quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ret-Lit. A portê de napadequá. Ou mais do mesmo.



Quando tudo mais falhar, tente o caos. Talvez faça mais sentido que a normalidade em si.


Lembrou-se bem do espanto que experimentou ao entrar naquela ante-sala. Sim, na verdade era um vestíbulo, mas o corredor que passou por ele falou que era parte de um todo. Pois todos não o eram? Ou não o são? São? Não saberia dizer ao certo. Sabia que seua olhos não o enganavam; havia uma celebração em andamento ali, mas não poderia dizer por qual motivo celebravam.

Enfim, celebrar é sempre mais divertido que se lamuriar por injúrias por todos esquecidas. Procurou se integrar às pessoas ali presentes. É verdade que esta integração nem sempre é possível, muito menos quando a música presente é extremamente desconfortável. Teve de ser obrigado a ver as pessoas sorrirem falsamente aos acordes bemóis sustenidos diminutos aumentados que o moderníssimo aparato sonoro exalava aos gritos. Enfim, a casa era grande: haveria de haver outro local de mais agradável localização em suas entranhas. Adiante, então.

Mais à frente, deparou-se com uma cena muito comum: um homem trajando um terno cáqui forçava uma moça a aceitar suas opiniões hediondas. Delicadamente, aproximou-se e defenestrou este, em uma nobre tentativa de receber as eternas graças daquela. Mas a vida é traiçoeira, e tal moça precipitou-se janela abaixo pois preferia alguém com mais confiança e menos bondade. Procurando conter-se, ele seguiu à frente de todos os bonzinhos ali ausentes, mas plenamente representados por seu eminentíssimo Rei.

Não obstante ter boa vontade, não encontrou alento em nenhum dos aposentos da casa em si. Praguejando mentalmente, perguntou-se o que é que estava fazendo ali. Imediatamente, todos se voltaram contra ele: era o chato da festa, uma vez que não conseguia se divertir como uma pessoa normal. Um agente da moral e dos bons costumes ofertou-lhe o mapa da saída mais próxima, e vendo sua hesitante hesitação, acrescentou à sua oferta a graça de que se ele agisse com velocidade, este não o privaria de seus joelhos. Como tais artigos não sao recauchutáveis, ele houve por bem - por mal - pôr-se dali para fora.

Cambaleou aturdido até o templo mais próximo(um bar), onde seu séquito o saudou efusivamente com olhares mortiços e sorrisos tristes. O REI havia chegado. Alguns de seus semelhantes entornavam por suas goelas um volume nada escasso de drogas legalizadas, fossem sejam elas alcoólicas ou nicotínicas. Pediu sua porção de anéstesico barato e pôs-se a praticar seu esporte preferido, o da elucubração e confecção dos mais diversos aforismos inúteis. Ao seu lado, um de seus compatriotas tentava juntar moedas para comprar a coragem necessária para o término auto-infligido de sua já escassa vitalidade. Outros tentavam lhe dar apoio, mas não encontravam palavras, uma vez que todas estavam afogadas na solução alcoólica previamente ingerida. Ele saiu arrastando seus pés em direção ao desconhecido, este conhecido dos seguidores da sua religião. Pórem, todos ali sabiam também que os seguidores de tal religião são excelentes covardes e/ou nutrem uma certa vã esperança que algum belo dia irão se resolver, ou que a vida irá se resolver, ambas tarefas inexequíveis aos fiéis. Logo, tinham a certeza de tornar a vê-lo ali outras vezes.

(Como nos dias de hoje - devido aos avanços da merdicina - a tuberculose não mais consegue mais agir como mecanismo de seleção natural para estas pragas da zoociedade moderna, há que se aguardar para que eles mesmos se exterminem, quer seja pelo abuso de coisas ou simplesmente pelo lento declínio. O único conforto é que não conseguem deixar descendentes; lentamente tal praga vai sendo erradicada, de uma forma ou de outra.)



