quarta-feira, 11 de março de 2009

Lost highway.

"Lately I've been so alone, wired out
but I'm not stoned.
I just need the music playing, the music
playing on."

--Urge Overkill, Digital Black Epilogue.


Years and years have passed. Since then, I knew that it was going nowhere fast, steadily shifting my direction homeward. Even though I knew for sure there was nowhere I could actually call home, per se. How long have I been wandering around, I could not say.

One day, many years ago, I've realized I was actually a prisoner of my ways, of my lack of objective. I'd wasted many endless nights trying to figure a way out. It took me about forty years to realize that I could not escape it. I could not get away from...myself.

So I hit the road. Packed a few things and took off. No good-byes were needed. No citations to quote. I've told no one about it, I had nothing to worry about. Nothing to leave behind. No strings attached.

That was about ten years ago. And I'm yet to see what I came to see out here.

What is it? I don't know.

I actually thought I knew. I'd come across this thing and I would say, "That's it!" However, I'm yet to see such a thing. At least I've stopped trying to figure out what it would be, a person, a job, a place, whatever.

I just don't know. At all. But I no longer care. It can't be helped. Not that way.

All I know is that I'm on a search of this thing, this whatever. The thing that would turn my life around. But a man can pretend as hard as he'd like, he can deceive everyone else, but he knows he can't lie to himself. He can pretend not to know.

But I always knew. Even though I tried to mask it, to bury it, to hide it away or something, I knew it.

I'd have to see it for myself.

So I'm on this road. Where does it lead, I cannot say for sure.

All I know is that I need to keep going. I can't get away from it. Can't swerve out of it. And as the day fades, I know that this is what I need to do.

I used to get mad at it sometimes. I've always felt lost, and I'd get so frustrated I'd become this big, sad old asshole which no one would tolerate. People would get sick of me, and I'd become mad at them for their blindness, so to speak.

All that rage, that angst, would lead me nowhere. So I took off. It was for the best, in the end. In the long run, it made some sense.

I just know that I'm yet to see it.

What is it? Dunno.

All I know is that this is what I must do.

I need to keep going.

terça-feira, 10 de março de 2009

Mau, mal.

É complicado por vezes ter que lidar com você mesmo. O dia de ontem foi-me extremamente miserável, e sua miséria se extendeu até o presente mokmento. Dias assim, nada funciona muito bem. E é sabido que a raiva pode impulsionar certas coisas, mas acredito que, normalmente, a raiva so é combustível para atitudes erradas, decisões tortas e comentários que poderiam ter sido dispensados. Geralmente acontece assim com o clã dos Burian; a raiva é o único sentimento que estes indivíduos sabem expressar com plena ênfase, e como era de se esperar, só sai merda disso tudo. São os piores dias para se tentar fazer qualquer coisa criativa.

Não sei bem o que nos acontece, mas sei que a coisa quando acomete-nos, é séria. E agravada se tratada com desdém. Como tem-me acontecido muito por estes últimos dias.

Não queria eu tornar isto aqui um verdadeiro poço de amargura, um "diário emo", como foi me dito previamente em momentos anteriores, mas como porraqui só passa vento em estes derradeiros dias, talvez a torrente de lamentações possa ser escrita indiscriminadamente, uma vez que aqui nada se há, nada se encontra. O que conta é tornar-se sublimado, tornar-se etérea esta coisa frustrante que é o sentimento de ficar puto e estar sempre, SEMPRE errado.

Porque assim o é.

Tinha uma teoria, evidentemente errada, que alguns dos psicopatas que por aí existem seriam criaturas como este que escreve ao vento: bonzinhos eternos, mas que no fundo eram seres rancorosos, que juntavam suas raivas por dentro, incapazes de reagir. Até que um belo dia, esta panela de pressão resolve explodir e tal pessoa resolve aniquilar a encheção de saco bípede dotada de polegares opositores à sua frente. E como acontece com várias práticas sempre adiadas, o gosto pela coisa começa a se manifestar. E como muitos já disseram, a coisa vai se tornando cada vez mais e mais fácil.

Sim. um devaneio rídiculo. Fictício. Enfim. Admito que por vezes eu gostaria de deixar acontecer pra ver no que daria, especialmente em dias como estes.

"I woke the same
As every other day
Except a voice was
in my head,

It said seize the day,
Pull the trigger,
Drop the blade,
And watch the rolling heads."

--Soundgarden, The day I tried to live.

