sexta-feira, 20 de março de 2009

Desconectado.

Céus. Vinha eu para cá, ouvindo minhas musiquinhas, pensando calmamente no assunto que trataria na coluna de hoje, tudo muito bom, tudo muito bem. Chegando aqui, dou de cara com o burburinho de milhões de vozes femininas ao mesmo tempo na área da cozinha deste lugar. É incrível como várias mulheres juntas falando são capazes de amplificar qualquer assunto. Estavam todas indignadíssimas falando de um assunto que, pelo que pude deduzir, foi televisionado recentemente - algo como uma autêntica atrocidade, uma mulher de sei lá onde que torturava o filho de outra, uma era prostituta, catava tal infante pelo pé e soltava ao chão, blah blah blah.

Atrocidade? Sim, deveras. Uma barbaridade.

Uma das indignadas do recinto falou, "não sei porque assisto isso, é um sensacionalismo, uma barbaridade televisionarem isso, etc." De fato. Bem sei que os meios que comunicação estão repletos destas atrocidades, e quanto mais avançamos no tempo, mais sangrentas as notícias se tornam, mais indecentes são as notícias exibidas, etc etc.

Não sei se estarei sendo cínico, indiferente, insensível, sei lá - se afirmar que tenho a solução prática para tal coisa: Não assistir. Já fazem anos que desisti de tentar ver jornais, assistir à televisão normal. No máximo, vejo um ou outro seriado ou algum filme. De preferência em algum canal que NÃO tenha propagandas, e que NÃO seja dublado.

Me fartei disto tudo. Já sou Noiado o suficiente para ficar me indignando com os atos idiotas e vis de outras pessoas. O cerumano(homenagem aos brilhantes estudantes que prestaram o ENEM) é imbecil por natureza, é ruim por natureza, comete os atos mais condenáveis de todos os seres vivos que existem neste glóbulo que flutua no espaço sideral. Não me excluo deste rol, basta ser humano para ser uma atrocidade caminhante. Mas sei que existem milhares, milhões, bilhões de seres mais condenáveis por aí. Se quiser ter exemplos claros disto, assista ao jornal. Veja o BBB. Compre um destes "folhetins de el pueblito" que estão à venda em todos os lugares agora, pela módica quantia de 0,50 R$.

Eu, pelo meu lado, resolvi me desconectar disso tudo. De nada me adiantará ficar indignado com estas notícias, com estas imbecilidades que por aí reinam absolutas. De nada adiantará para o mundo, para a zoociedade em que vivo, que eu me estresse com estas notícias. Chega. Sei que muitos dos falsos-moralistas por aí fora, se lessem isto aqui, me acusariam de ser um cínico, um insensível, etcoetera. Fodam-se. O que estão eles fazendo para mudar a situação em si?

Sim, pode soar bem descrente isto tudo, bem indiferente, bem cínico. Mas estou ultimamente cada vez mais farto de tentar agradar a todos(tarefa inexequível), e nunca me agradar. Como diria Fernando, o Pessoa, em sua encarnação de Álvaro de Campos:

"Queriam-me casado, fútil quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que haveremos de ir juntos?
"

Enfim, eu adoro quando meus autores preferidos falam por mim.

Eita, eis que soou super-tensa esta nota do dia. Alguns devem estar pensando que estou em um de meus piores dias. Na verdade, não. O plano do dia era escrever sobre solos de guitarra, para vocês terem idéia. Mas, ao chegar aqui e ouvir o bafafá sobre a indecência televisionada, me senti obrigado a escrever sobre isto, deixando o outro tema para outro dia.

Sim, escrevo tudo isto de improviso, assim que chego aqui, portanto às vezes passo da conta e escrevo demais. Fui informado que a maioria das pessoas têm preguiça de ler tudo isto. Talvez seja por isso que se mantêm tão indiferentes....ou não né, quem sabe.

Enfim, bão fim de semana a todos que tiveram a paciência nesta tarefa hercúlea que é ler esta encyclopaedia de loucuras...

quinta-feira, 19 de março de 2009

Bloqueio.

Frio, frio.

Neve por todos os lados.