Outro deles olhava fixamente para o copo vazio à sua frente e balbuciava: "a gente só valoriza as estrelas quando não consegue mais vê-las" Nada mais certo; nada mais poético; nada mais boçal. Sabia que não conseguiria encontrar ninguém ali que pensasse de forma diferente. Tampouco o desejava: saber que havia outros como ele ao redor era ao mesmo tempo reconfortante e inútil. Mesmo assim, deixou-se cair em um banquinho defronte ao balcão, seu trono.

Comprou pois, muito mais que seu volume prescrito da coisa etílica e pediu um canudo nicotínico, sendo atendido prontamente por um de seus súditos. Acendeu-o e deixou que ele o fumasse, enquanto esforçava-se cada vez mais para afogar em álcool as vozes inúteis em sua cabeça.

Enfim. Mais uma noite se passou, e nada mudou. Como sempre.


E eis que isto acabou fazendo sentido, ao menos para o autor.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Last Drink to Satansville.


- O senhor parece que não tem dormido direito.
- Nada mais certo. Estou tendo aqueles sonhos, novamente.
- Quem sonha, desdenha a realidade.
- Ou não. Não sei se é assim.
- Entretanto, o que se passa no momento?
- Passa o tempo, aqui e ali. Mas não necessariamente nesta ordem.
- Entendo. Mas o que o senhor deseja?
- Uma beberagem alcoólica. Preciso esquecer.
- Não me lembro. Entretanto, creio que posso lhe ajudar. Pois não.
- Sim, pois sim. Quero álcool, em sua forma mais bruta.
- Aham. Creio que isto possa lhe satisfazer.
- "Biotônico Fontoura". Sim, sei que isto tem mais álcool que uma cerveja.
- E é um excelente fortificante. Mas não sei se é forte o suficiente.
- Há de servir, pois meu propósito não é puro.
- Quem apareceu no sonho?
- Ela. Sempre ela. Creio que vi um átomo de hélio também, no pano de fundo.
- E este pano, era de seda, linho, jeans ou algodão?
- Não sei. É tarde para saber.
- Nunca é tarde. A não ser que se esteja atrasado.
- Atrasaram os relógios no domingo, logo deve ser tarde.
- Não necessariamente. Apenas restituíram a hora roubada anteriormente.
- E quem vai me restituir o tempo perdido no processo de atrasar o relógio?
- Talvez os bancos. Ouvi dizer que estão contratando.
- Contratando ou com tratantes?
- Contrabando. Trouxe este maravilhoso relógio suíço e paraguaio.
- Sei, sei. Mas olhe, mas veja. Ali aparece sempre a cara dela.
- Não vejo, eis que o sonho é seu. Mas posso imaginar.
- Imagino que sim. Mesmo assim, isto não me conforta.
- Bem. O que importa é que não nos importemos com frivolidades.
- Não creio que meu desespero seja tal coisa.
- Basta uma breve consulta ao pai dos burros para se determinar isto.
- Isto o que?
- O que?
- Não sei.
- Nem eu. Deseja mais alguma coisa?
- Respostas.
- Ah, todos desejam respostas. Mas nunca perguntam.
- Bem sei.
- Então por que perguntou?
- Não sei.
- Nem eu.
- Estamos quites então?
- Creio que sim, mas pode ser que não.
- Certo.
- Errado. O senhor me deve.
- Não sei se devo.
- Sim, deve. Vá atrás dela agora.
- Bom conselho. Obrigado.
- De nada.
- De tudo.
- Até a vista.
- Prefiro o XP. Mesmo assim, lhe agradeço.
- Já sei. Vá-se embora!
- Não precisa gritar. Estou indo.
- Bem sei. Desejo-lhe sorte, de toda sorte.
- Ah sim. Até amanhã.
- O quê? Hoje já é amanhã. Se bem que o amanhã nunca chega.
- Ah sim. Adeus então.
- A Deus o futuro pertence.
- Ou não.
- Sim. Certo. ponha-se daqui pra fora.
- Assim o farei.
- Adeus.
- Até amanhã.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Nhé.



