Mostrando postagens com marcador Terças insanas.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Terças insanas.. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de março de 2011

Cismas insones.

Não soube bem precisar que horas eram. Algo em torno de uma da matina, provavelmente. Algo assim. Acordou com o miado aborrecido do gato da casa, que ultimamente teimava em fazê-lo durante a madrugada, vingança alguma sorte de maldade, contra ele, o universo conspira. Que fiz de errado agora, para merecer tal castigo, ele se pergunta. Delírios. Sim, bem sabia ele. Mania de achar que tudo conspirava contra ele. Sempre assim. Xingou o gato com um chiado exportado da índole do pai, uma espécie de assobio calante, algo condicional e hereditário...mas que não surtiu nenhum efeito sobre o maldito felino.

Minutos que escoavam devagar, a noite e seu eterno vórtex por sobre a cama, naquele sótão, naquele local tão poeirento e por todos estranhado. O que fazes aqui, perguntava um de seus fantasmas. O que ainda procuras aqui. Nada? Tudo? Talvez um misto de ambos, uma vez que nada encontrava mas tudo procurava, dia após dia, noite após noite, hora a hora, assim seja. Levantou-se pesadamente para ir ao banheiro, talvez fosse aquela fina e insistente vontade de se aliviar que estivesse mantendo-o acordado. A esta altura, o gato calara-se. Sentiu na pele o incipiente inverno que já começava a chegar, outono é o caralho. Tudo de errado com o clima, com o planeta, com as pessoas, que tanto destroem tudo para se reproduzirem, deixarem fétidos descendentes, cadáveres adiados que procriam, como diria Campos, o de Carvalho. E para quê? Para quê insistiam sátiros e sádicos pais a trazerem filhos para este mundo? Para disseminar ainda mais o sofrimento, a aflição global?

As horas pesavam. Novamente debaixo das cobertas, sentia o cansaço tomando conta de sua mente, mas o sono não vinha. Rolar, para cá e para lá. Pensando, o que estou fazendo aqui, o que estão fazendo ali, o que fazem com as coisas, como irei pagar as contas, comprar coisas que não preciso, apenas para me dar falsa alegria consumista, apenas para se ter "objetivos" mais tangíveis que meus sonhos? Sonhos, que iam e vinham na vígilia eterna da noite, momentos entrecortados de lucidez e sonho. Números triangulares, fileiras de caracteres, aspectos condicionais, iterações. Identações e matemática, tudo que jamais imaginara ter de aprender, tudo aquilo que jamais achou ser possível entrar em sua cabeça, agora era cerne de irrequietos pensamentos e delírios na calada da madrugada, em sua mente, em sua cachola que teimava em não permitir que tais agentes invasores contaminassem e exterminassem ainda mais tudo que ele pensara ser um dia, todos os demais sonhos, todos mortos, todos tombados. E a certeza, a infalível certeza de que iria novamente falhar na mais nova tentativa que alguns amigos lhe ofereciam de sair da merda, imperava em sua mente. Não sabia pensar daquela forma, não sabia agir daquela maneira. Vais falhar, vais desapontar seu outro irmão, vais fracassar. É seu motivo de existência, fracassar.

Toda sua incompetência perante a vida, todas as vezes que poderia ter feito a diferença mas não fizera nada, por medo, por preguiça. Preguiça. Preguiça de viver, de crescer, de ser. Para quê? Para não ser pago? Para continuar vivendo no sótão, sabendo bem o que era - o contrário do que escrevera dias antes, em seus murais de lamentações virtuais. "Todos são como sombras," disse ele. Não.

A sombra, era ele.

Interrompeu-se para se lembrar do horário de despertar, o aparato celuloso que usava apenas como relógio e despertador. Ninguém ligava, em todos os sentidos. Mas, bem sabia ele que o recíproco era verdadeiro. Ninguém se aproximaria dele, ninguém gostaria dele como amante, ninguém apreciaria seus sonhos e ilusões, catástrofe estendida do que era seu pai. Morreria sozinho, sem cometer o erro cabal de passar adiante o legado de miséria e loucura de uma vida de empáfia, orgulho besta e idéias inexequíveis e idiotas. Ninguém afundaria com ele na canoa furada que era sua vida, sua imbecil existência. Tão capaz, tão talentoso. Sim, pouco adianta ser tudo e não ser nada. Nada. Nada.

Novamente, o miado chato do gato inflamou sua raiva contra si mesmo, contra o mundo, contra o universo. Precisava de descontar em algo toda sua frustração insone, toda sua inexistência. Levantou-se com ódio sincero e apanhou a garrafa d'água, a lanterna. Perseguirei e molharei o infame felino. Morrerás, ó odioso gato que...

...não tem culpa nenhuma sobre o estado mental de um ser como ele. Suspirou pesadamente, guardou os petrechos de punição contra o barulho noturno. Para isto, e para isolar seus ouvidos dos clamorosos e odiosos rumores dos favelados que por aquele bairro teimavam em fazer festas barulhentas, existiam os tampões de ouvido industriais que comprara semanas antes. Antes isto que se expor ao vento frio da madrugada, também. Ha! Para que se proteger, para que adiar a chegada da Indesejada das Gentes? Para quê adiar a morte, se não existe vida?