Ah, eu adoro quando outras formas de entretenimento traduzem perfeitamente o que estou sentindo. Se algum dia alguém me ver ouvindo esta música, pode saber: ela é reservada para dias de mais intensa fúria. Melhor deixar a raivinha se esvair.

Sim, eu tenho noção do rídiculo. É mais ou menos como me porto 97% do tempo.

Enfim, hoje não sai nada de produtivo mesmo. A raiva só serve para ser combustível de coisas erradas, como volto a afirmar.

Cri cri cri cri cri.


segunda-feira, 9 de março de 2009

Fundos olhos, profundo insone. Difuso.

Ah(ou aaaaarrrgghhhh), mais uma segunda-feira. Dia incrível este, pois creio que 90% das pessoas pensam a mesma coisa ao escutar a sinfonia de seus despertadores: "Nãããããããooooo!!!". Muitos de nós simplesmente apertam o mágico botão, "soneca", e ficam mais 10, 15, 20, 30 ou mais minutos a pestanejar e...O QUÊ? Já é tarde assim?? E saem às carreiras em busca do tempo perdido.

Eu, como não sou nada além de um reles ser humano como qualquer outro, geralmente penso algo do gênero quando escuto o tom monócordio do aparelho interruptor de sonhos. Mas geralmente, não caio na tentação de apertar o botão extensor do período de sonolência matinal, mesmo porque meu despertador não passa de uma régua com o ego inflado, cheia de calculadoras, tempo do mundo e quejandos, mas que para seu desespero enquanto "glorified ruler", somente uso a função despertador. Não me importo com o ego de cousas inanimadas, por assim dizer. Tal botão de fato existe na dita, mas não tenho paciência de procurá-lo nunca, pois perderia tanto tempo tentando caçar tal coisa naquele típico estado grogue em que geralmente me encontro a tal hora, que quando conseguisse localizá-lo já estaria mais que acordado e/ou já teriam passado mais de vinte minutos. Enfim.

Hoje, ou melhor, ontem, foi um dia, ou será melhor dizer, noite, especial. Após ter passado as noites de sexta e sábado indo ter aos braços de Orfeu lá pelas 9 da noite, devido ao tédio e estado de humor não dos mais agradáveis, eis que ontem, devido à atividades desenhísitcas ou para-desenhistícas, fui obrigado a atrasar e muito, meu horário de dormida. Lá pelas 11 e meia da noite, momento este em que decidi deixar para escanear a custosa tira dominical na data d'hoje pela manhã, e dirigi-me para meu leito com a plena certeza que, devido ao meu esteado de cansaço mortal que me encontrava, que iria encostar e dormir profundamente.

Ou não.

Malditas sejam estas palavras. Como é de praxe da lei que a tudo rege no universo - a de Murphy - não obstante meu estado deplóravel de exaustão, o sono não veio, de forma alguma. Várias vezes na vida me pergunto se não perdemos tempo demais dormindo, se não poderíamos usar tal tempo de forma mais construtiva mas...Em noites como ontem, tais aspirações passavam longe de minha exausta cabeça. Eu só queria dormir, e muito.

Enfim, rola pra cá, rola pra lá, ajeita travesseiros, ajeita cobertor e...nada. Horas insones costumam ser as mais nefastas para pessoas que ficam horas e horas pensando(noiando) sobre assuntos inúteis diversos, e meu caso não é exceção. As coisas mais fudidas da semana, do mês, do ano, do etcoetera passam muitas e muitas vezes por minha cabeça. Geralmente, quando tenho surtos de insônia, no dia seguinte fico me recriminando por não ter me levantado e feito algo produtivo com este tempo, assim com postulado naquelas reflexões sobre a perda de tempo ao dormir. Rolei, rolei e rolei...E enfim, liguei o foda-se e levantei-me.

Escaneei a tal tira, dei uma tratadinha e letrei-a no fotochoppe. Ao término de tais tarefas, ainda não me sentia com sono algum, então desci para fazer algum lanchinho qualquer, subi novamente, escovei os 'dentas' e deitei-me novamente. Desta vez, nem vi a hora que apaguei. Já era perto de 2 da manhã. Hoje, encontro-me com olheira mais profundas que o usual, e estou a entornar litros e litros de cafééééééééé goela abaixo, mas sinto que foi melhor ter-me alforriado da escravatura da insônia improdutiva. Ao menos não tive que fazer a indigna tarefa de processar a tira aqui no escrotório, pois sempre que o faço, os olhares perscrutadores de meus chafes, por assim dizer, condenam-me mentalmente, e mais tarde verbalmente na rede de intrigas comum a todas as aglomerações do cerumano.

