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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Músga, parte dois.

Pensei e pensei a respeito do tema, tentei elaborar alguma lista mais ou menos certa, mas creio que é uma tarefa meio que inexequível, ao menos sei que não faria justiça à todo meu universo musical que faço uso para ilustrar auditivamente falando, minhas emoções diárias. Então, achei melhor apenas fazer um relato sobre algumas músicas e suas associações.

Já afirmei antes, e volto a dizer, infelizmente me parece que a raiva é a emoção mais bem manifestada por pessoas de meu clã, esses malditos Burians, tchecos tortos transplantados para terras tupiniqunis. E se algum dia ouvires em minhas caixas sonoras estereofônicas canções da banda Soundgarden a todo volume, fiques avisado: O clima é de raiva, da mais absoluta possível. Caso esteja ouvindo músicas como "Ty Cobb", "Blow Up The Outside World", "Fell On Black Days", podes saber que o bicho está pegando mesmo. Agora, caso "The Day I Tried To live" esteja no repeat, aí aconselho manter distância, mesmo. É impressionante como uma música consegue ilustrar de forma tão acurada o que sinto em momentos de tremenda fúria. Podem categorizar a voz de Chris Cornell como sendo visceral, ou simplesmente gritada mesmo, não me importo. Já foi mais de uma vez que fiquei afônico de tentar acompanhar a letra de tal música.

Outra banda que faz-me experimentar uma certa catarse de raiva, é Alice In Chains, mas esta banda, ao contrário de Soundgarden, consegue ter músicas mais amenas que escuto em momentos mais normais de meu dia a dia. Das bandas de Seattle, boa e saudosa fase dos anos 90 que tanto curti, estas duas são as que mais se sobressaem ainda quando o assunto é ter raiva.

Outro elemento muito presente em esta personalidade tão pessoal, é a melancolia, a tristeza, evidentemente(que surpresa, titio Buriol.) Existem algumas experiências sonoras que costumo reservar para momentos em que o bicho pega para este lado. Existe uma música, "Reverse Soundtrack", da conhecidíssima banda Something for Kate(Goddamned fuckin' nice aussies. Highly recommended), que já me fez ter ânsias de choro em público, em pleno ambiente de trabalho, anos atrás. Desde tal época, só a escuto em momentos de profunda depressão. Mas acredito que nenhuma sequência musical me remeta mais a tristeza do que as primeiras seis músicas do segundo disco daquilo que considero uma moderna ópera do roquenrou; falo de "The Wall", Pink Floyd. Quando o disco chega em certos versos de "Nobody Home", é meio que difícil para mim segurar o choro, se o dia estiver muito mas muito deprê. As letras das músicas que integram este "movimento" do disco são a definição definitiva bem definida do que considero a mais absoluta derrota perante o ocaso da vida...

Músicas para momentos alegres...(Alegria? O que ser isso?) Blah. Sim, existem momentos que me sinto meio abobalhado, meio que ululante. Nada melhor que coisas mais animadas. E sim, existem músicas deste tipo em minha imensa coleção de mp3Z: Apples In Stereo: escute o disco "Discovery Of a World Inside The Moone" e veja do que estou falando. Aquilo ali eu não consigo ouvir se não estiver completamente retardado de animação - acontece, mui raramente, mas acontece. Existem músicas de outra banda, esta denominada Spoon, que me fazem até quere dançar feito um idiota, caso o momento esteja bom; o disco "Girls Can Tell" é um exemplo clássico disso. Músicas com letras mais intensas, não necessariamente alegres por si, mas com melodias mais "dançantes", podemos encontrar em discos de Jane's Addiction. Escute "Been Caught Stealing" e "Stop!", por exemplo. Uma míriade de canções estupidamente alegres da banda que mencionei ontem, GbV, também podem ser ouvidas em momentos de extrema descontração.

Músicas para momentos, raros momentos que eu só consigo definir como "pós-orgásmicos", aqueles momentos em que se alcançou uma meta, conseguistes alcançar o inalcançável, deu tudo certo e no final você ainda ganhou a mocinha ou mocinho, seja lá o que for, aqueles raros momentos que tudo dá certo e a esperança no futuro está em alta. Sim, existe uma trilha sonora para estes raríssimos momentos. Trata-se de músicas que me definem enquanto pessoa, enquanto este ser humano muito estranho que habita esta vida, este planeta.