Ele caminhou até a janela. Evidentemente, não havia muito o que ser visto. Quase não era possível distinguir as formas dos pinheiros que circundavam a casa. A cabine. Frio, muito frio. Esfregou as mãos numa tentativa de restabelecer a circulação sanguínea ali. Por mais que tentasse, não conseguia afastar a dormência das pontas dos dedos. E tal dormência piorava ainda mais seu já abalado ânimo em escrever.

Olhou ao redor. Nada muito animador. Andou até a cozinha, pensando em fazer algo para comer, embora não tivesse o mínimo de fome. Apenas queria adiar mais um pouco a visão. Abriu a geladeira, latas, latas. Sopa. Atum. Sardinha. Ficou olhando e olhando, procurando alguma coisa que não estava ali. Apareceu-lhe na mente a pontinha de um pensamento. Afastou-o, fechou-o a ferros em algum outro canto de sua cabeça.

Fechou a geladeira com estrondo e impaciência. Doze passos. O quarto. Olhou ao redor, evitando passar a vista no canto esquerdo, perto da janela.

Nada ali também.

Dezesseis passos. A sala. Sabia que deveria economizar madeira, mas se agachou diante da lareira e fez uma pequena fogueira ali. Uma, duas, três, quatro achas e alguns gravetos, alguma serragem. Fogo. Procurou em seu bolso a cigarreira. Sabia que não o deveria fazê-lo, mas sentia vontade de se acabar um pouco mais.

Desde o derradeiro momento, havia se empenhado em ser estúpido. Acendeu o prego de caixão na chama que se formava e aspirou a fumaça. Sentou-se na poltrona solitária e olhou para o teto, resistindo bravamente à tentação de contar as tábuas do forro. Sim, ele já as havia contado algum outro dia, mas não se lembrava do resultado. Levantou-se, dez passos, bar, garrafa de gin. Tônica. Copo. Glug, glug, repita.

Lá fora o vento uivava. O que estava fazendo ali? O que estava tentando provar?

Levou a garrafa para a poltrona, mesmo sabendo que detestava o gosto daquela bebida pura. Não precisaria de gelo, já estava frio o suficiente.

Glug, glug.

Repita.

Jogou o toco do cigarro no fogo. Começou a sentir outra espécie de dormência pelo corpo. Ah, o álcool. Quem teria sido o primeiro ser humano a resolver beber? Quem teria sido o primeiro cara que percebeu o tanto que aquilo poderia ser tão divertido por vezes...e tão terrível depois? Enterrou a cabeça nas mãos. Todos haviam dito a ele, não faça isso. Não fique sozinho. Não numa hora dessas, ao menos. Não vá para as montanhas. Vá para o Caribe. Havaí.

Mas não. Canadá. Em algum lugar esquecido. Acesso impossível por carro. Alugue um snowmobile.

Glug, glug.

Repita.

Ele havia dito a seu editor, preciso de idéias novas. Preciso de mais tempo. Não estou em condições de pensar direito por aqui. Porque. Tenho vontade de matar alguém.

Não, não havia dito aquilo, mas o pensamento lhe ocorria sempre que pensava...nela, nele, no maravilhoso triângulo nada equilátero. Eu e ela, ela e ele.

Ela e ele.

Glug, glug.

Repita.

A onda já era inegável. O álcool corria descontrolado por todo seu corpo. Hi hi hi. Achava tudo engraçado, muito engraçado. Levantou-se, dez passos...mais um, dois. Tome mais um golinho, mais dois. Ha ha ha. Que engraçado ver que tudo gira. Tudo gira! Não preciso de ninguém, disse pra si mesmo com toda a convicção. Ninguém, ouviu sua vaca puta. Seu filho da puta. Seus miseráveis malditos. Nin-guémmmmm.

Doze passos, treze passos, quatorze, dezesseis. Não! Cadê o quinze? O quinze, como havia se esquecido logo dele, porra. Números eram tão legais. Menos quando impressos em um extrato bancário. Menos quando impressos em um relatório de divórcio. Ah, mas que diabo. Volte aqui, Bombay-Sapphire. Meu amigo, meu irmão!

Glug, glug, glug, glug, glug, glug.