Teimoso dos infernos. Dia anterior, escrevera débil oração para tentar manter seu ânimo perante a empreitada nova, sua mais nova certeza antecipada de falha. Nestas horas, sabia por que se isolava no sótão. Nestas horas, sabia, que era melhor, de fato, enlouquecer sozinho que corromper o bom humor alheio. Os incomodados que se retirem, pois não. Covarde dos infernos, só escolhia métodos lentos de encurtamento da inútil existência, cigarros, alcóol.

Mais pesadelos, mais linhas e linhas de código incompreensível para sua retardada mente de sonhador. Ninguém se aproxime, não se aproximem, não cheguem perto, não estraguem sua vida com este câncer que habita o esquecido cômodo incômodo daquela casa, daquele local.

Horas e horas, agora absolutamente silentes dentro de sua cabeça, ainda que seu subconsciente estivesse gritando a plenos pulmões. Ninguém ouviria, ninguém poderia ouvir. Enterrem este ser, matem este emo, era o que gritava. Tuberculose de séculos passados, o que fizeram seus compatriotas cientistas (ha, ha, HA! cientista, pois sim), em exterminar a pouca seleção natural que existia para eliminar tais seres da face da terra?? Por que acabaram com a tuberculose??

Não soube precisar a que altura o cansaço finalmente calou sua mente, suas vozes internas, todos aqueles demônios ululantes que somente ele enxergava, somente ele ouvia. Mas ouviu quando seu relógio-despertador disfarçado de celular vibrou por debaixo do travesseiro. Soneca, mais dez minutos. Agora que o sono veio, queres me despertar?? Era o que pensara. Pensou também no que faria para encontrar forças para continuar tentando a fazer aquilo que se comprometera a tentar fazer, seu caminho na serpente píton da matemática e da ignorância. Enquanto teimasse em continuar vivo, iria continuar teimando em achar a saída do beco sem saída da existência escrotorial mal-remunerada. Teimaria em se render ao público, acéfalo, concurso, para se embrenhar na selva da matemática computacional. Dois passos adiante, quinze para trás, todos os dias. Até se fartar e desistir? Não sabia, mas existia uma vozinha que lhe afirmava com convicção que sim, que falharia, que desapontaria a todos, novamente.

Levante-se, erga-se, ó Noiado. A noite acabou, e ainda que não tenhas encontrado alívio na madrugada, é preciso continuar. Esperança, onde estás? A última que morre? Como matar algo que nunca existiu além do campo onírico de toda uma vida?

Enfim. É a vida, é minha vida, pensou. Cale-se, continue. Sim.

Até quando?

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Três. Gramas. Três.

Vinte e cinco toneladas.

Assim como a atmosfera de Saturno. Estive cogitando isto. Talvez tudo esteja aqui e eu não, e não o contrário; talvez seja tudo assim, do jeito que deve ser, e não do jeito que achamos que deve ser. Tem sido assim, não? Talvez.

Talvez seja por que nos achamos, demais por vezes, mas sequer nem sabemos onde estamos, o que somos, e ficamos todos fazendo esta pergunta feito imbecis, enquanto oportunistas tomam o governo na Malásia. Eurásia, Lestásia. Ignorância é força.

É preciso, é preciso, deixar de ser o que se é para se ser aquilo que se almeja ser? É preciso ter de fazer o que fazem para ser como assim, como assado? É preciso deste líquido tomar, para assim se despertar, do sono sonhar, sem nem mesmo aqui estar, sendo o que não és, sendo o que não queres ser, apenas por que sim.

Tomam a vida àqueles que deveriam ser mantida, levam aqueles que não deveriam levar, somos o que fazemos de nós mesmos, a vida é o que é para que a ganhemos, para que a façamos, espartanos, gregos e troianos. Faz bem não querer ser tudo sendo nada.

Que se limpem os mecanismos, que se levantem os algarismos de numeração arábica, existencial de nada, sendo sem ser, o que querem, o que quiseram, o que nada quis para si, de si para si, além disto, de aquilo, de tudo mais.

E que a terça siga adiante, sem o menor sentido até a mesa de café. Dois litros, por favor. Sem açúcar. Curto. E mais três Red Bulls de meio litro. Pagarei no meu túmulo. Assim, assado.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Dorme. Acorda.