Tão raros são tais momentos, quão raras são as músicas que adotei para escutar nestas horas. Consigo me lembrar apenas de duas. Uma delas, é de minha banda inglesa preferida, daquelas raras músicas que costumo escutar e ser completamente arrebatado logo na primeira audição. Trata-se da canção "Duress", da excelente boa ótima banda Swervedriver. Podem me falar o que quiser - que é longa, que a letra não é exatamente alegre, que isto e aquilo - Dane-se. Não consigo definir uma música cujo impacto tenha sido tão fulminante e revelador para mim. Acho que nunca me esquecerei do momento que escutei-a pela primeira vez. Posso afirmar que, se eu pudesse casar-me com uma música, seria com esta.

A outra, não é tão significativa para mim quanto Duress, mas é igualmente certa para me definir musicalmente; trata-se de "Fripp" da banda Catherine Wheel. Eu adoro tal música, e só costumo escutá-la em tais momentos, raros momentos.

Em verdade, sei que tal compilação de nomes e bandas é injusta para o panorama musical que frequenta meus ouvidos, pois bem sei que estarei esquecendo de várias musicalidades no processo de inventar tal textículo. Mas, no exercício quase diário de aqui comparecer e dar meu pitaco em assuntos tão pessoais como este, é o que saiu. Bem sei que sou um maldito roqueiro de meia-idade e que é tendencioso a generalizar seu gosto em bandas de língua inglesa. Já escutei muitas acusações do tipo, "você só gosta de coisas americanas"(não é verdade) e "porque não escutas coisas brasileiras" blah blah blah.

Respondo da seguinte maneira: por dois motivos: um - o que escutei não fez minha cabeça e dois - porque tenho preguiça. Tá, podem voar novas acusações. Não me importo muito. Não escuto isto ou aquilo porque é "em inglês."

Somente escuto o que me faz a cabeça, e não aquilo que me faz parecer "cult", por assim dizer. E sinto ter de usar tal exemplo, já pedindo perdão aos que realmente curtem a coisa: eu vejo muita gente que escuta bossa-nova apenas para parecer ser cult. E abomino, muito mesmo, tal comportamento. E acontece não somente no campo musical. Aposto que alguns de vocês conhecem alguém que leu aforismos de Nietzsche, ou leu "Zaratustra" e se diz intelectual. Sendo que nem sequer entendeu nada do que leu.

Eu tenho imensa preguiça deste tipo de gente.

Em suma, por hora é isso. Tenho que trabalhar, meu trabalho, ganha pão, de fato.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

I love it.


-Vittorio E-

I Took A River And It Wouldn't Let Go
I Want You To Stay And I Want You To Go
I Took A River And The River Was Long And It Goes On

I Want To Be There Tonight
I Want To Get There But It's Just Out Of Sight
I Took A River And Felt So Slight So Hold On

So Hold On
Hold On
It Goes On

I Took A River And The River Was Long
I Want You To Stay Course I Want You To Go
I Took A River And The River Was Long And Goes On

It Goes On
Ooh It Goes On
It Goes On



E também adoro ver filmes que me fazem sentir bem. E que, por "coincidença" têm uma trilha sonora que me apanhou de jeito...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Um. Mil. Anos.

Sei, sei. Que despertei. Mas ainda durmo. Não aqui, não na mesa, não na frente disto, por detrás da vida, detrás dos minutos, detrás de atrás disto tudo, do que foi do que aconteceu, quiçá do que está por acontecer, mas por tudo que fui e que não fui, até o momento, até então.

Dormi sem despertar, ainda não, ainda não é o momento de acontecer, não é o minuto final, o derradeiro sopro de consciência de aqui estar sem nem ao menos poder se dar conta disto: estar sem ficar, ficar sem estar, acontecer sem nem saber, sem nem se importar. Passa, passou, passará.