Acho melhor não repetir.

Não agora.

Cambaleando pela cabine, foi impulsionado até o monstro. Até o mecanismo.





Tec, tec tec. Agora sim, estava pronto para escrever sua obra-prima. O livro que salvaria sua vida, salvaria sua carreira. O manuscrito que iria lhe render milhões. O livro que esfregaria na cara daquela vaca. Daquela puta, glug glug. Tec tec tec tec.

Plin!

Olhou para a folha de papel.

"Aquella vaca. Aqwuelas putya. vaik se fudre."

Ótimo. Já tenho o primeiro paragráfo, de minha obra prima. De minha salvação.

Glug.

Arremessou a garrafa na parede, obtendo mais um punhado de cacos ao redor do canto da máquina de escrever. Bateu a cabeça no teclado, incrementando ainda mais o texto ali existente.

Plin!

Não se importava com o tão ridículo estava. Chorou e chorou, se engasgando cada vez mais com aquilo tudo. Por um descuido, escorregou para o chão e caiu em cima da poça de álcool e cacos de vidro.

Ai!

Os cortes amenizaram um pouco da bebedeira. Pra quê. Levantou-se e observou sua mão, acompanhando o sangue que dali escorria. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete passos. Porta. Banheiro. Álcool, desta vez iodado.

Aaaaaaaiiiiiiiiiii!!!!!!!

Olhou para o reflexo no espelho já trincado. Mais um soco o estilhaçou mais ainda.

Dez, doze, sei lá, passos. O quarto. Desabou sobre a cama, sentindo o quarto girar ao redor. Gira gira gira. Tudo gira.

Amanhã, disse ele. Amanhã será melhor. Amanhã, mentiu ele para ele. Amanhã.

quarta-feira, 18 de março de 2009

PXE.