Por estes dias, consegui arrumar para mim uma cópia do jogo de computador intitulado GTA 4, franquia esta tão famosa por toda sua controvérsia sobre a violência em videogames. Sim, o jogo é violento(mesmo no sentido da arcaica gíria em questão; é do caralho!), assim como seu predecessores. Em todas as versões anteriores admito que joguei não pelo jogo em si, mas pelo caos que pode-se fazer naquele ambiente virtual. As missões e etcoeteras nunca me interessaram, mas sim o nonsense caótico que pode-se criar. É extremamente absurdo...e divertido, admito. Utilizo-o como válvula de escape, faço ali atos vis e divertidos, em se tratando de faz-de-conta(tipo atropelar inocentes transeuntes virtuais) sem as penalidades impostas pela lei do mundo real, que me poriam a ferros se assim o procedesse aqui no mundo real.

Agora, quanto à eterna discussão se isto torna quem o joga um facínora, um sociopata, posso afirmar que...NÃO. Se alguem no caralhoplano jogou tais jogos e depois matou um taxista, atropelou velhinhas e quejandos, não é por culpa do jogo. Não abro mão desta opinião. Se existe alguém culpado, é o próprio imbecil que o fez. Não culpem um jogo por conta da estupidez humana. "Estímulos" à violência existe em milhares de outras formas de entretenimento - televisão, cinema, livros, rádio, etc.

Como exemplo e como desabafo pela minha indignação, irei citar aqui um fato ocorrido no último fim de semana, dia que os dois times de futebol mais tradicionais desta cidade se degladiaram em campo. Um adolescente trajando a camisa de um dos times(não importa se era deste ou daquele), foi baleado de forma fulminante enquanto esperava um ônibus na área central da cidade. Não sei todos os fatos acerca do ocorrido - não sei se prenderam a criatura que fez tal coisa, por exemplo - mas me pergunto: foi culpa do futebol? Foi culpa do time que o pilantra torcia? Não. Foi culpa do filho da puta, única e exclusivamente. Que ninguém tente me dizer o contrário, e que ninguém me venha defender este ordinário. A morte horrenda de tal criatura é pouco para puni-lo, em minha opinião. E ainda assim não restituirá a vida do menino que exterminou.

Citarei aqui outro exemplo que vivenciei, em minha pele. A maioria não deve saber deste fato, uma vez que ele é vexatório e certamente irá gerar risadinhas e comentários jocosos. Foda-se, estou cansado de ocultar minhas opiniôes por conta da imaturidade de outrem. Acontece que, dou aulas particulares, e o local que ministro tais aulas é...famoso por ser ponto dos mais diversos profissionais do sexo em suas redondezas. Em uma noite de calor, encontrava-me trajando camiseta sem mangas, e estava aguardando o ônibus para voltar para casa, devidamente acompanhado(no sentido de estar próximo de) de duas "mulheres"(eis que travestis abundam na área em questão, então não sei ao certo). Então, estava ali bendomeu, quando passa um carro digno de ilustra a crônica da sexta passada: uma SUV com os tais fárois cegadores. Assim que me avistaram, berraram um nome que, segundo a cartilha de 2005 de nosso ilustre presidente, ofende aos cervídeos por designar homossexuais, ou coisa que o valha. Logicamente, ignorei os sacripantas, mas o que aconteceria se estes estivessem armados e resolvessem se livrar de mim apenas por estar no local errado na hora errada?

De quem seria a culpa se isto acontecesse? De um videogame que ele teria jogado horas antes de fazê-lo? Do jogo de futebol televisionado? Quem me responde?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Noiado, pt II.


Curiosidade da segunda feira. O eremita, que normalmente é uma torrente de mau humor, em especial em datas como esta(segunda-feira), não está a cuspir marimbondos, mesmo que o fim de semana tenha sido repleto de indagações inúteis a respeito da vida, o universo e todo o resto. Como diz um ilustre desconhecido do roquenrou:

"And I can't tell you how many ways that I've sat,
And viewed my life today, but I can tell you
I don't think that I can find easier way"

-St. Andrew's Fall, Blind Melon

Estive com amigos neste semana-fim, em um encontro sazonal que fazemos de tempos em tempos, para pormos a velha conversa inútil em dia; eventos como este são acompanhados de salgadinhos, cerveja, outras beberagens alcoólicas sortidas, e refrigereco, para os "frescos" como eu que não apreciam aquele gosto maravilhosamente amargo e ridículo do suco de cevada. É um grande mistério para mim o tanto que tal coisa é imensamente apreciada, mesmo sendo uma vil bebida que é. Mas, isto é apenas minha opinião, e este cerne de assunto não sera aqui explorado, pelo menos não hoje.