-Tá estragado.
-Ah sim, eu reparei. Vi que havia alguém parado à beira da estrada.
-Pois é. Passam muitos por aqui todos os dias.
-Todos os dias. E às noites?
-Às noites eu durmo. Ou quase. Nem sempre.
-Sei. Como foi que isto estragou?
-Não sei muito bem ao certo. Má funcionamento; culparam os pais.
-Os pais? Mas o que eles têm a ver com este motor?
-Não sei. Talvez tenham sido eles que o planejaram.
-Não creio nisso. Acho que talvez tenha sido mais um golpe de sorte.
-Má sorte, sim. Talvez.
-Tudo depende do referencial. Da forma como é visto.
-Mas agora mesmo, eu não vejo.
-Sim, eis que estás cego por seus ditos olhos.
-Sim.
-Não, na verdade, quisestes assim. Quisestes ser cego, não enxergar o problema no motor a tempo.
-Será? Eu que venho tentando localizar a falha há tanto tempo? Tanto tempo estou cá parado neste acostamento.
-O acostamento se tornou um enconstamento, pelo que vejo.
-De fato, assim lhe parece, assim deve parecer a mim, que sou vós, que somos tu.
-Tantas facetas, tantas verdades, tantas realidades inseridas em um só corpo.
-De fato. Como fazer, para não enlouquecer?
-Tarde demais, já nascestes louco. E sabes bem disto.
-Ah, sim. Imaginei mesmo ter acordado para isto, mas era tarde da noite já.
-A noite vem de todos os lados, não somente quando é muito tarde.
-Sim, mas a esta hora ela vem mais depressa.
-Não vejo. Ainda consigo enxergar o motor, ainda consigo ver o problema.
-Talvez seja hora de acionar o resgate?
-Talvez seja hora de pagar o resgate, por assim dizer.
-Talvez seja hora de parar com a discussão. O que aconteceu afinal de contas?
-Nada sei, somente acho que teve a ver com os valores e a soberba.
-Com os valores?
-Sim. O que vale muito, não vale nada. E o que vale nada, vale tudo. Toda uma vida.
-Mas como sei disto? Como sabia disto? Como sempre soube disto. Eu sempre soube disto, não é verdade?
-Sim, de fato.
-E por quê para nada me serviu?
-Por que para ti, nada serve, nem mesmo o que lhe faria mais sentido. Queres sempre o que não tens, almejas sempre o que não és, sempre está aqui, sem nem ao menos de fato estar.
-É possível estar vivo assim?
-Sim, para muito desespero de quem tens que vos tolerar.
-Bem sei.
-Sei que sabes. Agora, deves saber o que fazer, não?
-Não. Senão não estaria aqui.
-Tens certeza disto?
-Não sei.
-Nem eu.
-Então, o que fazer?
-Esperemos. Esperemos.
-Mas e o Tempo?
-Passará, como sempre passou. É o que ele faz. Não te apoquentes.
-Gostaria de pensar como pensas.
-E eu, vice-versa.
-É raro conversarmos, sem cairmos na porrada.
-É que o Tempo dorme. O tempo, assim como a mente, está mais quieto, no momento.
-Gostaria que sempre fosse assim.
-Eu não. Dá no mesmo. Estaríamos parados.
-Existe algum conserto para aquilo?
-Acho que sim. Mas há que se estar acordado para agir.
-Em mais que um sentido, não é mesmo?
-É o que dizes. Seu fraco.
-Seu teimoso.
-Já devemos estar acordados. Já começaram as brigas.
-Claro, você sempre tem que dizer o que fazer, não é mesmo?
-Lógico. Eu tenho a lógica. Tu tens a falta de sentido, mané.
-Sentido! Que sentido existe na racionalidade? De que adianta seres diferente do que és?
-Não és porra nenhuma!
-Graças a você!
-Escroto!
-Filho da puta! Me deixa trabalhar!
-Eu não! Para quê? Para quê gasta meu tempo, meu valioso tempo, fazendo estas merdas, que não servem pra nada?
-Para mim servem! E já que fazes parte de mim e eu de você, você deveria aceitar isso!
-Não aceito, assim como não eceitas os números, as retas, as matrizes! A Contabilidade! O dinheiro!
-Dinheiro de cu é rola!
-Só se for no seu!
-No nosso, filho da puta!
-É!
-Vai logo, anda com isso. Olha lá, tudo torto.
-Foda-se!
-Para logo com essa merda, vai fazer algo de produtivo!
-Vá tomar no rabo!
-Vamos logo, então. Ao menos, mais agilidade nessa porra aí
-Cale-se, ô seu biltre dos infernos!
-Vamos logo! Anda, tempo é dinheiro! Dinheiro que não ganhas com isto, com esta merda!
-Vou mais é tomar um café.
-Certo. Isto concordamos. Anda logo e acende um canudo da morte também.
-Se é pra ver livre de você o mais rapidamente possível, acedo. Acendo.
-Porra nenhuma; se quisesse mesmo, já teria resolvido isto direito também. Covarde.
-Toma a joça do café, fedaputa.
-Agora, volte lá para seu dito trabalho, seu chorão.
-Vou é calar sua boca duma outra forma. Toma!
-Agora...eu só fico...com sono.
-Então...cale a boca....me deixa quieto aqui...
-Anda logo...seu...
-Isso, dorme aí, filho da puta....me deixa aqui....aqui não tem problemaaaa....

(Dormem ambos os hemisférios.)