-Boa noite, senhoras e senhores. Bem-vindos à Rádio PXE. Nesta noite teremos aqui no estúdio uma entrevista com um personagem muito peculiar, que atende pelo nome de Sr. Porca-russa. Ele vai nos dar diretrizes, visões sobre o assunto controverso sobre a presença de alienígenas em nossas escolas, ônibus e ambiente de trabalho. Boa noite, senhor Porca-russa.
-Bom dia.
-Er...O senhor escreveu um livreto sobre o assunto em questão, não é mesmo?
-Na verdade, eu apenas copiei tudo que os alienígenas em minha cabeça disseram que eu deveria escrever.
-Em sua cabeça? Quer dizer que o senhor crê que eles estejam em sua cabeça?
-Não creio, eu sei. E sei que eles estão em sua cabeça tambem, senhor Mitchell.
-Sei, sei. Então quer dizer que o senhor crê que eles estão entre nós de fato?
-Eles estão dentro de nós.
-Vejo aqui também que o senhor é um major reformado.
-Sim, passei por um processo intensivo de reformas internas para acomodar meus hóspedes interiores.
-Então o senhor também se interessa por design de interiores.
-Sim. Mas prefiro fazer design de protótipos mais avançados, como este modelo aqui de câmbio para automóveis, que pretendo vender no câmbio negro.
-Interessante. E os alienígenas que indicaram a você esta sua missão, de escrever este livro sobre as flores campestres interiores e a confecção de alavancas de câmbio, entitulado O Papa?
-Sim. Algum dia pretendo escrever sobre o sumo pontífice também. Já tenho até o título de tal obra, algo como Apocalypse Agora.
-
Entendo. O senhor também afirma em seu livro já ter visto um ornitorrinco.
-Sim. Ele era deveras carinhoso. Sinto a falta dele...
-Er, mudemos de assunto. Falemos de camelos.
-Sim, tenho ainda uns doze aqui no bolso.
-Em seu bolso?
-Sim, veja. Diz aqui na caixa que é um autêntico Camel. Se bem que isto aqui estaria mais correctamente denominado Dromedary.
-
Sim. Entendo seu ponto de vista.
-
Não, só vendo a prestações o livro.
-Isto tudo foram os alienígenas que mandaram o senhor dizer?
-Não, eles me mandaram escrever a respeito. Principalmente a respeito do senhor.
-De mim?
-Sim.
-Não.
-Sim.
-Sim.
-Não.
-Talvez.
-É. Enfim. Sei que o senhor diz que sua mãe abusou do senhor quando o senhor tinha a tenra idade de 120 anos.
-Não! Como sabe disso? É meu maior segredo!
-Não há segredo. Basta ler na sua testa, está escrito, "Minha mãe abusou de mim quando tinha 120 anos"
-Eu sabia que deveria ter comprado um diário de gente.
-E eu sabia disto. Sei tudo a seu respeito!
-Não sabes nada!
-Sim, eu sei. Sei que nada sabes.
-Isto todos o sabem.
-Não, pois se não sabem nada, como irão saber que nada sabem?
-Sabendo, oras.
-Mas se não sabem que sabem, como irão saber que não sabem?
-Pare de se repetir, seu energúmeno.
-O senhor me tenha o devido respeito, rapá! Ou vai querer cair pra dentro?
-Não, prefiro cair pra fora, lá o clima está mais ameno.
-Lá fora?
-Sim.
-Deveríamos ir para lá então.
-Não. Não desejo ir para lugar algum com alguém que tem alienígenas na cabeça e esta frase escrita com caneta retroprojetor na testa.
-Atesto o contrário.
-Atestas?
-Ateu.
-Sim. Isto afirmo que sou.
-Eu sabia.
-Se sabia, porque perguntou?
-Porque não tinha certeza.
-Enfim. Voltemos aos alienígenas.
-Sim, sim.
-O senhor afirma em seu livro que a alvanca de câmbio foi projetada pelo senhor quando o senhor se projetava pela janela a 200 milhas por hora, não é mesmo?
-Sim.
-Então, qual é a capital da Abissínia?
-Estou abismado com esta pergunta.
-Não se reprima. Fale-me tudo. Estamos no ar.
-No ar? Mas porque logo no ar? Está tão poluído este ar!
-Sim. Mas isto pode ser resolvido com uma descarga de bom-ar.
(sssssssssssssssss)
-Meus olhos! Seu cretino!
-Não me grite!
-Que gente má!
-Isto. Façamos uma autêntica Quinoterapia. É muito mais salutar que algo parecido com esta sonoridade, porém dotado de elementos nada saudáveis ao corpo humano, este desconhecido.
-Mas eu o conheço tão bem!
-Nunca imaginei isto.
-Já imaginava.
-Pare de fingir que me conhece! O senhor não sabe de nada.
-Já falamos sobre isto.
-É verdade. E agora, para algo completamente diferente, café.
-Cafééééééééééééééééééééééééééé!
-Sim, tome.
(splash!)
-
Meus olhos! Pare com isto!
-Sim, temo que nosso tempo se esgotou.
-Eu sabia o tempo todo!
-Sabia nada.
-Nada?
-Sei nadar, o senhor não.
-Droga.
-Só tenho anfetaminas.
-Percebo, pelo seu estado irrequieto.
-
Sim, eis aqui algumas bolinhas.
-De gude?
-Não, de grude.
-Desgruda.
-Sua peste. Enfim, volte ao assunto chave!
-Sim. Estão me fechando a sete chaves aqui, e estão gentilmente me embalando com esta camisa tão na moda nestes estabelecimentos, a camisa-de-força.
-Força aí irmão.
-Apoiado! Não, não quero esta injeção intravenosa!
-É tarde. Nossos ouvintes anseiam dormir.

(SOC! POU! CRASH!)

-ZZZZZZzzzZZZZzzzzzZZZZZZZZZzzzzzz......

(O carcereiro se levanta, carregando o corpo inanimado do senhor Porca-russa, murmurando entre dentes:
-Odeio trabalhar em um hospício.
Deposita o corpo em uma maca, amarra-o bem apertado e sai arrastando a carga pelos corredores infectos da instituição. As cortinas se abaixam. Fim.)

terça-feira, 17 de março de 2009

I'm singin' in the rain!...