Quero discorrer mais sobre certas disposições de ânimo estranhas que me aparecem em eventos como este. Trata-se da tendência abjeta de tornar-me taciturno, mui pensante sobre diversas agruras da vida, questionamentos aparentemente nobres mas nada úteis sobre as coisas. Sim, sei que estou falando do Noiado Do Sótão(alcunha de quando não estou em meu reduto), e estas coisas são de praxe no quotidiano desta complicada figura. Sim, bem o sei. Não obstante, o que me deixa emputecido é porque cargas d'água estas coisas me aparecem em momentos em que estou em um local agradável, cercado de amigos, a conversar animadamente sobre diversos assuntos engraçados e a fazer piadas dos frangos que nos circundam e habitam este mundo.

Do nada, lá vêm elas: as perguntas sem resposta que não querem se calar:

Por que há gente triste no mundo?
Por que agimos de forma errada mesmo sabendo que estamos agindo erroneamente?
Por que repetimos os erros de nossos pais?
Why the hell we always envy others? (Yeah, sometimes they come in english)
Por que estou pensando nisto?
Quanto custa um trailer?

E outras coisas assim. Ultimamente, ando pondo este meu modo cretino de agir para fora do estabelecimento; consegui fechar a porta na cara deles inumeras vezes, mas não fui bem sucedido todas as vezes que eles bateram, exigindo se manifestarem. Blá.

Consegui curtir bem o tempo que ali passei com meus compatriotas, mas quando tornei ao meu esconderijo secreto - a torre de marfim, a cela solitária, a ilha, o reduto inacessível - também conhecido como o Sótao(acrescente o clarão de raios e o trovão subsequente aqui), eis que elas tornaram a aparecer. Como ja não estava mais a interagir com pessoas, deixei rolar. Por vezes calei-as com o som desfinado de Cremilda e Rúbia, estas devidamente plugadas ao meu arsenal de efeitos. Graças aos céus existem tais coisas na vida - Fenders Stratocasters, Epiphones Special II e Boss ME-50, entre outras coisinhas mui interessantes para mim. Como diria Karen Eiffel (Veja o filme, Stranger than fiction), "estas coisas existem para salvar nossas vidas".

Não poderia concordar mais, mesmo que meu vizinho - o maldito alemão de araque, patriarca de "that fuckin' kraut family" - discorde disto e vive me xingando em alemão.

Enfim, ele que se dane, em momentos como este, quase nada cala melhor as vozes chatas em minha cabeça que minhas meninas de seis cordas e seus acessórios.

E já está tarde. Melhor acabar isto por aqui.

Que as coisas feitas para salvar nossas vidas abundem no dia de V. Sas. Adieu.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Srs. Volantes, perigos constantes.


Pensei, pensei e pensei, mas não determinei um tema relevante para a dissertação diária semanal do funcionário do mês. Talvez seja assim, em dias como este. Sexta feira 13, chuvas torrenciais que despencaram por toda a cidade no decorrer da madrugada. Enfim. pude notar que os velhos rebentos do caos estavam aflorando por todos os lados, feito ervas daninhas no cimento quebradiço da capital. Capital de onde, não saberia dizer, uma vez que a diferença d'esta paragem para Epaminondas Otoni é talvez apenas seu tamanho mais avantajado e a presença de asfalto por sobre as estradas de terra. Basta uma chuva como esta para revelar a face oculta das mesmas: buracos, por todos os lados buracos.