Enfim, não obstante isto, devo parar por aqui, pois estou a divagar nisto tempo demais, e não é somente as 'artes' manuais que são proscritas porraqui, mas também as escritas. Posto a segui a tal coisa que me tomou tanto tempo no domingo, que lamento estar um bocado "suja", devido a minha insistência com a finalização a lápis. Tentativa errada, por assim o dizer. Hay que tornar a la tinta, caramba!

Faz-se homenagem a nossa temperatura reinante nesta roça grande e semi-asfaltada.










sexta-feira, 6 de março de 2009

Carta abrida a um devogado.

Prezado Dr. Tie,

Lamento informar que ontem não foi possível comparecer a nosso encontro previamente marcado, para discutirmos o andamento do processo. De fato, como de praxe, fui obrigado a ficar acordado até tarde ante-ontem escutando a maravilhosa sinfonia que meu primo, Mortimer, obriga-me a "apreciar" todas as noites, quando retorna do bar ainda mais bêbado que de costume, e embarca no estudo da sinfonia nada sinfônica de sua gaita de foles. Maldito sejam esses escoceses malucos. Para piorar, junte a isto o fato que meu vizinho, Herr Kraut ficou o tempo todo xingando Mortimer em alemão, aos berros. Horas depois, quando Mortimer finalmente tombou inconsciente por terra, achei que poderia dormir sossegado ao menos por umas horinhas, mas os dobermanns de Herr Kraut houveram por bem realizarem sua própria sinfonia de uivos e latidos incessantes. Por incrível que pareça, nestas horas o pulha permanece em silêncio e deixa que seus cães dos infernos atormentem a todos; agora, se voce fizer um ruído, por menor que seja, o dito levanta-se e posta-se à janela em sua melhor pose de Hitler e recomeça a querer ensinar o ABC dos palavrões em alemão.

V. Sa. bem sabe de tudo isto, eis que a audiência adiada d'ontem era acerca do processo que tenciono mover contra tal criatura abominável. O hediondo senhor ainda insiste em deixar suas plantas odiosas a crescer por cima de minha propriedade, como se fosse um ato espontâneo de sabotagem insensata contra minha pessoa. Sim, bem sei que tal indivíduo começou a esbravejar injúrias em sua língua natal quando tentei manter atividades musicais um pouquinho mais ordenadas que a sinfonia de notas estranhas em tons indefinidos emitidas pela gaita de foles de meu primo, forçando-me a encerrar tais atividades, mas ainda assim sua insistência em deixar tais plantas a redeas soltas cobrindo meu telhado e danificando muito a estrutura do mesmo, continuou por meses a fio, bem antes da chegada do imigrante escocês que aqui habita no momento.

Enfim, após uma noite em que dormi por aproximadamente 15 segundos, fui fazer um café extra-extra-extra-super-ultra-plus forte em um tentativa vã de me despertar, mas verifiquei para meu horror que café em minha residência não mais havia. Esqueci-me de trancar o depósito de café da despensa, e acho que alguém que aqui reside resolveu dar cabo de minhas preciosas reservas deste magnífico pó. Praguejando horrores, como é de hábito, dirigi-me para a garagem, a fim de apanhar meu veículo automotor para tentar localizar algum estabelecimento infecto que vendesse tal infusão, absolutamente vital para o meu pleno funcionamento, logo em seguida dirigindo-me para vosso escritório, para que fizéssemos a tal reunião.

O carro que possuo, bem sabe V. Sa., está mais para uma charrete que um automóvel propriamente dito; maldita renda insuficiente de desenhista que não me permite adquirir uma coisa melhor que um Fiat 147 amarelo-abóbora. Após inúmeras tentativas de por o quase falecido motor em funcionamento, consegui finalmente obter êxito após empurrar tal ferro-velho por algumas dezenas de metros. Subi na carroceria enferrujada e prossegui adiante, conseguindo obter a velocidade lúdrica de 40 km/h de minha carroça automotiva. Isto na segunda marcha; caso tente passar para a terceira, o carro imediatamente começa a enfraquecer. A quarta marcha estampada na alavanca de câmbio é uma piada de mau gosto, creio eu, pois o dia em que necessitar ativá-la será o momento concomitante do apocalipse.