Por vezes, gostaria realmente de que alguém estivesse me filmando. Certos momentos de minha vida serviriam de comédia muito mais engraçada que qualquer seriado enlatado existente por aí...Presumo que assim o seja com a maioria das pessoas também; certos momentos são tão rídiculos que se fossem apresentados em rede televisiva, geraria boa audiência. Ou não(maldita seja esta frase), uma vez que parece-me que a audiência dos canais abertos está se tornando cada vez mais e mais acéfala, por assim dizer. Enfim, foda-se, não é sobre isto que estou a discorrer hoje.

Bem, ontem a chuva ameaçou, ameaçou e ameaçou durante todo o decorrer lento do dia, típico de segundas feiras em geral. Mas ela não caiu durante a manhã...nem durante a tarde...então, fui-me embora do serviço munido de meu infalível guarda chuva tamanho gigante, pois minha jornada de trabalho ainda não havia terminado; tinha que ainda visitar meu sobrinho tordo, anteriormente conhecido com a curiosa denominação de "partidário da juventude nazi-fascista mineira mirim".

Ao chegar lá, entrando no prédio, senti um par de pingos de chuva em meu braço. É, ela tardou mas não falhou. Então fiquei a observar o lado de fora da janela do imponente apartamento em que residem os avós de meu sobrinho; mesmo assim a dita chuva parecia que não iria dar as caras e ir-se embora. Conversa vem, conversa vai, quitutes foram devorados, sucos foram ingeridos - aquilo é qualquer coisa "menas" aula de desenho - e eis que faltando 15 minutos para as 9, hora esta que realmente se efetua a alforria de meus grilhões trabalhistas, a borrasca resolveu assolar a cidade.

Clássico. Ao chegar na portaria do prédio, o porteiro me olhou com aquela cara de "você está certo disso?" ao abrir a porta electrônica. Fui efusivamente saudado por uma rajada de vento e água, e olhei estupefacto para o espetáculo Dantesco diante de mim: nem mesmo os tradicionais transsexuais daquelas paragens(não estamos falando dos agentes da BHTRANStorno) estavam à vista. Os ventos e a água realmente eram assustadores.

Bem. Eu tinha a opção de ficar ali aguardando a chuva amainar, perder meu busão e ter que esperar mais de hora para chegar em casa, ou...

Respirei fundo, abri o fiel guarda chuva, mesmo tendo a certeza que ele não me seria de grande valia, e me adentrei na tempestade.

Logo que pus os pés pra fora, fui devidamente encharcado pela água gelada. Ao chegar na rua, fiquei horrorizado com o volume de água que descia a avenida Afonso Pena. Aquilo estava mais para rio que avenida. Creio que em dias de fúria mais intensa, típicos de minha pessoa por estes dias, eu teria berrado de ódio, esperneado feito menino birrento, quebrado algum carro, etcoetera. Mas...por algum mistério de minha índole, esta ilustre desconhecida, olhei aquela água toda descendo, e verificando que por mais que esperneasse eu NÃO conseguiria me manter seco, resolvi tornar à infância. Quando muleque, uma enxurrada como aquele seria diversão garantida, e uma próvavel gripe subsequente. Enfim.

Fui pulando as partes mais torrenciais da enxurrada, nem me importanto em atolar meus pés noutras partes nem tão abissais, e comecei até a entoar cânticos de louvor à tempestade, como este crássico que entitula este blahblahblah crônico(ou crônica, se assim o quiserem). Fiquei rindo horrores de mim mesmo. Eu era a única alma viva que se encontrava naquela avenida àquela hora. Nem mesmo os passeios - a calçada para os chatos - estavam isentos do ribeirão intermitente que tomou conta daquela parte da cidade; como é de praxe nesta cidade assolada pela sua população de frangos que jogam todo e qualquer lixinho sem (aparente)importância no chão e nao nas lixeiras, todos os bueiros estavam devidamente entupidos e a água jorrava na altura de minha cintura quando encontrava um obstáculo.

Cheguei afinal ao ponto de ônibus, mais encharcado que nunca, mas nem me importando. Continuei cantando desafinadamente, maravilhado pela possibildade de fazê-lo sem olhares jocosos de ninguém, eis que o único louco a enfrentar aquela tempestade àquela hora fui eu. Depois de cantar e cantar, olhei para trás e vi a figura solitária de um porteiro a me olhar com curiosidade. Imagino que ele deve ter se divertido horrores com meu espetáculo.