Sei que ouvi a voz, alguma voz digna de ser chamada, de ser escutada, a salvação no meio da tempestade, no olho do furacão, voz esta que me procurou, me encontrou, me embalou em e levou, daqui para outro lugar, daqui para ali, sem nem saber, sem nem ter que saber, sem se importar com todo o resto, por mais pútrido que seja ele, seja o resto, pequeno e fraco ou o Resto, que tanto me consome, que tanto me devora sem nem ao menos me consumir por deveras assim o fazer, sem saber. Sem ser.

Não deixo de escutar a salvação sonada, sonante, sonora, irradiante, pulsante, eletrizante, atordoante, a retumbar em meus opuvidos, vibrando não somente meus ouvidos mas também algo mais, algo que clichês enumeram em genêros em demasia por entre a má poesia, o mau momento, o solene acontecimento mais recente do submundo musical que se estende diante de minhas cansadas e obsequiantes orelhas: quanto tempo elas procuraram em vão por tal sonoridade, por tais melodias, para assim do acaso as encontrar na dobra da semana, no final dos dias, no final da noite que se encerrou em notas nada magras, mas muito recheadas da carne estranhamente palatável das sônicas dimensões etéreas do além-mar, do além-mundo, onde após muito procurar, houve o encontro tanto dantes adiado de minhas expectativas com o que foi realmente tocado ali naquele obscuro momento, naquele exato instante.

Se aqui nunca estive antes, se tais notas nunca escutei antes, é por alguma falha no universo que me circunda: é como se esta música sempre existisse em mim, sinto-me assim, por demasia, por escesso, por estranho desespero, nada vulgarizado, sempre almejado, enfim encontrado.

O que isto me diz, o que dizes tu, ó sonoro momento, ó estranho acontecimento, único sentido para o ocaso de uma inexistência dominical, sabadal, por assim dizer, por assim ter sido? O que significas? O que queres de mim? Siga o som, me dizes, siga o som, assim entendo. Interprete e aconteça: não se deixe arrefecer, não se deixe. Lembre-se que sou perfeito, assim como também não sou; que existo com defeitos, e com mais qualidades, que aqui existo e aconteço dentro de potenciais e arranhões, entre a luz e sua ausência, sem sua onisciência, mas com sua onipresença: algo que em ti sempre existiu, sem que nem ao menos desses conta disto.

O que sou eu? Apenas o que se gravou, em um dado instante, em mero instante, em tanta fuga e vento, em todo este momento que aconteceu, que aqui esteve a partir deste momento, mas que sempre existiu em você. É o que amas, é o que queres ser, o que sempre foi, o que sempre em tu esteve, sem que nem ao menos fosse percebido, fosse escutado, fosse realizado. Até este momento.

Continuo vivo, por sua existência. Continuo vivo para escutar tal essência. Continuo vivendo, por almejar momentos como este, por almejar acontecimentos como este. Continuo; pois creio que mais momentos como este podem, devem existir, em mim ou além de mim, para mim e para outrem, para que todos nós possamos assim existir. Possamos justificar estarmos aqui.

Obrigado por salvar-me, por ao menos tentar me salvar, por ao menos um pouco de esperança me dar, para que aqui possa permanecer, ficar, sem ser sem acontecer, mas ao menos podendo dos deuses as vozes gravadas escutar, ao menos para mim, ao menos para mim, assim me parece, assim me pareceu, assim me soou.

Assim como o café e as vulgas substâncias que me mantém em funcionamento, assim o és para esta alma malfazeja que aqui acontece de existir, de se fazer escutar, ao tempo e ao vento, ao que houve em mim sem nem ao menos ter deveras acontecido. Sinto-me mais sólido, um tanto menos estólido, um tanto mais recarregado, energizado, por assim dizer.

E se a manhã é cinza, um yom de ouro a mais foi por mim depositado na espera por mais dias como estes que se passaram, sem existir nem acontecer, mas embalados na sonora lembrança, na sublime existência, no exato momento de ali estar para poder escutar, de ali estar para poder apreender, dali estar dem nem ao menos se dar conta, de existir sem nem acontecer. Sem ser.

Mas sendo, existindo, através de ondas sonoras, por outrem criadas mas que me espelham notas e refletem faces que nunca existirão assim como o ar que respiro, sendo sem ser, mas sendo assim mesmo. Sem perfeição, sem nem ao menos tentar, mas ainda assim o sendo.


Obrigado, obrigado, muitas vênias.