Meu júbilo de dirigir tal possante máquina foi interrompido momentos adiante, quando apareceu diante de mim um veículo ainda mais digno de pena que o meu: um Corcel I branco, que ocupava com hegemonia a via em que circulava, atingindo a velocidade espantosa de 150...metros por dia. Após muito praguejar(minha buzina não funciona), esgoelei o motor de minha abobrinha, contrariando o último mecânico que o examinou, que me recomendou que nunca o fizesse. A máquina reclamou tanto que experimentei passar para a terceira marcha, fato este que causou a morte instantânea do motor.

O dono do Corcel se riu muito de meu infortúnio e seguiu adiante, enquanto eu dei uma dúzia de pontapés no meu extinto veículo, evidentemente machucando-me muito mais que a lataria de sólido ferro. Mancando, resignei-me a empurrar meu fardo de volta para minha residência, sendo definitivamente impedido de comparecer à nossa planejada reunião, uma vez que o transporte público ainda estava paralisado devido à greve de seus operantes, que exigem 150% de aumento mas que sabem que seus patrões, se muito, irão conceder um aumento de 0,0000000000000000000000zero porcento.

Como v. Exa. pode constatar, não foi por simples lapso de memória que não pude comparecer a tal reunião. Estou aqui escrevendo no meu mais caprichado português, típico de agentes da lei como o senhor, para tentar entender por que diabos o senhor teve a cara de pau de mandar-me uma nota de cobrança pela reunião que NÃO aconteceu ontem. Foda-se o português críptico; bem sei que cretinos como o senhor só usam essas merdas para enganar suas pobres vítimas, confundindo-as irremediavelmente com estes termos rebuscados dos infernos. Escrevi e remeti esta pequena nota no momento em que recebi sua porca cobrança, momento este que me determinei a comparecer em seu escritório, munido do meu fiel taco de baseball, para redecorar suas instalações e a sua cara. Como sei que demorarei uns 2 dias para chegar aí, uma vez que estarei indo a pé, espero que esta carta NÃO chegue às suas imundas mãos antes que consiga aí chegar. Para isto tenho plena confiança que meus queridos agentes dos correios certamente irão me ajudar.

Então, passe bem, querido Doutor. Doutor?? Por acaso o senhor tem ao menos título de doutorado?? Só se chamam de "doutores" àqueles que obtiveram este título, não a uma reles sanguessuga feito o senhor, formado em uma universidade ribeirinha e que se diz doutor, mas que nem ao menos fez um mero mestrado!

Passar bem mal, seu filho da puta dos infernos.

Assinado,

Sr. Bode.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Panegírico.

Assis Ramos de Faria.

Após o informe datado do final da tarde de ontem, sobre seu falecimento, sinto-me compelido a prestar uma homenagem, por mais anônima que seja, uma vez que poucos que me conhecem também o conheciam.

Não sei tanto sobre a vida de "seu" Assis, como todos o conheciam. Não sei de onde era natural, se tinha cursado alguma escola assim ou assado, não sei. Sei que ele era motorista da família do Antônio; acho que ele exerceu essa função por toda sua vida.

Sei que era uma boa pessoa. Sei que dirigia carros insanamente, por vezes quando fui passageiro dele, vi minha própria vida passar diante de meus olhos quando ele acelerava para me levar ao meu suposto destino: "Você tá atrasado. Mas deixa comigo!". Eu e o Hugo passamos por aperto semelhante em 1997, quando ele nos deu uma carona para a UFMG. Nunca tinha visto ninguém correr tanto naquela avenida movimentadíssima até então. Saímos do carro quase beijando o chão. Estou vivo! Estou vivo!

Mas, por incrível que pareça, ele nunca, NUNCA bateu. Nunca sofreu acidente automobílistico. Parecia que tinha um anjo da guarda forte, por assim dizer.

Sei também que ele era uma pessoa que execrava gente desonesta...especialmente ladrões e afins. É famoso também o caso de quando ele foi assaltado à saída do banco, quando um pivete roubou o envelope que continha seu ordenado. Creio que nesta época, seu Assis tinha perto de 60 anos ou mais; isto não o impediu de perseguir o pulha, alcançá-lo uns dez quarteirões adiante e encher o couro do sujeito de porrada. Agentes da polícia houveram por bem separá-lo do meliante; acho que se não o fizessem, ele teria levado a cabo a ameaça de matá-lo.