Isto não ajuda em nada a melhorar a torrente de veículos automotores circulantes, cada um deles provido de seu respectivo Sr. Volante, estes exemplos de cordialidade, inteligência(seja esta emocional ou matematical), cidadania e quejandos. A chuva de insultos e imprudências cometidas voluntariamente é proporcional ao volume das águas que caem. Como vivemos na cidade que se orgulha de seu recorde mundial inquebrantavél - o maior número de semáforos por milimetro quadrado(cada um no seu quadrado!) do mundo, isto contribui imensamente para que não seja necessário necessariamente comprar o modelo mais arrojado: basta comprar um carro parado. Se voce comprar o carro do ano de 1922 estará tão bunito na fita quanto o nouveau richie idiotique que comprou o carro do ano de 2200, a suaves prestações de 1 milésimo de centavo por dia. De uma forma ou de outra tá valendo, uma vez que o trânsito não se move, apesar do clamor incessante das milhares de buzinas que todos querem vender todos os dias. Na verdade, acho que este é o pré-requisito básico para se ter carro neste local de péssima localização: a presença de buzina. Quanto mais estridente melhor.

Creio que os motoristas desta cidade tentam provar há anos que o som ensurdecedor de suas buzinas move montanhas, ou pelo menos os carros à sua frente. Como bons brasileiros que são, nunca desistem, por mais infrutíferas que tenham se apresentados as inúmeras tentativas de fazê-lo. Ao cair da noite, a coisa geralmente se complica ainda mais, eis que agora além dos tradicionais mocorongos ao volante temos o privilégio especial de sermos cegados por faróis dianteiros dotados de uma luz azulada de brilho tão intenso que poderiam(deveriam) ser usados para guiar o destino de embarcações perdidas em allto-mar, daqui mesmo destas montanhas tão distante do sonho aquático dourado de todos os mineiros.

Não sei como se denominam tais artefactos mudernos: eu os chamo de "babaquice", "imbecilidade" e outras alcunhas igualmente carinhosas, porém nada publicavéis. Nada melhor e mais salutar que ficar cego ao volante porque um idiota insiste em dirigir com uma luz absurda daquelas à frente de seus carros. Geralmente tais faróis existem por default em carros mais avantajados, feito aquelas modernas barcas ditas SUVs para os norte-americanos: carros feitos para aguentarem o rebento da cidade(rebentando tambem a vida urbana), e supostamente igualmente robustos para estradas mais acidentadas(normalmente se esfacelam assim que avistam uma estrada de terra, mas tudo bem, eu realmente não me importo com isso), mas tais luzes estão sendo avistadas(ou não, uma vez que cegam quem as avistou)em carros mais, digamos, populares, devidamente xunados por seus proprietários.

Como se diz, basta se ver algo diferente que todo mundo quer ter igual.

Enfim, nestas horas creio que um taco de um dos esportes mais cretinos do mundo - a saber, o beisebol - deveria ser acessório indispensável para o muderno motorista. Bastava vislumbrar um detentor de tal artefacto para se exercer uma tarefa de cidadania: parar veementemente o veículo em questão, e utilizar o taco para a quebra dos faróis, do carro, e se possível, do dono do carro, não necessariamente nesta ordem. Mas acho que tal proposta é considerada radical demais para os agentes do trânsito local, os BHTRANSsexuais, que por sua vez são coligados ao glorioso órgão público BHTRANStorno(alcunhas delicadamente emprestadas da desciclopédia, bem dito). Eu os chamo por vezes de BHTRASH, mas isto não vingou muito. Reafirmarei aqui outro teorema de tal publicação virtual, o paradoxo de tostines dos agentes BHTRANSsexuais: "eles esão lá porque o trânsito está lento ou o trânsito está lento porque eles estão lá?" Acho que a última é mais verdadeira...

Enfim, eis que acabei falando do trânsito desta cidade. O tema é deveras extenso, e o tempo urge aqui, conjurando-me às lides diárias para a finalização desta semana particularmente hostil para minha pessoa. Deixarei-vos a pensar sobre o assunto. Beijo na bunda, até segunda.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Epitáfio.


Não.

Nada te prepara para isto.

Após uma viagem apreensiva de táxi, cheguei ao famigerado IML. Haviam me despertado no meio da madrugada por uma ligação nada agradável. Nada.

Ainda tonto de sono, não podia acreditar no que ouvia. Simplesmente me recusava a acreditar. Mas ninguém brinca com uma coisa dessas. Saí às pressas, ainda zonzo. Não eram nem cinco da matina.

Fiquei aguardando em uma sala fria. Tudo ali era frio. Mas não esperava ser diferente.