Momentos mais tarde, quando a coisa já havia perdido muito de sua força primitiva, eis que chegou meu autocarro, e subi a bordo, sendo acompanhado unicamente do motorista, do trocador e de um outro sujeito que se encontrava encolhido em um canto, encharcado até os ossos, aparentemente. Tinha desolador aspecto; presumo que não havia levado a coisa na brincadeira como eu...Enfim, sentei-me e verifiquei que minha mochila havia protegido devidamente meu aparato sonoro, o que me gerou satisfação. Pus o som na caixa e deslizei tranquilamente para casa, onde me sequei devidamente - até minha roupa de baixo se encharcou na desventura - e tomei um banho, indo dormir tranquilamente mais tarde.

Creio que se assistisse ao vídeo deste episódio, eu iria rir-me deveras; como não posso fazê-lo, ao menos posso me contentar com a memória do episódio, que no mínimo gerou um bom causo para se contar em eventuais visitas aos bares, e aproveitando a deixa, deixo registrado aqui por escrito o relato da coisa, para quem que se interesse pelos devaneios deste Noiado possa se divertir.

Enfim, assim o é, assim será. Queria que a vida estivesse mais plena de eventos como este...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Filosofia barata, por zero reais.

Nussa. Às vezes, parece que o tempo está voando mesmo; é segunda novamente, e parece que escrevi o texto da outra segunda ontem. Isto não fez muito sentido por escrito. Enfim, o tempo passa. E esta segunda começou agressiva, alts paus na rede fudida daqui me atrasaram bastante. Coisas de segundas-feiras, creio eu...

Em este semana-fim cheguei a algumas conclusões que considerei válidas, ao menos para amenizar um pouco as agruras desta vida muderna e chata que tem me presenteado com vários contratempos. Um ex-amigo meu - desaparecido desde 2002, creio eu que tombado devido aos deveres do matrimônio e quejandos - sempre se ria de mim quando eu chegava nas segundas feiras aqui neste escrotório com estas palavras: "Neste fim de semana cheguei à seguinte conclusão..." Sou de facto um filósofo falido. Tudo bem que naquela época a minha conclusão mais frequente era do naipe de "Beber demais faz muito, MUITO mal mesmo." e coisas do gênero. Enfim.

Algumas das conclusões que cheguei neste finds se remetem às minhas ditas afinidades "malditas", este apreço por coisas que não têm valor comercial e/ou financeiro. Na música, por exemplo, conforme narrei algum tempo atrás, havia tido a fissura mor de adquirir um pedarrrrr da Boss, este denominado Loop Station, RC-2. Após gastar o que não devia com esta coisa, achei que tinha comprado um belo dum elefante branco, pois não consegui usá-lo direito, por culpa de meu ridículo conhecimento de divisões de compassos e ritmo destreinado. Isto havia me deixado deveras contrariado, pois este treco é REALMENTE caro. Tanto é que nem ao menos terminei de pagar ainda....

Porém, no sábado à noite, tirei-o da caixa e resolvi tentar mais uma vez. Após alguns minutos, fiquei satisfeitíssimo, pois consegui fazer algumas bobagens funcionar com meu escasso conhecimento téorico de ritmo e afins. O treco realmente te abre caminho para fazer coisas bem legais, uma vez que você praticamente consegue fazer um som muito mais rico. É como se você nao estivesse tocando sozinho, mas sim acompanhado de uma porção de outros guitarristas. Juntamente com minha ME-50, o pedalzinho carissimo foi uma excelente aquisição afinal de contas.

A outra conclusão veio da parte desenhística. Embarquei ontem na minha tarefa dominical de desenhar alguma tira. Após aquelas duas tentativas passadas de fazer o treco no lápis, vi que não daria certo continuar. Enfim, de volta à tinta. Tive medo de tornar a isto, não sei bem porque. E após ter resistido à encheção de saco alheia por parte de alguém, refiz mais esta tira.