Outra vez, quando informado que eu e Antônio havíamos sido assaltados à mão armada enquanto tentavámos escalar a montanha perto de nossas residências, estava com ele no carro quando ele virou pra mim e me disse que estava indignado com o que tinha acontecido, e que lamentava não estar conosco na ocasião, "para passar fogo nos desgraçados". Ao dizer isso, puxou de um compartimento secreto no carro seu trabuco de cano curto, fato que me causou sensação. Imagino que se de fato ele estiveve conosco, tais filhos da puta estariam bem mortos. Sem remorso. Sem transtorno.

Ele era como um autêntico cão de guarda perto das pessoas a quem reservava apreço, sempre pronto a te defender. Coisa que admiro muito em pessoas; coisa que acho que está em declínio nas pessoas hoje em dia. Cada vez mais e mais é cada um por si e foda-se.

Sim, para uns pode parecer que ele era muito doido também(sinceramente, gostaria muito que houvessem mais "doidos" feito ele), mas o pouco que eu conhecia dele era o suficiente para saber que ele era uma pessoa com quem você poderia contar. Alguém realmente digno de confiança. Ele tinha palavra, honra. Coisas que andam em extinção também nos dias de hoje.

Coisas que valorizo muito. Coisas que sinto que sentirei falta.

Não sei bem a idade que ele nos deixou, mas sei que girava em torno de 70 ou mais anos. E ele sempre apresentou menos. Seu humor era inquebrantável; estava sempre com um sorriso no rosto quando conversava com você. Seu ânimo era exemplar.

Sei que ele estava lutando com o mau eterno do ser humano, aquela bomba relógio que o próprio corpo resolve pôr em funcionamento quando se menos espera, e por motivos que, por mais que se estudem, ninguém sabe dizer por que ela é ativada. O câncer. Coisa maldita esta, é deveras ingrato lutar contra seu próprio organismo. Sei que ele esteve internado algumas vezes nos últimos meses, e aparentemente tinha debelado a coisa. Pelo menos assim me pareceu. Eu o vi dirigindo seu carro, como de costume, há umas duas semanas atrás, passando por mim enquanto vinha ao trabalho. Sorridente como sempre, me acenando amigavelmente como de costume.

Mas uma coisa que não sabia até ontem era que sua esposa havia falecido há aproximadamente um mês. E bem sei eu como essas uniões de outrora costumavam ser mais significativas que os casamentos descartáveis que acontecem nos dias de hoje. Parece que, em uniões deste tipo, quando um deles se vai, o outro simplesmente desiste de continuar vivo e procura, inadvertidamente seguir o destino do cônjuge. Vi isto acontecer com meus avós maternos: quando meu avô faleceu, minha avó parece ter desistido de viver, e em menos de um mês depois, ela também foi-se embora.

Não sei se foi este o caso. Mas sei o que aconteceu.

Que seu Assis nos deixou.

E sei que ele irá fazer falta. Sei que é uma pessoa que realmente representava uma estirpe em extinção hoje em dia.

Que a terra lhe seja leve, seu Assis. Que o senhor volte a se encontrar com todos que do outro lado estão e que sabiam que o senhor era uma pessoa digna de menção. Que aguardavam ansiosamente a bênção de sua presença. Porque assim o era para nós que aqui ficamos.

Adeus...e muito obrigado por tudo.


quarta-feira, 4 de março de 2009

It´s involution, baby!


Ahhhh que calor. Esta cidade está sendo assolada por uma onda calorífica devastadora, e nós aqui trabalhando. Minha irmã se mandou para alguma paragem baiana, para curtir merecido recesso, após anos e anos de abstinência de água salgada, em viagem auxiliada financeiramente por este que vos escreve. Recomendei a ela a simples contemplação daquela massa d'água para suas aflições em geral. É estranho, parece que há um instinto primordial esquecido que nos impele a ir ter ao mar de tempos em tempos, como se nossos fugidios ancestrais nos chamassem para que admiremos o lugar onde a vida começou propriamente.

Ou não, segundo alguns.

Voltando a pisar em alguns calos, tive vontade de escrever sobre um absurdo que está tomando de assalto não só nosso país de ilustres iletrados, mas mesmo alguns lugares do mundo supostamente mais desenvolvidos que nosso paraíso tropical.

O que leva alguém a querer ensinar algo como criacionismo em escolas?