Seria verdade, mesmo?

Ao mesmo tempo que procurava negar, sabia que tudo aquilo não estava longe de ser verdade. No fundo, eu até esperava isto. Tentava me preparar por vezes, nas fases piores que ele atravessara. Ultimamente, ele havia passado por uma fase terrível, em que se isolou ainda mais que o de costume. Muitos de nossos amigos diziam que ele devia estar imerso em um mundo de drogas pesadas e sabe-se lá mais o quê. Nunca perguntei. Tentava respeitar sua privacidade.

Talvez tenha sido este meu erro: por vezes sentia seu desespero, sua incapacidade de se comunicar. E sentia mesmo às vezes uma certa hostilidade nele, como se indignasse de não tentar saber o que estava errado. Porque algo estava errado, sempre.

A maioria de nossos companheiros havia desistido de tentar argumentar, de tentar fazê-lo ver as coisas de forma diferente. Sim, muito da culpa era dele mesmo: por vezes, ele se tornava tão fatalista, tão...teatral, exagerado perante problemas comuns, e com reações negativas aos comentários jocosos(porém raramente cruéis) de nossos compatriotas, que a maioria de nós havia desistido de tentar argumentar.

Ele percebia e se calava. E mais e mais, se tornou inacessível, tal era sua soberba. Por vezes, isto complicava ainda mais as coisas. Raramente ele pedia ajuda. Parecia que era algo ofensivo para ele mesmo.

Sim, não nego que a culpa era dele, eis que realmente poucas pessoas conseguem lidar com seus problemas e ainda ter que lidar com alguém tão complicado. Como um deles já havia lhe dito uma vez em um momento de impaciência, "não tenho filho deste tamanho".

Mas sempre tinha sido um bom amigo; parece que sempre tentava se desviar de suas próprias aflições tentando ajudar seus amigos. Tinha uma conversa boa, quando estava bem.

Eu tentava manter o contato, sempre que possível, sempre que ele me permitia ter acesso, ainda que restrito ao seu mundo. Ele sempre troçava de si mesmo, "acho que faltou pouco para eu ser um autêntico autista. Várias vezes sinto que não pertenço a este mundo" É estranho isto. Para nós, ele tinha tudo para dar certo, apesar de não conseguir fazer as coisas funcionarem.

Muitos de nós gozavam-no pelas costas, chamando-o de fresco, mimado...Haviam chamado-o de "adolescente terminal" uma vez, tal era sua incapacidade de lidar com estas "bobagens" e ser tão fresco. Ao que me calava, pois muitos de nós eram modelos típicos de "adultescentes". Eu tentava me manter distante de tais comentários, mas devo admitir que por vezes eu mesmo me sentia puto com ele. Dava vontade de bater, mesmo.

Mas cada um de nós tem sua forma de agir diante das agruras da vida. E acho que todos se esquecem que o refrão é verdadeiro: pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Acho que ninguém nunca soube o que ele sentia de fato.

E ultimamente ele até parecia estar melhorando. Não, devia ser um engano. Tudo aquilo, eu digo. O fato de estar em uma sala de espera no IML. Era engano.

Chamaram meu nome. Acompanhei um senhor de jaleco por um corredor frio nas entranhas daquele edifício, com uma sensação difícil de ser definida. Um misto de apreensão, tristeza e...raiva. Aquilo era o cúmulo. Se ele realmente estivesse ali, eu dizia pra mim mesmo que iria despertá-lo a bofetadas. Ora! Vai dar susto na puta que o pariu.

Não, no fundo eu ainda não acreditava.

Me falaram para aguardar diante de uma janela fechada, escondida por uma persiana branca externa. Foi ali que o tremor tomou conta de mim. Os momentos que ali passei ninguém merece experimentar.

Abriram a persiana.











Não.


Nada te prepara para isto.


Nada.









Estonteado, assenti com a cabeça para o responsável por aquele frigorífico de gente morta. As pernas bambearam.

Tinha que sair dali.

Saí cambaleando pelos corredores. Um legista veio atrás, dizendo coisas que não entraram em meus ouvidos, desistindo de me seguir quando saí daquele malfadado lugar.