I found a reason to live again.

-----Adam Franklin, Birdsong.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Coleção Completa.

"Aqui, sua tia mandou estes livros de presente para você."

O ano era 1990, se não me engano. Recebi em mãos dois livretos. O primeiro que examinei, tinha a capa preta com uma magnífica ilustração exibindo um quarto de criança, com um garotinho apontando uma arma de brinquedo contra dois olhos vermelhos que ameaçadoramente se encontrava debaixo da cama, enquanto um tigre com cara de assustado segurava um pequeno tênis de criança como se fosse isca para que o monstro babando debaixo da cama dali saísse e fosse alvejado pelo intrépido infante. Chamava-se "Algo babando embaixo da cama". O outro livro, de capa predominantemente branca exibia outra ilustração tão maravilhosa como a do outro livro e chamava-se simplesmente "Calvin e Haroldo".

Eu tinha 13 anos na época. Não era nenhuma ocasião especial, do tipo aniversário ou coisa assim. Evidentemente, de bom grado recebi tais inesperados presentes, pois logo de cara já gostei das capas dos livretos. O desenho era realmente impressionante. Eu, desde minha tenra infância já havia sido "amaldiçoado" com a carga genética de minha mãe, e já gostava muito de passar horas por dia rabiscando e fazendo histórias, e curtia bastante este tipo de humor, em tiras. Era muito fã de Garfield, e posso afirmar que foi de minhas primeiras influências nesta área.

Mas com Calvin e Haroldo foi diferente. Eu fiquei completamente embasbacado com os dois livretos. Os tempos eram diferentes, não havia internet, e eu ainda era praticamente uma criança em vários aspectos, inclusive de brincar com carrinhos e coisas do gênero. E sempre tive imaginação fértil, gostando de inventar mesmo personagens fixos para meus devaneios infantis. E volto a dizer, eu fiquei maravilhado com os desenhos de Bill Watterson. Era um mundo bem diferente dos desenhos mais simples de Garfield. Muito diferente. E o humor, as histórias de um garotinho de sete anos com uma imaginação mais fértil que o solo da mata atlântica, quando esta ainda existia em sua plenitude. Eu gargalhava alto de certas tiras. As caras do Calvin eram as mais engraçadas possíveis.

Desde então, considero estes personagens como paradigmas deste tipo de humor desenhado. E até hoje eu considero todos os elementos do universo criado por Watterson como absurdamente fantásticos, tanto em termos de desenho quanto em termos de humor. Os livretos impressos pela (acho que) extinta editora Cedibra, estão em meu poder até hoje, bastante amarelados e com orelhas nas pontas, tantas foram as vezes que li e reli. Fiquei desapontado quando soube, em 1995 que Bill subitamente deixou de as desenhar, por motivos que até hoje não entendi ao certo. Sei que ele nunca terceirizou a produção de seu trabalho, ao contrário de Jim Davis(Garfield) e mesmo o nosso tupiniquim Maurício de Sousa; tampouco permitia a exploração comercial de seus personagens além da publicação dos livros. Não produziu bonecos, adesivos e quejandos. Talvez isto tudo tenha gerado uma espécie de estafa. É muita responsabilidade e muito trabalho para um cara só.

Muito tempo se passou desde então, 20 anos (a gente só envelhece mesmo). Minha vida deu várias voltas, fiz várias coisas, tive vários desejos. Mas um deles sempre me acompanhou. Eu sempre quis ter todos os livros desta dupla. Mas eram muitos, e minha grana sempre foi algo que não me permitia muito me permitir certos luxos, como este. Lá para 2006, se não me engano, um amigo meu, o famoso Damasceno, o Eduardo, adquiriu algo que me fez ter ímpetos de invadir seu apartamento na calada da noite e de sua estante sequestrar...The complete Calvin And Hobbes, uma caixa contendo três imensos volumes com todas as tiras da dupla.

Na quinta feira passada, eu e meus companheiros de "escrotório" fomos ao xópis Diamongol, que aqui perto fica, para lá almoçarmos. Conforme já disse antes, aquele templo do consumismo neo-burguês-zeolandês-capitalista-classe-média belorizontino para mim só tem três serventias: eventuais almoços, quando o escasso orçamento permite, consumo de cafézes mui saborosos e visitas à livraria que lá existe, que muito decaiu desde sua reforma que a transformou em Saraiva Megastore, nome muito imponente, mas que poucas vantagens significou para mim e meu infalível companheiro de consumismo literário, a saber, Hugo o Devogado Gigante.