Sim, estou refazendo as antigas pela simples razão que quero fazê-lo, uma vez que quero melhorar as velhas e acrescentar elementos novos. E existe uma sequência natural, uma ordem na dita "história" da tira. Material novo virá, mas em seu devido tempo. Estou apenas me desenferrujando...E por mais que me zoem, vou respeitar meu ritmo. Afinal de contas estou fazendo isto apenas para mim mesmo.


Enfim, outra conclusão que cheguei é que de fato a cafetina sabe me agradar quando cumpro a minha dita obrigação. Apesar de não ter ficado 100% satisfeito com o resultado da dita(it's the Buriol way of life), não obstante me senti bem, com o sentimento de cumprimento do dever, por aí. Algo do gênero. Tipo.

Creio que minha loucura está a criar asas estes dias também, mas tá valendo. Falo sozinho mas não o deixarei de fazer, pelo menos não por hora.

"Build it right up,
knock it right down.
When the light finds me,
I'm nowhere to be found.
Catch my, drift away instead,
Let's see what the road holds up ahead."

--Swervedriver, Pile Up.

sexta-feira, 13 de março de 2009

4002.


"Transmission 4001.
Are you still there, Sam?
It's been five years since contact."

--Adam Franklin, Walking on Heaven's Foothills.


Por mais que tentasse lembrar, não conseguia.

Após tanto tempo à deriva naquela imensidão de vazio, tudo que ele sabia é que nada aparentava ser o que era. Tanto tempo tinha se passado...dias, meses, anos...não poderia dizer. Não haviam mais parâmetros para se mensurar o tempo. Não ali.

Desde que havia sido vítima daquele acidente, tudo que ele sabia é que muito tempo havia se passado. Isso ele sabia. Mas...o que mais?

"Eu deveria estar morto", ele pensava. A lógica indicava que sim. Mas o que era a lógica em um lugar como aquele? Não significava nada. Se fosse pensar em termos físicos, ele estava em um ambiente onde não diminuiria sua velocidade, a não ser que encontrasse um obstáculo no caminho. "Que caminho?", pensou novamente.

Estaria indo em linha reta....velocidade constante...nenhum atrito. O vácuo. Nenhum oxigênio. O que tinha em seu traje já deveria ter acabado há muito tempo. "Estou morto", ele pensou novamente. Mesmo assim, não se sentia morto.

Estava mais vivo que nunca, a seu ver.

Mais uma vez tentou se lembrar do acidente...A estação. Orientações. A saída da escotilha...alguém gritando seu nome no rádio...Mais nada.

Nada. Por mais que tentasse, não saberia dizer como tinha se perdido daquela forma. "Devo estar morto," sua mente prosseguiu, "isto deve ser a morte." Ao seu redor, a paisagem parecia ser sempre a mesma. Estrelas. Milhares, incontáveis estrelas. Uma memória passada o atingiu...costumava subir ao telhado de sua casa quando era criança para ver o céu. Contar estrelas cadentes. Achava que era sua missão na vida, perseguir aquele sonho, viajar para aquela imensidão acima da Terra, acima do céu.

Ali estava ele.

Por mais ilógico que pudesse ser, parecia que estava ainda no encalço daquilo tudo. Olhou ao redor novamente, procurando sua estrela-guia, aquela que chamara sua atenção desde que estivera em marcha para o desconhecido...Ali estava ela. Não falhava nunca. Era a única que parecia estar se aproximando. Era seu destino.

Seria isto certo mesmo? Por vezes, seu lado racional ainda tentava prevalescer. Inútil.

Nada faria sentido, nada poderia ser racionalizado naquela jornada.

"Mesmo assim," sua voz interna prosseguiu, "devo estar realmente morto. Não comi nada desde que aconteceu a coisa. Não bebi nenhuma gota de qualquer líquido."

Sim. Mas não sentira fome. Não sentia sede. Memórias o assolaram novamente. Sua casa...seus estudos...a academia...seus filhos.

Onde estariam seus filhos? Sua esposa? Seus pais?

Não poderia responder a nada disso. Nem saberia. Olhou novamente para a estrela. Sua única certeza...era que estava indo em sua direção. Estaria mesmo? O que poderia garantir isto a ele? Como poderia afirmar com certeza isto?

