disponível em momentos. Tela inicial por momentos que pareceram vinte minutos. Perco a paciência, já bufando de extremo ódio pela sequência digna de uma comédia(aposto que havia alguém muito se rindo disto tudo), vou para o terminal do lado. Nhec nhec nehc. Saque. Nhec nhec nhec. Serviço indisponível.

Resistir tendências para rasgar minhas roupas todas e esfrangalhar os terminais, as pessoas ao meu redor e começar um incêndio. Pronto. Volto para o outro terminal. Saque. Nhec nhec nhec. Mais uns cinco minutos de espera até as notas saírem; voltar correndo, desviando dos meros obstáculos que são todas aquelas pessoas.

"Hell is other people." - Jean Paul Sartre. Confirmado, caríssimo.

Voltar, tolerar petulância de atendente ameaçada de extinção por minha pessoa. Pagar quinhentos contos. Correr para o terminal, ignorar a fila, uma vez que já havíamos sido atendidos. O voô? Sai em vinte minutos. O atendente, felizmente não faz caso de termos ido direto a ele, apesar de não ter sido a mesma que havia nos atendido na primeira tentativa frustrada de check-in. Olha para o monitor por instantes demorados, que me pareceram horas. E eu já pensando, "deu merda de novo, quer ver?"

"Bagagens?" - "Não." - "E de mão?" - "Isto." - "Certo. Embarque imediato, portão 21."

Suspiro breve de alívio. Corre corre corre.

Pessoas. Sempre no caminho, pessoas. Malditas pessoas.

Detector de metal. Pi pi pi. É a PORRA do meu relógio. Toma, filho da puta. Vai pra merda e me libera. Corre corre corre, MALDITAS PESSOAS!!! Saiam do caminho! Terminal vinte e um. Nada. Painel elctrônico: voô 6774, embarque imediato, portão 17. Corre corre corre, porra de merda do caralho do inferno do cu do judas de pessoas em nosso caminho! Marcela espanta uma velha com um bater de palmas, sai da minha frenta, caralho!!! Eu saio rindo diante da reação indignada da velha. Portão 17. Nada. Atendente: "Não, é no portão 21A."

Voltemos, correndo, desejando imensamente ter trazido uma serra elétrica para eliminar os obstáculos que são os idiotas que te veêm correndo e não saem do caminho.

Atendente, novamente. "Sim é aqui, mas ainda não chamaram." Ah, ao menos isto. Esperemos, esbaforidos. "Embarque imediato, voô da MERDJET 6774. Façam duas filas, de lugares ímpares e pares. E eu me pergunto, por quÊ, mas nem tenho forças mais para protestar.

Eu só quero sair desta merda de cidade. Desta amosta grátis de inferno.

Embarcamos. Assim que embarcamos, eu faço questão de mandar toda a cidade tomar no cu com gestos obscenos que proferi para a janela. Neste momento, já estava esperando o avião dar pane e explodir, para encerrar com chave de ouro a divina comédia que foi esta epopéia de tentar retornar para casa. Seria perfeito para o tal onisciente que tanto se diverte com enfezados naturais como eu.

Não aconteceu. O restante foi quase todo certo, com exceção da discussão que se seguiu assim que chegamos em casa, "Mas que absurdo, como você foi fazer isso? Pare de viajar, aterrisse, blah blah blah." E eu só assistindo, tentando ser conciliador. Não rolou.

A esta altura, eu nem mais me importava com nada. Estou absolutamente fudido de grana doravante, até sabe-se lá quando, mas está resolvido, está encerrado. Não mais terei de voltar para aquela PORRA de cidade infernal, a não ser daqui a dez anos, data em que a validade do oneroso documento expira.

Foda-se também. Estou vivo, o dia de ontem foi uma merda, mas acabou. Eu não acabei, apesar de ter me aproximado dum infarto fulminante causado pelo mais puro ódio diante de tanta merda junta.

Ou seja, apesar dos pesares, eu ganhei. Foda-se o resto.

Mas quero muito que este ano dos infernos acabe, mais que nunca. Pra merda, chega.

E devo retornar ao normal aqui. Só queria relatar o caso...coisa que não fazia há tempos porraqui.

Assim, assado. Depois tem mais né?

(Espero que não mais episódios desta natureza, entretanto.)


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Nada melhor.

Nada melhor do que uma corrida atrás de cachorros fujões para se despertar numa segunda-feira pela manhã.

Inda mais em uma segunda nauseabunda.

Nada melhor que um final de semana longe de casa para evitar que rixas familiares muito primitivas tomem novas proporções.

Nada melhor que um café, meio litro de, ou mais, para se conseguir distinguir um fiapinho de lógica às segundas feiras pela manhã.

Nada melhor que ouvir o rádio por quarenta minutos enquanto estamos em trânsito, para se perceber que não estamos perdendo nada nunca escutando tal aparato.

Nada melhor que analisar o modo de vida dos aborrescentes mudernos, xingar a música, os cabelos, o modo de ser deles para nos darmos contas que estamos ficando de fato velhos.

Nada melhor que uma ida ao nosso eterno "retiro espiritual", os locais que cada um de nós elege para nos reenergizar ao longo de nossa vida.

Nada melhor que uma conversa com nossos velhos amigos.

Nada melhor que café, dez mil litros de, pelas segundas matinais setentrionais etissetera com flocos crocantes e o delicioso...não. Nada melhor que café, puro café. Muito café.

Segundas, ó segundas. O que me aguarda neste enigmático dia designado por algum sádico qualquer?