Terminado o almoço, decidimos ir em tal livraria, que deixamos de frequentar por muito tempo, devido à reforma que poucas vantagens para nós significou. Como vingança do destino, ou simplesmente ironia do universo, Hugo avistou duas coleções embaladas em caixas que o tentarma bastante a ficar imensamente mais pobre para atender a seus desejos. Eu ri para ele e falei, "É, já vi que o senhor irá ter que gastar." Eu tinha visto algo mais modesto, uma antologia poética de Carlos, o Drummond de Andrade que me tentou, e estava em promoção. Mas o buraco orçamentário em minha conta era tão grande que não me atrevi a comprar. Mais tarde, quem sabe?

Quando íamos saindo da lija, Hugo viu outra caixa na vitrine que chamou sua atenção, e fomos em sua direção para examiná-la. Era uma coleção de três volumes de história da segunda guerra mundial, assunto que sempre o fascinou.

Foi aí que a coisa aconteceu. A ironia.

Enquanto meu companheiro babava por cima da caixa e já fazia cálculos para ver como e quando seria possível adquirir tal coisa, eu olhei inocentemente para meu lado esquerdo.

The Complete Calvin And Hobbes.

O mundo parou naquele instante. Meus olhos brilharam, e eu voltei vinte anos atrás no tempo. Na hora eu soube que TERIA que adquirir tal coisa, agora diante de mim, tão perto mas tão longe devido ao seu preço, salgado mas justo. A coleção é absurdamente bem feita e bem trabalhada, com a caixa e os três volumes que contêm tudo que eu queria desde 1990.

Pois bem. Ontem, após seis meses de espera, o sindicato do sei-lá-o-quê que os funcionários desta empresa que trabalho são afiliados, resolveu liberar o icomensurável aumento anual de 5%, que estava travado em processo administrativo qualquer desde dezembro de 2009, e de repente me vi com uma quantia que me permitiria fazer uma extravagância. Manobra arriscada, pois eu sabia que ficaria absolutamente falido após tal empreitada.

Mas eu sabia o que iria acontecer. Saí do almoço, me separei de Hugo, que precisava tornar ao escritório para fazer algo, e ouvi a vozinha fina de um moleque de sete anos me chamando. "Venha, compre."

Fui.

Comprei.

E fiquei tão feliz. Eu era o garotinho de sete anos. Que desde os treze esperou por tal momento. Quase fui esmagado pelo peso de tal caixa, assim que a removi da prateleira. A moça do balcão não conseguiu erguer tal peso para me devolver, após ter passado o cartão na máquina e ter me aliviado de um peso similar em minha conta bancária. Fui cambaleando de volta para a sede da Funchal, entortado pelo peso de tal caixa. Tive que gastar mais dinheiro para chegar até a casa de meu sobrinho torto, aquele que dou aulas de como não desenhar e como jogar conversa fiada e filosofia barata fora, pois sabia ser impossível transportar tal peso (10,2 Kg) em um coletivo, ainda mais naquele horário.

Meu aluno ficou louco, e disse que irá hoje mesmo adquirir sua caixa também. Bom ver que o pequeno menino de minha altura e metade de minha idade está sendo bem orientado, não? Ainda tive o privilégio de depois conseguir uma carona com a mãe dele até minha casa, onde fiquei um bom tempo apenas contemplando a caixa, sem ainda de fato ler tudo. Sei que ali talvez exista a explanação acurada dos motivos que levaram Watterson a deixar de produzir tal obra-prima, e sei que ali se encontram inumeráveis motivos de boas gargalhadas.

Na calada da madrugada, quando tive súbita insônia que tanto pesa minhas pápebras nesta manhã, mandei às favas as preliminares e saboreei muitas tiras, tendo que segurar meu volume do riso quando me deparava com aquilo que já sabia que iria encontrar ali.

E estou tão feliz. Minha vida ficou um pouquinho mais completa.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A le bar.