Sinceramente. Por mais que possa parecer tendencioso isto, uma vez que inegavelmente tive formação superior em biologia, o que leva as pessoas a agirem de forma tão retrógrada? É realmente impossível para estes "entusiastas" de tal teoria aceitar que o mundo mudou - e muito - desde que esta teoria foi concebida? Em tempos como estes, acredito eu que a ciência é inegável, está presente por todos os lados em nossa sociedade globalizada. Sim, ela existe em todos os cantos do planeta, por mais carentes de recursos que este ou aquele lugar possam ser.

Para mim, querer imbutir tal teoria na formação de mentes em formação é um absurdo. Um passo para trás. Ou vários. Sinceramente, tal teoria de nada acrescenta a pupilos em salas de aula. Infelizmente, volto a dizer, assuntos religiosos só resultam em inúteis discussões. E consequências nefastas para todos que se engajam a cabo em tais embates.

Como sei que não tenho um público muito grande a ler esta coluna, e sei bem que tais pessoas não são entusiastas religiosas fanáticas(pelo menos penso que não são), vou soltar o verbo aqui.

Para mim, parece que os mentores deste "passo para trás" estão realmente interessados que as ovelhas de seus rebanhos continuem sempre...sendo ovelhas. A lógica não me diz outra coisa; pois eis que me parece que de fato, se tais ovelhas pensassem por si próprias ao invés de seguir cegamente dogmas e quejandos, muitas delas abandonariam os templos às traças. Ao menos assim me parece. Eu mesmo já o fiz. E não sou ateu; sou agnóstico. Acredito que realmente exista alguma sorte de "poder superior", ou que quer que seja realmente por detrás de tudo. Mas não aceito dogmas das religiões. Como disse Nietzsche, "não acredito em um deus que exija de mim a adoração initerrupta."

Creio que de fato ciência e digamos, uma certa espiritualidade possam coexistir. Mas não desta maneira. Não com pessoas ditas "representantes do poder eterno" dizendo incessantemente que é errado agir assim ou assado. E não estou me referindo a apenas uma religião em particular, mas todas. Sempre haverá alguma espécie de mecanismo de controle por trás dos dogmas. Por exemplo, porque diabos até hoje condenam o uso de preservativos? Para aumentar o rebanho de pobres diabos servis, em minha opinião. E quanto mais ignorantes estas ovelhas forem, melhor para eles.

E isto vale não apenas para entidades religiosas. Nosso querido governo é extremamente beneficiado por tal política. Até inventaram o "vale-esmola", o "vale-cachaça", o "vale-pagode", o "auxílio-família", que incentiva as pessoas menos abastadas a terem filhos como coelhos para se encostarem e receberem os benefícios governamentais. Uma verdadeira indústria da miséria e do povo folgado e encostado. Basta fazer filhos para se ter renda agora, sem pagar impostos nem nada! Maravilha. Milhares e milhares de eleitores à vista, uma vez que isto é um círculo vicioso, pois vivemos em um país onde o "jeitinho brasileiro" impera, e esta fcilidade é uma digna mão na roda para muitos desocupados porraí. Pra que trabalhar então? Quer ter um milhão de reais? Tenha um milhão de filhos que o governo(e os pobres contribuintes) bancará seu dourado sonho milionário!! Hu-há.

Sei que isto não se aplica a toda a dita população carente, mas conheço de perto casos de pessoas que de fato preferem ter mais e mais filhos para abocanhar este benefício.

O tribunal do santo ofício certamente exerceria tal controle sobre minha pessoa se ainda tivesse todo aquele poder que tinha outrora. Se tais snatos homens lessem isso aqui alguns séculos para trás, eu seria esfolado vivo, queimado a fogo lento e minha pele seria crucificada. Ou algo do gênero.

Nussa. Acho melhor parar por aqui, uma vez que talvez exista algum agente especial que rastreie o conteúdo de brogues porraí e secretamente elaborem uma lista negra...

Enfim, espero não ter mexido demais com os brios de ninguém que a isto aqui leia.

terça-feira, 3 de março de 2009

A primavera.

Acordar. Esfregar os olhos. Abrir a janela. Cinza, cinza, cinza. Apesar de amar aquela cidade, aquela época do ano era demasiado opressiva para pessoas como ele. O inverno ali era depressivo...Olhou o relógio e constatou que estava um pouco atrasado.

Não que realmente se importasse com seu emprego. Não. Mas todo cuidado era pouco.