Calou-se mentalmente. De nada adiantava aquilo. Tinha que continuar seu caminho. Não havia nada a ser feito. Nenhum racionalismo poderia mudar nada em sua situação. Lembrou-se de situações anteriores àquela....achou plausível que deveria estar revoltado, cheio de raiva.

Mas não sentia nada. Não adiantaria nada.

Fixou a vista em sua estrela.

"Um dia, chegarei ali."

quinta-feira, 12 de março de 2009

II.


" 'You look like you've been losing sleep',
said a stranger on a train,
I fixed him with an ice cold stare
and said, 'I've been having those dreams again' "

---Swervedriver, Last train to Satansville.



Sangue.

Gosto de sangue. Na boca...nos dentes. E o cheiro...no ar, tudo recendia àquilo. Abri os olhos...um céu, azul. Fumaça.

O que havia acontecido? Tentei lembrar de algo, mas a dor de cabeça era mais forte. E o gosto de sangue na boca mesclado ao cheiro da fumaça confundia-me. Nesta hora senti as dores espalhadas pelo corpo também. Lentamente, ergui a cabeça e olhei ao redor.

Uma paisagem árida...cactos e coisas do gênero. A dor pipocou em minha cabeça e ao longo de todo meu surrado corpo como um milhão de alfinetes. Fechei os olhos e segurei minha cabeça com as mãos. Aaaahhhhhhh, era tudo que eu podia pensar.

Após alguns minutos de lamentação merecida, a dor diminuiu de intensidade o suficiente para que eu pudesse novamente tentar abrir os olhos e descobrir mais alguma coisa a respeito do que estava acontecendo.

Algumas dezenas de metros à minha frente, estavam os escombros fumegantes de....coisas que pareciam algum dia ter sido veículos automotores. As labaredas lambiam os ares, levantando fagulhas e carregando fuligem. O acidente parecia ter sido daqueles horrorosos, cinematográficos. No estado em que as carcaças se encontravam, não era possível identificar modelos, marcas.

Sei que a coisa parecia ter sido feia. Muito. Tentei pôr-me de pé; após alguns dolorosos momentos, consegui. Olhei ao meu redor novamente. Estava num local completamente deserto, literal e figurativamente. A estrada em que os carros estavam se estendia até perder de vista.

Onde diabos eu estava? Porque ali eu estava?

Arrastei-me na direção dos escombros, apenas para estacar após alguns passos. Um dos tanques de combustível das ferragens resolveu explodir bem naquele momento, com tal violência que a onda da explosão derrubou-me. Ai, ai, ai ai aiiiiii. Maldição.

Após o susto ter passado, senti uma nova dor...em minha perna direita. Ergui a cabeça para surpreender-me com um pedaço fumegante de ferragem cravado ali. Puta que o pariu, foi tudo que eu consegui pensar. Senti tamanha indignação com o que estava acontecendo, que sem pensar, arranquei a coisa dali, não sem me arrepender instantaneamente. O sangue brotou profusamente.

Arranquei rapidamente uma manga de minha esfrangalhada camisa e tentei estacar a hemorragia. A confusão mental ainda era reinante, mas por mais que tentasse, não conseguia me lembrar o que estava fazendo ali. Como havia chegado ali. Rangendo meus dentes, olhei para a frente e vi...um outro corpo mais adiante, estendido no chão.

Gritei por ajuda. Nada. Berrei novamente, mas o corpo continuou estático. Com a maré de azar que estava experimentando, não duvidei que fosse apenas um banquete para os urubus que já sobrevoavam o local, a muitos e muitos metros de altura. Olhei para minha perna, mas fechei os olhos quase que de imediato. O trapo esva empapado de sangue e a coisa parecia não querer parar de sair.

Fechei os olhos forçadamente, até doer. Que bela maneira de se morrer. Tentei mais uma vez me lembrar de alguma coisa, mas nada me veio à cabeça, a não ser uma vaga memória de estar dirigindo um carro....pegar em uma arma vazia....coisas difusas e confusas.

Abri os olhos e olhei para o corpo, que não estava mais lá.

Arregalei os olhos, mas tudo que pude sentir foi um impacto em minha nuca.