Me apoiei em uma parede e senti.



O choro. Espasmos como se fossem ondas de vômito.



Não.

Nada, nada pode te preparar para isto.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Altas emoção.

Curioso. Tem dias que sinto uma hostilidade no ar, como se o dia estivesse pronto para me jogar num ringue e me encher de porrada, algo semelhante a um pressentimento. Por vezes, estou certo, e o dia é ruim; outras vezes meengano. Prefiro a segunda opção. Como já disseram em alguma máxima anônima por aí, "o otimista nunca tem uma surpresa agradável." Como sou um pessimista nato, por vezes tenho estas surpresas. Enfim, espero que assim o seja hoje, uma vez que os dias anteriores foram bem turbulentos.

No caminho para acá, fui mal-encarado por ilustres desconhecidos no busão; senti a agressividade no ar sem o menor motivo. Nessas horas, agradeço muito por existirem os modernos campos de força musicais, que tanto me protegem destas coisas. Este refúgio é muito bem vindo em horas como esta. Ainda mais quando se está munido de fones de ouvido de cancelamento sonoro; como o próprio nome diz, eles literalmente cancelam o mundo exterior, permitindo que voce ouça suas musgas em ambientes barulhentos como os "balaios" sem ter que por o volume no máximo e ficar surdo daqui a uns anos. Foi o fone mais caro que já comprei, mas recomendo: realmente funciona.

Bem, quando subi no outro ônibus, após a aquisiçao do pão meu de cada dia para o pequeno-almoço, fui mais bem recebido e sentei-me calmamente no fundão, aguardando o término da curta viagem. Eis que uma música surgiu lentamente em meus ouvidos...uma que não ouvia há muito tempo, mas que é de minhas preferidas. Ao término da introdução sonora, senti um arrepio a me percorrer a espinha.

É estranho isto. Como já ouvi tal fenômeno ser relatado por outrem, então suponho que isto ocorra com as pessoas. Parece que coisas que nos emocionam demais positivamente causam tal sensação. E ao que me parece, trata-se de um fenômeno muito pessoal, ou seja, acontece com estímulos diferentes de pessoa para pessoa. No meu caso, só senti até hoje com músicas boas. O mesmo ocorre com minha irmã mais nova. Um outro amigo meu diz que sente tal coisa com aleitura de obras-primas, como Os miseráveis, de Victor Hugo. Outra pessoa já me disse que sente tal coisa quando contempla alguma paisagem particularmente agradável, como as existentes em certas paragens ao sul da Bahia.

Devem existir outros exemplos menos mencionavéis aqui, que considero menos, er...digamos, "nobres", tal como a satisfação consumista e quejandos. Como existem muitas pessoas por aí que só se sentem bem quando compram coisas caríssimas(por exemplo, a "mulher-propaganda da muóda do Xópin Diamongol" daqui de Belzonte). Enfim, como gosto não se discute, só se lamenta, não everedemo-nos em tal discussão. Estou apenas divagando aqui sobre este fenômeno que é o "arrepio" diante de coisas que mexem conosco.

Já ouvi até dizer que a presença de outras pessoas podem causar isto. Mas, como diria o bom e velho Sargento Getúlio: "dizem, nunca vi."

Como bom biológo falido que sou, sempre me pergunto como este mecanismo funciona. Que parte do cérebro decide que este estímulo é tão agradável a ponto de causar tal frisson. Quais sinapses são ativadas e porquê. E como sou, aparentemente um filósofo barato também, sempre pensante, sempre com um 'célebro' ululante, nunca deixo de pensar nestas coisas. Queria entender isto. E porque isto varia de pessoa para pessoa. Sei lá. Fazer uma pesquisa mesmo sobre tal assunto seria interessante, porém nada conclusiva, imagino. Posso apenas supor quantos estímulos diferentes causariam tal sensação.

Enfim, enquanto podero sobre isto no decorrer do dia, pensarei em outras coisas mais terrenas, como o que leva uma pessoa a gostar de contabilidade. O que fazer para se ganhar um salário de mais de três casas decimais. O que leva uma pessoa a falar sozinha em um ambiente virtual. E quejandos.