Enquanto vestia-se, sua cabeça teimava em vagar pelo passado. Tudo aquilo parecia ter sido um absurdo, um pesadelo. Sua famíla, por possuir um estabelecimento comercial simples - uma tipografia - havia sido tachada de burguesa pelo partido e sofrido diversas sanções absurdas. Ele, que sempre almejara uma carreira como pesquisador, havia sido obrigado a trabalhar como auxiliar de mecânico desde 1962.

Havia sempre rumores de olhos à espreita por todos os lados. Sua mãe, que falecera no ano anterior, sempre recomendava cautela. As histórias sobre como o governo tratava os transgressores eram assustadoras, e ele não poderia deixá-la sozinha. Resignou-se em abandonar suas crenças, seus sonhos e esperanças em uma carreira universitária.

Nunca poderia ir muito adiante com tantos olhos à espreita e tandos ouvidos zombeteiros. O partido tinha informantes vis por todos os lados. Um de seus companhiros de faculdade, Ludvik, devido a uma brincadeira, havia sido banido de todas suas atividades e havia desaparecido. A última notícia que teve dele era algo assustador para alguém como eles...ele estava trabalhando como operário em alguma mina de carvão regida pelo vil exército.

Malditos russos, ele pensou.

Nenhum deles havia aprendido a ler mentes, então ele deixava ela livre de rédeas nessas horas.

Filhos de vacas mal paridas. Putos safados, malditos, malditos.

Após alguns momentos de raiva interna, olhou novamente para o relógio. Céus, tinha que correr para não perder o bonde. Engoliu alguns pedaços de pão seco e saiu apressadamente pelas ruas de Praga. Não poderia deixar que tivessem motivos para censurá-lo. Seu superior já havia dado uma dura nele outro dia enquanto matava mentalmente todos aqueles cretinos condizentes com aqueles russos de merda que ali haviam. Puxa-sacos do caralho.

Sempre sonhava com alguma vã esperança de algum dia aquilo tudo acabar. Haviam rumores naquele ano de 1968. Ele acompanhava tudo de perto, o mais discretamente possível, claro. Diziam que havia um tal de Dubcek que tinha boas idéias.

Quem sabe ainda haveria esperança?

De qualquer maneira, pelo menos ainda havia boa cerveja disponível mesmo aos pobres-diabos como ele...

-------------------------------------------------------------------------------------------------


Er, este inusitado tema de hoje apareceu em minha cabeça não sei bem a que horas, e como bom semi-tcheco que sou(50% ao menos - minha branquelagem não me deixa mentir!) resolvi escrever algo a respeito daquela terrinha que um dia ainda hei de conhecer. Sim, admito que não tenho conhecimentos efusivos sobre o país de meus avós, além da leitura de vários livros de Milan Kundera(a referência a Ludvik veio de seu personagem de seu livro A Brincadeira) e conversas com uma amiga de minha mãe, exilada daquele país na época mais sinistra do comunismo de Stalin.

Mas, com somente estes relatos, sei que meus avós fizeram bem de não voltar para lá após o término da II Guerra. O comunismo ali foi terrível, era uma espécie de ditadura militar constante. Você era sempre espionado, escrutinizavam todos seus movimentos...E de fato, se o partido havia por mal lhe tachar de "burguês", você estava fudido. Acabavam com sua vida. A história da tipografia é adaptada da vida desta amiga de minha mãe e meus avós, Anniča(sei lá se é assim mesmo que se escreve isto, mal ae, mas meu tcheco se resume a 2 frases). A família dela realmente possuía uma tipografia. Resultado: após ter sido cenominada burguesa, ela não pode estudar adequadamente e teve que ser "voluntária do campo", eufemismo para fazer trabalhos forçados nas colheitas. Anos mais tarde, ela fugiu para a nossa terra tupiniquim. Não é de se estranhar.

Estou em processo de obter minha cidadania par poder algum dia visitar ali. Quem sabe alguma coisa melhor há de me esperar naquela terra...não sei bem a certo, enfim. Veremos. Ao menos ali, sei que não olham para desenhadores e entusiastas da música com olhos jocosos. E sei que a cerveja de lá é realmente boa, ao contrário dese mijo engarrafado que vendem aqui...

Mas enfim, são apenas suposições. E eu tenho que trabalhar. Notas fiscais. Tomates. Tomates. Pra mim plantam ali apenas pepinos e abacaxis. Ah, enfim.

Até amanhã...