Dias legais são cada vez mais raros de serem vivenciados, especialmente para este insólito ser Noiado, mas não importa muito se é sexta e existem promessas de encontros com as poucas pessoas que ainda tenho em consideração mundo afora por aí. Ontem, o dia foi quase mais um desses sem qualquer pendão de esperança, mas no final do dia as coisas mudaram radicalmente com uma inesperada proposta para ir ao cinema. Como não almejava muito fazer outra coisa em casa, lá fui eu, excelentemente bem acompanhado para o tal cinema, a fim de assistir um filme que nunca havia falado, mas que me despertou interesse por ser daqueles irmãos malucos, os Coen.

O filme em questão era "Um Homem Sério", e eu esperava por uma bizarrice completa, como é quase sempre o caso dos filmes desta dupla. Não que sejam ruins, de forma alguma, mas mais de uma vez eu assisti a um filme deles e quando terminou eu fiquei lá sem saber o que tinha acontecido. Este, não foi diferente. A história é deveras engraçada e por vezes até muito deseperadora, pois a vida do protagonista é uma verdadeira merda, e a coisa só vai piorando ao longo do filme. Creio que se fosse comigo, lá pela metade do filme eu teria matado as pessoas ao meu redor ou simplesmente enlouquecido, vendido todas minhas posses por um maço de acelga e teria ido tentar a sorte em Phuket, algo assim.

Enfim, de qualquer maneira, recomendo o filme. Se você for daqueles que adoram ver os outros sofrendo - todos nós temos um pouco desta deplorável mas definitivamente humana característica - este é seu filme. Garanto que irá se divertir.

Mais adiante, fomos para um butecao encontrar outros de nossos "sujêras" preferidos, os amigos que sempre baixam lá dos quintos dos infernos para beber cerveja com a galera, e lá ficamos discutindo todos aqueles temas relevantíssimos de mesa de buteco: o cachorro vadio que ali circulava, o velho a la Sloth que por ali passou, a incapacidade que certas pessoas têm de não conseguirem nunca ligarem o "fodâs", e por aí vai. Mas tudo muito repleto de risadas e sensação de bem estar, de estar com pessoas legais e apenas falando merdas, sem nem ao menos se importar com nada.

Ou quase nada. Confesso que por soturnos momentos, algumas partes da conversa me deixaram meio calado por alguns instantes, a refletir sobre minha fraude de vida. Felizmente, meu esforço em não querer ser mais uma vez o chato da festa deu resultados, e consegui empurrar tais nefastos pensamentos para algum canto de minha cabeça, ao menos que esperassem estar eu sozinho para que chagassem À tona. Não me atrapalhem agora.

Do primeiro buteco, que não aceitava nosso dinheiro de plástico de débito em conta, fomos para um outro butecão mais distante. Ali tivemos trilha sonora inusitada, pois o local era provido duma daquelas jukebox estranhas lá no fundão, e de tempos em tempos alguém ia lá e punha alguma insólita seleção musical para tocar. Inicialmente, um pagode horrendo. Depois, Vanila Ice (Ice, ice, baby, c'mon!) , depois A-ha, depois Aerosmith em seu auge da baraguice. Acho que teve algum Bon Jovi também. Felizmente, era tudo muito ignorável em nossa conversa, que já estava devidamente mais animada pelo consumo daquela cerveja diliçiosa que servem porraqui.

Fiquei firme ontem entretanto, e conservei minha sobriedade, pois bem me lembro do que aconteceu na última vez que fiz isso numa quinta feira e fui trabalhar no dia seguinte com aquela maravilhosa ressaca.

Depois de muito rirmos, decidimos puxar o carro lá pela meia noite, felizmente houve uma carona até meus redutos irredutíveis, e tudo terminou bem.

Quase. Fui dormir mais uma vez com o ressaibo da derrota de, mais uma vez, não ter conseguido falar. É minha sina, eu diria. Mas já estou numa fase que apenas fico dormente, quase nãoi sinto mais nada, então não fiz grandes casos.

E agora, que venha o final de semana para o bem ou para o mal. Se bem que para o mal, neste caso é muito relativo. Mesmo o pior final de semana é preferível à inexistência. Que venha, portanto. E que todos nós tenhamos um excelente recesso.